The Blue French Horn
1 Capítulo único
Notas iniciais
O vento gelado do outono nova-iorquino lhe soprava os cabelos volumosos, não mais tão escuros como costumavam ser. Ostentavam, agora, alguns fios brancos que se acumularam ao longo dos anos. Na testa, estranhamente pegajosa e quente, alguns deles se encontravam emaranhados e grudados no suor recente. Seu peito queimava, a sua respiração soava irregular em seus ouvidos e havia aquela estranha sensação familiar de que seu coração estava mais que pronto para saltar do peito.
Ted levou as mãos aos joelhos, tentando recuperar o fôlego que havia perdido com sua pequena corrida. Constando, por fim, que já não tinha mais idade para essas aventuras românticas em meio a uma noite fria de outono.
E, no entanto, ali estava ele.
Segurava com tal força a trompa azul que acabara de roubar, pela... (ele não fazia ideia de quantas vezes já a havia roubado), que os nós dos seus dedos começavam a ficar esbranquiçados. Olhou para a grande janela que ficava no segundo andar de um edifício pitado em cores claras, o qual ele conseguiria chagar mesmo se seus olhos estivessem vendados. Já estivera ali tantas vezes. Sentara-se na grande sala bem decorada do apartamento 201 cercado pelas pessoas que mais amava na vida, os seus amigos.
Mas aquela não era uma noite comum. Ele não se sentia comum. A sensação, no entanto, era quase a mesma daquela que sentira há mais de vinte e cinco anos. Vinte e cinco anos se passaram desde que roubara pela primeira vez a trompa azul que tinha em mãos. Roubara para a mulher que ele chegou a pensar, por um breve, mas não tão breve assim, instante, ser o grande amor da sua vida A pessoa certa. Uma sensação que não sentia desde Tracy.
Mas já haviam se passados seis anos.
Ele sabia que tinha que continuar, que não era errado se sentir assim novamente. Que Tracy tinha lhe permitido ama-la o quanto ele pôde e por quanto tempo ele pôde, não para que ele se tornasse, no fim das contas, uma pessoa que vivia em suas lembranças, mas, sim, para que ele amasse sem receios, sem medos. E ele amava.
Ted olhou novamente para a janela no segundo andar, as luzes estavam acesas o que significava que ela estava em casa. Encheu o peito, do que acreditava ser coragem, não tinha mais tempo a perder, não podia mais adiar aquilo... então tocou a campainha.
No peito, dançando em euforia, o seu velho coração esperava ansioso os minutos, que pareceram horas, até que ela surgiu no peitoril da janela.
Robin.
Os cabelos na altura no ombro lhe caíram sobre os olhos quando ela inclinou ligeiramente a cabeça para o lado. Quase não conseguindo acreditar no que seus olhos estavam vendo.
Seus lábios, sem que nem mesmo tomasse consciência, se abriram em um sorriso que vinha guardando há anos. Ao seu lado, seus cachorros observavam a cena sem que compreendessem o que ela significava.
Vinte e cinco anos.
E, ainda assim, ali estava ele.
Com o mesmo sorriso bobo no lábios e a mesma gravata que usara naquele dia. A trompa francesa azul segura em uma das mãos, estendida em sua direção. Tudo tão familiar, que o seu coração se encheu de uma sensação de casa. De lar. Aquela havia sido a sua trompa azul por anos. E ela mal podia acreditar que seria novamente.
Seus olhos encheram-se, de repente, de lágrimas contidas. “be cool, Robin, dam’ ela dizia para se mesma, mas já não havia mais jeito. Há muito tempo perdera a sua habilidade de fingir não sentir nada.
Ted abriu um sorriso ainda maior no rosto e Robin pode ver as linhas de expressão que lhe surgiam ao redor dos olhos. Mas para ela, ele nunca pareceu tão bonito quanto naquele momento.
Em um gesto delicado de cabeça, pediu para que ele subisse.
Os pouco mais de cem degraus até o segundo andar, nunca pareceram tão longos.
Do lado de fora, Ted subia as escadas o mais rápido que as suas pernas aguentavam, sentia a garganta seca, mas não tinha sede. Do lado de dentro, Robin espera junto a porta. Tinha a nítida sensação que a qualquer momento cairia dura no chão, pois seu coração, irreconhecível, sambava desobediente no peito.
Não conseguindo mais esperar, ela abriu a porta.
E ali estava ele.
O sorriso que se formou em seus lábios de tão genuíno preencheu os seus olhos.
Então Ted a beijou.
Segurando com a mão livre o rosto da mulher que ele amava, sentia-se ser abraçado pelos braços longilíneos de Robin, que pareciam querer gruda-lo a ela ainda mais, se é que fosse possível. A sensação de ter os lábios dela sob os seus era, ao mesmo tempo, nova e familiar. Talvez já não tivesse mais toda aquela urgência da juventude, onde era tudo ou nada. Mas tinha algo que o jovem Ted nem mesmo poderia sonhar naquela época que encontraria ali, nos lábios da mulher o que fizera, por diversas vezes, perder o juízo, havia encontrado paz.
O ar se fez necessário e Ted diminuiu o aperto que os mantinha unidos. Encostando a sua testa na dele, Robin sentia a respiração dos dois, ao poucos, ir voltando ao normal. Então sorriu, não sabia exatamente o porquê, apenas sorria.
Puxando-o para dentro do apartamento, fechou a porta à suas costas. E o olhou, como pensou jamais ter o olhado antes. Suas mãos acariciavam por conta própria os ombros do homem parado a sua frente enquanto ela se perdia em pensamentos.
— eu sei que... provavelmente – começou ela, sentindo o nó na garganta aumentar a cada palavra dita – estou uns vinte anos atrasada... mas... hum... eu só queria dizer que... sim, eu amo você. Por deus, eu te amo tanto!
Por um segundo, um segundo inteiro, Ted não ouviu mais nada além do ecoo daquelas palavras. O seu coração, ainda em êxtase, se recusava a voltar a bater.
E, naquele instante, ele a beijou. Dessa vez, sem esperar por qualquer sinal, seja do universo ou seja lá de quem fosse. Ele apena a beijou.
Fale com o autor