The Challengers (Lorcan Scamander/Roxanne Weasley)
2 Capítulo 2 - No Limite da Linha
O dia amanheceu límpido, o céu tingido de azul claro e o sol já derramando seu calor suave sobre as quadras de saibro. Um daqueles dias em que tudo parecia calmo demais — como se o universo, em um gesto irônico, quisesse fingir que nada estava fora do lugar.
Mas Lorcan Scamander sabia que estava.
Na quadra vazia, agachado próximo à rede, Lorcan girava lentamente o encordoamento da raquete, enquanto um funcionário do clube ajustava a tensão com precisão mecânica. Não precisava treinar. Só precisava estar ali. Em silêncio. Tentando entender o que, exatamente, havia mudado.
— Se você encarar essa raquete por mais cinco minutos, ela vai te responder — disse uma voz leve e familiar.
Lorcan ergueu os olhos. Lysander, seu irmão gêmeo, estava parado do outro lado da cerca, com as mãos nos bolsos e a expressão preguiçosamente divertida de sempre.
— Achei que você estivesse em alguma trilha no norte da Escócia — disse Lorcan, com um meio sorriso.
Lysander, ao contrário de Lorcan, nunca se interessou por tênis. O gêmeo era mais voltado para viagens, para se perder em suas próprias descobertas ou explorar novos lugares. Sua personalidade tranquila e sonhadora contrastava com a competitividade incansável de Lorcan, mas, de algum modo, eles sempre se entendiam bem.
— Voltei ontem — respondeu Lysander, dando de ombros. — E pelo visto o mundo real não mudou muito. Você ainda leva tudo isso como se dependesse da sua vida.
Lorcan bufou, voltando o olhar para a raquete.
— Tenho uma competição em duas semanas.
— Não foi disso que eu estava falando.
Lorcan não respondeu. Sabia onde aquilo ia dar. Era impossível fugir das pontuações do irmão, sendo que ele parecia sempre sacar tudo o que Lorcan estava sentindo antes mesmo de ele sequer pensar em algo.
Lysander se sentou ao lado dele.
— Você fica estranho quando ela está por perto, sabia? — disse, casualmente. — Fica com essa cara de quem perdeu a final de Wimbledon e ainda não entendeu por quê.
— Ela é só... irritante — Lorcan respondeu, desviando o olhar.
— Engraçado. Achei que você gostasse de gente competitiva.
Lorcan ergueu os olhos de novo, agora com um leve brilho de impaciência.
— Não tem nada a ver.
Lysander deu um sorriso de canto, como quem sabe que tem razão, mas prefere não dizer em voz alta.
— Se você diz.
Antes que Lorcan pudesse rebater, uma terceira voz cortou o ar, carregada de gravidade.
— Scamander.
Lorcan se ergueu num instante. George Weasley, pai e treinador de Roxanne, estava a poucos passos, parado como uma sombra imponente à beira da quadra. O sol atrás dele desenhava contornos duros em seu rosto, como se até a luz preferisse manter distância. George era um ex-jogador profissional e agora treinava não apenas a filha, mas vários outros jogadores do clube. A proximidade com o pai a tornava ainda mais determinada e implacável em quadra. Para ela, perder não era uma opção — especialmente não contra alguém como Lorcan.
— Vejo que está levando os treinos a sério — disse George, sem sorrir. — Ainda bem. Vai precisar de foco. Minha filha não costuma perdoar distrações.
Lorcan endireitou-se, mantendo o tom calmo.
— Estou sempre preparado, senhor Weasley.
George estreitou os olhos por um instante. Avaliando. Pesando.
— Ótimo. Espero que o jogo não seja tão... envolvente.
Ele virou-se antes que Lorcan pudesse responder, deixando para trás um rastro de tensão tão denso quanto o calor no saibro.
— Cordial como sempre — murmurou Lysander.
Lorcan permaneceu em silêncio, os ombros agora mais rígidos, e pensando no que o homem queria sugerir com aquelas palavras.
Mais tarde, quando o clube começava a se encher com os jogadores do turno da tarde, Lorcan a viu. Roxanne caminhava ao lado do irmão, Fred, rindo de algo que ele dizia.
Roxanne vestia um short azul-marinho que deixava à mostra suas pernas douradas pelo sol, e prendia o cabelo com uma faixa nova, delicadamente posicionada, como se tivesse passado horas se arrumando só para parecer que não se importava. Ao avistar Lorcan, ela parou por um instante — os olhos cravados nele com um brilho divertido — enquanto Fred, alheio, seguiu em frente sem perceber que a deixara para trás. Então, com um sorriso ladeado de intenção, Roxanne começou a se aproximar, os passos lentos e leves demais para serem inocentes. Lorcan franziu levemente a testa, surpreso com a forma repentina como seu coração disparou no peito, como se seu corpo tivesse entendido algo que sua mente ainda não havia processado.
— Está aqui de novo, Scamander? Vai treinar todo dia até aprender a me vencer? — disse, parando à frente dele, os braços cruzados.
— Estava, na verdade, esperando você vir me desafiar de novo — Lorcan respondeu, sem desviar o olhar.
Ela sorriu. Não o tipo de sorriso que aquecia o ambiente, mas o que acendia uma brasa escondida.
— Só quero ter certeza de que você está preparado para perder com estilo.
— Um ego desse tamanho nunca é bom. Pode atrapalhar na devolução de saque.
Ela deu um passo mais perto. O brilho nos olhos dela não era só de desafio. Era alguma outra coisa, mais difícil de nomear. Como se cada provocação fosse uma forma torta de dizer o que não se dizia em voz alta.
— Isso a gente vai descobrir.
Lorcan virou-se para a quadra, como se aquilo encerrasse a conversa. De certo modo, encerrava mesmo.
Ela o acompanhou com o olhar, o rastro de areia fina ficando para trás de seus tênis. A quadra estava ali, sim. Mas os limites do jogo entre eles já tinham sido ultrapassados fazia tempo.
Fale com o autor