A porta cedeu facilmente. Deparei-me com Dalton recostado em um balcão lendo um livro grande. Deveria ser o livro de registros do hospital. O garoto olhou-me sombrio. Aproximei-me dele e tentei ler o conteúdo do livro. Rapidamente, ele puxou o livro para junto de seu peito.

- Eu estou lendo. — murmurou em tom quase ameaçador. Não entendi bem a sua postura hostil. Dei de ombros e caminhei um pouco pelo corredor.

Havia diversos cartazes pregados às paredes, pelo que pude perceber, relacionados a saúde e conduta dentro do hospital. O local também estava vazio. Uma grande porta de madeira levou-me a um outro corredor. Neste, existiam diversas portas, que deveriam dar acesso a salas. Pude ouvir estranhos sussurros vindos detrás da porta do ambulatório, mas esta estava trancada. Forcei um pouco, sem sucesso. As demais portas ou não possuíam fechadura ou esta estava fundida, impossibilitando o uso. No final do corredor, estava o elevador, próximo a uma máquina de refrigerantes. O ambiente possuía uma perturbadora tranqüilidade. O elevador estava com a porta um pouco aberta. Senti meu peito apertar, pensando na possibilidade de alguém ter ficado preso dentro dele. O estranho choque, novamente estremeceu meu corpo, e novamente tive a sensação de ver algo. Mas não me lembrava do que. Entrei no elevador. Estava vazio, produzindo-me uma estranha sensação de alívio. O piso era da cor cinza. Nada escrito nas paredes, o painel metálico com três botões, equivalentes aos três andares do hospital e outro painel, acima da porta com três números. Tudo pareceu-me tão comum que senti-me frustrado diante daquele cenário simples.

Quase entediado, virei para a porta do elevador, mas quando ia sair, esta fechou-se bruscamente. Recuei assustado, meus músculos contraíram-se, minha boca tornou-se seca. Mantinha-me em pé, olhando ao meu redor com desconfiança. Pensei em bater na porta, gritar, tentar chamar a atenção de Dalton. Porém, antes que pudesse fazê-lo, ouvi um forte estrondo, e o elevador começou a se mover. A luz do painel acima da porta deslocou-se lentamente entre os números, até chegar ao terceiro. No entanto, o elevador continuou subindo, parando em um andar que não constava no painel. Alguns segundos após, a porta abriu-se lentamente, revelando-me a escuridão por trás de si. A luminosidade do elevador avançou tímida pelo corredor, revelando um rodo encostado a parede e um balde. O piso estava limpo, de aspecto brilhoso. Peguei a lanterna de minha mochila. Apertei repetidas vezes os botões, tentando voltar para o térreo. O elevador permaneceu imóvel. Tentei com o mesmo insucesso os outros botões. Diante deste fato, prossegui. O corredor não possuía nada extraordinário. Alguns bancos retangulares, extintores de incêndio na parede, os mesmos cartazes que vi no térreo. No final do corredor havia uma grande porta dupla de madeira e um painel eletrônico com números e uma continuação do corredor à esquerda. Ao lado da porta, havia escrito, em sangue, os dizeres : \" Os números do conhecimento levam à verdade.\" Verifiquei a porta, confirmando que ela estava trancada. Um enigma, dessa vez envolvendo números. Nada deduzi sobre a frase, decidindo ir explorar o restante do corredor. Encontrei, apenas, uma porta de madeira na cor verde, com uma placa escrito \"repouso médico\". Girei a maçaneta, abrindo a porta com facilidade.

O quarto estava deserto e um pouco desorganizado. Havia algumas folhas de papéis espalhadas pelo chão. Beliches juntos à parede, um frigobar próximo aos beliches, uma pequena mesa com umas latas de refrigerante sobre ela, um telefone, além de mais alguns papéis. As camas estavam desarrumadas com lençóis jogados sobre elas, aparentemente ao acaso. O telefone também estava mudo. Esperança sempre é algo teimoso, insistente. Peguei o telefone e o arremessei com fúria contra a parede. Inúteis diante da minha necessidade. Sentei, melancólico na cama de baixo do beliche. Tentei me concentrar no que estava escrito na parede: os números do conhecimento. Caminhei em círculos pelo quarto, refletindo sobre quais poderiam ser os números. Sentei-me à mesa. Certamente deveria tratar-se de um código de substituição. Peguei uma caneta e escrevi a palavra conhecimento em um papel em branco. Olhava fixo para aquela palavra, mas nada me ocorria. Levantei-me impaciente. Verifiquei outras coisas no quarto, mas nada que me pudesse se útil. Encontrei apenas uma recomendação escrita, de forma geral, a médicos plantonistas. Enquanto caminhava, acidentalmente, chutei o telefone. abaixei-me e pude perceber que, nas teclas, em cada número havia três letras correspondentes, a exceção do zero asterisco e da tecla de rediscagem. Levei o telefone de volta à mesa e olhei para o papel escrito. Poderia tentar substituição simples. Desta maneira, peguei a palavra \"conhecimento\" e substitui as letras pelos números correspondentes. Obtive a sequência \"266432463686\". Desanimei, pois se tratava de um número muito longo, provavelmente não seria a seqüência para abrir a porta. Mas eu precisava tentar.

Digitei os números pausadamente. Permancei alguns instantes observando o painel à espera de que algo acontecesse. Apenas o silnêncio sepucral preencheu o corredor. Tentei abrir novamente a porta. Trancada. Suspirei desapontado, olhando novamente para o papel onde anotara a palavra e a seqüência de números que deveria ser a correta. Repetia mentalmente a expressão \"os números do conhecimento\". Observando o papel, percebi que alguns números repetiam-se. Ignorando as repetições, restava uma sequência de cinco números: 23468, em ordem crescente. Cinco números pareceram-me uma senha mais razoável. Arrisquei. Uma luz verde piscou no monitor, e a porta emitiu um som semelhante ao de uma chave sendo girada. Desta vez a porta abriu-se, revelando-me um corredor escuro e escadas que levavam aos andares inferiores. Aproximei-me lentamente dos degraus. Precisava voltar ao térreo. Queria ver Dalton e lhe contar sobre o elevador. Precisava, deseperadamente, partilhar aquilo com alguém. Porque eu tinha medo. Esqueci-me, por alguns instantes, das feições sombrias do garoto. Meu coração novamente disparara, e minha respiração adquirira um peso desconhecido que me apertava o estômago. Meus pés, mesmo com a iluminação da lanterna, tateavam cautelosamente os degraus. O local era quente,e eu sentia algumas tímidas gotas de suor escorrerem pela minha testa. A porta que dava acesso ao terceiro andar não possuía maçaneta. Estremeci. Pressentia que, de certa forma, o ambiente reformulava-se de maneira discreta, adquirindo a mesma forma que tivera na escola. Olhava ao meu redor em busca de algo que me denunciasse esta mudança, mas tudo parecia imutável e familiar. Minha impotência me esmagava. Respirava com ódio, caminhava com ódio, com ódio apressei minha descida pelos degraus, ignorei a porta que dava acesso ao segundo andar e cheguei ao térreo.

A porta abriu-se fácil. O térreo havia mudado. O chão tornara-se novamente gradeado, desta vez em cor avermelhada, debaixo um solo barrento, enegrecido. Ouvia passos ocos, como de um salto alto pisando nas grades. Os passos pareciam caminharem avulsos, sem direção. Buscava angustiado a origem dos sons. O rádio que carregava comigo começou a emitir um som estático. Uma sombra de formas femininas desenhou-se no final do corredor, projetada na parede. Pouco depois, uma figura humana com trajes de enfermeira surgiu. Ela emitia um grunido gutural, seu rosto era uma massa disforme, não pude visualizar olhos, nariz ou boca, sua pele branca, enrrugada, seus gestos descordenados. Ela atacava aleatoriamente com um pedaço de metal enferrujado, de aproximadamente um metro de comprimento, desferindo golpes firmes contra um inimgo invisível ou imaginário. No entanto, ela percebia a luz. Ao ser iluminada pela lanterna, ela ficou imóvel por alguns instantes, cabeça inclinada para trás como se estivesse pressentindo minha presença, em seguida a cabeça virou-se em minha direção. A enfermeira emitiu seu som ameaçador. Compreendi que de alguma forma ela me via. Marchou em minha direção, arrastando o pedaço de metal, produzindo um barulho estridente. Esquivei-me da investida dela, golpeando-a em suas costas com minha foice. O sangue vermelho escorreu suave e fascinante pelas roupas brancas do monstro. Iniciei ataques sucessivos, ignorando os sussurros de dor e lamento que ela parecia emitir. Quando seu corpo repousou inerte no chão, chutei-a diversas vezes, explodindo em quase fúria, sentindo o macio atrito de suas costas ensagüentadas. Minha violência não me causou horror, apenas uma estranha sensação de liberdade. Recostei-me na parede, observando, absorto, o cadáver daquela criatura. Repetia insistentemente que eu matara algo. E o peso daquela morte me era o alívio de sobreviver.

Após alguns minutos, olhando atônito para o monstro, retomei minha busca por algum caminho de volta para minha vida normal. Tentei agarrar-me a minhas lembranças de momentos felizes, mas estes haviam dissipado-se da minha mente. Caminhei pelo corredor, na direção da qual viera o monstro. A sala a qual eu chegara, era semelhante a ante-sala da recepção do hospital. Uma estrutura formada por grades e de formas semelhante a um balcão emergia do chão. Sobre ela, havia um livro aberto. Iluminei o local, atenciosamente, em busca de Dalton. Ele desaparecera. Aproximei-me do livro, que eu deduzira ser o mesmo que Dalton lia, momentos antes. A página na qual ele estava aberto, possuía uma mancha de sangue, na forma da palma de uma mão, inviabilizando a sua leitura. Mas, pelo pouco que pude ler, compreendi que era um livro de registros de internações. Dentro do livro havia também uma chave com um chaveiro escrito \"ambulatório\". Guardei-a no bolso. Não percebi mais nada que me pudesse ser útil. Parti em busca do ambulatório.

Após mais alguns minutos caminhando pelo corredor, cheguei a uma grande porta dupla de madeira. Abri-a, chegando a outro corredor, um pouco mais escuro que o anterior. Porém, o piso tornara-se novamente de azuleijo. Suspirei, reconfortado, pois tinha a sensação de que o perigo, embora existente, tornava-se menor. Recostei-me na parede, descansando um pouco. Ao cerrar os olhos, tive mais uma vez a sensação de que meu corpo fora percorrido por um choque elétrico. Não conseguia me lembrar das imagens rápidas que me cruzaram a mente, mas, esta vez, lembrava-me nitidamente de ouvir um grito feminino. Abri os olhos. Tinha que encontrar o ambulatório.

Ao final deste corredor, encontrei outra porta dupla de madeira. Ao lado, uma placa escrito \"ambulatórios\". Fitei a chave pensativo. Abri a porta. Ao centro do recinto havia um birô de madeira junto a três cadeiras que deveriam ser do médico e dos pacientes. Ao fundo uma cortina entreaberta revelava uma maca de exame físico. A esquerda uns armários com a porta de vidro, contendo alguns medicamentos. Na parede da direita, havia alguns cartazes de propaganda de remédios. O lugar estava bastante organizado. Tentei mais uma vez, em vão, acender as luzes. Sobre o birô, havia apenas um bloco de receituário. A primeira gaveta estava aberta. Encontrei um bilhete avisando que o material de vídeo havia sido transferido para o auditório por motivo de uma palestra sobre saúde pública. As outras duas gavetas estavam trancadas.

Continuei revistando o lugar. O armário com os medicamentos estava com a porta trancada. Não sabia muito sobre remédios, apenas sei que haviam caixas e algumas ampolas. Nada que me pudesse ser útil. A permanência naquele local, começava a me irritar. Nunca gostara muito de hospitais. Sequer me lembrava da última vez que estivera num. Caminhei em direção a porta do ambulatório, quando tive a sensação de ver a cortina mover-se discretamente e um sussurro por detrás desta. Não consegui perceber o que o sussurro falou. Segurei com força a foice, caminhando lentamente em direção a cortina. Poderia ter sido uma ilusão, mais alguma das peças que aquela cidade me pregava. Prendi a respiração por alguns instantes. Próximo da cortina, não ouvi nenhum outro som, nem percebi movimento. Levei a mão esquerda trêmula à cortina. Segurava a foice com o máximo de força que conseguia reunir em minha mão direita. Sentia algo revirar-se em minha barriga. Mas, naquela cidade, não havia como retroceder. Subitamente, puxei a cortina e empunhei a foice, pronto para um novo combate.

Sobre a maca, havia somente um prontuário do hospital. Na capa deste, havia um desenho da logomarca do hospital Alchemilla e o número do prontuário: \"325866\". Abri o prontuário, deparando-me com uma folha rasgada. Coloquei o prontuário sobre a maca e vasculhei minha mochila em busca do pedaço de papel que encontrara na escola. \"O rasgão era daquela página!\", pensei surpreso. Aproximei o rasgão do restante da folha, podendo ler agora o texto na íntegra.

\" 19:30h — Paciente sexo masculino, 17 anos, caucasiano, estudante, com diagnóstico prévio de transtorno dissociativo de identidade, comparece com quadro de delírio persecutório. Encaminhado para avaliação médica.

20:15h — Feito benzodiazepínico intramuscular, por prescrição médica.

20:26 — Contactado serviço de transportes. Solicitada ambulância para transferência para o hospital Brookhaven.

20:30 — Encaminhado ao Hospital Brookhaven

Enfermeira responsável: Lisa Garland\"

Permaneci alguns instantes olhando a assinatura e o carimbo da enfermeira responsável. Era estranhamente familiar. Detrás da primeira página, havia um receituário com o medicamento prescrito. Após o receituário, havia uma nova página do prontuário.

\" 10:00h — Corpo trazido por policiais. Encaminho ao serviço médico-legal para realização de autópsia.

Enfermeira responsável: Lisa Garland\"

Nas duas páginas, não encontrei referência a datas. Após a última página, havia uma segunda via de um atestado de óbito, mas a escrita estava bastante apagada para que eu compreendesse alguma coisa. Provavelmente, ao preencherem o formulário, teriam usado um papel-carbono já desgastado. Guardei o prontuário na minha mochila. Não me restava mais nada no ambulatório.