The Challengers (Lorcan Scamander/Roxanne Weasley)
5 Capítulo 5 - Ace Disfarçado
Na manhã seguinte, Roxanne caminhava pelos corredores do clube como se a véspera tivesse sido apenas mais uma data no calendário. O rabo de cavalo alto e impecável balançava com elegância a cada passo firme, o uniforme alinhado revelava sua disciplina, e o rosto — sereno, inexpressivo — não deixava transparecer nem por um segundo o tumulto da noite anterior.
Ela sorria com educação para quem cruzava seu caminho, fazia comentários objetivos sobre o amistoso com Lorcan quando perguntavam — “foi um bom jogo”, “ele jogou bem”, “aprendi bastante” — e desviava com maestria de qualquer tentativa de aprofundar o assunto. Nenhuma pista no tom de voz, nenhum brilho suspeito nos olhos. Para quem observava de fora, o jogo havia sido apenas isso: um confronto técnico entre dois atletas talentosos.
Mas por dentro, ela sentia outra coisa. Um incômodo sutil, quase imperceptível, que ela se recusava a nomear. Algo havia se quebrado — ou talvez se formado — naquele vestiário. A forma como ele a olhou, como a segurou, o jeito como ela quase cedeu. O quase era o que mais a irritava. O quase beijo. A quase redenção. O quase finalmente.
E ela não podia se dar ao luxo de perder.
Então, optou pelo que fazia de melhor: controle absoluto. Se o mundo achasse que entre ela e Lorcan Scamander não existia nada além de rivalidade esportiva, ótimo. Melhor assim.
Já Lorcan, por outro lado, não compartilhava da mesma habilidade em fingir indiferença.
Ele a viu logo cedo no café do clube, sentada com duas jogadoras da equipe júnior. Ela ria de algo que uma delas dizia, jogando o cabelo para o lado com um charme inconsciente, como se nada do que acontecera estivesse vivo em sua memória. Como se ele não tivesse encostado a boca no pescoço dela. Como se ela não tivesse suspirado. Como se aquele quase-beijo não tivesse acontecido.
Quando passou por ele, os olhos dela não hesitaram. Nenhuma piscadela cúmplice, nenhum sinal de reconhecimento, nenhuma sombra de dúvida. Era como se ele fosse invisível.
Aquilo o fez ferver.
Sem pensar muito, ele se levantou e a seguiu até um corredor lateral, quase deserto, longe dos olhares curiosos dos colegas.
— Sério que você vai fingir que aquilo nunca aconteceu? — ele perguntou, a voz baixa, dura, carregada de frustração.
Ela parou, lentamente virando o rosto na direção dele. O olhar era gélido. Calculado. Uma sobrancelha arqueada com uma mistura de desdém e desafio.
— Aquilo o quê?
— Você sabe do que eu tô falando. — A raiva dele começava a escapar por entre os dentes cerrados. — A gente quase…
— Quase o quê, Scamander? — ela o interrompeu, seca, cruzando os braços. — A gente jogou. Você ganhou. Ótimo pra você. — E completou, com um sorriso irônico: — Fim da história.
— Roxanne…
A palavra saiu mais suave do que ele planejava, e por um instante, ela pareceu parar. Só por um segundo. Era a primeira vez que ele a chamava pelo nome. De verdade. Sem ironia. Sem gritar da arquibancada. Sem lançar como uma provocação no meio da quadra.
Mas se aquilo a abalou, ela escondeu com maestria.
— Tenho treino agora, Scamander — respondeu, retomando o tom impassível. E virou as costas, deixando-o ali.
Lorcan permaneceu parado, os olhos fixos nas costas dela enquanto ela se afastava. O som dos passos dela ecoava no corredor vazio como um lembrete de que ele tinha perdido alguma coisa — ou estava prestes a perder.
E, pela primeira vez em muito tempo, Lorcan Scamander não sabia como vencer aquela partida.
No fim da tarde, o sol dourava a fachada envidraçada do clube, tingindo de âmbar os guarda-sóis abertos sobre o deque de madeira. A área externa estava cheia. Alguns atletas, ainda com os uniformes do treino, descansavam nos sofás baixos e acolchoados, espalhados estrategicamente entre vasos com samambaias e luminárias acesas. A música ambiente — um jazz suave misturado a batidas eletrônicas — preenchia o ar com sofisticação, abafando parte das conversas e risadas ao redor.
O cheiro de protetor solar, cloro e drinques cítricos se misturava ao perfume amadeirado dos corpos suados que ocupavam o espaço. Era fim de dia no clube, e o lugar vibrava com aquela energia ociosa e levemente decadente que só os muito ricos sabiam aproveitar.
Num dos sofás centrais, Lorcan estava reclinado, com uma latinha de energético semiaberta na mão. Ao seu lado, o irmão Lysander observava o movimento distraidamente, de pernas cruzadas, enquanto os irmãos James e Albus Potter, amigos de infância dos dois, ocupavam as poltronas opostas.
Eles haviam crescido juntos — os Scamander e os Potter — frequentando os mesmos eventos, os mesmos torneios, os mesmos retiros de verão. Suas famílias não apenas se conheciam, mas mantinham negócios, investimentos e, acima de tudo, o mesmo padrão de vida quase inacessível.
— Então, Lorc… — disse Albus, apoiando com desleixo o copo de cerveja artesanal na mesinha ao lado — O que foi aquilo ontem com a Roxanne? A galera tá comentando.
Lorcan ajeitou o corpo no sofá como quem não se importa, mas seus olhos estreitaram ligeiramente, denunciando a atenção redobrada.
— Comentando o quê? — perguntou, com um tom despretensioso.
— Que vocês sumiram depois do jogo — respondeu Lysander, sem levantar os olhos do celular — E que teve um clima.
James soltou uma risada abafada, girando o copo de uísque com gelo na mão.
— Teve ou não teve? Vai, confessa. A gente viu vocês se encarando durante a partida como se fossem se agarrar ali mesmo, no meio da quadra. Tava mais quente que o verão na Côte d’Azur.
Lorcan deu um sorriso enviesado, aquele clássico meio sorriso que não dizia nada, mas sugeria tudo. Reclinou ainda mais no sofá, as pernas esticadas, como se quisesse mostrar que estava no controle.
— Não rolou nada. Ela é provocadora e insuportável, só isso. Tem toda aquela atitude dos Weasleys, sabe como é. E, bom… vocês já viram o resto.
— “O resto”? — Albus gargalhou, levando o copo de volta à boca. — Cara, você tá mais envolvido do que quer admitir. Tô te conhecendo há tempo demais pra não sacar.
— Que nada — Lorcan deu de ombros. — É tudo parte do jogo. Nem sei se gosto dela de verdade. Mas devo admitir… ela é extremamente gostosa.
James arqueou uma sobrancelha e balançou a cabeça com um sorriso malicioso, como quem já esperava aquela resposta.
— Ok, seguinte — ele se inclinou pra frente, apoiando os cotovelos nos joelhos — Eu aposto que vocês dois vão ficar dentro de um mês. Se rolar, eu pago aquele jantar em Mayfair, com entrada, sobremesa e vinho caro. Se não rolar… você paga pra mim. Topa?
Lorcan ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa.
— Só um mês? Fácil. Fechado.
Mas antes que ele pudesse estender a mão para selar o acordo, James ergueu um dedo no ar com um sorriso astuto.
— Com uma condição: ela quem tem que ceder primeiro. Se for você quem beijar ela, não vale. Ela tem que tomar a iniciativa.
Lorcan soltou um suspiro nasal, ciente da dificuldade extra que isso representava — Roxanne não era do tipo que se deixava vencer. Mas, ainda assim, não demonstrou hesitação.
— Mais fácil ainda — disse ele, apertando a mão de James com firmeza. — Se tem uma coisa que eu sei fazer, é ganhar esse tipo de jogo.
— George Weasley vai cair morto se descobrir isso — comentou Lysander, passando as mãos pelos cabelos com uma expressão entre cínica e preocupada. — Vocês têm noção da insanidade que acabaram de selar?
As risadas explodiram entre os quatro, cúmplices de algo proibido, jovens demais para medir as consequências e confiantes demais em suas próprias habilidades de manipulação.
O que nenhum deles percebeu foi que, a poucos metros dali, do outro lado da cerca viva que delimitava a área externa do clube, alguém havia escutado cada palavra.
Fred Weasley estava parado, com uma toalha jogada no ombro e uma garrafinha d’água esquecida na mão. Tinha acabado de sair da academia e reconhecera a voz de Lorcan no meio das conversas. Por impulso, se aproximou em silêncio, curioso, mas não esperava ouvir o que ouviu.
No início, achou graça. Era típico deles fazer piadas provocativas. Mas, conforme as palavras foram ganhando contorno, conforme os tons ficaram mais íntimos e as intenções mais nítidas, seu rosto fechou. E então veio a palavra: "aposta".
Fred desviou o olhar, como se tivesse levado um soco. Deu dois passos para trás e se afastou rapidamente, o sangue subindo à cabeça, o maxilar travado. Entrou no clube em silêncio, mas por dentro fervia.
Mais tarde, naquela noite, Fred bateu na porta do quarto da irmã. Roxanne estava sentada na cama, as pernas cruzadas sob o edredom, com o notebook aberto no colo e fones de ouvido conectados, perdida em alguma música animada. Ela tirou um lado do fone ao perceber a presença do irmão.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, com o olhar curioso, mas ainda desconectada da conversa, como se estivesse tentando processar o ritmo da música.
Fred estava sério, sua expressão fechada e os ombros tensos. Fechou a porta atrás de si, o som do tranco suave preenchendo o silêncio do quarto.
— Preciso te contar uma coisa que ouvi hoje — disse ele, a voz carregada de um tom de alerta. — Lorcan Scamander apostou com os amigos que vai fazer você ceder pra ele primeiro. Disse que você é gostosa, que tá fácil. Ele tem um mês pra não perder a aposta pro Potter.
Ela piscou lentamente, seus olhos ainda focados no irmão, tentando entender a magnitude daquilo.
— Ele... o quê? — A surpresa em sua voz era mais do que evidente, mas havia algo mais ali, uma faísca de algo difícil de identificar.
Fred assentiu, cruzando os braços, a postura rígida. Ele sabia que essa conversa seria mais tensa do que gostaria, mas precisava falar.
— Eu ouvi ele falando com James, Albus e Lysander. Não era brincadeira. Eles apostaram um jantar caro. Como se você fosse um prêmio, Roxy. Como se fosse só mais uma disputa entre eles.
Roxanne fechou o notebook com calma, os olhos fixos em lugar nenhum, sua mente processando as palavras que acabara de ouvir. Ela não se mexeu, não respondeu imediatamente, e Fred, naquele silêncio espesso, teve a sensação de que estava esperando algo. Por um momento, achou que ela ficaria furiosa, que explodiria em indignação. Mas, ao contrário, ela soltou uma risadinha baixa, quase como se fosse uma piada interna.
— Engraçado... — ela murmurou, quase para si mesma.
— O quê? — Fred perguntou, a confusão em sua voz misturando-se com um toque de preocupação. Não conseguia entender como ela podia reagir tão calada a uma situação tão provocante.
Ela se levantou lentamente da cama, os passos suaves e calculados, como se estivesse orquestrando mentalmente sua resposta. Caminhou até o espelho com uma elegância despretensiosa, os dedos tocando os fios soltos de cabelo, ajustando-os com um gesto quase automático. Ela se observou por um instante longo, como se tentasse ver a si mesma com os olhos de Lorcan, tentando entender a percepção dele.
— Que ele me acha gostosa... — Roxanne falou com um sorriso quase imperceptível nos lábios, como se tivesse acabado de descobrir algo divertido e curioso sobre si mesma. — E que acha que pode me vencer nesse jogo.
Fred a observou com uma expressão de surpresa e leve preocupação. Ele não esperava aquela reação dela, mas ao mesmo tempo, sabia que ela nunca fora de se deixar abalar por provocações. Ela sempre soubera lidar com as adversidades de maneira muito diferente.
— Você tá bem com isso? — ele perguntou, tentando entender onde a irmã estava mentalmente, o que ela estava pensando.
Ela virou-se para ele, os olhos agora mais sombrios e determinados, como se estivesse tomando uma decisão interna que faria toda a diferença.
— Tô pensando… — respondeu ela, com a voz mais baixa, mas firme. — Se ele quer brincar... ótimo. Mas vai sair do jogo perdendo. Ele não sabe no que está se metendo.
Fred ficou parado, boquiaberto, tentando absorver o que acabara de ouvir. Roxanne, uma das pessoas mais complicadas e intensas que ele conhecia, estava começando a se transformar diante de seus olhos, não em alguém fragilizado ou intimidado, mas numa competidora feroz.
— Roxy... — Fred começou, quase preocupado, mas sem saber como expressar o que sentia. — Isso não é só um jogo. Lorcan é… ele pode ser mais complicado do que você acha.
Ela o interrompeu com um movimento de mão, seu olhar sem medo, mas com uma certa diversão brilhando nos olhos.
— Agora é minha vez, Fred. Vou fazer ele se apaixonar, fazer ele se perder. E quem sabe, talvez até me beijar primeiro. Quando ele perceber o que fez, já vai ter perdido a aposta. Porque no final das contas, não é o que ele acha de mim que importa. É o que eu decido fazer com isso.
Fred a observou em silêncio por alguns segundos, a mente girando com a realização de que sua irmã estava no controle, mais do que nunca. Era assustador ver a calma com que ela havia se adaptado à situação, mas ao mesmo tempo, algo nele sentiu um profundo respeito. Ele sabia que ela estava jogando um jogo mental — e com ela, os jogos nunca eram simples.
— Você é assustadora às vezes, sabia? — ele disse, rindo levemente, mas com um tom que misturava admiração e um certo receio. Ela era implacável quando queria, e ele só começava a entender a profundidade disso.
Ela sorriu, seu olhar travesso brilhando.
— Obrigada. É bom saber que puxei a mamãe. — Ela se recostou na cama novamente, e com um movimento preciso, abriu novamente o notebook, mas agora, seus dedos dançavam sobre o teclado com um propósito muito mais calculado.
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