The Challengers (Lorcan Scamander/Roxanne Weasley)
6 Capítulo 6 - Quebra de Saque
Lorcan chegou cedo ao clube naquela manhã, os olhos semicerrados de sono e a cabeça ainda presa a imagens soltas do dia anterior. A lembrança de Roxanne virando-se para ele, sua voz afirmando que "não havia acontecido nada", ecoava em sua mente. Mas o que realmente o marcava era o modo como ela o ignorou, com uma indiferença desarmante, como se o momento de tensão quase elétrica que haviam compartilhado depois do jogo fosse irrelevante. Era irritante, confuso, e de uma forma perturbadora... viciante. Ele ainda podia sentir o calor dela, a pressão da respiração ofegante, o toque quase imperceptível no braço.
Tentou afastar os pensamentos enquanto amarrava os cadarços de seu tênis no vestiário, o som das cordas sendo puxadas ecoando no silêncio da manhã. O treinador Neville Longbottom, um velho amigo de sua família, já o esperava na quadra cinco, com a expressão impassível que ele sempre usava, mas hoje havia algo diferente em seu olhar, como se percebesse mais do que apenas o atraso de Lorcan.
— Está atrasado, Scamander — disse Neville, sem levantar os olhos do relógio.
— Dois minutos. Vai me dar punição? — Lorcan respondeu, forçando um tom descontraído, tentando esconder a inquietação que ainda o dominava.
— Dois minutos podem mudar um jogo inteiro, garoto. Vai aquecer. — Neville o mandou sem mais conversa.
Lorcan respirou fundo e entrou na quadra. Ele precisava se concentrar. Ou pelo menos tentar.
Na quadra ao lado, Roxanne estava com o pai. George Weasley era exigente, firme nos comandos, mas seu ritmo de treino era quase coreografado, hipnotizante. Ela se movia com graça e precisão, devolvendo as bolas com uma perfeição que parecia natural. Sua saia preta curta balançava ao ritmo de seus passos, e a blusa justa moldava seu corpo com sensualidade. Mas o que mais capturava Lorcan não era sua habilidade com a raquete — era a maneira como sua trança balançava a cada movimento, o jeito como ela se concentrava, mas sempre com a consciência de que ele a observava.
Num momento, ela se virou para buscar uma bola caída no canto da quadra. Ao se levantar, seus olhos encontraram os dele, e um pequeno sorriso se formou nos lábios dela, quase desafiador, como se dissesse: "Está me olhando demais."
Lorcan engoliu seco, sentindo o estômago apertar. Cada músculo em seu corpo parecia tenso, como se estivesse prestes a ceder.
— Concentração, Scamander — Neville interrompeu seus pensamentos, sem sequer precisar olhar para saber o que estava acontecendo.
— Eu tô concentrado — Lorcan retrucou, batendo com mais força na bola, como se tentasse dissipar a pressão crescente no peito.
O treino continuou, mas a presença de Roxanne ao lado era impossível de ignorar. Cada saque, cada devolução, e cada sprint pelo campo, Lorcan tentava se manter focado, mas seus olhos sempre buscavam a quadra ao lado. Roxanne estava provocante até nos momentos de erro. Quando falhava, seu riso baixo e autodepreciativo tinha algo de irresistível. E quando secava o suor do pescoço, o gesto parecia deliberado, como se quisesse atraí-lo. Ela sabia exatamente o efeito que causava, e isso fazia Lorcan se perguntar até onde aquilo ia.
E o pior de tudo: ele achava que ela não sabia o que estava fazendo.
O treino terminou mais tarde que o habitual. O sol já começava a se esconder no horizonte, tingindo as quadras com sombras alaranjadas e deixando o ar pesado com o calor do dia. Lorcan caminhou até o bebedouro, jogando a toalha sobre os ombros, o corpo cansado, mas a mente ainda acelerada por pensamentos indesejados. Roxanne apareceu pouco depois, como se tivesse cronometrado o momento. Ela pegou um copo d’água e se inclinou casualmente contra a bancada, ficando ao lado dele.
— Você suou mais do que devia hoje — comentou ela, a voz tranquila, mas carregada de algo mais. Ela não olhava diretamente para ele, mas podia sentir a intensidade de sua presença.
— Treino puxado — respondeu ele, tentando manter a voz firme, mas sabia que ela podia perceber o nervosismo nas entrelinhas.
— Ou distração demais? — ela perguntou, sua voz suavemente provocante, sem se mover um centímetro.
Lorcan riu, mais para si mesmo do que para ela, o som saindo mais nervoso do que pretendia.
— Você está falando de mim? Porque eu vi você errar umas bolas fáceis hoje. Seu pai estava quase jogando a raquete na sua direção.
— Eu erro quando quero — ela respondeu de forma desafiadora, seu olhar finalmente encontrando o dele. A intensidade nos olhos dela fez o ar entre eles quase vibrar. — Às vezes é bom dar vantagem pro adversário. Ele se sente confiante... e aí fica mais fácil derrubar.
Lorcan sentiu um calor subir pela sua nuca. O tom de sua voz, baixo, íntimo demais, provocava algo difícil de controlar. Aquela frase tinha muito pouco a ver com tênis e tudo a ver com o jogo entre os dois.
— Eu não sou um adversário fácil — ele respondeu, a voz mais rouca do que pretendia, o desejo de tê-la mais próximo quase incontrolável.
— Ainda bem — ela disse, dando um passo para trás, quebrando o contato visual com um sorriso malicioso. — Os jogos fáceis são entediantes.
Ela jogou a trança para o lado e se afastou, indo em direção ao vestiário feminino para um banho. Lorcan permaneceu parado, sentindo o peso das palavras dela. Aquele jogo estava ficando insuportável demais.
Mais tarde, no vestiário masculino, Lorcan estava sozinho por alguns minutos. Encostado no armário, ainda com a toalha no corpo, ele pegou o celular e olhou as mensagens. Nenhuma de Roxanne. Não que ele esperasse alguma, ou até que ela fosse do tipo de mandar mensagens, mas naquele momento, algo dentro dele desejava que eles tivessem esse hábito. Ele queria saber o que Roxanne pensava realmente dele, se ela sentia a mesma tensão, a mesma química que parecia estar tomando conta dos dois sempre que estavam próximos.
Antes de sair, ele passou pelo saguão principal e deu de cara com Lysander, que estava lendo um livro em uma das poltronas do clube.
— Ainda aqui? — perguntou Lorcan, interrompendo a tranquilidade de seu irmão.
— Estava assistindo alguns treinos — Lysander respondeu sem olhar para ele, com um sorriso curioso nos lábios. — Eu gosto mais de observar os movimentos do que de executá-los. E além disso... — ele levantou os olhos, maliciosos — é bem mais interessante ver o que está se desenrolando fora das quadras ultimamente.
Lorcan bufou, passando uma mão pelo cabelo molhado, tentando se concentrar.
— Se você está falando da Weasley, esquece. A galera tá fazendo tempestade em copo d'água. Não tem nada entre mim e ela, mas vou ganhar aquela aposta.
— É mesmo? — Lysander levantou uma sobrancelha, voltando ao seu livro. — Curioso... Porque às vezes, a melhor maneira de esconder o jogo... é fingir que não se está jogando.
Lorcan nem sequer prestou atenção no que o irmão disse. Seus olhos já estavam fixos em Roxanne, que estava sozinha perto das arquibancadas, sentada no deque, como se tivesse esperado ele. Ela havia trocado de roupa — uma calça legging preta e uma regata justa, casual, mas sensual de uma maneira inconfundível. Ela estava com o celular na mão, a perna cruzada de maneira que deixava claro que estava à vontade, mas também de algum modo desafiadora.
Lorcan caminhou até ela sem pensar duas vezes. Ele parou diante dela, as mãos nos bolsos, seu corpo agora mais tenso do que nunca.
— Você pode, por favor, parar de me seguir? — ela perguntou, sem tirar os olhos da tela.
Ele se sentou ao seu lado, sem se importar com a resposta dela.
— Eu estou no meu clube, Weasley — ele respondeu de forma divertida, mas com um sorriso de quem não pretendia se afastar tão cedo.
Ela fez um gesto com as mãos, como se quisesse espantá-lo dali.
— Mas ele é gigante, tem vários outros lugares onde você pode estar. — Roxanne disse, provocante, como se quisesse testá-lo.
— Aqui está mais divertido — Lorcan respondeu, seu tom mais sério agora, a proximidade entre eles carregada de uma tensão palpável.
A morena olhou pela primeira vez pra ele, tirando os olhos de seu celular. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas se encarando. Havia uma tensão elétrica no ar, carregada de coisas não ditas. O mundo ao redor parecia ter desaparecido. Só existiam os dois ali, presos naquele jogo que se tornava cada vez mais perigoso.
— Sabe, — ela começou quebrando o silêncio, mas sua atenção se voltou novamente para a tela de seu celular — você sempre age como se estivesse por cima. Mas me pergunto o que aconteceria se eu virasse o jogo.
Lorcan sorriu e se aproximou dela.
— Isso é um desafio? — sussurrou no ouvido dela.
— É um aviso. — ela respondeu um pouco provocante e aquilo fez um arrepio subir os pelos da nuca de Lorcan.
Ele passou a mão pela perna dela, devagar, até repousar no seu joelho esquerdo, como quem testa um limite. Ela não recuou. Pelo contrário, ela virou ainda mais o rosto ainda mais perto do dele, quase roçando seus lábios.
— Tá esperando o quê? — provocou a garota novamente, com um sorriso malicioso.
— Ainda não decidi que jogada usar — Lorcan respondeu sem se afastar, sua respiração estava pesada.
Em um movimento rápido que deixou o loiro completamente pasmo, ela passou a mão pela nuca dele, puxando-o só o bastante para sussurrar no ouvido dele:
— Enquanto você pensa, eu já estou três pontos à frente.
Ele piscou desnorteado, tentando conter o impulso de encurtar toda a distância entre eles.
— Não me provoque, Weasley. Eu sou bom em viradas.
Roxanne sorriu, ainda sem se afastar.
— Então me surpreenda.
Ela se levantou rapidamente, ajeitou a blusa e olhou para ele de cima com um sorriso satisfeito.
— Nos vemos na quadra, Scamander. Mas lembra: o placar pode mudar a qualquer instante.
E se afastou, deixando Lorcan completamente bobo na arquibancada.
Era oficial: Roxanne Weasley estava jogando sujo. E ele estava adorando cada segundo.
Os dias se passaram e para Lorcan estava cada vez mais difícil fingir que Roxanne não mexia com ele. Só naquela semana, ele já tinha perdido a conta de quantas vezes olhara para ela durante os treinos, corredores e qualquer instante dentro daquele maldito clube.
A verdade é que ele nem percebera quando começou. Talvez sempre estivesse lá, disfarçado sob camadas de implicância, provocação e aquele ódio de fachada que, até pouco tempo atrás, ele jurava sentir. Só que agora... agora ele não conseguia mais ignorar o que se passava dentro dele.
Roxanne Weasley o estava enlouquecendo.
E o pior — o mais insuportável — era que ela nem estava fazendo esforço.
Naquela tarde, durante o treino, ela usava uma regata preta colada no corpo e um short branco que deixava as pernas à mostra de um jeito indecente. O sol refletia no suor da pele dela, brilhando nos ombros, nos braços, no colo. E Lorcan, por mais que tentasse focar nos exercícios, acabava desviando o olhar para ela a cada maldito minuto.
Ela continuava sendo uma Weasley. A filha do homem que mais desprezava sua família. Era esse o pensamento que ele repetia a cada treino, como um mantra. Ele tinha que sentir raiva dela. Tinha que lembrar o motivo pelo qual aquilo tudo era errado.
Mas aí ela entrava na quadra.
E tudo desmoronava.
A raiva se esvaía no instante em que Roxanne amarrava os cabelos em um coque alto antes de começar o aquecimento, ou quando ela sacava com aquele movimento preciso, ágil, que fazia seu corpo inteiro se alinhar de forma quase hipnotizante. Ele já havia enfrentado dezenas de jogadoras habilidosas, mas nunca tinha parado para notar os detalhes com tanta atenção quanto agora.
O modo como ela caminhava até a garrafinha d’água no intervalo, inclinando o rosto para trás e deixando escorrer uma gota pelo canto da boca... como se não soubesse que aquilo era tortura para quem estivesse observando. Ou talvez soubesse, e fizesse de propósito.
Lorcan se pegava encarando. E quando percebia, desviava o olhar rápido, irritado consigo mesmo.
Que droga estava acontecendo com ele?
Ela ria com alguma piada do Neville, e o som fazia seu estômago revirar. Não era enjoo. Não era ódio. Era algo mais perigoso.
Curiosidade.
Desejo.
Um dia, enquanto ela se alongava no canto da quadra, o top subiu levemente e ele viu um pedaço da pele dela, ali perto da costela, onde a pele era fina e pálida. Ele não conseguia parar de imaginar como seria tocar ali. Beijar ali.
Beijar ela.
Só pensar nisso fez seus dedos tremerem ao segurar a raquete.
Ele não podia querer isso. Não podia querer ela.
Lorcan já não sabia mais se queria beijá-la ou bater com a cabeça na parede até parar de pensar nela.
"Que merda era essa? " Ela era uma Weasley. Ele se lembrava toda hora.
A filha de George Weasley — o homem que mais odiava os Scamander, que quase destruiu o negócio da família anos atrás por causa de uma disputa ridícula no Royal Tennis Centre. E Roxanne não era apenas filha dele. Ela herdara o mesmo olhar julgador, a mesma arrogância, a mesma mania de querer ter sempre a última palavra.
E mesmo assim... mesmo assim…
Os pais dele matariam ele se eles soubessem os pensamentos que rondavam a cabeça de Lorcan ultimamente.
Mas ele só queria saber se a pele dela era tão macia quanto parecia. Se ela era quente. Se ela reagiria ao toque dele com raiva, com surpresa, com desejo. Queria saber o que ela pensaria se ele se aproximasse no meio do treino, encurralando-a na quadra, se encostasse o corpo suado no dela e dissesse tudo aquilo que estava queimando na garganta.
Ou se ela o empurraria.
Ou se ela o beijaria de volta.
Mas então vinha o pensamento que congelava tudo: E se ela me odeia?
Porque talvez odiasse.
Talvez aquelas provocações dela não fossem flertes disfarçados. Talvez fossem genuína repulsa. Talvez ela o achasse patético. Um garoto mimado, irritante, convencido.
Você é isso mesmo, ele pensava. Você é exatamente isso.
E pra piorar, havia a aposta. A maldita aposta.
Aquela que começou por causa de uma piada de James. Lorcan, no auge da arrogância, deixara escapar que seria fácil fazer Roxanne cair nos encantos dele antes do final do mês. Agora, só de lembrar disso, sentia uma mistura de arrependimento e náusea. Aquilo era idiota. Infantil. E mais do que tudo, perigoso.
Porque, honestamente, ele já não tinha certeza se estava jogando ou sendo jogado.
E então ela apareceu.
No fim do treino, quando ele pensava que ela já havia ido embora, Roxanne surgiu ao lado dele na área dos armários, os cabelos úmidos pela água do chuveiro, o rosto limpo e o corpo ainda marcado pelo esforço físico. Usava um moletom largo do clube e um short minúsculo, e carregava a raquete como se fosse uma extensão do próprio braço. Ele engolia em seco enquanto observava ela de longe, tentando não olhar direto para as coxas dela, mas falhando miseravelmente.
Ele que ficou pensando, mais uma vez, em como seria puxá-la pela cintura, encostar a boca na dela, descobrir o gosto dela por inteira.
Será que ela é macia? Será que ela geme baixo?
Caralho.
— Que merda tá acontecendo comigo? — murmurou, sozinho, de olhos fechados, tentando controlar os próprios pensamentos.
Na manhã seguinte, Lorcan chegou ao clube com uma ideia fixa: precisava inverter o jogo. Passara a noite inteira remoendo o que Roxanne tinha feito — o toque no rosto, o olhar de desafio, o tom insinuante da voz. Ele não conseguia tirar da cabeça. Era como um veneno lento, que escorria pelas veias e bagunçava tudo.
Ela quer brincar? Beleza. Mas eu também sei jogar.
Durante o treino, Lorcan se manteve frio. Ou tentou. Manteve os olhos nela o tempo todo, estudando cada movimento como se fosse parte de uma estratégia. Quando ela sacava, ele observava a precisão, mas também o jeito como a camisa grudava nas costas por causa do suor. Quando ela ria de algo que uma colega dizia, ele notava o brilho nos olhos, a forma como a boca dela se abria levemente. Tudo parecia hipnotizante — e ele odiava isso.
Ela não pode ter esse efeito em mim.
Ela é uma Weasley. A família dela odeia a minha. Ela provavelmente me odeia também.
E eu só queria tirar isso da cabeça. Colocar um ponto final nessa loucura.
Então decidiu que iria provocar. Fazer Roxanne se perder. Fazer ela se aproximar demais. Talvez até beijá-lo. E aí, quando ela fizesse isso... ele se afastaria. Recuaria antes. Mostraria que ainda tinha o controle.
O treino terminara havia poucos minutos. O sol já não queimava com tanta força, mas o ar ainda estava denso, abafado, carregado do cheiro de quadra quente, de suor e de tensão acumulada.
Roxanne demorava de propósito. Sabia que ele ainda estava por ali, sabia que ele observava cada movimento seu, como fizera nos últimos dias. E ela adorava. Adorava saber que estava conseguindo o que queria. Que o plano funcionava. Que Lorcan Scamander estava perigosamente perto de se perder nela.
Ela puxou o elástico do cabelo devagar, deixando os fios caírem pelos ombros, e fingiu procurar algo na mochila. Sabia que ele estava ali, atrás da cerca. Sentia o olhar dele queimando em sua nuca.
Você quer olhar, então olha direito, ela pensou, virando-se com um movimento lento, proposital, enquanto tomava água da garrafa. Fez questão de deixar um fio escorrer pelo canto da boca, de propósito, e limpou com a mão devagar. Sabia exatamente o efeito que aquilo teria.
Lorcan prendeu a respiração.
A boca secou.
Inferno.
Ela tá fazendo isso de propósito.
Ela sabe.
E sabia mesmo.
A cada treino, Roxanne aprendia um pouco mais sobre o poder que tinha sobre ele. Era viciante. Ver o controle dele ruir. Ver as mãos dele fecharem em punho. Ver os olhos que antes só transmitiam raiva agora varrerem cada centímetro dela como se quisessem memorizar.
Mas Lorcan não era do tipo que deixava barato.
Ele nem percebeu quando começou a se mover. Quando deu por si, já estava entrando discretamente no vestiário externo desativado — aquele onde quase ninguém ia desde a reforma — e esperou. Sabia que ela passaria por ali para sair pelos fundos, como sempre fazia. Era o atalho preferido dela.
E, quando a porta rangeu com a presença dela, ele a puxou com firmeza para dentro.
— Que isso, idiota?! — ela sussurrou, surpresa.
Mas não havia medo na voz dela. Havia curiosidade.
Lorcan encostou a porta com um chute e a prensou contra a parede. O coração dele batia tão alto que mal ouvia os próprios pensamentos. O espaço era apertado, abafado, o cheiro dela misturado ao do ambiente antigo e úmido.
— Não grita — disse, rouco. — Ou vão saber que você gosta disso.
Ela sentiu um arrepio subir pelas costas.
— E se eu gostar mesmo? — retrucou, levantando o queixo com um meio sorriso, desafiadora.
Lorcan soltou uma risada baixa, mas sem humor. Você tá me deixando louco, ele pensou. Os dedos dele deslizaram pelo braço dela, subindo devagar até o ombro. Depois, desceram de novo pela lateral do corpo, sem tocar diretamente, mas quase. Tão quase que o toque parecia fantasma.
Se ele me encostar mais um centímetro, eu não respondo por mim.
Mas ele não vai. Ele quer que eu ceda primeiro. Arrogante.
Roxanne mordeu o lábio, o corpo inteiro em alerta.
Ele viu.
E quase perdeu o controle.
Beija ela agora. Encosta nela de verdade. Descobre o gosto da boca dela. Descobre se a pele dela é tão quente quanto parece.
Mas ele não moveu.
E ela também não.
— Vai continuar fingindo que não quer? — ele provocou, encostando a boca na orelha dela. — Vai continuar fingindo que controla isso?
Lorcan se aproximou devagar, milímetro por milímetro, até a parede estar a centímetros das costas dela e o corpo dele quase colado ao seu. O cheiro dela invadia tudo. Um perfume leve, misturado com suor e provocação. Roxanne sentiu o estômago virar.
Ele tá caindo..., pensou, satisfeita. Isso tá funcionando. Ele não consegue disfarçar mais.
Mas, no instante seguinte, ela percebeu o que aquilo estava fazendo com ela também.
Lorcan estava tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele. Seus olhos desceram involuntariamente pelo pescoço dele, pelo peito escondido sob a camisa do clube, que delineava o corpo que ela sempre fingiu não notar. Mas agora, com ele ali, tão perto, era impossível fingir. As veias salientes do antebraço, o jeito como ele respirava mais rápido, os olhos azuis baixos mirando a boca dela como se estivessem sendo puxados por uma força que ele não entendia.
Droga, ela pensou. Por que ele tem que ser tão…? As palavras pareciam estar embaralhadas diante daquele momento.
Lorcan, por sua vez, sentia que estava enlouquecendo. Tudo nela soava como um desafio e uma tentação ao mesmo tempo. O jeito como ela encostava o quadril na parede, como se estivesse confortável com o fato de ele estar colado a ela. Os olhos de Roxanne dançavam entre os dele e sua boca. Aquilo estava acabando com ele.
Ela odeia você, ele tentava lembrar.
Sua família odeia a dela. Você nunca quis nada com Roxanne Weasley. Ela é arrogante, convencida, mimada… linda. Porra, como ela é linda. Por que eu só tô percebendo isso agora?
Os olhos dele desceram para a boca dela. Estavam tão perto. Roxanne molhou os lábios de leve, e o gesto foi como um golpe direto no autocontrole dele. A ideia de beijá-la — de realmente beijá-la — parecia, de repente, ser a coisa mais inevitável do mundo.
Mas ele lutava. Com cada célula do seu corpo.
Foi só a aposta. Foi só uma maldita brincadeira idiota do James. Ele que tinha dito que ia ser fácil fazer Roxanne cair. Mas agora, parado ali, com a respiração de Roxanne se misturando com a dele, Lorcan sabia que ele é que estava caindo. Caindo e despencando sem controle.
Você está perdendo. Ela vai te destruir.
— Tá tentando o quê? Me fazer beijar você primeiro? — ela perguntou, como se lesse os pensamentos dele.
Lorcan sorriu, torto. A ponta do nariz dele quase tocava o dela.
— Quem disse que não é você que tá tentando me beijar?
Roxanne arqueou uma sobrancelha, provocadora, mas o coração dela estava batendo tão rápido que ela quase podia ouvi-lo. Se eu não tomar cuidado, eu vou acabar esquecendo do plano. Ele vai vencer. Não posso deixar ele ganhar. A voz na cabeça dela era insistente, mas o corpo gritava por outra coisa.
Ele se inclinou mais, o peito colando no dela. E então, como se guiados por instinto puro, as bocas se roçaram. Levemente. O suficiente para que o lábio inferior dele tocasse o canto da boca dela. O calor era insuportável. E então aconteceu: ambos ofegaram e fecharam os olhos ao mesmo tempo. E, quase sem querer, as línguas se tocaram. Um toque mínimo e rápido. Como se dissessem Olá uma para a outra.
Foi como acender um fósforo em meio à gasolina. O coração de Lorcan disparou sentindo o gosto dela por um milésimo de segundo. Seu corpo inteiro implodiu. O sangue correu como um raio, direto para a boca, para as mãos, para baixo.
Eu tô beijando ela? A gente tá...?
Não, não. Ele nem sabia mais se tinha iniciado aquilo. Não tinha certeza de nada.
Como foi que eu cheguei aqui? Como foi que eu comecei a querer tanto isso?
Mas, antes que o beijo acontecesse por inteiro, Roxanne o empurrou com força. Seus olhos estavam arregalados, as bochechas coradas, o peito subindo e descendo.
Foi tudo muito rápido. Lorcan recuou, sem conseguir raciocinar. Ele mal respirava. A frustração explodiu em seu peito. Ele viu ela tocar os próprios lábios, como se também tentasse entender o que tinha acontecido.
— Isso... Isso podia contar, hein. Isso conta. Você me beijou primeiro — disse ele, a voz baixa, rouca, ainda dominada pelo momento.
— Foi você — Roxanne rebateu, cruzando os braços, tentando disfarçar o tremor dos dedos. — Você quem encostou primeiro. E isso não foi um beijo.
— Mentira — ele deu um passo à frente, ainda ofegante. — Você provocou tudo isso. — Lorcan agora sorria sinceramente, mas o sorriso logo se desmanchou ao vê-la se mover para se afastar dele. — Você vai embora?
— Você queria que eu ficasse? — ela respondeu com um sorriso malicioso, mas seus olhos diziam mais. Ela estava tentando se controlar tanto quanto ele.
Lorcan encarou a boca dela de novo. O olhar escuro, intenso, perdido entre o desejo e a raiva. Ele queria puxá-la de volta. Queria beijá-la com força, queria tocar nela, segurá-la, descobrir cada pedaço do corpo que ele fingia nunca ter notado. A imagem da mão dele no quadril dela, da boca descendo pelo pescoço, invadiu sua mente.
Mas ela recuou mais um passo, o sorriso vitorioso nos lábios.
— Até amanhã na festa do clube, Scamander. Vamos ver quem cede primeiro.
Ela virou e saiu. E Lorcan ficou ali, com a cabeça encostada na parede, o corpo ainda ardendo. Ele fechou os olhos e respirou fundo.
Eu quase beijei Roxanne Weasley. E eu queria. Queria muito. Quase demais.
E pior... eu acho que ainda quero.
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