The Black Angel
4 Meu anjo: e começaram as revelações.
Notas iniciais
Eles nos deixaram na entrada da nossa rua. Convidei Liesel para jantar e dormir lá em casa. Enquanto ela ia buscar algumas coisas, fui preparar a janta. Macarrão ao molho de cheddar com bacon. Meus irmãos já estavam em casa. Matthew acabara de chegar do colégio e Henri estava no banho. Dei um beijo nos cabelos do meu irmão, que estava vendo as novidades no mundo da música na tevê. Fui à cozinha por o macarrão para cozinhar e cortar o bacon. Estava já fazendo o molho quando Liesel chegou. Disse a ela para deixar tudo em meu quarto. Henri, Matthew e Liesel já estavam na cozinha, e me ajudaram a por a mesa. Meu pai ainda estava trabalhando. Nos servimos e começamos a comer. Henri puxou conversa:
– Demoraram hoje, hein?
– Hellie teve um desmaio no meio da rua – Liesel respondeu. Minha amiga comeu um pouco de macarrão.
– Não brinca! E o que causou?
– Uma queda de pressão. Uns caras estranhos estavam do outro lado da rua. Estavam entrando num prédio. Eu ia falar com ela, mas de repente ela cai no chão. E no instante seguinte só vi o mais alto carregando ela e correndo que nem um doido. O mais baixo foi correndo atrás e eu tive que correr o dobro. Eles eram rápidos demais.
– Do outro lado da rua? – Olhei para Liesel desconfiada – Ele disse que estava atravessando a rua, com a gente!
– Nos meus olhos eu confio, Hellie. Eu achei os dois estranhos demais até pra Nova York.
– Continue Lie – pediu meu irmão gêmeo.
– Ããã... Depois que entramos, Gerard, o cara que estava a carregando, continuou correndo e sumiu. E o Frank, que era o mais baixo, me levou até a lanchonete e pediu um café para mim. Depois saiu. Achei que eu ia ter que pagar, mas depois ele apareceu com uma nota na mão e me disse que Helena já tinha sido atendida. Fomos para uma sala de espera e ele me perguntou nossos nomes e se Hellie tinha comido direito. Depois disse que esperássemos por notícias. Uma senhora chegou e avisou que ela tinha acordado. Frank não me levou e eu estranhei isso.
– Com certeza. Seria muito educado da parte dele se te levasse até onde Hellie estava. – Matthew largou o garfo; Parecia indignado.
– Talvez não fosse muito seguro... Pensem: uma estudante com um cara de... Quantos anos ele tem? – Henri disse.
– Uns vinte. Ele parece mais novo, mas tem vinte. E Gerard tem vinte e um.
– Ficaria muito estranho se vissem um cara que trabalhasse lá com uma estudante passeando na empresa... – Meu gêmeo continuou.
– A enfermeira disse que Gerard era sócio. – Comentei.
– Sócio? Frank disse que ele era um gerente de não sei o quê. Ou um administrador de alguma coisa.
– Mas pode ser que seja sócio também, isso não impede que ele seja sócio. – O caçula ponderou.
– Eu acho que não, cara. Ele poderia falar disso. A enfermeira poderia ter completado. Se ele fosse tão importante e tivesse uma área destacada na empresa, os dois diriam a mesma coisa. E eles se vestiam iguais, por que Frank seria um secretário, como ele afirmou? Tem alguma coisa errada.
– Vocês já ouviram falar em Gerard Way? – perguntei a meus irmãos.
– Gerard Arthur Way, para ser mais exato. – Liesel corrigiu.
– Gerard Way? Não... Mas conheço um Michael James Way... Ele toca baixo às vezes na sala... – Meu gêmeo respondeu. – Nunca o vi com qualquer pessoa. Sempre passa o almoço sozinho. Às vezes ele fica na sala tocando baixo. É a pessoa mais antissocial que já vi na minha vida.
– Que horror!
– Já vi esse cara saindo da escola. Ele sai no mesmo horário que eu – Matthew estudava de meio-dia até as seis. – E ele não sai da escola a pé não, viu? Ele entra numa Tucson preta. Sempre tem um cara esperando com óculos escuros , com uma roupa preta e corrente prata, com uma cruz.
– E o cabelo dele é comprido como o seu?
– Exato.
– É Gerard – Afirmei.
– Mas um dia o vi conversando com outro cara... – Henri comentou.
– Ele era baixinho com o cabelo curto, espetado, uma franja, parecendo plumas pretas?
– Sim.
– Frank – Afirmei de novo.
– Sabem o que é mais estranho? – Henri analisou – O cara tem dezessete anos. DEZESSETE anos, minha gente. Pelo que vimos esse Gerard é irmão dele. E como ele já pode ter uma vida brilhante se mal saiu da universidade? E por que o tal Michael não dirige? Geralmente nessa idade os garotos já pensam em ter carros, ficar conversando com garotas, ou entrar em um time do colégio. Mas ele não faz nada. Ele sempre foi da minha turma e nunca o vi falando com ninguém. E some na educação física.
– É um cara meio passivo demais. E várias meninas ficam comentando como ele é bonitinho, isso ou aquilo. – Matthew comentou.
– Nunca o vi... Ou não me lembro. Como ele é? – perguntei.
– O cabelo dele é castanho meio aloirado... Os olhos são castanho esverdeado, é uma cor muito estranha. Ele é mais alto que eu.
– Todo mundo é mais alto que você, Matthew! – Henri brincou
Matthew ignorou:
– Usa óculos também. E ele nunca sorri. Pelo menos não que eu tenha visto. E às vezes usa um gorro, uma touca, sei lá. E ele tem uma expressão sombria... Já vi o tal Gerard rindo, parecia que contara uma piada, mas Micheal... Nem vi sombra de sorriso.
– Credo! – Liesel arrepiou.
– Esse tal Michael... Já ouvi o irmão dele o chamando de Mikey... Enfim... O Joseph, nosso guitarrista e vocalista, o viu tocando, inclusive foi na sala de Henri. Nós realmente precisávamos de um baixista, pois o nosso estava em viagem. Ele ficou meio nervoso, disse que não queria, pois tocava apenas por diversão. Insistimos e ele alegou que morava longe, depois que o irmão não iria deixar, e chegou a dizer que não tocava bem. Mentira, nunca vi um cara como ele. Digo até que toca melhor que o nosso!
– Que estranho... Isso é que antissocial!
– Eu disse...
Comentamos o assunto mais um pouco. Terminamos o jantar e meus irmãos lavaram a louça. Eu e minha amiga fomos para o quarto. Arrumamos nossas camas e vestimos nossos pijamas.
– Hellie...?
– Sim?
–O que achou do Frank?
– Parece um cara bonitinho. Meio estranho, mas é engraçado... Achei-o fofinho. E você?
– Achei ele meio idiota. Mas é tão bonitinho. E o Gerard?
– O Gerard...? Bem, admitimos, ele é lindo. Mas é tão... Misterioso...
E contei o sonho a ela. Liesel ficou surpresa. E ainda disse que a coincidência era estranha demais. Trocamos algumas ideias sobre nossa conversa na mesa. Ela terminou dizendo: “É Hellie... Você tirou a sorte grande. Conheceu seu anjo da guarda.”.
☆
Aula de História. Segunda Guerra Mundial. Minha aula favorita. E Liesel dormindo.
O professor enfatizava como essa poderia ter sido a pior guerra da humanidade. O holocausto judeu, a destruição das cidades.
– Gente, vejam só: Três países – anotou no quadro – Alemanha, Itália e Japão. Agora vejam quantos países precisaram segurá-los. Ele pegou uma folha e leu: – Estados Unidos, Austrália, Brasil, Nova Zelândia, Nepal,África do Sul,Canadá,Noruega,Bélgica, Luxemburgo,Países Baixos,Grécia,Iugoslávia,Panamá, Costa Rica,República Dominicana,El Salvador,Haiti,Honduras,Nicarágua,Guatemala,Cuba,Coréia,Checoslováquia,México,Etiópia,Iraque,Bolívia,Irã,Colômbia,Libéria,Romênia, Bulgária, San Marino, Albânia,Hungria, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela,Turquia, Líbano, Arábia Saudita, Argentina, Chile e Dinamarca. Viram? Mais de cinquenta países barraram três! Hitler, de fato foi um grande líder, conquistou quase toda Europa! Mas depois o poder fez sua cabeça. Os filmes sobre o holocausto, nem de perto retratam o que aconteceu. Um livro que chega perto disso é Maus, de Art Spiegelman, sobre o pai do autor, que passou pelos campos de concentração e...
Nesse momento a diretora entrou na sala, sem pedir licença e apressada.
– Professor, as alunas Helena Lee Morgan III e Liesel Armstrong Williams, virão comigo. Meninas, arrumem seus materiais, por favor.
Fiquei com medo. Liesel acordou no exato momento que a diretora disse o nome dela. Nos entreolhamos e imaginamos o que poderíamos ter feito. Saímos da sala e seguimos a diretora pelos corredores. Geralmente quem nos acompanhava era um funcionário qualquer, não a supremíssima de um dos melhores colégios de Nova York. Fomos até o saguão de luxo, onde estavam sentados Gerard e Frank, acompanhados de mais dois caras, um loiro de cabelos curtos e outro de cabelos grandes e encaracolados. Todos estavam com a mesma roupa de Gerard e usavam óculos escuros. A diretora anunciou nossa chegada e saiu. Gerard Se levantou e beijou a minha mão e a de Liesel. Frank veio depois, passou direto por mim e deu um beijo no rosto de Liesel. Os outros dois rapazes se levantaram. o de cabelos cacheados apertou nossas mãos, se apresentando:
– Raymond Manuel Toro Ortiz, prazer em conhecer duas belas damas.
– Helena Lee Morgan III e Liesel Armstrong Williams – Eu respondi e indiquei minha amiga. – Prazer recíproco – sorri.
O louro pareceu nervoso e apenas disse:
– Eu sou o Bob!
Liesel replicou:
– Bob Esponja Calça Quadrada?
Frank deu uma risada exagerada demais e nós apenas rimos baixo. Ray incentivou:
– Ora, Bob! Apresente-se direito!
– Mas meu nome é muito feio!
– Não é, fale logo!
– Ok... Meu nome é Robert Nathaniel Cory Bryar. Horrível né?
– Não, é um nome muito bonito. Eu gostei. – procurei ser simpática. Liesel tentou evitar o olhar de Frank, que ficara a seu lado e como um bobo olhando para ela.
Eu ia abrir a minha boca para perguntar porque que eles nos chamaram, mas fui interrompida pela diretora anunciando:
– Senhor Way, seu irmão está aqui.
Liesel e eu nos viramos para porta. Michael Way. Na nossa frente. O antissocial de Nova York. Era exatamente como meu irmão descrevera. Eu o achei bonitinho, e olhando bem, ele era um pouco parecido com Gerard, mas eu não sei dizer exatamente o que era. Gerard abraçou o irmão, que ficou fitando os próprios sapatos quando notou que havia duas garotas (uma com cara de boboca e a outra com cara sono interrompido) estavam olhando pra ele.
Gerard nos convidou a sair do colégio, não era seguro falar um certo assunto ali. Eles foram na frente e enquanto tentávamos acompanha-los, Liesel ergueu os braços e comemorou o fato de ser liberada mais cedo. Gerard olhou para nós e os quilômetros que nos separavam. Ele disse para os outros nos esperarem; eu fiquei entre Gerard e Raymond. Liesel ficou entre a parede e Frank, que estava falando sobre um assunto qualquer.
E à frente estava a entrada/saída do colégio. E a Tucson preta, linda e brilhante. Ray abriu a porta do condutor e Bob do acompanhante. Frank abriu a porta de trás, deixando Liesel entrar, e em seguida, entrou. Gerard ironizou sobre a educação de Frank, segurou a porta e disse “as damas primeiro”. Entrei, seguida por ele e pelo irmão, que fechou a porta meio abruptamente.
Ray guiava velozmente e com precisão entre as movimentadíssimas ruas nova-iorquinas. Vimos passar ruas conhecidas, e no carro reinava um silêncio amedrontador. Tentei não olhar pra Gerard e nem para a janela. Quis falar com Liesel, mas tinha um corvinho de plumas negras como carvão sorrindo para ela. Esta estava olhando fixamente para o banco da frente, tentando não rir. Era engraçado aquele flerte.
Comecei a notar que estávamos indo para um dos bairros mais chiques de Nova York. Entramos em uma garagem de um prédio de luxo. Ray e Bob saíram, abrindo as portas traseiras. Liesel saiu, e Frank foi atrás. Mikey saiu como que por mágica, e Gerard saiu junto comigo. Seguimos juntos até o elevador, que nos levou até décimo quinto andar. Os rapazes foram na frente, exceto Frank, que nos acompanhou. Gerard abriu a porta, de madeira escura e uma maçaneta prateada. Ele segurou aporta, e os demais entraram. Eu e minha amiga entramos com ar solene, admirando a riqueza do apartamento. Quadros de Pablo Picasso, outros de Van Ghog. Sofás de couro, televisão de última tecnologia, mesa de vidro que parecia cristal, com seis cadeiras. Uma cristaleira com taças de cristal e detalhes em ouro e xícaras de porcelana japonesa. Um castiçal de prata pendia no teto, com minúsculos brilhos (pareciam diamantes). Nesse momento, me senti paupérrima e humilde. Liesel ficara boquiaberta com o espetáculo de brilhos.
Gerard me puxou delicadamente e me fez sentar no sofá. Puxou uma cadeira e a colocou diante de mim. Depois cochichou algo para Mikey, que saiu da sala. Frank ficou em pé, ao lado de Liesel, e ficou comportado.
Mikey estava de volta, vestido como os outros, exceto que não usava a corrente, e Gerard se sentou na cadeira. Bob, Ray e Mikey ficaram em pé ao lado de meu anjo. Frank se juntou a eles, e minha amiga puxou delicadamente uma das cadeiras de veludo vermelho, e se sentou, com o rosto admirado.
Os cinco ficaram olhando para mim com os rostos sérios. Achei que ia desmaiar de novo, ou sair dali correndo, ou me atirar da janela. Gerard pegou em minhas mãos, de maneira firme e delicada. Ele respirou fundo, e fechando os olhos por uns segundos. Parecia rezar. Depois abriu os olhos, e suas esmeraldas me fitaram, como no sonho.
– Helena... Precisamos ter uma conversa séria.
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