The Bottom Of Comforts
1 The Bottom of Comforts
Notas iniciais
As passagens em itálico são na verdade o poema do Kyo que inspirou essa fic "The Bottom of Comforts"... E um obrigada do tamanho do universo paralelo contínuo e infinito à Mowmow por ter betado
Não havia sentido para aquilo-- se não há explicação psicológica para se gostar de dor, pode haver uma biológica:
A dor libera endorfina. Endorfina faz as pessoas felizes.Pessoas felizes não se matam.E foi com todas as endorfinas liberadas que Kyo pôde ouvir o barulho quase mudo da gilete contra o chão de madeira; que pôde começar a sentir cada gota de sangue acompanhar aquela ardência implicante de cada um dos cortes-- e o silêncio, o pesado silêncio que precede o barulho; pesados passos ritmados numa marcha cotidiana; o barulho da porta se abrindo e se fechando; a luz penetrando por uma fração de segundo antes da penumbra retornar ao quarto.Se andar o deixa exausto você pode simplesmente se recuperar aqui.Apenas a escuridão delimitava um contorno fino-- mas o loiro não precisava de luz para saber quem era e a quem pertencia aquelas tão distintas linhas que se curvavam para pegar a lâmina.\"Eu vou esterilizar isso depois.\" Se para muitos ouvir de outro palavras reconfortantes sobre seus problemas os fazia melhorar, para o vocalista toda aquela neutralidade fazia as vezes de falsos conselhos e esperanças (Porque esse lugar é a capital dos compromissos e confortos. Com suntuosos banquetes como aqueles que existem nos seus sonhos); toda aquela imparcialidade, aquela frieza que ele antes não esperaria eram os travesseiros dos latejos em seu tronco e braços. \"Você tinha esterilizado antes?\" O moreno ajeitou seus cabelos atrás da orelha, o olhando com a calma de quem pergunta as horas do dia e tudo que Kyo fez foi balançar a cabeça em uma afirmativa-- a embriaguez da dor ainda o consumindo pouco a pouco; diante da resposta Toshiya parou, seus quadris precedendo todo seu corpo contra a cama de hotel macia e seu rosto descansando no travesseiro alto, olhos vasculhando cada pequeno corte que sangrava, cada marca vermelha contra a pele já tão castigada.Sem perguntas, sem qualquer hesitação ou invasão de privacidade.Simplesmente porque ele estava longe de ser um amigo ou um amante-- ele já havia passado desse estágio, porque ele sabia que para o moreno nada daquilo atrapalhava; o conceito de autodestruição mais que marcado por suas escapadas com outro moreno, por suas traições e farpas atiradas ao longo dos anos era irrelevante.Toshiya se tornara como ele.Mas quando voltar a si, será um jardim negro como a escuridão.Uma extensão inorgânica por trás de uma fachada de sorrisos tortos, um vazio por trás dos toques contra a pele avermelhada e uma compreensão sobre as saliências feitas pela lâmina em seu corpo. E ele ajudaria a cada momento-- longos dedos calejados se esticando e tocando cada um, lábios formando uma série de números até o último corte; uma contagem sadista em busca de uma estatística que ele nunca dissera.Novamente, nenhum sentimento naqueles gestos frios, apenas a cumplicidade de quem entende a razão por trás daquilo, mesmo que esta fosse inexistente.E os compridos dígitos continuavam seu caminho traçando as velhas cicatrizes; lábios que contavam se aproximando de cada uma e as tocando-- um ato tão suave diante da ardência em seu peito, talvez a única demonstração de qualquer sentimento que o baixista deixava transparecer. Kyo pôde sentir uma longa perna deslocar o ar ao seu redor e logo os quadris dele estavam sobre os seus-- como sempre-- as costas arqueando para que nenhum peso fosse posto sobre seu peito, as grandes e quentes mãos se enrolando nos seus fios loiros e, por fim, um par de lábios colando-se em sua orelha, uma respiração delicada chegando ao seu tímpano.Essa criança minúscula está presa dentro de um oshiireE ninguém a ajuda!\"Pode chorar se quiser, a porta está trancada.\" E como mágica, uma dupla de olhos escuros se abre para o cinza do quarto, se concentrando num ponto que sequer existia acima de ambos e a respiração do loiro começa a se descompassar-- pesada, pesada pesada, leve... E todos aqueles pequenos gemidos começaram a eclodir, furando o silêncio do quarto com seu som (Hoje também eu posso ouvir seus choros pedindo por ajuda).Mas mesmo assim nenhuma reação por parte de Toshiya foi esboçada (Assim como eu tenho de suportar seus lamentos, mesmo não podendo mudar nada), nenhum músculo moveu-se enquanto eram apenas gemidos e lágrimas ocasionais; mas o ruído de dor nunca se contenta com apenas gemidos e ocasionais lágrimas-- ela produz gritos, abre ainda mais as longas linhas rubras sobre a pele. E é então que o par de lábios quietos o silencia, não porque sente pena-- porque sabe que no final, quando houver aquela pequena aglomeração de três pessoas na porta o loiro iria se envergonhar.Seus gritos são apenas sonsPor um tempo ele continua, seus dedos enrolando-se nos fios escuros e o trazendo contra si, sem sequer pensar na dor que sempre sucede o choque dos corpos. Aquele pequeno momento perdido entre o paradoxo da dor e do carinho era tudo que ele sempre precisou-- e tudo que ele sempre encontraria ali.
Num passado distante-- Kyo sempre recordava com uma pontada de rancor-- ambos foram capazes de evitar aquilo, de driblar as situações com um sorriso; mas aqueles eram outros tempos, eram momentos únicos, ápices de felicidade, que ele desejaria nunca ter acontecido se o resultado final fosse aquilo.E quando o loiro parece não ter mais forças aquele beijo acaba, o par de íris escuras perfurando as suas, o corpo pesado para todas as injúrias contra sua carne se ergue, pousando os pés sobre o piso corrido, esticando as costas e o braço, a tão familiar mão descansando contra seu peito, sem sequer se importar com o líquido acumulado ali toma seu lugar, acariciando cada ferida como um remédio-- ou talvez culpa por não poder impedir aquilo.Lentamente o braço tatuado cobre os olhos vermelhos-- mesmo que aquele fosse Toshiya ele não podia, não deveria ver aquela cena; ele não deveria ver nada, ele não deveria estar ali, não deveria ter que suportar sua dor ou seus problemas.\"Eu vou pegar a água oxigenada e mandar vir uma roupa de cama nova.\"Eu finjo em silêncio que não percebo nada.
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