The Big Four - A Nova Geração
31 A Praga do Esquecimento Ataca a Maluca dos Dentes
Só pelo fato de encarar as grandes janelas do Castelo, um sentimento estranho se alojou no meu peito.
— Reconsiderando? — Jack perguntou levando uma sobrancelha e abrindo um sorriso.
— Só pensando. — Concluí franzindo a testa e o olhando de cima a baixo por um segundo. Jack podia ser bem irritante quando queria.
Voltei os olhos para o Castelo novamente. Algo parecia tão, tão errado. As cortinas de vários cômodos estavam fechadas, assim como as portas das varandas. Meu cérebro falava que era só por causa das frequentes tempestades, mas algo ainda me fazia desconfiar disso.
— Podemos ir no mundo inferior primeiro. — Ele sugeriu, tirando uma poeira imaginária de seu cajado.
— Eu não vou no mundo inferior, então pode tirar isso da sua cabeça. — Reclamei soprando um fio de cabelo do rosto e marchando até os portões do lugar.
Assim que toquei a maçaneta, algo frio escorreu lentamente pelas minhas costas, como uma víbora. Ao longe, o barulho da fábrica de brinquedos soava baixo, e o falatório característico era inexistente.
— Ouviu isso? — Jack perguntou segurando meu braço e o tirando da maçaneta.
— O que? — Perguntei olhando em volta, alarmada.
— Isso. — Ele repetiu, virando a cabeça para os lados e descendo as escadas do castelo.
O pátio externo estava vazio, e completamente coberto pela neve. Nossas pegadas pareciam as únicas ali, em séculos.
— Jack! — Protestei num sussurro. Como ele me ignorou e começou a circular o Castelo, eu só emiti um resmungo frustrado e fui atrás dele.
Eu nunca havia ido nas laterais do Castelo, e fiz uma nota mental de nunca voltar aqui. O que a frente e os fundos tinha de magnífico, as laterais tinha de assustador.
Os galhos dos pinheiros se entrelaçavam, mas não parecia nada com fotos bonitinhas do pinterest. Era como se estivessem lutando, um tentando estrangular o outro.
— Jack, se isso for uma brincadeira, não tem graça. — Eu disse segurando seu braço e sacudindo de leve.
Agora, por mais que o sol brilhasse, qualquer raio de luz era parado pelos pinheiros altos e cinzentos. Fala sério, por que sempre tem florestas sinistras perto de castelos lindos?
De repente, Jack parou de andar, e seus pés cravaram na neve, como se fosse uma estátua. Sua boca abriu de leve, e ele quase juntou suas sobrancelhas, de tão franzidas.
Eu acompanhei seu olhar, e parei num objeto jogado ao acaso, na neve. Parecia um boneco de madeira, sem rosto, sem roupas e totalmente desarticulado.
— Aquilo estava ali antes? — A pergunta saiu devagar da minha boca, pois eu não queria fazê-la.
— Não. — Ele respondeu me olhando e depois desviando o olhar de volta para o boneco. — Não estava.
— É uma marionete. — Falei depois de uns segundos, a cutucando o pé.
Jack estava ajoelhado no chão, bem perto dela, e até agora, nada estranho demais tinha acontecido.
— Uma marionete do mal. — Ele comentou, o que me fez soltar uma pequena risada. Automaticamente fiquei séria, já que o astral no lugar me puxava para baixo.
— Acha que tem algo a ver com o que aconteceu nos corredores do seu esconderijo? — Perguntei me ajoelhando na neve também e pegando o objeto na mão. — Isso não se parece com uma ilusão.
— Por isso mesmo eu estou desconfiado. —Jack disse passando a mão pelos finos fios que prendiam o boneco. — Por que motivo isso estaria aqui?
— Mínima ideia. — Falei examinando o boneco e achando uma pequena marca no seu pé. O emblema parecia um monóculo. Um monóculo sobre uma folha de carvalho. — O que é isso?
— O que vocês estão fazendo aqui? — A voz aguda da Fada entrou pelos meus ouvidos, me fazendo tomar um susto e derrubar o boneco.
— Viemos ver Norte. — Eu respondi meio sem saber o que fazer. — Saímos assustados da última vez, então viemos nos desculpar.
— Ah. — Ela exclamou surpresa, esfregando suas mãos. — Tudo bem queridos, estávamos todos nervosos, não é mesmo ?
— É, um pouco. — Concordei só para por um fim nisso. Fada era sempre tão alegre, mas agora estava estranha, esfregando as mãos e olhando para os lados.
— Se viemos em um momento ruim é só falar. — Jack disse tirando a neve das roupas e se levantando. — Na verdade, acho melhor irmos, estou sentindo que estamos atrapalhando algo.
— Vocês nunca atrapalham, de forma alguma. — A Fada disse abrindo um pequeno sorriso e andando até nós. Instintivamente dei um passo para trás, quando ela se aproximou.
Pelo jeito que me olhou, tenho certeza que percebeu minha desconfiança. A Guardiã franziu um pouco as sobrancelhas, e esfregou as mãos de novo.
— Ahn, o que estão fazendo aqui, meus queridos? — Fada perguntou novamente, desviando o olhar para Jack. Eu e ele nos entreolhamos, um pedindo autorização ao outro pra sair correndo.
— Você já perguntou isso. — Comentei sem graça, abrindo um pequeno sorriso.
— Me desculpem, esses dias têm sido muito corridos. — Ela explicou passando a mão nos cabelos. — Sabem quando Merida e Soluço vão voltar?
— Fada eu não se... — Comecei a falar, mas Jack logo me cortou.
— Devem estar voltando. Eles disseram que voltariam depois do almoço, se esqueceu? — Ele perguntou soando completamente normal. — Avisaram depois que tomamos café da manhã juntos, hoje mesmo.
Suas palavras me fizeram virar a cabeça automaticamente para ele, confusa. Não tomamos café aqui hoje.
Fada pareceu notar algo estranho, pois ficou desviando o olhar de mim, para Jack. Depois de uns instante, ela abriu um grande sorriso.
— É verdade! — Disse risonha, esfregando as mãos pela milésima vez. — Perdoem minha cabeça de vento.
—Sem problemas Fada. — Jack falou gesticulando com a mão. — Já que nos esbarramos, pode me dar uma ajuda?
— Claro querido, só pedir. — Sua voz estava quase no timbre normal agora.
— Norte está deitado ainda? — Ele perguntou. — Queríamos fazer uma surpresa, tipo, arrumar a biblioteca.
— Você indo arrumar algo? — Ela questionou rindo em seguida. — Que evolução! Ele está deitado ainda sim, a gripe o pegou de jeito.
— Sem problemas. Sandy e Coelhão estão por aí também ? — Ele arriscou. — Era pra ser uma surpresa para todos.
— Não os vejo desde o café da manhã. — Fada declarou com outro sorriso.
— Perfeito, obrigada pela ajuda, Fada. — Agradeci abrindo um sorriso também e puxando a marionete para os meus braços. — Nos vemos por aí.
A guardiã soltou uma risada e acenou, voando entre as árvores e desaparecendo no jardim.
— O que foi isso? — Eu quis saber, perguntando num tom bem baixo.
— Também gostaria de saber. — Jack disse olhando para onde Fada tinha ido. — Anda, vamos entrar e tentar achar algo útil.
Mesmo que Fada estivesse tendo um surto, pelo menos estava certa sobre os outros Guardiões. Nenhum deles apareceu por aqui.
Eu e Jack subimos as escadas correndo e fomos direto para o escritório de Norte. Depois que eu e Merida saímos noite passada, alguém deve ter fuçado o lugar todo.
Papéis estavam espalhados, havia brinquedos pelo chão, e os globos de neve pareciam rachados.
— Eles devem ter procurado as bonecas. — Pensei alto, pegando um cachorrinho de brinquedo do chão e o colocando sobre a mesa.
— Isso é tudo tão estranho. Quando estamos prestes a achar as respostas, vem algo diferente e completamente sem sentido destruir tudo. — Jack reclamou isolando com um chute uma bolinha de tênis.
— Eu sempre fui contra colocar a culpa nos Guardiões, mas estou ficando em dúvida. — Admiti suspirando e dando a volta na mesa de Norte.
— Conheço eles há séculos, posso afirmar que tem algo fora do lugar. — Ele disse olhando para o teto e depois para a marionete. — Podemos tentar falar com o Homem na Lua, mesmo que ele nos ignore, pelo menos vamos poder dizer que tentamos.
— Vai lá. — Falei estendendo o boneco para ele. — Eu vou fuçar um pouco aqui.
Jack relevou o que eu disse, mas logo pegou o boneco e enfiou de baixo do braço, dando de ombros.
Enquanto ele ia para a porta, eu apertei o botão que fazia o trenzinho de Norte correr pela sala, infelizmente não percebi que faltava uma parte dos trilhos.
O brinquedo voou pelos ares e atravessou a janela fechada, espalhando vidro pelo lugar. Com o susto, eu me desequilibrei e agarrei a primeira coisa que consegui, o puxador de uma das gavetas da escrivaninha.
Ela não era forte o suficiente para me segurar, então voou do móvel, e me fez soltar um resmungo de dor quando caiu em cima de mim.
Os papéis de dentro dela escorregaram ao meu redor e para completar o show de horrores, a porta se abriu.
Jack deu um pulo e voou até mim, me levantando e puxando até a janela. Coelhão estava no corredor, segurando a porta e com a boca aberta.
— Mas que bagunça é essa? — Ele gritou quase rosnando no final.
Meus olhos caíram sobre os papéis, onde uma carta com um selo especial me chamou a atenção. Era o mesmo monóculo e a folha da marionete.
Estiquei o braço para frente e consegui a agarrar. Jack estava segurando meu braço forte, mas eu não tive medo quando pulamos da janela e ele me abraçou.
O único problema é que não saímos voando, continuamos caindo. Olhei para baixo a tempo de ver um portal rodopiar.
No instante seguinte fomos engolidos pela escuridão e o calor.
A escuridão e o calor do Mundo Inferior.
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