The Call

5 É não te ver e amar-te, como um cego.


Notas iniciais
O trecho que nomeia o capítulo é do poema "Não te quero senão porque te quero" de Pablo Neruda. Se eu pudesse colocaria os poemas de onde tiro os trechos, por que eles são lindos, mas acho que isso é contra as regras do Nyah. Eu acho. Como a fic é curta, os acontecimentos são um tanto mais acelerados do que em outras histórias que escrevo.

Fui dormir a pensar na Lane. Agora tinha uma imagem mental dela e aquilo me excitou demais. Queria ter tido coragem de convidá-la para um encontro. Queria conhecê-la pessoalmente. Mas ainda tinha meu namoro sem definição com a Lori, e não queria estragar uma amizade que estava a nascer por que meus hormônios estavam em ebulição.

Quando liguei no dia seguinte, o número da Lane respondia com um sinal irritante, daqueles que indicam que o número está ocupado, ou não existe. Achei que ela devia estar no show da amiga e desligou o celular. Como nunca tive um celular, não sabia como funcionavam, por isso não insisti.

Tentei novamente por volta das onze e ela atendeu. Parecia ansiosa, o que me deixou satisfeito como o inferno.

Basicamente conversamos sobre o show da amiga, o jogo do Shane, que eu tinha assistido aquela tarde, e no quanto meu amigo tinha mandado bem. Contei que meus pais retornavam na segunda, o que queria dizer que ia levar a maior bronca por não ter contado sobre meu acidente.

E levei.

Mas não contei que tinha sido culpa do espírito bagunceiro do Jeff.

Nos despedimos muito depois da meia noite. Ela iria trabalhar cedo, e não queria deixá-la acordada mais tempo.

Tivemos muitas outras conversas. Não todos os dias. Gastaríamos demais. Eu achava. Mas dia sim dia não ela ligava, ou eu entrava em contato.

Com meu pé quebrado, minha vida ficou restrita a faculdade. Minhas tentativas de conseguir um emprego estavam arruinadas, por enquanto, e o Shane tinha se tornado titular do time, o que impedia que ele tentasse achar um emprego também.

Depois de duas semanas da primeira ligação com Lane, procurei por Lori. Liguei e pedi que me encontrasse em uma lanchonete que frequentava muito com ela e Shane, mas ela preferiu vir a minha casa.

Eu não tinha entrado em contato com ela por quinze dias e me parecia que tinha se passado uma vida. Na minha mente e coração já não éramos mais um casal. Aquele pedido de tempo que ela impôs em nosso relacionamento, algo que achei ruim no começo, parecia uma benção agora. Me fez ver que ela e eu não daria certo.

— Seu pé está melhor? — Ela me perguntou entrando, olhando em volta e percebendo que estávamos sozinhos.

— Está melhor. Mas ainda vou precisar usar uma bota ortopédica assim que tirar o gesso.

— Não achei que tivesse sido tão sério.

— Se tivesse vindo me ver, saberia. — Respondi muito sério.

Lori era linda, mas só nas últimas semanas percebi o quanto ela podia ser uma pessoa egoísta. Me acidentei e ela não veio me ver, nem mesmo ligou depois que lhe avisei sobre o ocorrido. Diferente dela, a Lane sempre me perguntava como estava. Às vezes ligava só para saber isso e me dar um boa noite.

— Estava cheia de problemas, Rick.

Olhei para ela e Lori parecia abatida. Mais magra que o habitual, com olheiras. Talvez os problemas dos pais não tenha se resolvido.

— Eles vão se divorciar. — Ela me contou, quando perguntei, sentando no sofá e me ajeitei ao seu lado.

— Sinto muito.

— Meu pai tem uma amante e minha mãe descobriu. Foi o inferno.

— E você, como se sente?

— Não sei o que fazer. Minha mãe vai se mudar para Macon, meus avós ainda estão lá, e ela quer que eu vá com ela. Mas não quero sair de Atlanta. Minha vida é aqui, meus amigos estão aqui, você está aqui.

— Não teria como ficar com seu pai?

— E a amante dele? — Lori deu um muxoxo e secou as lágrimas. — Não poderia. Acho mesmo que ele não iria gostar nada.

Não sabia o que dizer, por isso fiquei calado.

— O pior, é que, se for com ela, como vamos ficar?

Foi ali que as palavras sumiram de vez. Fiquei sem saber se apontava a verdade de nossa situação, ou tentava amenizar as coisas.

Sempre fui muito sincero em meus relacionamentos, por isso a verdade seria o único caminho a seguir.

— Lori. — Segurei sua mão. — Há quase um mês você disse que devíamos dar um tempo, que sua vida estava muito complicada, e não podia lidar com mais nada naquele momento.

— Eu sei o que disse Rick, mas estava confusa, preocupada com meus pais.

— Sei disso. — Engoli em seco. — Mas você terminou nosso namoro, e não falou comigo durante todo esse tempo.

— Mas estou aqui agora.

— Mas eu não estou. Pelo menos, não para voltarmos.

— O que... O que você quer dizer com isso?

Engoli em seco e afastei minhas mãos das dela.

— Que na estamos mais juntos há muito tempo e que seria melhor terminarmos

— Isso é uma brincadeira?

— Lori, você me conhece o bastante para saber que não brincaria sobre isso.

— Rick, eu precisava de um tempo, não quero que terminemos.

Ela tentou segurar minhas mãos novamente, mas me afastei.

— Desculpe, Lori. — Falei muito sério, a encará-la contrito.

Ela me olhou muito séria também, se ergueu agarrando a bolsa e rumou em direção à porta. Virou com a mão na maçaneta e me encarou a chorar.

— Nunca pensei que você fosse alguém tão insensível e egoísta. Nunca imaginei que iria me abandonar em um momento como esse.

E saiu, batendo a porta.

Bem... Foi mais fácil do que eu tinha imaginado.

A Lori era uma garota intempestiva, por isso achei que ela armaria um escândalo. Mas ela não devia estar tão interessada em manter a nossa relação, por isso bancou a ultrajada e nada mais.

Encontrei o Shane aquela tarde, ele apareceu em nosso apartamento, e ficamos até tarde a estudar e conversar. Contei sobre o fim do meu namoro com a Lori assim que ele entrou em meu quarto com duas geladas.

— Já não era sem tempo. — Ele soltou dando um gole em sua cerveja. — Você e aquela garota não tinham nada em comum.

— Pensei que você gostava dela.

— E gosto. Ela é gente boa. Mas não é a garota certa pra você.

— Posso saber por quê? — Perguntei tomando um longo gole da cerveja que ele me deu.

— Pra começar, ela é muito controladora, e você é um cara que gosta de dominar. Digo isso no bom sentindo. — Ele falou rindo e se sentou na cama, na ponta contrária a que eu estava. — Ela sempre estava querendo mandar em você, e isso com o tempo não ia dar no que presta.

— Lori nunca agiu assim.

— Isso por que ela tentava ser sutil e você não ligava, por que estava apaixonado.

— Percebia tudo isso e nunca me disse nada?

Estava surpreso com o Shane, geralmente ele não evitava dizer o que pensava.

— Quando foi que me meti em seus namoros?

— Clair Malick, oitava série.

— Ok. — Ele afastou a cerveja dos lábios, ergueu a mão e apontou o indicador em minha direção. — Aquela traíra estava te enganando com o idiota do David Smith. Não ia ficar calado sabendo disso.

— Fico feliz que tenha me dito. Quase a levei ao baile e banquei o bobo na frente de todos.

O Shane tinha me contado sobre a traição de uma namorada, e ainda arranjou com que duas garotas do primeiro ano nos acompanhassem ao baile naquela ocasião.

Garotas um ano mais velha que nós. Bonitas, divertidas, que acabamos levando para a casa do Shane depois do baile — o pai dele estava viajando — o que resultou na perda de minha virgindade naquela noite maravilhosa.

Bons tempos.

Liguei para Lane aquela noite, mas não contei sobre o término do meu namoro. Não queria apressar as coisas. Mas estava feliz, me sentia livre da Lori e da obrigação de sempre me policiar quando conversava com a Lane.

Só decidi, e tomei coragem, de tentar um novo passo com a Lane quando nossa estranha amizade completou um mês.

Naquela noite Shane quis me levar para uma festa de fraternidade, mas recusei e ele acabou comprando algumas cervejas e fomos para minha casa. Tomei duas, mas o Shane se embriagou com as outras quatro. Dessa vez ele ficou quando o convidei para passar a noite. Se acomodou no sofá, e meus pais ficaram contentes dele ter ficado.

Eles adoravam o Shane.

Enquanto eu e o Shane conversávamos, pensava na Lane. Tinha muita vontade de chamá-la para sair, mas o meu caso não resolvido com a Lori me impedia todas às vezes.

Agora, não mais.

Lane era a garota mais divertida com quem eu já tinha conversado nessa vida. Mais velha e um pouco mais culta que as jovens com que eu já namorei. E, o mais maravilhoso, sempre me escutava como se realmente se importasse com o que eu dizia.

Eu queria conhecê-la. Angustiava-me com a ideia de vê-la pessoalmente, fitar seus olhos e descobrir se sua voz era tão deliciosa quanto soava pelo telefone.

Uma vez conversamos até o dia amanhecer.

Ela me contou muito de sua vida na cidadezinha onde nasceu. Que adorava interpretar. Nada de filmes, ou sonhos hollywoodianos, ela queria atuar no teatro. Disse que amava a sensação de ter o público bem ali, próximo e a avaliar seu desempenho. Ao vivo, com algo real onde a emoção era tudo.

Eu lhe contei do meu sonho de ser advogado, sobre muito mais de minha amizade com Shane e do como desejávamos abrir uma firmar juntos. Ainda era um sonho distante, levaríamos seis anos até conseguir nos graduar, mas era nosso objetivo e estávamos empenhados nele.

Eu estava completamente fascinado pela Lane, por isso, resolvi arriscar.

Talvez Lane e eu nos tornássemos apenas amigos. Quem poderia saber o futuro? Mas nunca me senti tão atraído por uma garota, não desse jeito.

E nem mesmo tínhamos nos visto.

Assim que Shane capotou no sofá, rumei para o quarto e liguei para Lane. Combinamos que sempre seria algo em torno das dez horas. No que era interessante, por que a Lane disse que tentou me ligar algumas vezes do trabalho, mas a ligação nunca completava.

Estava quase a ligar pra você. — Lane disse rápido, animada.

— Aconteceu alguma coisa?

Lembra que te contei que estava tentando o papel em uma peça?

— A que seu professor será o Diretor? Claro.

Ela fez mistério, depois falou rápido.

— Consegui o papel da coadjuvante.

Lane parecia estar dando um pequeno ataque de alegria do outro lado, por que eu podia ouvir a cama gemer com sua agitação.

Acho que ela estava dando pulinhos.

— Meu Deus, Lane. Parabéns!

— Não tentei o papel principal, por que sabia que eu não me encaixava de jeito nenhum na visão que meu professor tinha da personagem, mas a coadjuvante... Rick, eu sei que posso representar essa mulher.

— Tenho certeza que sim.

Estou tão feliz. É a primeira vez que o Sr. Owen me dá uma chance. No verão passado ele fez uma crítica horrível depois do meu teste. Disse que era para o meu próprio bem. Mesmo assim, chorei rios.

Ela suspirou e ficou muito calada.

Quase podia vê-la a sorrir ainda sem poder acreditar que seu sonho dava os primeiros passos para se realizar.

— Estou muito feliz por você.

Obrigada. — Sua voz estava mais atraente que nunca. — E sabe o que é mais legal?

— O quê?

Foi o melhor presente de aniversário que eu poderia ganhar hoje.

— Merda! — Soltei atônito. — Desculpe.

Tudo bem.

— Não sabia que era seu aniversário. Por que não me disse?

Não queria te contar que iria ficar mais um ano mais velha que você.

— Eu faço dezenove daqui a dois meses, vamos manter a diferença de três anos pra sempre.

Ela achou graça, mas eu estava frustrado.

Há muito tempo que não comemoro meu aniversário. Ano passado nem me lembrei. — Ela fez uma pausa, depois continuou. — As meninas do trabalho, lideradas pela Maggie, me fizeram um surpresa. Teve um bolo e me obrigaram a apagar as velinhas. Cantaram para mim e toda essa baboseira.

— Deve ter sido divertido.

Não para o meu chefe. Ele ficou puto da vida. Acabamos atrapalhando o serviço do Café. — Ela pareceu dar de ombros, pelo menos foi o que achei pelo tom de sua voz. — Não me importei, por que até os clientes entraram no clima e cantaram os parabéns.

— Deve ter sido um acontecimento.

E foi. — Ela disse. — Tinha uma senhora, uma cliente regular, que ficou sabendo com antecedência e me entregou um presente.

— Legal!

Um homem também, que nunca tinha aparecido, me entregou uma rosa do buquê que carregava. Acho que ele estava esperando alguém, mas a pessoa não apareceu, por que ele saiu logo depois e parecia muito triste. — Ela contou. — Odeio quando esse tipo de coisa acontece. E, acredite, já vi acontecer muito desencontros naquele Café.

— Quer me deixar com ciúmes? — Falei só prestando atenção a informação de um cara qualquer, quem sabe, dar em cima dela.

Por que ficaria? O cara deveria ter quase quarenta. Bonito, mas um tanto velho pra mim. — Calou um segundo e pareceu hesitar, mas continuou. — Além do mais, você tem namorada e somos amigos, por que se importaria?

— Não tenho mais namorada. — Falei a sentir o coração a querer sair pela boca. — Lori e eu terminamos.

Aquela era à hora da verdade e eu estava alto o suficiente para esquecer minha timidez e arriscar um novo passo com a Lane.

Vocês terminaram mesmo? — Ela perguntou após muito tempo em silêncio.

— Sim. Ela tinha me pedido um tempo mais de um mês atrás, e descobri que não devíamos voltar.

Não me contou que ela tinha pedido um tempo.

— Não quis misturar as coisas. Parecer que estava dando em cima de você.

Mas está me contando agora.

Foi minha vez de ficar em silêncio.

— Por que adoro nossas conversas e desejo muito mais do que esses momentos com você pelo telefone.

Tinha falado rápido, o coração aos pulos, morto de medo.

Rick... — Ela soprou espantada. — Eu...

— Ok, sei que sou mais novo, mas só são três anos...

— Isso de você ser mais novo não importa pra mim.

Respirei fundo.

— Que bom! Por que para mim também não importa que seja mais velha. — Molhei os lábios por que estavam secos. — Gosto de você Lane. Gosto de conversar com você, ouvir sua voz, e cansei de imaginar seu rosto. Quero te ver.

Agora, prendi a respiração.

Também quero te ver. — Ela respondeu.

Meu Deus! Estava acontecendo. Pensei feliz, meu coração disparado, animado, por que a Lane também parecia interessada em mais do que uma amizade.

— Podíamos nos encontrar nesse sábado após seu turno? Se estiver preocupada, nem saímos do Café.

Não estou preocupada.

— Todo cuidado é pouco. É o que minha mãe sempre me diz. Ainda sou um estranho, vou entender se não confiar o bastante para fazermos um programa, ir ao cinema, ou algo do tipo.

Eu ia adorar ir ao cinema com você. — Ela disse de um jeito que fez meu corpo estremecer de desejo.

Até aquele ponto tínhamos tido uma relação platônica. Muito, por que eu escondia o máximo que podia meu desejo por ela. Mas o tom da Lane não deixava dúvidas de que ela estava tão interessada quanto eu, apesar de ainda poder sentir suas reservas.

— Então o que é? Você nunca quis que trocássemos informações pessoais, mas posso mudar isso agora mesmo.

Rick...

— Tenho dezoito anos, mas isso você já sabe. Estudo Direito e moro na...

Rick?! — Ela me interrompeu.

— Sim?

Eu adoraria me encontrar com você.

Respirei aliviado, fechei os olhos e passei a mão no cabelo.

— Sábado?

Sim.— Ela concordou. — Pode ser na cafeteria em que trabalho.

— Vai me contar onde fica? Acredite, tenho procurado por uma atendente chamada Lane em todas as cafeterias desde nossa primeiro ligação.

Era verdade.

O Shane não entendia essa minha nova obsessão por café.

Mas tenho que te dizer uma coisa antes.

— O quê?

Aquilo que te contei sobre minha aparência, não foi uma descrição verdadeira.

— Você não é loira?

Na verdade, não uso óculos, nem estou acima do peso e sou um pouco alta demais para meu gosto.

Fiquei em silêncio por um momento, por que toda a minha imagem mental da Lane estava se desfazendo.

Eu achava que todo o medo dela em revelar mais de seu lado pessoal, e aquilo de mantermos um relacionamento apenas por telefone, tinha haver com algum tipo de inibição por ser alguém fora do padrão de beleza atual. Mesmo que aquilo não importasse pra mim, compreendia que deveria importar para ela, por isso, e pela Lori, nunca pedi que nos conhecêssemos pessoalmente.

— Sabe que nunca me importei com sua aparência.

Percebi isso quando continuou me ligando.

— Adoro conversar com você Lane. — Eu já tinha dito, mas queria que ela soubesse que meu interesse era nela, e não me importava como ela pudesse ser fisicamente.

Ela me passou o endereço do café e ficamos de nos encontrar às sete.

Não combinamos nada para nos identificar, por que eu estava com o pé engessado e não tinha como ela confundir-me com outro rapaz. Pelo menos, não com muitos.

Não conversamos nada mais. Apenas dissemos boa noite. Pela primeira vez, como duas pessoas atraídas e não como amigos.

Faltavam três dias para o sábado e não sabia se iria aguentar esperar tanto tempo.

Notas finais
OBS: Isso aqui é uma ficção, ao contrário do Rick e da Lane, na vida real não é muito seguro marcar encontros com estranhos. Valeu? Todo cuidado é pouco hoje em dia.