Despertei exausto, confuso,mas com esperança. Em vão. Minha respiração ficara mais dificultosa, meu corpo estava trêmulo e inseguro. Apenas um tímido feixe de luz de uma lanterna me salvava da escuridão total. Fiquei alguns minutos observando o ambiente ao meu redor. Parecia a mesma capela em que desmaiara. Contudo, o local se revestira de maior morbidez:no lugar da imagem de cristo crucificado, havia agora apenas uma grande cruz de madeira invertida, as paredes tinham a tintura carcomida, dando-me uma impressão de se tratar de um local antigo, mal cuidado.Os bancos de madeira ainda estavam lá, alguns exibiam manchas de sangue. Levantei-me e fui até o altar. O cálice dourado ao lado da laterna estava cheio de sangue, as páginas da bíblia estavam todas em branco.

Peguei a lanterna. Nas paredes haviam alguns desenhos feitos com sangue. Pareceram-me insignificantes. Sentia o frio gelar-me a espinha, porque algo me esperava. E eu o sabia. De alguma forma, pressentia. Aproximei-me da porta, lentamente. Ouvi um súbito estrondo vindo de perto. Do andar de baixo. Dei um sobressalto e quase derrubei minha mochila no chão. Respirei fundo e abri a porta.

As paredes eram de metal enferrujado, o piso ainda era o mesmo. Não entendia bem o que estava acontecendo. Movimentava-me quase que por instinto. Precisava de algo que fosse selvagem, algo bruto e inominado, algo que me fizesse sobreviver. E isto pulsava em mim, enquanto andava pelo corredor. O estrondo repetiu-se, dessa vez menos assustador, porque de certa forma eu já o esperava. Parecia uma forte batida contra uma porta. Engoli seco. O flanelógrafo também estava lá, sem nenhum dos avisos que eu vi antes. Estava apenas escrito em um papel:\" Ainda que eu ande pelo vale escuro\", um trecho bíblico. Sabia disso porque fora a um enterro quando era criança, e o padre recitou essas palavras. Depois, soube que essas palavras sempre eram citadas em sepultamentos, porque se convecionou que elas eram reconfortantes na ocasião. Convenções. Ri amargo ao pensar nesta palavra, pois aquele lugar era nada convencional. A sensação que eu tinha era a de que a realidade havia se descortinado, revelando-me a obscura essência das coisas que sustentavam o mundo.

As palavras escritas no flanelógrafo repetiam-se involuntariamente na minha cabeça. Ela doeu um pouco. Fiz uma discreta massagens nas minhas têmporas com os dedos. O estrondo voltou a assustar-me. Estava mais perto. Desci as escadas, cauteloso. Novamente o estrondo. Ao chegar ao primeio andar, vi grades metálicas que impediam meu retorno ao parque, deixando como única opção o corredor escuro que ignorei antes. Novamente o estrondo. Vinha da porta do almoxarifado. A porta mexeu-se ao som de mais um estrondo. Estes ficavam mais fortes e freqüentes. A porta me parecia frágil, cederia a qualquer momento. Um último estrondo, ainda mais forte de que os anteriores. A porta cedeu, abrindo-se lentamente, emitindo um rangido quase fantasmagórico. Minhas mãos suavam.

Olhava atônito para o almoxarifado. Não havia nada lá, além de pilhas de papel, caixas, uma luz incandecente pendendo do teto, algumas prateleiras e objetos de limpeza. Aproximei-me inquieto, pois vi nitidamente que ela fora arrombada por uma pancada furiosa. Repeti para mim mesmo, que algo se escondera lá dentro, embora o espaço parecesse pouco para tal. Dentro do almoxarifado, pude confirmar que, além do que já percebera antes, havia, numa das prateleiras, uma foice de trabalhos agrícolas. Segurei-a forte. A sensação de segurar uma arma naquele lugar absurdo fez-me sentir estranhamente vivo, e segurei o cabo com mais firmeza ainda. Senti-me preparado e forte. Uma segurança que apenas alguém que já empunhou uma arma em uma situação como aquela poderia entender. Não me sentia mais apenas uma vítima, mas um algoz em potencial. Uma sensação de poder latente vibrava em meu corpo. Minha respiração tornara-se forte, determinada.

De volta ao corredor, balancei as grades e vi que estavam firmemente aderidas ao chão. Decidi então seguir pelo corredor. Caminhava quase tranquilo, por conta da foice. Neste corredor, as paredes também tinham um aspecto apodrecido, marcas de sangue e pichações diversas. As portas não possuíam maçaneta. Empurrei algumas, mas também não se abriram. Percebi que meus passos começaram a emitir um som metálico. Olhei para o chão, vendo que o piso se tornara um gradeado e sob este havia areia. O bizarro aos poucos ia tornando-se tão natural que confesso nem ter me importado com este detalhe.

Ao final do corredor, deparei-me com uma porta dupla a esquerda e dois banheiros a direita. A porta dupla estava trancada. Desferi um golpe contra ela com a foice, mas a lâmina não penetrou a madeira. Senti o impacto do golpe sendo-me devolvido. Derrubei a foice no chão. Peguei novamente minha arma e encarei a porta.

Revoltado, chutei a porta. Aceitei que arrombamentos não funcionariam naquele lugar. A dinâmica do local era: ou o lugar me era permitido ou não. Ou ainda seria permitido, após a solução de algum enigma. Bufei, irado. Caminhei em pequenos círculos sem saber aonde deveria ir. Foi quando senti meu pé sendo puxado, como se estivesse preso a alguma coisa. Olhei para o piso e vi uma mão enrugada e branca, emergindo da areia, segurando firmemente meu pé direito. Comecei a movimentar meu pé com força, tentando livrar-me daquilo. No entanto, a mão parecia viva, apertando com mais força ainda. Eu gritava atônito. Chutava o gradeado, tentava chutar a mão, puxava minha perna. Mas mas a mão continuava resoluta. Segurei firme a foice e desferi um golpe certeiro na região do punho. A lâmina rasgava a pele, fazendo escorrer um líquido escuro que se espalhava lentamente pelo chão. Um gemido melancólico e sufocado fez-se ouvir pelo ambiente.

Gritava dominado pelo ódio e pelo nojo. Tive ímpeto de desferir novos golpes contra aquela mão. Explodi em choro. Permaneci sentado no chão, recostado na porta dupla. Tive que admitir que estava com medo. Fechei os olhos, porque não queria ver. Queria simplesmente fechar os olhos e acordar novamente na minha vida. Mas, nesta tentativa de fuga, veio o inesperado. Senti um choque elétrico percorrer meu corpo, resultando em um estremecer involuntário dentro de minha cabeça. Algumas imagens soltas. Não soube ao certo o que vira. Apenas vira. E ao abrir os olhos, as coisas ainda estavam do mesmo jeito. O piso era gradeado, a porta dupla de madeira, as portas dos banheiros, a mão, a foice suja, a escuridão.

Meu corpo experimentava agora uma estranha sensação de moleza. Algo em minha barriga girava. Era dificultoso ficar de pé. Cambaleando, aproximei-me da porta do banheiro masculino e tentei abrí-lo. Inútil. Não conseguia desviar os olhos da mão que emergia da areia. Um cheiro fétido espalhara-se pelo local. Com as pernas trêmulas, andei até a porta do banheiro feminino, que se abriu facilmente ao primeiro empurrão. Adentrei o recinto, fechando a porta atrás de mim.

Deparei-me com uma mulher de aproximadamente trinta anos, alta, cabelos loiros e ondulados até os ombros, olhos azuis arregalados. A maquiagem ao redor dos olhos estava borrada, denunciando que ela chorara. Em seu semblante havia desespero, o que criou um vínculo de identifcação meu para com ela. A mulher estava pálida. Trajava uma blusa de botão branca, mangas longas, calça jeans preta, calçava uma sandália simples também na cor preta e segurava um cano nas mãos. Vê-la armada provocou-me uma sádica ternura. Era bela e selvagem. Pude perceber que ela estava assustada diante de outro ser humano. Para ela, minha presença era inesperada. Ela apontou o cano em minha direção.

- Calma. Eu sou humano! Não ataque.

- Graças a Deus! — sussurrou a garota após um suspiro aliviado. Suas feições tornaram-se um pouco amistosas. Baixou a arma. — Eu me chamo Alessa. Qual o seu nome?

- Travis. — respondi após alguns segundos de hesitação. Senti novamente a eletricidade percorrendo meu corpo. Ouvir aquela pergunta era estranha, mas senti-me confortado ao ouvir meu nome. Travis, Travis, Travis. A segurança de uma identidade quase me fez explodir de alegria.

- O que está acontecendo aqui? — perguntou ela.

- Não sei. — respondi magoado por mais uma desilusão. Pude perceber o desapontamento no rosto dela. Porém deveríamos aceitar que um não tinha a resposta que o outro queria. — Eu acordei aqui, numa sala de aula. Minhas coisas foram roubadas.

- Eu recebi um convite pelo correio, para uma reunião de ex-alunos. Eu estudei nesta escola, quando era jovem.

- Você nasceu aqui? — perguntei, surpreso. Ela mexeu a cabeça positivamente.

- Mas está tudo diferente. — emendou ela. — Isso aqui era uma cidade turística! Era ótimo morar aqui! Saí, apenas, porque fui fazer faculdade em outro Estado. O que aconteceu com este lugar?

- Você encontrou mais alguém? — perguntei, pensando pela primeira vez no que poderia ter acontecido ao garoto que vira antes.

- Não. Você é a primeira pessoa que vejo. Tudo o que vi foram...

O silêncio dela apertou-me o peito. Concluí que ela vira algo assutador demais para partilhar comigo, algo surreal demais para que os olhos pudessem crer, para que a boca pudesse contar. Ela tinha medo de ser chamada de louca. Eu começava a implorar pela loucura. Ao menos, seria uma explicação. Fitei-a insistente. Ela cedeu:

- Monstros.

- Isso não é nenhum absurdo, em se tratando desse lugar. — retruquei, sentindo certo alívio. — Também vi coisas estranhas por aqui.

A mulher caminhou em direção a porta. Ofendi-me com a possibilidade dela simplesmente me deixar naquele lugar, negando-me aquela sensação de estar protegido apenas porque estava na presença de outra pessoa.

- Aonde você vai? — perguntei em tom quase agressivo.

- Você pretende ficar aqui dentro? — retrucou ela, o tom tenso, as feições apreensivas.

A pergunta incisiva me pegou inocente. Meu olhar tornou-se vago.

-- Mas não tem nada lá fora. -- respondi com a voz fraca, abobalhado.

-- Aqui também não. Você pode vir comigo, se quiser. -- murmurou ela, deixando-me sozinho no banheiro.

Não sabia ao certo como reagir. Permaneci parado, fitando a porta do banheiro. Não me sentia preparado para voltar ao corredor. Ainda tinha medo daquela mão gélida. Novamente sufoquei o choro, diante daquele sentimento revoltado de abandono. Respirei pesado, e dar as costas à porta foi minha primeira reação. De certa forma, senti meu desejo de vingança simbolicamente satisfeito. Ao dar as costas à porta, deparei-me com uma imagem sombria, de formas humanas. Estremeci. Porém ela não me atacava, apenas permanecia lá, imóvel, assim como eu. Ao perceber que repetia meus movimentos, deduzi tratar-se de meu reflexo num espelho, o que confirmei ao me aproximar um pouco da imagem. Já não sabia ao certo se meu alívio era por não ter um monstro ali dentro ou se por poder ver meu próprio rosto. Aquela solidão me fazia ter medo de esquecer certas coisas, ainda que triviais, como meu nome, dai o alívio ao ouvir em meus lábios a palavra Travis, ou meu rosto.

Abri a torneira. A água veio límpida. Lavei minha face e só então percebi que não possuía toalha. Permaneci fitando meu reflexo, com o desejo de decorar minhas feições. A respiração tornara-se suave. Estava quase em paz, relaxei. Subitamente, o meu reflexo mexeu-se sozinho, seus braços saltaram para fora do espelho, agarraram minha cabeça e me puxaram. Não tive tempo sequer de esboçar uma reação. Senti a forte pancada de minha cabeça contra o espelho. Ouvi o barulho deste se quebrando. Perdi a consciência.