The Chase
5 Joker and the Thief
Notas iniciais
– Sherlock? Vai falar comigo agora? – Mary perguntou, suspirando ao não receber nenhuma resposta. Depois de escutar as duas músicas que levavam para a próxima pista, ele simplesmente se trancara em seu palácio mental logo após ter parado no acostamento da estrada de volta para Londres. E estava lá por horas a fio.
Ela tentara se distrair com o que tinha em volta. Já havia ligado para a casa da família Holmes atrás de informações sobre sua filha, tentara ligar para os celulares de John e Molly (nada era impossível, alguém poderia atender). Tentara descansar dentro do carro, mas de nada adiantou. Não conseguia relaxar. Ela até mesmo entrou no carro e dirigiu até o posto mais próximo atrás de água. Ao voltar, ele estava parado do mesmo jeito de quando ela havia saído.
– Sherlock, pelo amor de Deus! – Ela exclamou, jogando a garrafa de água que tinha comprado nele. — Se você não sair desse estado vegetativo agora, juro que atiro em você.
Finalmente, a ameaça fizera algum efeito nele. Pegando a garrafa que caíra no chão, Sherlock dirigiu a ela um olhar indignado. – Você poderia ser pelo menos um pouco mais delicada, Sra. Watson. Preciso me concentrar aqui.
– Ah, cala a boca. – Ela entrou no carro, dessa vez do lado do motorista. – Eu dirijo. – Assim que Sherlock abriu a boca para argumentar, ela o interrompeu. – Não. Se. Atreva.
Assim que os dois estavam de volta na estrada, a loira ligou o rádio, e as músicas começaram a tocar novamente. Ela dirigiu até atingirem a entrada de Londres.
– E então? Para onde agora, guia turístico?
– Aeroporto. – Ele respondeu, mexendo no porta luvas dela.
I said the joker is a wanted man
He makes his way it all across the land
See him sifting through the sand
So I'll tell you all the story about the joker and the thief of the night
– Para onde vamos? – Mary perguntou. – A música diz “Joker and the Thief”. Claramente está falando de nós. Você é o Coringa e eu a Ladra.
– Bem observado. Mas há muita coisa para se considerar nessa música, se fossemos nos guiar pela mensagem inicial que a música passa, mas não é exatamente isso. Esse “Coringa” no primeiro verso não se refere a mim, querida Mary. Mas sim a relógios.
Ela franziu a testa. – Relógios? O quê?
Always laughing in the midst of power
Always living in the final hour
There is always sweet in the sour
We are not goin' home
– “Sempre rindo no meio do poder; Sempre vivendo na hora final;” É claro que vamos nos situar no Reino Unido, já que moramos aqui e esse... bastardo que fez isso é claramente daqui também. Como centro do poder de Londres temos o Parlamento, e isso é confirmado pela expressão “hora final”.
– O Big Bang. – Ela completou. – Mas temos o “We are not goin’ home”, ou seja, nós não vamos para casa. Se tivéssemos que escolher uma cidade com uma torre que poderia lembrar o Big Bang, inúmeras cidades estariam na lista. Pelo menos por todas que eu passei, posso listar umas oito. Não, nove agora.
– É aí que você se perde, Mary. Relógios. No plural. Não é o Big Bang em si, mas o que ele representa. Um simples relógio. Sabemos que o coringa é um homem procurado. Um homem que todos conhecem, mas que nunca ninguém sabe de onde veio, para onde vai e como se locomove. Agora transfira isso para os relógios comuns. A marca mais famosa de relógios do mundo vem da Suíça. Todos sabemos disso, mas ninguém sabe realmente de onde vem, como vem e para onde vai. Você, Mary, que tem informações sobre inúmeras pessoas e empresas de grande porte, me diga uma informação relevante sobre a marca Rolex.
Ela pôs-se a pensar por alguns segundos, mas ele logo continuou.
– Não há, a não ser que você tenha contato com a empresa em si. Rolex está em todos os cantos do mundo, mesmo que ninguém saiba sua verdadeira origem. Consequentemente, nossa próxima parada...
–...é a Suíça.
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Como se tudo estivesse sido programado e cronometrado – e Mary não duvidava que estivesse sendo exatamente o que acontecia — o próximo voo era para daqui exatos onze minutos. Antes do embarque, mas depois de terem passado os procedimentos de segurança com raio-x, os dois foram até uma área mais afastada que guardava vários armários. Tiveram que deixar as armas no carro, mas Mary tinha suas provisões. Dentro de um dos armários, duas armas novas e carregadas aguardavam pelos dois, e foram transferidas para os bolsos de seus casacos.
Can you see the joker flying over?
As she's standing in a field of clover
Watching out everyday
I wonder what would happen if he took her away
– Suíça. Mas exatamente que parte da Suíça? – Sentados lado a lado no avião, finalmente o silêncio foi quebrado pela loira.
– Você conhece o lugar, Senhora Watson. Einsiendeln Abbey. – Ele respondeu sem mesmo olhar para a mulher, cuja expressão se alterou levemente. Sherlock sabia o que ela estava tentando esconder, as emoções que estava tentando reprimir. Mas também sabia, apesar de não ter mencionado, que ela estava em perigo. A música fazia uma clara ameaça a ela, algo que a assassina mesma deveria ter percebido. Dizia que gostaria de saber o que aconteceria se levasse Mary para longe. Mas ninguém iria levá-la a lugar algum, não enquanto ele permitisse.
What you see well you might not know
You get the feelin' coming' after the glow
The vagabond is movin' slow
So I'll tell you all the story about the joker and the thief of the night
Essa era estrofe ficava se repetindo na cabeça de Mary. Alguma coisa estava errada, tudo acontecia exatamente como a música e isso era o que a intrigava. Nenhuma pressão sobre eles, nenhuma charada que somente o grande Sherlock Holmes pudesse resolver. Parecia que quem fosse a pessoa que estivesse fazendo isso, queria que eles chegassem até o destino, como se algo estivesse esperando por eles. E pensar que John e Molly estavam lá, indefesos e vulneráveis, suas vidas dependendo apenas da vontade de uma pessoa. Seria este o caminho errado?
– ‘O vagabundo está se movendo devagar’. Por que estamos correndo contra o tempo?
– Ah! Fico feliz que tenha perguntado. A primeira música. Noventa e nove problemas.
Sherlock sorriu maniacamente antes de concluir:
– Temos que impedir o assassinato de noventa e nove pessoas.
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– Einsiendeln Abbey, por favor. Chegando lá em cinco minutos, ganha o dobro. — Sherlock disse, batendo duas vezes no banco do taxista. Mary ficava ainda mais quieta quanto mais se aproximavam. Não era geralmente um lugar movimentado, mas enquanto se aproximavam podiam ver que alguma coisa estava acontecendo. Seria uma espécie de evento especial? Justamente hoje? Ah, que agradável.
Enquanto caminhavam entre a multidão, Sherlock passou a sincronizar seus passos ao ritmo da última música, a qual passara a murmurar. Mary, com a mão sempre colada à arma em seu bolso, o seguia de perto.
The vagabond is movin' slow
So I'll tell you all the story about the joker and the thief of the night
As pessoas se reuniam mais intensamente na entrada do monastério que agora era também uma catedral e o passo se tornou mais lento. Isso irritou o detetive intensamente. Ele olhou para os lados, mas não encontrou nenhum caminho livre. Então, fez a única coisa que poderia tirar aquelas pessoas de seu caminho. Sherlock tirou a arma do bolso e atirou.
O tiro para cima sobressaltou a todos. Mary Watson rapidamente puxou-o pelo braço, levando para dentro da catedral assim que as pessoas começaram a correr na direção oposta.
– O que você tem na cabeça, Sherlock? Você quer estragar tudo? A polícia leva menos de treze minutos para chegar até aqui, isso com congestionamento.
– O que eu tenho na cabeça se chama cérebro. Acredito que já tenha ouvido sobre. E exatamente. Com a polícia presente e o local evacuado, não vejo como noventa e nove pessoas podem morrer.
Eles andaram por vários corredores e, apesar de tudo ficar cada vez mais vazio, o som de vozes parecia nunca diminuir. Ao subirem as escadas, dois guardas cuidavam de uma grande porta. Não pareciam ter notado o pânico das pessoas do lado de fora. Ou...
– Eles sabem. — Mary murmurou, e quase instantaneamente Sherlock a compreendeu.
– ‘O vagabundo está se movendo devagar’. Merda, estamos atrasados. Filho da mãe.
Ao notarem a presença dos dois— e os reconhecerem – os guardas sacaram as armas.
Sherlock estendeu a mão, impedindo a loira de fazer o mesmo.
– É tarde demais. Nós... sentenciamos essas pessoas, Mary. Ternos que sair daqui. Agora.
– Sherlock. Existem noventa e nove pessoas ali dentro, e todas vão morrer se não fizermos nada.
Sherlock respirou fundo. — Eles já estão mortos, Mary. — O olhar do detetive foi para um dos guardas, e ela pode ver um controle na mão daquele, que tratou de pressionar um botão.
As vozes cessaram instantaneamente. Ela piscou algumas vezes, confusa. Ou se recusando a acreditar no que ouvia. Mary Watson não conseguia acreditar que dentro daquelas portas havia uma centena de corpos. John havia certamente causado um efeito nela. Talvez até amolecido seu coração? Mas ela não sabia no que pensar.
Sherlock segurou sua mão no momento em que as sirenes da polícia surgiram ao longe, e as luzes dos carros iluminaram as janelas. Os guardas pareciam não ligar para o que acontecia e agiam normalmente. Mas Mary, uma vez de volta a realidade, rapidamente tomou consciência do que acontecia, e acompanhou Sherlock numa tentativa de sair do monastério sem topar com a polícia. Ela conhecia o lugar, e por esse exato motivo Sherlock a deixou que o guiasse até a porta dos fundos, que dava para um grande muro e outra construção antiga. Eles não conseguiriam escalar o muro, era óbvio. Por isso mesmo, entraram na construção.
Não havia luz elétrica lá dentro, e parecia que tudo estava coberto por uma camada de no mínimo cinco centímetros de pó. Mas os dois continuaram entrando enquanto a loira os guiava por corredores e mais corredores, utilizando o celular como a única fonte de luz. Até que ela parou, virando-se para Sherlock.
– Nós temos que sair daqui. Esse lugar é cheio de câmeras, não duvido que somos procurados pela polícia no país inteiro agora.
Sherlock encostara-se à parede, de olhos fechados, os dedos pressionando as têmporas. Muitas coisas se passavam em sua cabeça agora, mas principalmente, ele não conseguia parar de pensar em como pode deixar algo tão óbvio escapar. Ele deveria ter previsto que aquelas pessoas morreriam, deveria saber que isso era algum tipo de truque. Seu cérebro não parecia estar funcionando direito. Seus pensamentos constantemente se dirigiam para o fato de que algo poderia estar acontecendo com Molly, ela poderia até mesmo estar... Não. Não, ele se recusava a aceitar isso. Só mesmo a hipótese de algo ter acontecido fazia com que ficasse ainda mais irritado.
Ele era o grande Sherlock Holmes. O infalível detetive. Por que não salvara essas pessoas então? Por que nada estava dando certo? Podia ver Mycroft rindo dele agora, a cara de desprezo do irmão. Por um momento, Sherlock era nada mais do que um simples garoto. Um garoto que deveria resolver o quebra cabeça apresentado pelo irmão mais velho para poder sair do próprio quarto. Não era justo—ele não era tão inteligente quanto o irmão. Ele era pequeno, tinha acabado de completar sete anos. Mycroft não aceitava ter um irmão que não fosse pelo menos inteligente o suficiente para pertencer a família.
Abraçando os joelhos, o garoto se encolheu no canto do quarto quanto as lágrimas rolavam por seu rosto. Não era justo. Ele estava com fome, e não poderia sequer sair de lá. Sabia que não deveria ter irritado Mycroft dessa maneira, mas ainda não era justo. Seus pais estavam fora, e não voltariam tão cedo.
– Mycroft, me deixe sair! Prometo que não te irrito outra vez!
– Resolva a charada, irmãozinho. Ganhe a sua própria liberdade, ou será sempre dependente de alguém. Sempre vulnerável, sempre vendo as coisas que mais gosta sendo tiradas de você. Gostaria de sair do quarto? Então... prove.
All the people that he sees in the night
Hold their dreams up to the light
The wilder beast is searching for sight
We are not goin' home
– Sherlock! – A voz de Mary estava assustada, e quando o detetive abriu os olhos, viu uma cena um tanto quanto... desagradável. Ele apontava a arma que momentos atrás estivera em seu bolso para a cabeça de Mary, que por sua vez o encarava, a arma dela na mão, ao lado do corpo.
Ele abaixou a arma e chacoalhou a cabeça, clareando os pensamentos. – Me... Me desculpe.
Ela olhou desconfiada para ele, mas guardou sua arma também.
– Vamos, a polícia já deve estar nos alcançando. Tenho uma maneira de nos tirar do país.
I said the joker is a wanted man
He makes his way it all across the land
See him sifting through the sand
So I'll tell you all the story about the joker and the thief
I said, I'll tell you all the story about the joker and the thief
I said, I'll tell you all the story about the joker and the thief of the night
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