Quando Eva abriu os olhos, a visão de um teto desconhecido a deixou inicialmente confusa, mas quando recordou o que havia acontecido antes, rolou e caiu da cama, desesperada. Rapidamente se levantou, olhando ao redor atentamente, não reconhecia nada. Cuidadosamente, a mulher se sentou na cama e tentou processar todas as coisas que atormentavam sua cabeça agora.

Garou era uma assassino. Ele matou alguém.

Lembrando-se da cena, sentiu um arrepio correr pela sua espinha e seu corpo estremeceu; seu namorado, o namorado perfeito que pensou que tinha, de repente se transformou em um assassino de sangue frio, que nem piscava ao puxar o gatilho tantas vezes para ceifar a vida de uma pessoa. Não conseguia tirar a cena de sua mente, dos olhos gelados e sem emoção que olharam para ela, a última imagem que viu antes de colapsar. Onde quer que ela estivesse, teria que fugir imediatamente.

Decidida, estava pronta para escapar, contudo, seu coração disparou quando escutou alguém do outro lado da porta e a Fernandes congelou. A porta se abriu lentamente, os olhos da mulher fixos naquela direção e ela rapidamente agarrou o abajur que estava em cima da escrivaninha ao lado da cama, mas ao contrario do que imaginou, foi uma garotinha de curtos cabelos negros que se revelou.

— O-Oi… — cumprimentou, surpresa ao ver a jovem adulta segurando o objeto como se fosse uma arma.

— Oi… — Eva ficou atordoada por alguns segundos ao ver a criança e quando percebeu que estava em posição de ataque, rapidamente soltou o abajur. — Oh, uh, oi!

A menina, que se chamava Zenko Silver, sabia que não deveria estar ali, contudo, ao escutar que seu tio havia trazido uma mulher consigo, ela não se conteve e teve que dar uma olhada, afinal, ela era a única garota nessa família e muitas vezes não podia contar com ninguém aqui.

— Você é bonita. — elogiou a Silver, sorrindo e entrando no quarto, deixando a porta encostada atrás de si.

Diziam que as crianças e os bêbados eram as pessoas mais sinceras, e a morena acreditava nisso.

— Obrigada, você é muito bonita também. — disse, sorrindo levemente e quase se esquecendo da situação em que se encontrava. Ela adorava crianças.

Zenko abriu um outro sorriso, um maior dessa vez, e andou até a cama, sentando-se no colchão macio. Suas pernas curtas ficaram penduradas e para fora e as balançou de leve.

— Você é a namorada do tio Garou, não é? — indagou, um pouco entusiasmada.

— Sim, eu… — parou, recordando novamente das coisas que haviam acontecido. Então, olhou seriamente para a pequena. — Onde… Onde estou? — perguntou, com cuidado.

— Na nossa casa…? — confusa, ela respondeu.

Olhando mais uma vez ao redor, como se estivesse duvidando de seus olhos, avaliou cada centímetro do quarto bem limpo e organizado. Essa não era a casa de Garou, pelo menos não era a casa que ela conhecia e sentiu seu coração acelerar mais uma vez. Para onde ele havia a levado? Ele não seria capaz de fazer algum mal para ela, seria? Sua cabeça estava uma bagunça completa, mas não queria ficar aqui para colocá-la em ordem.

Seu olhar disparou pela janela, era uma fuga, não usaria a porta principal, só Deu sabia o que a esperaria lá. Andando apressadamente até a grande e longa fenestra, a empurrando com força e soltou um grito quando seu corpo foi para frente, logo se agarrando nas cortinas para não revirar e cair.

— Ei! — A menina rapidamente foi até Eva, agarrando a perna dela. — Você vai cair!

Seu coração quase saiu pela boca e a moça olhou para baixo, estava no maldito terceiro andar de um casarão. E o que diabos de janela era essa que não tinha uma única proteção? Amaldiçoou em sua mente quem havia feito tal coisa. Sem perder tempo, foi até a cama e pegou o lençol da cama, se enrolando nele.

— O que você está fazendo?! — Zenko estava sendo arrastada pela mulher, pendurada na perna dela.

— Eh, sobre isso… — olhou para baixo, sentindo pena da garota que a olhava assustada. — Eu vou pular agora, okay? — disse, seu tom suave na tentativa de tranquilizar ela.

— Pular?! Não, você vai morrer!

“Vou morrer se eu continuar aqui!” pensou, olhando para a cortina e estava prestes a amarrar o cobertor nela, mas seu olhar se desviou para a porta, seu corpo congelando.

Sentindo o corpo rígido da mulher, a criança virou a cabeça e se deparou com o seu tio, Garou. Lentamente, ela soltou a perna da Fernandes e se afastou um pouco.

— Zenko, venha aqui. — Garou chamou a garota, seus olhos fixos em Eva, desviando apenas por um momento para olhar para a sobrinha quando ela foi até ele. — Agradeço por fazer companhia para a minha namorada. — falou, sua mão acariciando de leve a cabeça da menina. — Agora vá. — Foi uma ordem clara e ela sabia que não deveria desobedecer seu tio.

A Silver olhou brevemente para Eva, notando que algo estava errado, mas não podia fazer nada e virou o rosto, ignorando o olhar que implorava para ela ficar. Quando estava prestes a sair, escutou novamente a voz do homem de cabelos prateados.

— Diga para alguém mandar aquilo.

A morena sentiu seu coração parar, não teve um bom pressentimento quando escuro aquelas palavras e então, o barulho da porta se fechando encheu o lugar antes de um silêncio incômodo e cheio de tensão tomar conta do ambiente; Logo ele deu um passo para frente e ela um para trás, os olhos dele se arregalando com a possibilidade dela cair.

— Espere, Eva…!

— Não! — exclamou, esticando sua mão e fazendo sinal para ele não se mover, não se aproximar. — Fique onde você está!

— Vamos conversar, tudo bem? Vou te explicar tudo o que aconteceu. — Ele disse, sua voz se suavizando, tentando deixá-la calma, deixá-la sob seu controle.

A Fernandes o encarou com desconfiança, eles supostamente deveriam conversar, ela precisava de uma explicação para tudo o que estava acontecendo., entretanto, não era isso o que ela queria agora; queria voltar para a sua casa, para o seu conforto e pensar no que deveria fazer.

— Eva —, a chamou, esticando a mão na direção da mulher, como se ele fosse o mesmo Garou que ela conhecia. — Venha aqui, seja uma boa garota e venha aqui.

Por um momento, a mulher de olhos cor-de-mel sentiu seu coração agitar, a imagem do homem que amava estava estendendo a mão para ela, querendo resolver as coisas e inconscientemente ela deu um passo para frente. De repente, os olhos dourados dele mudaram e ela voltou a si, contudo, não conseguiu recuar, afinal, essa era a oportunidade que ele estava esperando, aquela pequena brecha em seu coração. Ele avançou em passos largos e rápidos, a alcançando e um de seus braços rodeou a cintura da jovem.

— G-Garou! Me solte! — gritou e quanto mais se contorcia, mais forte ele segurava contra si.

O cheiro dele encheu suas narinas, o cheiro forte de menta e canela que tanto adorava e ela sentiu vontade de chorar; sentia-se enganada, iludida e desamparada, estava revoltada. Tudo o que conhecia dele era uma fachada, eram mentiras, ele nem sabia que ele tinha uma sobrinha tão adorável assim, ele havia dito que era órfã.

O prateado fechou firmemente a ventana, soltando uma maldição pelo perigo que fez a sua garota passar. Ele puxou o fio que amarra as cortinas e as deixou cobrir a grande janela, escurecendo mais a sala.

— Eva…

— Cala a boca! Não diga meu nome! Me deixe ir!

Os gritos dela eram como uma faca em seu coração, cada sílaba o rasgando de um jeito que ele jamais pensou que poderia ser capaz, e o pior de tudo, era que ele merecia cada maldita rejeição vindo dela. Não havia como ele acalmá-la agora, não teria como convencê-la com suas palavras doces e sussurros suaves. Ele se sentia um monstro com o que ele estava prestes a fazer, porém não havia outro jeito.



Quando escutou alguém bater na porta, ainda a segurando como se as insistentes tentativas dela de afastá-lo não fosse nada, foi até a porta abriu uma fresta, o suficiente para pegar o que quer tinha na bandeja que uma das empregadas que trabalhavam na mansão, estava levando.

— Garou! — gritou novamente, seu rosto estava pressionado contra o peito duro e definido do homem.

Fechando a porta com o pé, ele a afastou com cuidado, sua mão ainda permanecendo na cintura delgada da morena.

— Me desculpe, amor. — lamentou, deixando-a confusa antes de empurrar ela contra a cama.

Os olhos de Eva se arregalaram quando o viu subir em cima dela, a cama afundando com o peso dele, lançando uma sombra imponente na jovem que, de repente, se sentiu pequena. O homem praticamente se sentou sobre os quadris da Fernandes, enquanto segurava uma garrafa com água e um frasco de remédio com uma das mãos;a camisa preta era colada em seus músculos bem trabalhados.

— O que… O que você vai fazer? — perguntou, sentindo o medo paralisar seu corpo.

Garou odiava a forma como ela o olhava, o medo que irradiava de cada fibra do corpo que ele tanto adorava e venerava. Seus olhos se estreitaram, a culpa visível neles enquanto ele sussurrava e implorava por perdão. O Silver abriu o frasco e o virou, jogando algumas pílulas na boca e depois jogando o pote para trás, fez a mesma coisa com a água antes de se inclinar.

A reação da mulher foi tardia e inútil, tentou afastá-lo com as mãos, entretanto, ele agarrou seus pulsos e o prendeu contra a cama, seus lábios colidiram com os dela, passando os remédios e o líquido para a boca de Eva em um beijo cheio de culpa e remorso. Quando se afastou, viu o rosto de sua amada; as lágrimas que escorriam do canto de seus olhos e a boca ligeiramente aberta, a ponta do nariz levemente vermelha.

— Sinto muito, amor, por favor, não me odeie… — implorou, passando a mão grande e calejada no rosto macio dela.

— O que você…

— Sshh… — A silenciou com o dedão que começou a acariciar seus lábios, aqueles que ele sempre achou tão doces e deliciosos.

Eva sentiu sua visão ficar borrada, sua mente começando a ficar em branco. O prateado inclinou-se novamente sobre ela, seus lábios indo em direção a testa dela, contudo, ela usou suas últimas forças para virar o rosto, rejeitando o afeto dele. Suspirando baixinho, beijou a têmpora de sua namorada, sussurrando:

— Prometo que isso será apenas uma fase e podemos ser felizes novamente, eu prometo… — depositou um beijo na região da orelha dela. — E se você não me amar agora…

Ele sabia, sabia que se os sentimentos dela não fossem os mesmos depois do pior dele ter sido revelado, ela nunca o amaria novamente, nunca mais eles dois…

— Não. — Foi uma recusa simples. Não havia como isso acontecer. — Você vai me amar, como sempre amou.

Era uma corrente que ele faria questão de se sufocar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.