The Big Four - A Nova Geração
10 Sempre Tenha Um Psicólogo Na Discagem Rápida
Notas iniciais
Capitulo 9
A chata da professora de trigonometria me lançou um olhar reprovador quando eu gritei de felicidade pelo sinal ter finalmente tocado, anunciando o fim do último tempo do dia. Juro que ela deve ser parente da Umbridge porque sua cara realmente lembra um sapão/bulldog gordo e tenho certeza que ela faria você escrever "não devo mentir" na sua mão usando um grampeador caso você fale que seus irmãos (que você suspeita serem meio goblins e meio gremilings) comeram seu dever de casa. Soluço acha que eu não devo falar esse tipo de coisa em voz alta, mas na verdade acho que ele é neurótico demais, é só a mais pura verdade.
Quando a aula acabou Johnny nos deu uma carona de volta para casa e antes deixou os meninos na casa de um pirralho da classe deles. Eu tinha convidado todos para irem almoçar lá em casa, mas, a Mavis e o Johnny iam à cidade comprar uma câmera nova que tinha saído há pouco tempo para ele ou algo nerd assim. Rapunzel ia ao shopping comprar roupas "para acampar", os espanhóis tem cada mania estranha. Nem me fale de "Dios Mio", porque se não vou morrer de um ataque epilético de riso histérico. Acabou indo só eu e o Soluço mesmo.
Deve ter sido a primeira e única vez na minha vida que eu cheguei em casa e minha mãe não estava lá. Deu no que deu né, pizza. Depois de dividirmos uma pizza meio peperroni meio marguerita resolvemos ver TV, e para entrar no clima de acampamento colocamos "A Prova de Tudo" para passar na minha televisão diva de sessenta polegadas. Depois que acabou os dois episódios que eu tinha gravado antes, nós ficamos com cara de paisagem encarando a TV e não aguentando comer tanta pipoca.
Soluço ficou me enchendo o saco para aproveitarmos que já estávamos ali mesmo para organizar o trabalho de literatura, que cdf. Mas, fazer o que, ele podia ser bem crianção/insistente quando quer. Me levantei do puffe em que estava sentada e fui pegar meu caderno na escrivaninha, que ficava do outro lado do quarto, à direita da porta do closet. Depois de um tempo sem achar o caderno certo, Soluço deve ter percebido que eu estava a ponto de tirar a espada da família da sala e dar na escrivaninha com ela, porque ele se levantou e, pacientemente começou a tirar os cadernos e livros um a um.
― É um caderno da Grifinória? ― O Soluço perguntou.
― É.― E continuei ― O de gramática também, mas já tá aqui.
Ele se abaixou e colocou a cabeça entre aquela porcaria de móvel do demônio e a parede.
― Tem alguma coisa aqui, deve ter caído aqui e você não viu... ― Hiccup disse enfiando o braço ali e tateando o caderno. Quando finalmente ele se levantou e me mostrou o que era, eu dei um peteleco na orelha dele e disse que não era o caderno.
― Poxa Merida, eu pensei que fosse, a culpa nem é minha...
―Você me deu falsas esperanças de que era o meu caderno... ― Resmunguei de um jeito que ele não iria ouvir. ― O que é essa bosta, afinal?
Ele virou os olhos para a "bosta empoeirada" e com a manga do casaco tirou um pouco da sujeira acumulada pelo tempo da capa do treco. Encontrei-me encarando um livro, mas não um livro normalzinho, era "O Pequeno Príncipe", o meu livro favorito quando era menor. Soluço abriu um sorriso para o livro e o virou para mim.
― Cuidou bem dele, hein...?
― Cuidei bem? Do que você esta faland...― Levantei as sobrancelhas em surpresa quando reconheci o livro velho e o título em escocês. Era um livro que eu tinha ganhado a muito tempo de Soluço no meu aniversário, quando ainda morávamos na Escócia. Tirei o livro dele e sorri, ainda olhando para a capa desgastada pelo tempo. Ele parou ao meu lado para admirar o livro também, esticou a mão e passou para a primeira página.
― Esse livro tem uns dez anos... ― Eu disse.
― Dez anos de poeira... ― Soluço disse baixinho. Dei uma cotovelada nele, o fazendo rir.
― O procurei por um tempo depois que me mudei, pensei que tivesse deixado na Escócia. Mas pelo visto ele estava bem guardado aqui.
― Lembro que era o nosso livro favorito. Bem legal você ter guardado isso por todos esses anos, Rida.
― Claro que eu ia guardar, foi um presente do meu melhor amigo, como eu ia jogar fora? Sou tão responsável por ele quanto sou por você, idiota.
― "Tú és eternamente responsável por aquilo que cativas..." ― Ele disse com um sorriso.
― Isso mesmo, sou responsável. E você, eres responsável por mim Hic?
Ele continuou me olhando, mas ficou sério, mas não um sério sério, um sério "agora a porra ficou séria" e disse com um sorrisinho imperceptível:
―Acho que essa é uma das poucas certezas que tenho...
Fiquei um pouco sem ação, ele nunca falava coisas desse tipo. Foi um pouco estranho, diferente, mas não ruim, só ... diferente...
TIME SKIP → MANHÃ SEGUINTE
Acordei no meio da noite, por volta das onze e pouca, com um cheiro de queimado muito forte. Fiquei encarando a parede por alguns segundos sem entender muito bem o que estava acontecendo, mas, depois arregalei os olhos e deu um pulo da cama. Corri até a porta e a abri com um tapão na maçaneta, sempre dá certo. O corredor se encontrava com uma leve névoa, e vindo do piso de baixo, eu podia ouvir alguns cochichos. Desci escorregando pelo corrimão meio sacaneada, quase caindo às vezes, mas cheguei lá em baixo tão rápido quanto você pode dizer "sacaneada".
A porta da cozinha estava com uma fresta aberta, e eu podia ver pouca luz vinda lá de dentro. Entrei dando um chute na porta e fazendo uma expressão "que palhaçada é essa na minha cozinha?"
Não sei se fiquei aliviada ou com raiva quando vi meus três capetas ruivos olhando uma frigideira pegando fogo em cima do fogão.
― HAMISH! ― Exclamei. ― Que porcaria é essa?
Eles não responderam nada, resolvi cuidar disso depois. Andei até o fogão e peguei/empurrei/taquei a frigideira na pia, abrindo a torneira em seguida. Uma fumaça preta e um chiado horrível saíram dela. Descrevendo assim nem parecia que se tratava de uma frigideira com um perigoso treco carbonizado. Me virei para os meninos e depois para Hamish, mesmo sendo o mais quieto dos três eu sei que ele é a mente do mal.
― Dá para me explicar o que acabou de acontecer aqui, seus cabeça de mer... leca?― Perguntei baixo e com o tom sério.
― Panquecas... ― Disse Hamish com uma cara de choro. Eles não me enganam.
― A meia noite? Foram fazer panqueca meia noite? Conta outra. ― Resmunguei no final. Voltei a encara-los e eles continuaram com a mesma cara, de choro.
― Hamish, Harris e Hubert, o que está acontecendo, expliquem agora. ― Eu estava esperando que eles rissem ou algo do tipo, porque é o que sempre acontece. Desta vez foi diferente. A expressão deles não mudou, Harris e Hubert olharam rapidamente para a janela, e Harris para o chão.
― Expliquem. ― Eu disse novamente. Por algum motivo desviei o olhar para a pia, e dentro da frigideira, onde eu esperei ver uma sopa carbonizada de panqueca, eu vi um pedaço de pano. Para ser mais precisa a toalha de centro da mesa. Andei até a pia indignada de terem mentido para mim e sem nem mesmo desligar a água ou ligar para o pano quente eu o peguei e sacudi na frente deles.
― Expliquem que porra é essa para mim ou para a mamãe. ― Disse em um misto de raiva e curiosidade.
Hamish engoliu em seco e mexeu nas mãos, ainda olhando para o chão. Depois de pouco tempo, quando eu abri a boca para falar, Hubert começou a soluçar e a chorar desesperadamente com as mãos no rosto e me abraçou, sendo seguido pelos outros trigêmeos. Tá, agora estou confusa.
― Desculpa, maninha, eu... eu, medo, muito medo.― Disse o Hamish começando a soluçar.
― Ele disse que ia fazer mal à mamãe e ao papai se não fizéssemos isso... ― Completou o Harris cabisbaixo. Hubert continuava a chorar loucamente.
― Ele quem men... ― Fui em interrompida pelo Hubert.
― Merida, por favor, não nos faça contar, ele vai te machucar. Vai nos machucar.
― Meninos, calma, se acalmem. Ninguém pode me machucar, sou a Merida lembram?
Isso os deve ter acalmado por um tempo, porque eles começaram a controlar a respiração.
― Acreditem em mim, esta tudo bem agora, eu estou aqui. Podem ter certeza de que se alguém, qualquer um tentar machucar minha família vai levar umas porradas da Merida aqui.― Eu disse com convicção e dei umas batidinhas nas costas deles.
Com uns cinco minutos de lágrimas e pedidos de desculpa eu levei os meninos para o quarto deles. Eles só aceitaram dormir quando eu disse que ia ficar ali a noite toda, de olho em tudo. Depois de uma hora e pouco eu comecei a ficar com muito sono e voltei para o meu quarto, amanhã quando eu estivesse menos frustrada eu ligaria para o psicólogo deles e para o meu também. Brincadeira, não tenho psicólogo. Ainda.
Não tive sonhos, mas quando acordei pensei que estava no meio de um pesadelo. O sol já tinha nascido, e nas paredes do meu quarto, perto das tomadas, chamas saiam da parede. Talvez eu devesse ter ligado para o psicólogo dos meninos ontem mesmo. Levantei igual à noite passada, em um pulo e quando sai, vi que do lado de fora da minha porta só existiam chamas.
Sai correndo pelo corredor, indo em direção à escada. Vendo todo esse fogo pela casa tive certeza que não daria para descer pelo corrimão, que desgraça. Cheguei de voadora na porta da cozinha, já sabendo o que me esperava lá dentro. Espantei-me quando descobri que eu estava bem errada.
Fogo.
Fumaça.
Era isso que tinha dentro da cozinha, nada de ruivinhos. Puxei a gola da camisa mais para cima por causa da fumaça e fiz um coque no cabelo, isso não seria nada bom. Nem pensei em chamar os bombeiros nem nada assim, tenho certeza que até pessoas na montanha vão conseguir ver a minha casa em chamas. Tirei uma reta para a escada e parei na frente da porta dos meninos, que fica ao lado do meu quarto. O fogo já tinha a alcançado, mas tenho certeza que ouvi barulhos diferentes do fogo lá dentro. Dei um chute na porta, descalça mesmo, aqui é vida loca. A porta já devia estar enfraquecida por estar sendo queimada porque depois do segundo chute uma fenda grande o bastante para eu passar se abriu. Fiquei aliviada de eles estarem ali, mas desesperada por estarem ali. Confuso? Hubert estava ajoelhado no chão abraçando o braço, e os outros dois meninos estavam jogando coisas na janela, provavelmente para tentar quebrá-la.
― MENINOS! ― Gritei o mais alto que consegui, correndo até eles. Hubert foi o primeiro a me notar. Ele se levantou e correu até mim, percebi que tinha algumas lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Assim que chegou perto de mim ele pulou e me abraçou. Eu o segurei no colo e andei até os outros, que até agora não sei como, não tinham me visto.
― MERIDA! ― Eles gritaram mais alto que eu.
― Eu sabia Merida, ele disse que ia vir atrás de nós... ― Começou a falar o Harris.
― Fala lá fora, temos que sair, AGORA! ― Exclamei deixando Hubert pendurado no meu pescoço e segurando a mão dos outros. Tenho certeza que alguém lá em cima não gosta de mim, acho que é a minha avó, porque assim que nos aproximamos da porta a madeira cedeu e caiu criando um monte de brasas. Nós gritamos e os meninos me puxaram para trás, acho que o melhor plano que tínhamos agora era se tacar da janela. O problema era que ainda tínhamos que quebrá-la, porque era de vidro e tinha um trinco de metal que com o calor do fogo ia estar bem geladinho se você me entende.
Depois de ter ajuda de Harris e Hamish, Hubert finalmente me soltou, mas, não parou de chorar. Ele deve ter tentado abrir a janela e se queimou. Eles ficaram resmungando o tempo todo sobre "ele", pode apostar que se fosse um cara louco por ai eu ia acha-lo e dar umas porradas nele. Se morresse ia acha-lo mesmo assim para puxar o pé dele. Bom, se alguém do lado de fora estivesse olhando para essa janela ia ver um Xbox novinho ser arremessado dela e cair dentro de uma piscina. Uma linda cena realmente. Levantei quem estava mais perto da janela, que era o Hubert e sem mais nem menos taquei ele da janela. Taquei mesmo, eu falo na cara. Ele rolou pelo telhado e depois desapareceu, caindo na piscina em seguida. Um de três, faltam dois. Comecei a ouvir estalos vindos da estrutura da casa. Isso não é bom...
― Harris vai logo. ― Falei um tanto desesperada. Olhei em volta só para ter certeza que não ia dar para pegar o meu arco. É, melhor não. Quando olhei novamente para a janela Hamish já tinha pulado nela e Harris tinha acabado de desaparecer de telhado. Dois de três, falta um. Andei até a janela. Ele começou a escorregar para fora bem quando a casa produziu outro estalo, desta vez muito mais alto que o primeiro. Algumas ripas de madeira que compunham a parede se soltaram e caíram para a direita, bem entre mim e a janela.
― Merida... MERIDA! ― Hamish gritou choroso.
― Vai garoto, pula! ― Gritei mais alto que pude.
― Preso, to preso Merida.
Mesmo com fumaça e fogo e consegui ver entre as ripas um pedaço de moletom. O fogo já o tinha alcançado. Foi ai que eu comecei a chorar com os gritos de Hamish.
Sem pensar duas vezes tentei de todas as formas levantar a madeira sem sucesso nenhum. Respirei fundo e me abaixei, fechando os olhos por causa do calor de fogo, apoiei a madeira sobre o ombro e fiz toda a força que tinha para levantá-la. Foi a pior dor de toda a minha vida. Meu cabelo deve estar todo sacaneado agora. Mesmo tendo levantado só uns 10 cm, foi o suficiente para o moletom soltar. Assim que os gritos de Hamish se distanciaram um pouco eu soltei a maneira e dei uns passos desajeitados para trás. Três de três. Agora faltava eu.
Minha visão estava começando a embaçar e ou ouvi mais estalos, uma parte do teto caiu do outro lado do quarto. Já que ia morrer mesmo eu não ia ficar ali esperando né, se fosse pra morrer pelo menos eu ia morrer tentando não morrer, tendeu miguinho?
Abracei o meu próprio corpo e percebi que a manga da minha camisa ainda estava chamuscando, nem liguei. Respirei fundo, ou tão fundo quanto se é possível quando se esta em um incêndio, e me joguei contra a parede do quarto deles que dava para o meu. Faltava só mais uma coisa.
Graças aos deuses o meu quarto não estava tão dominado pelo fogo, passei a mão no meu arco e antes de sai vi meu livro favorito bem no meio do quarto, o único lugar que não tinha fogo. Peguei ele também. Ainda bem que tinha deixado à porta aberta quando sai, antes dessa loucura começar.
Tirei uma reta para baixo. Cinco de seis salvos. Faltava eu.
Desci aquelas escadas o mais rápido que pude, e quando cheguei lá em baixo consegui ver o lado de fora. A nossa grande porta de madeira já não existia mais. Vi os meninos e o meu olhar cruzou com o do bombeiro. Naquela hora tive certeza que tudo ia dar certo, foi ai que eu levei um soco. É sério, não sei de que, mas, quando estava a uns sete ou oito metros da porta senti algo acertar minhas costelas. Não foi uma madeira nem nada assim, eu reconheço um soco quando eu levo um. Isso só piorou o minha tonteira, e o pior é que eu caí de cara no chão, um chão pegando fogo. Mesmo assim me levantei e voltei a correr. A última coisa que eu lembro é de ouvir meu nome ao longe, e estranhos sussurros. Ai só teve dor e chamas.
Quando abri os olhos não sentia mais dor, pensei estar em um hospital até que olhei em volta e vi que estava deitada no chão, no que tinha sobrado da minha casa. Já não tinha mais ninguém do lado de fora. Ao meu lado o livro que Soluço me deu era somente uma pilha de cinzas. No braço que devia ter um monte de queimaduras e estar em carne viva, agora eu tinha uma tatuagem de labaredas. Sério, como isso veio parar aqui? Acho que ainda estou meio grogue da fumaça e tal.
Tive certeza que estava perturbada quando olhei para o lado e vi um coelho. Um coelho cinza de dois metros que tinha um bumerangue.
Ah, esqueci-me de falar que ele estava em pé nas patas traseiras e sabia o meu nome. Devia mesmo ter o número do psicólogo na discagem rápida.
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