O céu sobre Londres estava limpo, com o sol alto refletindo nas quadras de saibro do Royal Tennis Centre. A temperatura era amena, mas a tensão no ar, quente. O amistoso mais aguardado da temporada juvenil estava prestes a acontecer: Roxanne Weasley contra Lorcan Scamander. Duas promessas do tênis britânico, dois mundos em colisão.

Roxanne chegou pontualmente, saindo do carro preto da família com a habitual elegância controlada. O motorista abriu a porta, e ela desceu com a cabeça erguida, o coque impecável, o uniforme branco com detalhes verdes alinhado, e a raquete presa nas costas. Andava como quem não precisava provar nada. Mas dentro dela, o turbilhão de expectativas e a sombra constante de seu pai não lhe davam descanso.

George Weasley já a esperava perto das arquibancadas. Braços cruzados, semblante duro.

— Hoje, concentração total. Nada de distrações, entendeu? — disse em voz baixa, firme.

Roxanne assentiu, tentando engolir o nervosismo. Sabia que aquele jogo, para o pai, significava mais do que uma simples vitória. Era sobre orgulho. Sobre não perder para um Scamander.

Lorcan já estava na quadra. Tênis brancos, camisa justa, cabelo desalinhado e aquele jeito relaxado que, para Roxanne, era insuportavelmente irritante. E por algum motivo, magnético.

— Pontual como sempre, Weasley — disse ele, girando a raquete entre os dedos. — Pronta pra me dar trabalho?

— Só se você conseguir me acompanhar.

O juiz de cadeira chamou os dois para o centro da quadra. Saudações. Sorteio. Aquecimento. A arquibancada já estava quase cheia — jogadores, pais, treinadores e sócios do clube. O amistoso do ano estava prestes a começar.

1º set: Roxanne 6 x 4 Lorcan

Roxanne começou com força. Seu saque era preciso, suas jogadas ofensivas. Dominava as trocas com autoridade. Cada ponto ganho era acompanhado de um olhar para o pai, como se buscasse aprovação. Lorcan respondia com técnica e resistência, mas estava um passo atrás. Roxanne parecia determinada a esmagá-lo.

Num ponto crucial, ela subiu à rede e matou a bola com uma deixadinha fina que deixou Lorcan imóvel.

— Vai precisar de mais do que isso — murmurou ela ao passar por ele.

Ele apenas sorriu, ofegante, mas havia uma faísca nos olhos — uma admiração crescente que ele tentava esconder.

2º set: Lorcan 6 x 3 Roxanne

Mas Lorcan não era do tipo que desistia fácil. No segundo set, ajustou a estratégia: passou a variar mais os ângulos, atacar o backhand de Roxanne, usar lobs e slices para tirá-la da zona de conforto. Roxanne, irritada, começou a forçar demais e cometeu erros não forçados. A frustração a corroía por dentro.

— Se quiser, posso pegar mais leve — disse ele após uma devolução perfeita na linha.

— Nem pense nisso, Scamander.

A intensidade subiu. As bolas zumbiam no ar, o som seco das raquetadas ecoando pelo clube. O público acompanhava em silêncio reverente. Roxanne lutava contra ele, contra o jogo, contra a própria vontade de não demonstrar o quanto tudo aquilo a afetava.

3º set: Lorcan 7 x 5 Roxanne

O set final foi uma guerra. Rallies longos, saques angulados, voleios agressivos. Roxanne lutava com tudo o que tinha. Seu rosto já brilhava de suor, os cabelos fugindo do coque. Lorcan, suado, com a camisa colada ao corpo, mantinha a calma, os olhos sempre nela — não apenas como adversária, mas como enigma.

No 5–5, Lorcan conseguiu uma quebra. Sacou para o jogo.

Primeiro ponto: ace. Segundo: erro de Roxanne. Terceiro: rally de trinta trocas encerrado por um winner de forehand.

Match point.

Ela tentou um saque e voleio. Ele antecipou, correu para a rede, devolveu cruzado. Ela alcançou, rebateu. Ele subiu o lob. Ela correu, saltou, rebateu por cima da cabeça.

Smash de Lorcan. Dentro.

Fim de jogo.

4–6, 6–3, 7–5 para Lorcan Scamander.

O público aplaudiu. Fred levantou da arquibancada, animado, mas George Weasley permanecia parado, com o maxilar tenso e os olhos fixos na filha.

Roxanne caminhou até o banco, largando a raquete com frustração. O gosto da derrota queimava mais por ter sido para ele. George veio até ela.

— Inaceitável, Roxanne. Você se deixou levar. Você realmente não leva o sobrenome Weasley a sério. — sibilou com uma raiva evidente.

Fred apareceu a tempo de ouvir a última frase.

— Pai, já chega. Ela jogou bem. Todo mundo viu.

George passou por eles, balançando a cabeça, enfurecido. Fred pousou a mão no ombro da irmã.

— Você foi incrível. Foi um jogaço. Não escuta ele, tá? — Roxanne apenas assentiu para o irmão, mas ainda um pouco chateada com as palavras do pai.

Do outro lado da quadra, Lorcan observava a cena. Seu estômago se apertou. Queria ir até ela. Dizer qualquer coisa. Mas seus pais o chamaram para tirar uma foto com seu treinador. Ele hesitou, mas foi.

Mais tarde, os corredores dos vestiários estavam quase vazios. Roxanne caminhava sozinha, ainda com a toalha nos ombros, o corpo cansado e a mente em erupção. Quando virou o corredor, deu de cara com ele.

Lorcan.

Encostado na parede, cabelo molhado, camiseta colada ao corpo, os olhos azuis pousados nela como se já a esperasse.

— Tá fugindo de mim, Weasley? — ele disse com voz baixa, quase rouca — Achei que Weasley nenhuma fugisse da cena da derrota — ele sorriu cruzando os braços, sem sair do lugar.

— Pelo visto Scamander nenhum sabe a hora de ficar calado — ela retrucou, arqueando uma sobrancelha.

— Tô só tentando entender como alguém consegue suar tanto e ainda sair com pose de realeza.

— É um dom. Coisa que você nunca vai ter.

— Dom eu tenho. Te vencer foi prova suficiente. Mas confesso que essa sua cara de raiva quase valeu mais que o troféu.

Ela estreitou os olhos e ele se aproximou um pouco mais dela. Estavam perigosamente próximos agora, quase ombro a ombro. O som do chuveiro ao fundo parecia distante, abafado. O ar ali estava carregado de algo que ia além da provocação — como eletricidade antes da tempestade.

— Você vive me seguindo ou é coincidência? — ela disse tentando mudar de assunto, mas sua voz saiu mais baixa do que gostaria.

— Você que veio direto pro meu vestiário. Coincidência? Acho que, na verdade, você quem sempre torce para me encontrar. — o loiro sorriu de forma provocante e Roxanne sentiu uma raiva crescer dentro dela.

Ela franziu o cenho.

— Isso aqui é um corredor, não seu camarim, Scamander.

— Mas sabe que eu sempre estou aqui. — ele riu, inclinando-se levemente para frente. Lorcan observou a cara emburrada dela por um momento. — Acha que todo mundo vai abaixar a cabeça pra você?

Ela respirou fundo. O ar parecia mais quente ali. Denso.

— E você acha que essa sua arrogância disfarçada de charme funciona com todo mundo?

— Não com todo mundo. Só com você.

Roxanne sentiu o rosto corar. Um calor estranho subiu por sua nuca. Ela não queria ceder. Não podia. Mas era como se cada provocação dele a puxasse mais para dentro de algo que não tinha nome. Desejo? Raiva? Curiosidade? Tudo junto, talvez.

— Você se acha irresistível, né? — ela disse, cruzando os braços.

— Não. Mas tô achando que você tá começando a achar.

Ele deu mais um passo à frente. Estavam a centímetros um do outro. Roxanne sentia o cheiro do sabonete dele, o calor da pele pós-banho, o brilho nos olhos — e, por um momento, quis muito esquecer quem eles eram.

— Eu te acho insuportável, isso sim. — ela sussurrou empurrando-o levemente com a ponta dos dedos, mas ele não se moveu. O toque foi breve. Quente. Incômodo de um jeito viciante.

Ele sorriu.

— E você adora isso.

O silêncio que se seguiu foi curto, mas denso. Olhos nos olhos. Respirações descompassadas. O tipo de pausa que antecede um erro. Ou algo maior. Lorcan observava cada centímetro do rosto de Roxanne. Ela era de fato muito bonita. Seus traços eram delicados e pareciam milimetricamente esculpidos. Em um movimento involuntário, ele ergueu a mão devagar, como se fosse afastar uma mecha do cabelo dela. Os dedos chegaram perto. Muito perto. Roxanne congelou, mas ele logo abaixou a mão novamente sem fazer nada.

— Se você encostar em mim, eu juro que... — ela começou, mas a voz saiu mais fraca do que queria.

— Que vai fazer o quê? — ele interrompeu, num sussurro.

Ela respirou fundo. Por um segundo, pensou em deixar acontecer. Por um segundo, o mundo parou.

— Você é, realmente, muito insuportável.

— E mesmo assim, olha como você tá me olhando.

Roxanne vacilou. O olhar dela realmente havia se prendido à boca dele. Ao maxilar definido. Ao jeito como os olhos dele não piscavam.

Lorcan se aproximou mais dela, agora havia menos de um palmo entre eles. O calor irradiava do corpo dele como uma onda. Ele podia até sentir o perfume suave dela.

Nem ele sabia mais o que estava acontecendo ali. Tinha se perdido totalmente no momento e estava apenas deixando as coisas acontecerem. Ele se pegou admitindo em sua cabeça que queria encostar. Queria saber como seria sentir a pele dela contra a dele. O gosto da boca dela. O som que ela faria se ele a puxasse para si. O que ela iria pensar.

Mas ele não se moveu.

— Eu devia te derrubar aqui nesse chão sujo. — a morena murmurou sorrindo um pouco.

— Vai em frente. Só não reclama se eu te puxar junto — respondeu ele, um sorriso torto nos lábios, mas os olhos intensos, sem um pingo de brincadeira.

Ela inspirou fundo. O ar entre eles parecia pesado, denso, como eletricidade prestes a explodir.

Roxanne percebeu ele olhando para sua boca e sentiu um frio na barriga, o garoto notou que foi flagrado no ato e corou imediatamente. Roxanne sorriu e se inclinou imperceptivelmente. Ele fez o mesmo. Os rostos se aproximaram. Quase. Quase. A tensão era tanta que nenhum dos dois sabia mais o que estavam prestes a fazer — se brigar ou se beijar.

Mas então o som de dois alunos saindo do vestiário e passando por eles fez ela recuar. Rápido. Como quem acorda de um sonho.

Lorcan revirou os olhos se afastando também.

— Isso é loucura — disse, a respiração falha, o coração batendo forte demais. — Isso não foi nada.

— Não? — A voz dele saiu baixa, contida, como se tentasse controlar algo mais selvagem por dentro. — Porque pra mim… parecia algo.

Roxanne balançou a cabeça, como se quisesse se convencer do contrário, e começou a se afastar.

— Eu... preciso ir — ela disse, sem encará-lo, girando nos calcanhares e saindo às pressas.

— Vai fugir de novo? — ele perguntou, sem ironia dessa vez. A pergunta escapou quase como um pedido.

Ela não respondeu e foi embora, os passos rápidos ecoando pelo corredor. Lorcan ficou parado, o coração batendo no mesmo ritmo alucinado da última jogada do jogo.

Ele encostou de novo na parede, passou a mão no rosto e soltou um riso incrédulo.

Ela queria. Ele também. E os dois sabiam disso.

Lorcan encarava o nada como se fosse a coisa mais interessante do mundo, ele não acreditava que ela tinha ido embora em um momento como aquele.

Mas no fundo ele admitia que se ela não tivesse ido... talvez nenhum dos dois tivesse coragem de parar.

E sabe-se lá as consequências que esse ponto trariam para suas famílias.