The Call
8 Mas que seja infinito enquanto dure.
Notas iniciais

Ele desligou e quase tive um ataque.
Rick estava certo. Não por que fosse mais velho, mas sim por que não seria justo com ele. Vinte anos era muito tempo.
Mas não queria que nossas conversas terminassem. A ideia de nunca mais ouvir sua voz, de rirmos juntos com suas histórias sobre Shane e seu irmão, de nunca vê-lo, ou tocá-lo, eu não podia aceitar.
Liguei novamente.
Ele não atendeu.
Eu tinha tentado ligar para ele durante a noite inteira e o dia seguinte, mas Rick nunca atendia. Ele tinha colocado um ponto final em nossa história. Queria que algo que nem tinha chegado a desabrochar, morresse.
Eu não podia aceitar.
Eu o amava.
Soube disso no momento em que ele não apareceu ao nosso encontro e quase senti meu coração despedaçar.
Eu tinha me apaixonado pelo garoto de fala arrastada, por sua personalidade realista e auto-depreciativa, pela forma como ele dizia meu nome e sempre estava a me incentivar.
Pensei no estranho de nossa situação e me recriminei por não perceber antes que algo estava errado. Só conseguíamos nos falar quando estávamos naquele quarto, ele não tinha celular, e nem entendia metade das minhas referências sobre filmes, ou qualquer fato da cultura pop dos últimos quinze anos.
Mas agora isso não fazia diferença. Nem o por que daquilo acontecer conosco me interessava.
Quando liguei pela terceira vez e ele não atendeu, saí do quarto e cacei uma ferramenta na cozinha, me aproximei da janela, contei os tijolos e comecei a escavar ali, até arrancar o tijolo e encontrar um pedaço de papel envolto em plástico.
Estava sujo, mas o papel dentro intacto.
Abri o saco, agarrei o papel, li e comecei a rir, depois a chorar.
“Lane.
Sempre vou te amar.
Rick.”
Ele escreveu como uma despedida, mas eu não estava disposta a perdê-lo.
Foram vinte anos e talvez ele já estivesse casado — Deus tenha piedade! — até mesmo morto. Entretanto, nunca poderia seguir em frente se não o encontrasse pelo menos uma vez.
Passava das dez, mas não me importei em acordar a minha vizinha da frente, uma senhora com mais de setenta anos. Eu sabia que ela gostava de assistir TV até tarde, por isso me senti mais livre para bater em sua porta.
— Lane? O que aconteceu querida? Você parece transtornada. — D. Izabel me disse preocupada.
— D. Izabel, anos atrás, no meu apartamento morava uma família, Um casal e dois filhos, Rick e Jeff, a senhora tem algum contato deles?
— Os Grimes?
— Não sei o sobrenome deles.
— O único Rick que morou no seu apartamento, que me lembre, foi o filho da Mary Grimes. — Ela explicou com voz trêmula. — Éramos muito amigas, mas perdemos o contato quando eles partiram.
— Não tem nenhum endereço deles, nada?
— Não querida.
A vontade de chorar retornou com força. Retive as lágrimas e me concentrei nas informações que eu possuía.
Rick Grimes. Esse era o nome dele. Um começo.
No dia seguinte consultei a internet e procurei por ele, mas não consegui nenhuma informação. Ele disse que estudava direito, mas não encontrei nada referente a um advogado chamado Rick Grimes.
O mundo era um ovo, e a internet estava repleta de informações sobre todos, mas sobre Rick? Nada.
Resolvi tentar o jeito antigo e consegui, no dia seguinte, uma lista telefônica. Encontrei alguns Grimes, R., cinco para ser exata, e resolvi visitar todos.
Maggie disse que aquilo era loucura, que era algo impossível de acontecer, que Rick devia estar me enganando, mas aquela mensagem estava escondida em minha parede, tenho certeza de que por anos, Rick não estava mentindo, aquilo era real e eu precisava encontrá-lo, nem que fosse para me despedir também.
O primeiro R. Grimes era um homem com mais de sessenta e fui embora assim que ele se apresentou.
O segundo estava viajando, no que menti e enganei para entrar em sua casa — sou boa atriz — dizendo que ele e meu pai eram amigos, e como meu pai tinha falecido recentemente, achei que ele pudesse ter algumas fotos antigas para um memorial que estava preparando.
A mulher era jovem, um tanto burra, e engoliu minha história.
Chegamos à sala e avistei muitas fotografias sobre a lareira. O homem tinha a idade certa, era bonito, de olhos azuis impressionantes, mas não senti nenhuma conexão com ele.
Aquele não era o meu Rick. Não podia ser.
— Sinto muito pelo seu pai. Mas o Robert nunca me falou sobre nenhum amigo chamado Dummont.
— Robert?
— Isso mesmo.
— Meu Deus! Desculpe-me por isso, mas o amigo do meu pai se chama Rick, devo ter me confundido quando procurei o endereço.
A loira peituda me olhou sem entender nada e saí dali o mais rápido que pude.
Ri muito no carro, mas meu ataque histérico não durou muito.
Dirigi para o próximo endereço. Tinha traçado uma rota, seguindo um itinerário com os nomes encontrados, e logo estava no terceiro R. Grimes de minha lista.
Não era ele também.
Comecei a me desesperar novamente. Só faltavam dois nomes na minha lista, e, caso não fosse nenhum deles, teria que expandir para outras cidades da Geórgia, o que também poderia dar em nada. E procurá-lo por toda a América seria uma missão quase impossível para uma garota de vinte e dois anos, com quase grana nenhuma.
Parei em frente ao edifício no centro, um prédio moderno, que não parecia com um lugar onde meu Rick viveria. O último da lista morava em um bairro de classe média, uma parte histórica da cidade, o que combinava muito mais com o Rick que conheci e com quem conversei.
Mesmo assim, resolvi arriscar.
Chamei pelo interfone e ninguém atendeu. Aguardei um pouco e tentei novamente.
Nada.
Fiquei do lado de fora por uma hora, aguardando que ele aparecesse ou estivesse de saída. Em meu coração achei que o reconheceria, iludida e romântica que sou.
Cansada, me aproximei de uma mulher que deixava o prédio com um carrinho de bebê. Banquei a boa samaritana, e me aproveitei para segurar a porta e me esgueirei no saguão do prédio.
Usei o elevador e logo estava no sétimo andar. Procurei pelo apartamento dele, um dos quatro daquele piso, e bati na porta com a cara e a coragem.
Ninguém apareceu.
Bati um tanto mais forte, e nada. Olhei as horas e imaginei que ele pudesse estar no trabalho.
Já tinha perdido quase duas horas, assim, achei que fosse melhor tentar o nome seguinte da lista, e voltar aquele depois.
Caminhei de volta para o elevador, descendo sozinha até térreo, e saí esbarrando de leve em um homem moreno e desatento que conversava com um amigo.
— Desculpe. — Falamos ao mesmo tempo e ele segurou meu braço.
— Tudo bem?
Confirmei com um aceno de cabeça e ele se afastou.
Era um moreno com cara de boxeador, e me encarou com algo de safado em seu olhar. Bonito, mas não de um modo convencional. Devia ter quase quarenta, mas era sarado, de um jeito gostoso, que o fazia parecer mais jovem. Tinha um nariz quebrado e orelhas estranhas, que no conjunto, não o desmereciam.
Não olhei para seu amigo, um engravatado levemente mais alto e delgado. Ele tinha entrado no elevador quando o moreno se desculpava, desatento também, por que lia alguns papeis. No entanto, assim que pedi desculpas ao moreno, ele ergueu os olhos e me encarou, já dentro do elevador, e com as portas se fechando.
Olhos azuis profundos em um rosto que não me era desconhecido.
Virei para partir, mas parei e voltei a encarar as portas do elevador. Assustei-me e meu coração disparou.
Eu conhecia aquele homem. Ele estivera no Café no meu aniversário e me entregou uma rosa. Estava tão triste, sozinho. E, o mais estranho, calado.
Ele não tinha dito nada, nem parabéns ou qualquer outra coisa.
Disparei pelas escadas. Sete lances, mas eu estava em forma. Cheguei ao sétimo andar e ele estava parado ao lado do amigo, e o moreno lhe dizia algo a gesticular e manter a porta do elevador aberta.
Eu estava ofegante pelo esforço, mas metade de minha agitação foi a certeza de que o tinha encontrado.
Aproximei-me e eles não me viram. Parei e fiquei a observar o perfil dele. O terno a lhe dar um ar distinto, muito diferente do adolescente que sempre imaginei. Os cabelos cortados curtos, o queixo forte, o nariz realmente grande, e os olhos com algo de tristeza, que percebi naquele dia no café.
— ... Deixa de ser um babaca e vai atrás da garota...
— Rick? — Chamei, interrompendo o moreno.
Ambos me encararam.
O amigo dele deu um passo para o lado, olhou para Rick, tocou em seu ombro, apertando a mão em um incentivo, e sumiu dentro do elevador.
Sei que ele fez isso tudo, mas não estava prestando atenção nele. Só tinha olhos para Rick. O vendo, realmente, pela primeira vez.
Era um homem, não o garoto com quem eu falei por tanto tempo. Mas bonito do que eu cheguei um dia a imaginar. Distinto, com um ar muito mais maduro que sua aparência.
Ele continuou calado e senti um aperto no peito. Aproximei-me um tanto mais e ficamos separados por menos de um metro. Rick me olhava tão fixo e calado, que estremeci imaginando se ele ainda se lembrava de mim.
Lembrava, claro que se lembrava! Ele tinha ido me ver no meu aniversário, se tivesse me esquecido não apareceria ali com um buquê de rosas vermelhas.
— Achei seu bilhete. — Molhei os lábios e passei a mão pelo cabelo. — E estive te procurando.
Ele afastou os olhos do meu rosto e engoliu em seco, depois me encarou ainda calado, os olhos um tanto vermelhos e úmidos.
— Rick... Eu... Droga. Você não pode dizer a alguém que a ama e depois sumir de sua vida. Deixar alguém se apaixonar por você e pensar que essa pessoa só vai te amar de determinada maneira. Pra você o tempo passou, talvez não se sinta do mesmo jeito, tenha encontrado alguém. Espero que não. — Eu falava aos arranques, agitada, nervosa. — E nada do que me disse importava. Eu ainda estaria aqui, disposta a tentar. Ainda estou. Eu teria esperado por você. Por que eu também amo você.
Ele sacudiu a cabeça e se aproximou um tanto mais, um pouco depressa demais, angustiado, me tocando e estreitando nossos corpos, o rosto à centímetros do meu.
— E quem disse que eu não esperei, Lane? — Ele falou em um sussurro, enfim, e pude ouvir muito do meu Rick em sua voz mais grave e máscula.
E foi o único que falou antes de segurar meu rosto e tomar meus lábios, desesperado, me estreitando ainda mais contra seu corpo, a me mostrar que às vezes, e somente às vezes, o destino pode encontrar caminhos inexplicáveis para unir dois corações.
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