The Boxer

1 Capítulo Único


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=YAl-vZsswb4

A verdade é que todos nascem tolos e inocentes. Sonhadores, estrangeiros vindos de uma terra onde as fantasias são a realidade. Mas há quem tenha a inocência viva nas janelas da alma. E assim aconteceu a Gilbert.

Um menino tão estranho, tão incomum aos olhos de quem o vigiava correndo pelas campinas, guiando seus cavaleiros pelas terras bárbaras. Era um garoto inocente, uma criança como qualquer outra. Quando não cumpria com os seus deveres de aprendiz de cavaleiro. Enquanto não decorava mil e uma passagens da Bíblia, enquanto não treinava suas técnicas com a espada contra um tronco de uma árvore morta.

Sua inocência não durou muito. Porque lhe prometiam poder, força, riqueza se continuasse a bater contra a árvore até suas mãos sangrarem. Prometiam-lhe tantas coisas que, logo, foi cegado pela ganância; não a dele, mas a dos outros. Mas, sim, ele seria grande. Ele seria uma promessa.

Eu sou apenas um pobre garoto,

Embora minha história raramente conte

Que eu ignorei minha resistência

Por um bolso cheio de murmúrios, como promessas.

Assim ele cresceu. Vivendo entre exigências e congratulações, lutou por aquilo que lhe prometeram. Era invicto. Um verdadeiro guerreiro. Mas apenas um guerreiro e mais nada. Crescia o menino Gilbert, tornava-se quase um homem que conseguiria se sustentar sobre os próprios pés sem a ajuda de aliados.

Logo aprendeu a fazer suas próprias regras, vendo-se livre dos grilhões dos velhos que o prendiam. Que lhe prometeram glória e fama. Sim, ele era grande, era poderoso. Mas não bastava. Nunca lhe deram limites, então por que parar por ali? O céu era apenas o primeiro andar de sua Torre de Babel.

Tudo mentira e piadas.

Ainda sou um homem que ouve

O que quer ouvir

E desconsidera o resto.

Não que, um dia, tivera uma família. Não que, um dia, tivera um pai, uma mãe ou irmãos. Crescera entre os cavaleiros, depois, entre os outros germânicos (que ainda olhavam-no com certo desprezo e até desconfiança), mas a ninguém pôde chamar de família.

Era uma solidão pouco desoladora. Era como um pequeno carrapato grudado em seu coração; não o incomodava, e a falta de alguém com quem conversar nunca lhe fizera mal.

Mas sabia da insegurança de ter de descobrir tudo por si. Era um mundo inteiro a ser descoberto; um mundo inteiro a ser desbravado por tão miúda criatura.

Quando deixei meu lar e minha família.

Eu não era nada além de um garoto

Na companhia de estranhos,

No silêncio das estações, correndo assustado,

E a vida nunca deixara de ser sua principal antagonista. Mas, a cada passo que ele dava em direção ao amanhã, tornava-se cada vez mais amargo, mais solitário. O carrapato crescia, e, lá dentro, ele sabia que queria – ou melhor, precisava – de alguém que o acolhesse em braços e abraços mornos. Que cobrisse seu rosto de beijos carinhosos; fosse por uma amante ou por alguma senhora que se apiedasse de seu passado órfão.

Não. Já não lhe bastava ser forte. Que fama lhe compraria um amigo, um irmão? Não era de dinheiro que ele precisava. Ele nunca precisou de dinheiro, na verdade.

Passou a perguntar-se se tanto luxo era necessário. Se castelos de imensos salões, de lindos vitrais davam-lhe o ar da graça de viver.

Viver… Não sabia viver.

Encolhendo-me e procurando os bairros pobres

Aonde as pessoas esfarrapadas vão,

Procurando pelos lugares

sobre os quais apenas elas sabem.

Entretanto, depois de tantas guerras, tantos conflitos, tanto sangue, que tipo de promessa ele faria aos outros senão a de um futuro de ódio e de traição? Quem se aproximaria de um leão em busca de um cachorro?

Não tinha carisma. Não sabia retribuir agrados. Do que adiantava um bolso cheio se seu coração estava vazio?

E mesmo que buscasse as putas, de que lhe adiantaria se aquele prazer cronometrado não era amor? Era um amor de açúcar: Era doce, mas não durava.

Como a água, seu dinheiro se foi, junto com as suas esperanças de sentir aquele resquício de sentimentos que não lhe eram correspondidos. Ele amava as putas, mas sabia que elas não os amava. Era apenas seu ofício. E aquela realidade era apenas uma mentira.

A realidade vinha bater à sua porta de vez em quando. Vinha com uma lança quebrar-lhe as pernas e mostrar que um coração de um mal-amado não mantinha as pernas do cavaleiro que um dia foi. Uma alma fraca não segurava o corpo de um homem prestes a cair no próprio abismo de Solidão e Medo.

Aquele medo e aquela insegurança que sempre dividiram o espaço em seu peito com seu coração; este, cada vez menor, cada vez mais débil e estúpido.

Só lhe sobrava o frio para fazer-lhe companhia.

Perguntando por um salário,

Procurei por trabalho,

Mas não recebi ofertas.

Apenas um “venha cá”

Das putas da 7th Avenue.

Eu confesso que houve horas em que

Eu me sentia tão sozinho que

Me confortei ali.

Quando se percebeu derrotado, as batalhas que vencera já não lhe faziam mais sentido. Toda aquela força e poder que lhe prometeram não conseguiam mais sustentar suas pernas quebradas. Quando se percebeu despido de qualquer glória que acumulara ao longo dos anos, percebeu também que não havia mais Prússia. Não havia lar.

Ou melhor, nunca houve lar. Nunca houve lugar que o acolhesse e que o fizesse parar de pensar em tudo aquilo que tanto desejava ter. Quando fora a última vez que se sentira acolhido por alguém? Aquela casa era vazia de qualquer cuidado, de qualquer sentimento de familiaridade. Assim como seu coração, que continuava tão vazio quanto as casas que habitou e as promessas que lhe fizeram naquele distante passado de inocência.

Não lhe restara mais nada além dos trapos que usava para se proteger do frio.

O soldado queria voltar para a casa que nunca foi. Qual era o destino daqueles que, como peões de xadrez, apenas avançavam, mas nunca retornavam? Que promessa ainda lhe valeria a pena de fazê-lo arrastar-se em busca de um amanhã?

O frio apenas fazia lembrá-lo do quão solitário era e do quanto precisava de alguém que o ensinasse a amar.

E, então, abandonei minhas roupas de inverno

E desejei estar em casa, indo para casa;

Onde os invernos de Nova Iorque

Não me sangrariam, levando-me para casa.

A cada dia, sentia-se mais fraco. Começou a tentar se matar. Jogar-se contra a parede, atirar-se dentro dos rios congelados, brigar com os oficiais soviéticos que infestavam Berlim. A sua Berlim dos sonhos.

A Prússia já não existia mais; logo, o que justificava sua débil existência num frio mundo da dor e das sombras que corroíam seus dedos dos pés? Quem era aquele garoto cujo nome era um pendão de luz? Uma bandeira de uma cruzada de esperanças e sonhos?

Quem era Gilbert?

O soldado, o boxeador Prússia já estava morto. Entretanto, ele queria levar o guerreiro Gilbert consigo. O boxeador orgulhoso que não aceitava perder, que tinha os bolsos cheios de dinheiro, que amava as putas não se conformava com o seu destino como um perdedor. E, assim, tentava impedir o guerreiro de se reerguer. O guerreiro que se recusava a cair morto na neve, que ainda possuía um pouco da esperança das crianças no brilho dos olhos rubis.

Já estava na hora de partir. O boxeador finalmente se aquietou ao lado do guerreiro. E chorou. Chorou como nunca chorara antes.

Como Gilbert sempre chorou para ele.

Prússia lamentou-se em raiva e vergonha até sumir, ao amanhecer do primeiro dia de Primavera.

À luz do sol que anunciava um novo, entretanto, curto amanhã, Gilbert finalmente levantou-se, sem a típica dor nas velhas pernas quebradas. O nascer do sol seria seu novo objetivo…

Não. Talvez, o que ele mais precisasse agora seria se livrar das obrigações e dos objetivos. Livrar-se.

E, pela primeira vez em muitos séculos, deixou escapar um sorriso sincero. E uma lágrima, não como as de Prússia.

Mas uma autêntica. A sua primeira glória em seu verdadeiro nome.

Gilbert.

Na clareira está um boxeador e um guerreiro por seu ofício

E ele carrega as lembranças de todas as luvas que o derrubaram

E o cortaram até que ele chorasse em raiva e vergonha:

“Vou embora, vou embora”, mas o guerreiro ali continuava.

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