The Big Four - A Nova Geração
12 Ganho um Dragão Na Pós-Morte
Notas iniciais
Capítulo 11
Todo o meu corpo doía, até as partes que eu nem sabia que doíam, tipo o pâncreas. Ai meu pâncreas. Eu estava deitado de barriga para cima, encarando o céu. Algo ficava passando pelas minhas pernas, talvez o vento ou mosquitos, sei lá, estava muito cansado e com dor para me importar com isso. A única coisa que eu tinha certeza, é que eu estava morto. Mortinho da silva, tipo o meu pobre Capitão América destroçado por Banguela.
Pausa.
Quem é Banguela? Meu gato de estimação.
Meu quem? Do Soluço.
Quem soluçou? Não, Soluço é o seu nome, idiota.
Tô falando sozinho de novo? Pelo visto a janela do ônibus me abandonou.
O que tinha acontecido comigo foi voltando com o tempo. Movi a cabeça um pouco para o lado e esperei uma dor enorme. Não é todo dia que se cai de vinte metros e se fica de boas. Água. Era água o que estava passando pela minha perna. Levantei com um pouco de medo da dor ainda, me encontrava deitado em cima de uma pedra, no meio de um riacho. Devia ser uma espécie de afluente do rio da reserva. Reuni forças para me sentar e olhei para a margem, que estava a uns sete metros de mim, uma massa preta chamou minha atenção. Só podia ser Banguela.
Não pensei muito, só me joguei na agua, era um pouco fundo, não dava pé para mim. Ainda bem que desde pequeno sempre soube nadar muito bem, a correnteza não estava forte, então não encontrei dificuldades. Assim que os meus pés alcançaram a terra eu corri o mais rápido que pude pelo leito do rio. Então eu parei. Parei quando percebi que aquilo era MUITO maior do que o Banguela. Era muito maior que EU. Eu só fiquei encarando, tentando entender o que era aquilo. Com certeza não era lixo. Nem um tronco de árvore. Aquilo respirava. Será que era um jacaré? Tinha escamas. Ou pior será que era um E.T.??????
Cheguei um metro mais perto. Cara, pra que? Meu sangue gelou quando identifiquei um par de asas e uma cauda. Por mais louco que pareça, eu tenho quase certeza de que se trata de um dragão.
Ele me parecia bem real. Vivinho da silva. Não parecia nem ao menos um pouco extinto. Eu comecei a dar a volta na criatura, o seu corpo era todo negro, e sua cabeça era um pouco achatada. Então fiz uma coisa estúpida, pisei em um graveto. Graças aos deuses ele não fez barulho. Ai em seguida eu consegui fazer um coisa MAIS estúpida ainda. Eu continuei pisando nele. Aí ele quebrou, o premio de estupidez do ano vai para Soluço!!!!!
Será que ganhar esse prêmio quinze anos consecutivos quebrava algum recorde?
Como minha sorte é uma delícia, a criatura abriu os olhos e os mirou em mim, e em seguida emitiu um barulho estranho. Ele/ela se pôs de pé desajeitadamente e me olhou de cima a baixo. Gritei quando ela se lançou em minha direção. Será que existe uma dimensão espectral em que você vai parar em um lugar fantástico? Só espero não morrer DE NOVO. Sei lá o que eu espera que acontecesse, provavelmente o pior, mas isso não aconteceu. Pra falar a verdade eu nem sei o que aconteceu, ela só ficou sobre mim, lambendo a minha cara. Me debati e com um pouco de esforço sai de baixo dela, pronto para sair correndo o mais rápido que eu pudesse. Porem, algo me deteve, foi como um flashback. Num momento era aquele estranho dragão, e no outro era só um gato selvagem, o meu gato selvagem. Ele só ficou lá, me olhando, então em um piscar de olhos ele voltou a o que era antes. Não entendi nada, como sempre. Não pode deixar de rir quando ele meio que sorriu, me mostrando suas gengivas banguelas.
― Banguela...? ― Perguntei esperançoso, embora desconfiado. Como resposta ele se jogou no chão de barriga para cima, pedindo carinho.
― Por Odin, o que aconteceu com você? ― Então eu pensei por um segundo. ― TU TÁ VIVO CARA! ― E literalmente me joguei sobre ele, fazendo carinho e abraçando, tudo ao mesmo tempo.
― Banguela, que raios aconteceu? ― Eu perguntei segurando a cabeça dele. Os olhos eram os mesmos, exatamente o mesmo tom de verde. Se ele pudesse falar, tenho quase 100% se certeza que daria a mesma resposta que eu dou quando me perguntam isso: “Sei lá.”
Olhei-o bem fundo nos olhos, ele estava ali mesmo, de alguma forma doida aquilo esta acontecendo de verdade. Sempre acreditei em deuses, então por que não acreditar que eu estava morto e meu gato era na verdade um dragão? Minha vida nunca foi normal mesmo. Uma partezinha de mim achava que eu ou estava dormindo ainda, ou estava alucinando em uma maca de hospital. Juro que nunca mais tomo leite e ou derivados dele de novo. Pera, chocolate tem leite, ignore a parte do leite, prefiro alucinar feliz do que entrar em uma abstinência de chocolate.
Já havia se passado cerca de uns 15 minutos, eu e Banguela estávamos andando à procura de uma trilha ou até mesmo algum rastro pela floresta. Se eu estivesse sozinho provavelmente ia temer encontrar algum animal selvagem pelo caminho. Aqui no RJ não se tem ursos por aí, mas já ouvi relatos de onças que atacaram turistas pela mata, porém duvido muito que algum animal vá se aproximar de mim, ainda mais com um dragão ao lado.
Eu estava acostumado com florestas frias e cheias de gelo, era um pouco estranho ver árvores tão verdes e estar tanto calor. Com o passar do tempo o número e o porte das árvores foi diminuindo, e o espaço foi sendo substituído por um prado, ali devia ser a antiga área de camping. O mato estava muito alto, tocava quase a minha bacia. Observei por um instante, me lembrando daqueles antigos filmes de terror. Não sei porque pensei nisso, meu subconsciente que estava se recuperando da minha pseudo-morte me fez ver a ponta de uma lamina passar entre o mato. Me pareceu uma foice, talvez fosse alguém da reserva cuidando daquela área. Duvido muito ser um psicopata ou algo assim.
― Ei! ― Eu gritei fazendo uma conchinha em volta da boca com as mãos. ― Ei! Você pode me ouvir? ― Perguntei mais alto quando a pessoa continuou o seu caminho sem prestar atenção em mim.
Do nada a foice sumiu entre a folhagem, mas o rastro continuou, a pessoa devia ser bem baixinha. Dei mais uma olhada em volta e então dei um passo para frente, eu definitivamente não devia ter feito aquilo. Procurei o chão mas não o encontrei, caindo de joelhos. Naquela parte o mato era muito mais alto do que eu pensava, ele devia ficar uns 10 cm do topo da minha cabeça. Passei a mão nos joelhos e vi que o esquerdo estava um pouco ralado. Que bosta, cara. Estar morto é uma bosta, na moral. Me levantei e limpei as mãos na camisa, que também estavam um pouco raladas, mas tirando isso eu não sentia nenhum outro tipo de dor.
Era difícil ver algo, e agora assim só faltava mesmo ser picado por uma cobra ou algo assim. Banguela pulou atrás de mim e antes de cair as suas asas se abriram e ele planou um pouco, indo parar um pouco mais para frente. Só os olhos dele que ficaram para fora, e eu ri. Mesmo sendo uma ideia meio doida eu acabei montando dele e acho que ele não gostou muito.
Mais quinze minutos se passaram e mais nada de relevante aconteceu, o carinha da foice deve ter ia embora mesmo. Banguela simplesmente parou e cheirou o ar, olhando para os lados e pelo meio do mato. Agora ele já estava até menor, batia nos meus joelhos. Eu ainda estava montado nele, então era fácil ter uma visão panorâmica do prado.
O dragão inclinou a cabeça para o lado e pareceu se concentrar. Eu olhei para onde ele tinha virado a cabeça e franzi as sobrancelhas por causa de um barulho baixo e grave. Lembrava-me um rosnado, claramente animalesco.
Banguela do nada se virou para trás e eu tive que me segurar forte nele para não cair. O barulho tinha cessado por alguns segundos, até que veio mais forte do que nunca. A alguns metros três pares de orelhas pontudas apareceram sobre o mato. Eram cães de porte médio, três deles. Mesmo com o mato mais baixo pude ver suas cabeças, Banguela começou a andar para trás, e eu não entendia como ele podia ter medo deles. Então entendi rapidinho.
Não eram três cães, eram só três cabeças. Três cabeças e um corpo, a criatura a minha frente era chamada de cão infernal. Não sei muito bem o que ele queria fazer, só sei que quando avançou em nossa direção Banguela deu impulso para cima e abriu as asas. O bicho saltou sobre o lugar e estávamos e desapareceu sobre o mato de novo. Devíamos estar a uns cinco metros do solo e balançávamos bastante. Como o meu ex-gato selvagem nunca tinha voado antes e tinha um medo desgraçado de altura não achei tão ruim o nosso voo desgovernado. Acabamos voltando tudo que tínhamos andado e Banguela usou uma árvore como freio, derrubando alguns de seus galhos.
— Ei, calma ai cara! — Eu disse abraçando o seu pescoço com os dois braços. Certamente nada podia ficar mais estranho.
Depois de voltar ao solo, olhei em volta e pensei nas minhas opções. Com certeza voltar para casa era uma prioridade, mas também tinha que encontrar Merida e Rapunzel. Só espero que elas não estejam metidas nessa enorme treta.
—Banguela, acha que consegue voar de novo? — Perguntei me inclinando para o lado, para vê-lo melhor.
O dragão arregalou os olhos e se sacudiu, me derrubando. Gemi no chão quando entendi que isso claramente era um não.
— Os deuses me odeiam, na moral...
Dei outra olhada em volta e me levantei. Um leve vento bagunçava o meu cabelo e sacudia as folhas, podia ser coisa da minha cabeça, mais eu podia jurar que uma borboleta que passava voando ali perto tinha bracinhos e perninhas. O vento foi aumentando gradativamente, mas ainda era leve e trazia um perfume, talvez de flores.
Banguela a viu primeiro, na verdade, AS viu.
Devia ter centenas delas, todas muito parecidas, e extremamente pequenas. Eram fadas, ou talvez borboletas muito loucas. Elas vinham voando, como um enxame gigante. Banguela começou a abrir as asas, provavelmente querendo pega-las, ele sempre teve uma pequena obsessão por caçar borboletas. Levantei uma mão e coloquei no focinho dele quando do meio delas, a uns dez metros, uma versão maior delas surgiu. Essa parecia mais um beija-flor/mulher, tinha um metro e meio de altura, no máximo, e sorria.
Só a observei, num misto de curiosidade e apreensão, esperando que alguma coisa muito esquisita acontecesse.
― Soluço Haddock! ― A fada/mulher-beija-flor disse abrindo os braços e pousando suavemente no chão.
Eu não disse nada, só fui tirando a mão do focinho do dragão, já que ele parecia mais confuso que eu, e com certeza não iria ataca-la ou fazer coisas de dragão, o que quer que isso seja.
― Oi..............Moça............Alada............. O_O
Ela riu e me abraçou¸ o que na minha opinião, foi proximidade demais.
― Você foi escolhido! Você foi escolhido, querido! ― A beija-flor segurou os meus ombros e deu uma sacudidinha.
― Sou a Fada-do-Dente, e assim como eu, você é um Guardião! ― A “Fada-do-Dente” disse.
― Que? ― Foi a única coisa que conseguir dizer, perplexo.
Nessa hora um arrepio fez os pelos da minha nuca se eriçarem, e instintivamente olhei para lá, mas não vi nada, mesmo sabendo que tinha algo ali. Banguela também deve ter percebido algo, porque rosnou baixinho e olhou para mim, esperando ordens.
Não tenho certeza de quanto tempo fiquei olhando para os grandes e verdes olhos do dragão, mas era como se sem palavras eu pudesse entende-lo, e a mensagem era clara: Perigo.
― ... com os outros, lá no castelo! ― Provavelmente ela estava me explicando sobre o que era ser “escolhido”, mas eu na verdade só queria sair dali.
― Ahn, bem legal isso, show. ― Eu disse me aproximando de Banguela.
A Fada bateu palmas e flutuou, visivelmente animada.
― Vamos! Vamos ! ― Ela disse às fadinhas, se se agitaram também.
Montei em Banguela e falei mentalmente para ela subir, e foi o que ele fez, graças ao nosso mais novo elo mental. Durante a subia ambos encaramos as árvores da esquerda, mas mesmo assim, nada vimos.
Após alguns minutos voando, a Fada jogou uma esfera no céu, que depois se transformou em uma espécie de portal, tipo vortex de vídeo games. Passando por ele, eu e banguela fomos parar em um local com muito gelo, o vento soprava para o oeste, carregava alguns flocos de neve e era extremamente frio. Segurei-me a Banguela mais forte ainda, e segui a Fada e as fadinhas para uma enorme montanha, a contornando. Quando chegamos ao outro lado o meu queixo caiu, na encosta da montanha se erguia um enorme castelo. As fadinhas viraram para a esquerda, voando para longe, e a Fada foi diminuindo a velocidade e foi pousando bem na frente do portão de madeira gigante. Banguela bateu as asas desordenadamente e pousou de uma maneira bruta, quase me derrubando. Aproveitei o impulso para pular das costas dele e cair de pé no chão.
― Por aqui, Haddock. ― A Fada disse passando pelos portões que já se abriam. Eu dei alguns passos para frente, até que algo me acertou por trás, me fazendo cair de cara no chão.
― SOLUÇO!!!!!!! ― Uma voz infantil e fina gritou, e na verdade, me senti extremamente aliviado de ouvir a voz da Andrômeda.
Levantei-me quando ela saiu de cima de mim, mas imediatamente ela me abraçou. Fiquei surpreso, mas retribui ao abraço, meio hesitante.
― Olá, pequena. De meu um grande susto, hein? ― Disse sem conter um sorriso e a soltei aos poucos. Banguela só a encarou, com ciúmes. A garotinha arrumou o vestido e segurou a minha mão, me arrastando para dentro. Não prestei muita atenção no castelo, porque duendes e pé-grandes andavam de um lado para o outro. Passamos por um corredor grande, que dava em uma porta dupla e dourada, do outro lado, gritos histéricos me deixaram preocupado. A porta se abriu, e vi Merida e Rapunzel (com um cabelo gigante) se abraçando e gritando. Eu fiquei assustado quando elas olharam para mim e falaram o meu nome, correndo em seguida bem na minha direção. Nunca senti tanto alívio e tanto medo ao mesmo tempo.
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