The Bravest One
1 Runaway
Notas iniciais
Capítulo l — Runaway
Hadley Hunt sabia poucas coisas sobre sua vida, mas naquele momento, sua única certeza era de que não passaria a última semana de férias no orfanato Portas do Amanhã.
Ela se considerava uma boa fugitiva, já que praticava isso desde muito pequena. Claro que foi aprimorando, nas primeiras tentativas ela era pega antes de chegar ao final do quarteirão. Mas não tardou muito a demonstrar habilidades surreais que a fizeram concluir que havia nascido para fugir, ou simplesmente, não tinha nascido para morar no orfanato. A segunda conclusão é que mais tarde demonstrou ser verdadeira.
Sua história era vaga e igualmente comum. Obviamente não se lembrava, mas tinha sido deixada à porta do orfanato, enrolada em trapos muito sujos. Uma carta curta informava seu nome e implorava para que a acolhessem e a criassem. Hadley, então, não sabia nada sobre seus pais biológicos, de onde tinha vindo ou porque havia sido abandonada. Não tinha acesso à internet no orfanato senão nas aulas de informática, mas de forma ilegal ela buscou pelo sobrenome “Hunt”. Logo concluiu que seria quase impossível localizar sua família, pois havia centenas de pessoas com esse nome no condado. Talvez aquele nem fosse seu sobrenome original e de qualquer forma não se importava. Quem quer que a tivesse abandonado não a queria e portanto, Hadley decidiu que também não seria importante para ela. Aprendeu cedo a não mendigar amor.
Foi uma infância complicada e infeliz. Ela tinha poucas lembranças — para não dizer nenhuma — de seus primeiros cinco anos de vida. Às vezes ela achava que eles não tinham existido. Dos cinco anos em diante as memórias não eram nada felizes, de forma que Hadley muitas vezes, também preferia fingir que elas não tivessem existido.
O orfanato Portas do Amanhã não era, nem de longe, um lugar decente para uma criança viver. Lar de órfãos problemáticos e governantas maldosas, Hadley cresceu aprendendo a correr das crianças mais velhas e a dormir com a sensação de que apanharia no meio da noite. Roubavam-lhe comida, roupas e quando ela tinha algum, brinquedos. As governantas nada faziam e Hadley rezava para o dia em que uma família carinhosa viesse busca-la. Mas era estranho, as crianças não passavam tanto tempo assim no orfanato, ela no entanto, não ia embora nunca. Descobriu pelas governantas que tinha uma doença rara, de difícil tratamento e ninguém queria adotar uma criança com problemas sérios de saúde. Ela não compreendia. Sentia-se perfeitamente bem, até que um acontecimento um tanto surreal mudou o rumo de tudo que ela conhecia.
Poucos segundos antes da garota gorducha segurá-la pelo pescoço e lhe dar um soco no nariz, Hadley fechou os olhos demoradamente e quando os abriu, estava segura debaixo de sua cama. Ela não conseguia acreditar ou explicar como havia feito aquilo. Naquele momento, teve certeza de que as crianças do orfanato a infernizariam ainda mais. Mas no dia seguinte, nenhuma delas parecia se lembrar do que havia acontecido. E a situação se repetia, ela desaparecia em um ponto e tornava aparecer em outro completamente diferente, e ninguém se lembrava. Começou então a tirar proveito daquela habilidade. Aprendeu que poderia aparecer e reaparecer no lugar que quisesse, mas tinha que se concentrar muito para funcionar. No princípio tentou distâncias pequenas, como do quarto até o banheiro e então ela ousou mais. Depois de muito tentar fugir da maneira “convencional”, ela estava pronta para ir embora sem que ninguém percebesse. Não precisaria descer as escadas podres ou causar estardalhaço abrindo o portão da frente. Não precisava nem correr o risco de se machucar se fugisse pela janela. Ela apenas desapareceria em seu quarto e reapareceria novamente no final do quarteirão. Fácil, ela pensou. Mas Hadley também aprendera uma lição dura durante sua vida no orfanato: tudo que vem fácil, vai embora da mesma maneira.
Ela fechou os olhos tentando visualizar a esquina escura que aguardava. Houve um estalo e a garota desapareceu. Ao reaparecer, não conseguiu reprimir o grito de dor. Ela não tinha um de seus braços, como se este tivesse sido deixado para trás quando desapareceu no quarto. O buraco em seu ombro sangrava com muita intensidade e Hadley não demorou a desmaiar.
A garota não soube dizer quanto tempo depois acordou em uma cama de hospital. E não pôde esconder sua surpresa ao ver que seu braço estava lá novamente, intacto. Seu susto foi ainda maior quando olhou para o lado e reparou que o paciente no outro leito era a figura perfeita de um gato.
— Você é uma bruxa, Hadley — contou-lhe uma senhora muito magra, a pele enrugada e branca, de olhos azuis e chapéu. Ela tinha um rosto gentil, porém muito sério. Havia explicado a Hadley que seu nome era Minerva McGonagall e que trabalhava como diretora em uma escola de magia e bruxaria. — É por isso que tem conseguido fazer coisas que outras crianças da sua idade não fazem. E por isso está aqui.
A mulher idosa explicou que Hadley havia sido aceita em Hogwarts, uma escola de magia e bruxaria na qual crianças como ela frequentavam para desenvolver habilidades mágicas. Também lhe disse que o ato de desaparecer e reaparecer em outro lugar se chamava aparatação, uma forma que os bruxos tinham de se locomover e que era proibida para menores de dezessete anos. De acordo com Minerva, Hadley havia estrunchado e por isso seu braço havia ficado para trás. Se não tivesse sido levada rapidamente para o tal Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos, ela provavelmente teria morrido de choque hipovolêmico.
Tudo na vida de Hadley começara a ter sentido a partir de então. Aparentemente, suas governantas sabiam que ela era bruxa e por ordens de McGonagall, nunca poderia ser adotada por uma família não bruxa, trouxa era como eles pareciam se referir. A diretora não sabia dizer quem eram seus pais, mas aparentemente pelo menos um deles era nascido bruxo e tinha deixado uma quantia de galeões para Hadley. Não era muito, mas seria suficiente para a garota poder viver até alcançar a maioridade.
No dia primeiro de setembro daquele ano, Hadley embarcou na plataforma 9 ¾ , certa de que estava prestes a viver um sonho. Sua cerimônia de seleção foi interessante: o Chapéu Seletor demorara mais de cinco minutos para selecioná-la para uma casa. Ele não pareceu muito convicto ao gritar “Lufa-Lufa”, mas a garota não se importou. Foi recebida com alegria pelos alunos veteranos e ali fez dois bons amigos. Como a maioria das crianças bruxas, Hadley fez de Hogwarts um lar.
Muito tempo se passara desde a noite em que Hadley aparatara no quarteirão escuro, quase seis anos mais precisamente. E ali estava ela novamente, tentando fugir. Para sua infelicidade, tinha que retornar ao orfanato todos os verões e não podia usar magia fora de Hogwarts até atingir a maioridade. Aquilo não significava que não tinha usado involuntariamente contra outros adolescentes maus. A garota tinha um problema grande em controlar a magia e as pessoas que moravam com ela não colaboravam muito para isso. A vida de Hadley tornara-se muito mais feliz ao descobrir que era uma bruxa, mas a verdade era que o tempo que tinha que passar no orfanato continuava sendo como um inferno para ela.
A única vantagem de ser uma órfã adolescente no Portas do Amanhã era ter um quarto só para si e isso era uma grande vantagem quando se quer fugir.
Ela esperou até o toque de recolher e quando o silêncio foi absoluto, tirou o malão de debaixo da cama e apanhou a vassoura no armário. Vestiu a capa de viagens e deu uma olhada no quarto, procurando por algo que poderia ter esquecido. O cômodo era pequeno, de modo que mal cabiam seu armário e cama. A escrivaninha havia sido retirada no último verão, já que Hadley passava mais da metade do ano fora e quase não a utilizava. Guiando-se pela luz da varinha, ela amarrou com dificuldade o malão sobre a vassoura. Não precisava estar perfeito, ela voaria o suficiente apenas para sair do orfanato. Hadley abriu as janelas lentamente, evitando os ruídos das dobradiças velhas. Com dificuldade, se colocou em cima do peitoril da janela junto da bagagem e da vassoura. Não olhou para trás quando seus pés deixaram o quarto e se afundaram na noite.
Voou até estar a dois quarteirões de distância da mansão, e certificando-se de que era única na rua, Hadley pousou suavemente na calçada. O silêncio naquela parte da cidade era quase assustador e a falta de luminosidade não ajudava muito.
Olhou novamente para os lados, mas realmente parecia estar sozinha. Aproximou-se do meio fio e ergueu a varinha, menos de cinco segundos depois um ônibus roxo brilhante de três andares materializou-se na escuridão. Um rapaz magricela e ruivo, trajando um uniforme roxo estava parado a porta, olhando para Hadley.
— Ora, ora, ora, se não é a fugitiva Hadley — saudou o rapaz com certa ironia na voz. — já achei que não nos chamaria mais. Faltando uma semana para retornar a Hogwarts? É quase um recorde...
— Onde está o “Bem vinda ao Nôitibus, meu nome é Oswald”? Você já foi mais educado, sabe?
Hadley não deixou o rapaz ajuda-la e arrastou o malão e a vassoura para dentro do ônibus com dificuldade.
— Sua professora não vai gostar de te ver no Caldeirão Furado mais uma vez. — falou ele, empurrando o malão logo atrás de Hadley.
A garota não respondeu, sabia que Oswald tinha razão. Ela tinha ordens claras da diretora McGonagall para esperar no orfanato até o último final de semana de férias e então, alguém iria busca-la. Hadley nunca chegara a conhecer esse “alguém”, sempre acabava fugindo antes, muito antes. Aquele ano, como Oswald havia dito, ela quase conseguiu obedecer a McGonagall. Por vezes ela havia sido pega no Caldeirão Furado apenas na primeira semana de férias, retornando a força ao orfanato no dia seguinte. Mas faltando apenas poucos dias para voltar a Hogwarts, Hadley sabia que a diretora não a mandaria de volta ao Portas do Amanhã. Na pior das hipóteses ela apenas receberia um costumeiro sermão.
O Nôitibus andante era um dos transportes mais acessíveis do mundo mágico. Barato — onze sicles o bilhete —, rápido e levava a todos os destinos — exceto debaixo d’água. Era perfeito para bruxos menores de idade que não tem permissão de aparatar, como Hadley. De noite, os três andares do ônibus eram ocupados por camas de metal, enquanto durante o dia havia poltronas desemparelhadas pelos andares. Oswald a conduziu até o terceiro andar, onde havia maior número de camas vazias. Alguns passageiros pareceram ter tombado quando o ônibus parou; alguns poucos se levantavam, resmungando e virando as cabeças para Hadley. De fato, ela era muito jovem para estar viajando sozinha tarde da noite. A garota pagou os onze sicles e o ônibus partiu, balançando sinistramente. Hadley segurou firme na barra de metal da cama, torcendo para viagem ser mais tranquila dessa vez.
— Como foram as férias? — perguntou Oswald enquanto pegava o dinheiro da mão de Hadley e lhe devolvia um bilhete.
— Ótimas. — mentiu Hadley. Não estava muito disposta a narrar seu tedioso verão.
Com um BANG estrondoso, o ônibus jogou os passageiros para frente e Hadley caiu de joelhos, ficando a poucos centímetros de bater o nariz na cama da frente. Estavam agora em uma avenida movimentada e luminosa, o motorista dirigia na contramão. O ônibus ia de um lado ao outro na pista, evitando os carros e por vezes encolhendo para passar entre eles. Subiram um viaduto cercado por prédios e desceram a uma velocidade assustadora. Hadley odiava viajar de Nôitibus, mas não tinha muita alternativa, a viagem até Londres era longa demais para ser feita de vassoura.
O ônibus mudou de rumo com mais um estrondo e alguns minutos depois, entraram em uma rua escura e suja, cantando pneus à frente de um bar.
— O Caldeirão Furado. — anunciou Oswald com uma falsa alegria. — Espero que aproveite a estadia, Hunt.
Ele a ajudou a descer com a bagagem e alguns segundos depois, Hadley estava sozinha na ruela encardida. O Nôitibus desapareceu com um BANG e ela rapidamente entrou no bar.
Passava-se pouco mais de meia noite e o lugar ainda tinha um considerável número de bruxos. O Caldeirão Furado era um bar bem tradicional em Londres e ficava escondido num beco escuro entremeado por algumas latas de lixo, trouxas não podiam vê-lo. O lugar também servia de estalagem e no andar de cima havia alguns quartos velhos e empoeirados. Alguns anos atrás, o bar ganhara uma nova gerência e a aparência melhorara consideravelmente. Hannah Abbot Longbottom era a nova dona e desde então Caldeirão Furado se tornara muito mais limpo e confortável. Não havia mais teias de aranha nas arandelas e lustres, a poeira das mesas tinha sumido e as fadas mordentes nos quartos pareciam ter sido completamente eliminadas.
Hadley passou quase despercebida ao entrar no lugar. Ela conhecia alguns bruxos que frequentavam o bar assiduamente, já que quase todos os verões a garota se hospedava ali. Era sempre bem tratada por eles e pela dona, de quem gostava muito. Eles se solidarizavam com o fato de que Hadley era uma órfã fugitiva que tinha sido obrigado a viver de maneira terrivelmente infeliz. De trás do galpão, reconheceu uma mulher loira com aparência cansada. Hadley arrastou o malão em direção ao balcão e pôde notar que algumas cabeças se viraram para encará-la. Imaginou que fosse devido a vassoura que a garota ainda carregava em uma das mãos.
— Eu já disse que a vodka de dragão acabou, Dennis! — a bruxa loira gritou irritada para um rapaz um tanto bêbado do outro lado do balcão. Ela serviu uísque de fogo para alguns bruxos, trocou cumprimentos com mais dois homens que chegavam e tornou a repetir a Dennis que acabara a vodka de dragão. Então ela se aproximou- de Hadley, limpando o balcão com a varinha. — Como posso ajuda... — seus olhos ergueram-se e encontraram os da menina. A expressão da moça pareceu relaxar. — Oh, graças a Merlin! Faz quase uma hora que avisaram que você tinha embarcado no Nôitibus.
Hadley abriu um sorriso amarelo. Estava muito feliz em vê-la, mas realmente se incomodava com o fato do Ministério da Magia conhecer todos os seus passos. Mal podia esperar para completar dezessete anos.
— Hadley, estou feliz que está aqui. Mas preciso dizer que você...
— Quebrou as regras mais uma vez.— completou ela com a voz monótona.— Eu sei, Hannah. Mas você sabe o quanto odeio aquele lugar. Além disso, aguentei muito mais tempo lá esse verão.
Hannah Longbottom suspirou cansada. Não era como se as duas nunca tivessem conversado sobre aquilo. Hadley conhecia a moça desde os onze anos, na primeira vez que tinha vindo ao Beco Diagonal. Ela era esposa de um dos professores que Hadley mais gostava em Hogwarts, Neville Longbottom, que lecionava Herbologia. Quando a garota fugiu para o Caldeirão Furado pela primeira vez, Hannah cuidou dela, oferecendo um quarto e dando refeições de graça para a menina. Desde então, a proprietária do bar imaginava que todos os verões aquela situação se repetiria. A conversa das duas era a mesma todas as vezes. Mas apesar de tudo isso, Hannah havia se afeiçoado a menina. Os Longbottom não tinham filhos, talvez por isso Hannah tinha tanto carinho com Hadley. Ás vezes brincava que ela era a filha que nunca teve.
— Bem vinda de volta, mocinha — falou a moça, finalmente cedendo o sorriso.
— Hadley, minha boa menina! — quem falava agora era um velho barbudo e baixo que com certeza tinha sangue de anão. Vestia uma jaqueta bege comprida e um chapéu pontudo torto. Era Eustáquio Fiddelin, cliente assíduo do Caldeirão Furado e funcionário aposentado do Ministério da Magia. — Como é que você está?
— Melhor agora, senhor — respondeu, retribuindo o forte aperto de mão do bruxo.
Uma bruxa de rosto comprido e nariz pontudo pareceu ter ouvido a conversa, porque se inclinou o corpo para enxergar Hadley.
— É bom vê-la, Hadley — falou Morgana Jacob gentilmente. Ela era proprietária de uma casa de chás em Hogsmeade.
Hadley sorriu em retribuição e cumprimentou alguns outros bruxos que reconheceu no balcão. Às vezes pensava que podia ser muito mais feliz se vivesse ali mesmo no Caldeirão Furado.
— Não preciso dizer que você tem visita no meu escritório, não é? — Hannah perguntou depois de um tempo. Hadley quase se esquecera de que um sermão grande estava por vir. — Avise a ele que está convidado para o jantar.
A garota franziu o cenho. Então não seria a diretora McGonagall que conversaria com ela hoje. Quem sabe o diretor da Lufa Lufa, Robbie Gordon, que Hadley preferiria. Ele conseguia ser bem mais divertido que a diretora. Mas ela sabia que também existia uma chance de ser um funcionário chato do Ministério, como já havia acontecido certa vez.
— Enquanto isso, suas coisas estarão no quarto de sempre. Desça logo para comer, está bem?. — Hannah a fitou da cabeça aos pés. — Você está horrível. Não estão te alimentando naquele lugar?
Hadley ergueu as mãos e abriu um sorriso torto como se dissesse “fazer o quê”. Deu as costas para Hannah e subiu as escadas em direção ao escritório, ansiosa para saber quem a receberia dessa vez. Parou diante da porta, quase a abrindo instintivamente. Antes de erguer a mão para bater, a mesma abriu sinistramente e Hadley entrou.
Sentado a beirada da mesa de madeira de carvalho de Hannah, estava um bruxo que a garota nunca pensou que fosse conhecer, pelo menos, não daquela maneira. Já tinha o visto de longe na plataforma 9 ¾ e inclusive, seu filho mais velho era do mesmo ano de Hadley em Hogwarts. Ele já devia ter por volta de uns quarenta anos de idade, era magro, tinha cabelos muito escuros e não parecia haver fios brancos ali. Tinha uma cicatriz engraçada no dorso de uma das mãos. Seus olhos demasiados verdes encaravam Hadley por cima dos óculos de aros arredondados. Com a boca entreaberta, Hadley fitou o lugar onde uma fraca cicatriz em forma de raio estava desenhada.
— Boa noite, Hadley. — falou ele educadamente. — Meu nome é Harry Potter e acredito que temos algumas coisas para conversar.
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