The Big Four - A Nova Geração
24 Algumas Verdades se Revelam
Notas iniciais
A cara assustada e confusa daqueles dois Guardiões foi o suficiente para me fazer sorrir.
— O que foi? — Perguntei me divertindo com a reação deles. — Ficaram sem palavras perante a minha presença ?
Merida emitiu um resmungo que se pareceu mais com um rosnado. Tenho certeza que se fosse em outra circunstância, ela já ia estar tentando me bater.
— Merida. — O Guardião do Inverno chamou, dividido entre a dúvida e o medo. Eu não gostaria de estar na posição desses dois. — Acho melhor ouvir o que ela tem pra nos dizer.
A garota ruiva fechou a cara na hora, se aproximando dele e o puxando para um canto, talvez no intuito de terem uma conversa privada.
Suspirei para conter uma risada, e dei uma viradinha para o lado, para criar uma sensação de "conforto" para eles dois.
— Tá maluco? — Merida perguntou num tom baixo, mas não tão baixo a ponto de passar imperceptível pelos meus ouvidos atentos.
— Claro que não, mas acho que temos que ouvir. Não podemos ouvir só um lado da história. — Jackson respondeu, mais baixo ainda.
— A questão é se "devemos" ouvi-la. — A ruiva contra argumentou.
Bufei e caminhei de volta para dentro do quarto. Uma dor de cabeça angustiante e aguda insistia em perturbar minha mente. Parei perto da minha foice, que estava encostada em um canto, e passei de leve a mão pela sua lâmina fria.
A ferida em minha barriga continuava a sangrar, e na verdade, nem dava sinais que ia se curar. Isso simplesmente já era um motivo para me deixar alerta. Guardiões se curam rápido, ou nem se machucam.
Eu podia ouvir os dois ainda na sala, falando num tom não tão baixo.
De certa forma eu tinha pena deles. Não dá para conversar com alguém que não entende o que é. Não estamos mortos, estamos mais vivos do que nunca.
Uma tontura repentina me fez ter que segurar a parede, porém acabei encontrando a cortina, e a levando junto para o chão. Meu corpo todo queimava, como se estivesse mesmo pegando fogo por dentro.
Minha visão estava embaçada, mas mesmo assim conseguia ver minha foice quieta e silenciosa apoiada no canto do quarto. Era estranho vê-la sem nenhuma alma em sua lâmina.
Estiquei a mão para frente, ainda sentindo labaredas me consumirem, até que finalmente toquei com a ponta do dedo indicador o seu cabo.
Esse pequeno toque foi suficiente para diminuir a estranha sensação, e deu para reunir forças para me por de pé.
Fechei a mão ao redor do cabo e soltei uma respiração funda.
Imediatamente Jack e Merida surgiram na porta, o que me fez agradecer por eles não terem chegado um pouco mais cedo. Se tivessem visto aquela cena, certamente seria um problema.
Não foi a primeira vez que senti essa estranha queimação, mas foi a primeira em que não tive controle sobre.
Morte já havia me alertado sobre isso.
— Ceifadora? — A garota perguntou, me olhando de cima a baixo, desconfiada.
— Já resolveram o que vão fazer? — Respondi com uma pergunta, sentindo pouco a pouco minha ferida se curar. Pelo visto contato direto com a foice era um jeito de contornar o problema.
— Sim. — Jack falou dando um pequeno passo para frente. — Mas antes você vai ter que responder à algumas perguntas.
— Isso eu me recuso a responder. Vocês estão fugindo do foco dessa conversa. — Disparei com uma risada no final, quando haviam me perguntado pela segunda vez sobre o meu passado.
— Como quer que confiemos em você se não sabemos o seu passado? — A ruiva perguntou com um claro confronto em seus olhos.
— Passado não é importante, se não alguns Guardiões não o esqueceriam. — Reclamei colocando uma mecha solta da minha trança atrás da orelha. — E achava que vocês me consideravam sua inimiga.
— Mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda. — A garota comentou, levando uma cotovelada de Jack como resposta.
— Primeiro vocês devem esquecer. Esquecer tudo que lhes foi ensinado sobre Guardiões, e então se abrir para a verdade. — Falei me levantando da mesa em que estávamos e indo até a porta da cabana. — Se desejam descobrir o que é escondido de vocês, é melhor me seguir. Mas se acham que ao ver a verdade, ela machucará seus olhos, aconselho voltar para o Castelo de Norte.
Sai pela porta e nem me certifiquei se estavam atrás de mim. Eu sabia que eles viriam.
O rio Estige corria como se uma forte chuva tivesse o alimentado. A água já tinha ultrapassado um pouco o leito de sempre, respingando perto do caminho até o castelo.
Quando ele surgiu de trás da montanha, ouvi Merida soltando um palavrão, e acabei sorrindo.
Era fantástico ver a reação das pessoas ao ver o castelo se erguendo imponente. Ele possuía enormes colunas clássicas de um branco fantasmagórico, e os campos de narcisos ao redor dele criava uma atmosfera macabra. Óbvio que eu amava isso.
A pequena trilha de pedras logo se transformou em escadas, e em silêncio, adentramos na morada da Morte.
Não perdi muito tempo dando uma de guia turística, mas acabei respondendo uma ou outra pergunta deles sobre o local.
Seguimos o corredor principal até o final, e paramos a frente das portas duplas e escuras da Sala dos Sussurros. Lá, toda a história da vida e da morte estava escrita, ou seja, a história de todos os seres que já existiram.
Elas se abriram num rangido baixo, mas mesmo que fizesse muito barulho, ninguém iria se incomodar. Sorri e adentrei o lugar, esperando que fizessem o mesmo.
A sala era grande e redonda, provavelmente com uns seis metros só de raio. O pé direito era alto, e seguia interrupto até o último andar. Em dias de lua cheia, a luz dela abria caminhos até o submundo, somente para dar iluminar esse lugar.
As paredes tinham um tom escuro, que se tornava cinza já no meio do caminho, e lá no alto, longe dos nossos olhos, ficava prateado. Algumas palavras que eu não entendia também preenchiam as paredes do lugar, como canções.
Às vezes se podia ouvir os espíritos sussurrando suas histórias, falando sobre o passado. Não havia nada demais na sala, só um pedestal com o Livro dos Mortos no meio, e em um canto, uma enorme prateleira com as bonecas das Serventias, outros Guardiões da Morte, e a da mesma.
Um buraco em especial chamou minha atenção, onde deveria estar a minha. Dei de ombros e fiz uma anotação mental para ver se Morte a havia pego.
— Essa é a Sala dos Sussurros. — Declarei abrindo de leve os braços e sorrindo.
— Parece a do castelo da Fada. — Merida falou olhando para cima e dando uma rodadinha. — Mas pelo visto não muda.
Jack franziu as sobrancelhas e olhou para ela, confuso. Me diverti com sua confusão, quando ele percebeu que o Quarteto Gordo-Gordinho-Destista-Coelho não eram os únicos ater segredos.
— Não, não muda. — Respondi olhando para cima também, me perdendo por um segundo pelas inscrições nas paredes. — A da Fada é a Sala das Lembranças, e o livro que você pegou é o que tem descrito cada uma que os dentes de alguém representam. Bom, todo Guardião que tem muitas responsabilidades na sua secção tem um livro desses.
Os dois continuaram me olhando em silêncio, como se me encorajasse a continuar.
— Já devem ter ouvido falar do Homem da Lua, mas talvez "Menino da Lua" seja mais adequado. Não acha, Jack? — Perguntei andando até o livro e o abrindo na página que eu diversas vezes quando era pequena vinha até aqui para ler. — Raoden Overland.
Ambos se aproximaram do livro velho e observaram a imagem de um garoto magrelo e sorridente, com uma vara de pescar no ombro.
Logo as sombras se mexeram, subindo pelo pedestal e entrando no livro. Elas se aglomeraram e cobriram toda a página, começando em seguida, a moldar a sua história.
Eu já sabia tudo que ia acontecer, então os deixei vendo e caminhei até a estante das bonecas. Ao todo haviam treze, mas como a minha não estava ali, eram só doze.
A de Morte repousava serena na prateleira mais alta, e não consegui segurar um sorriso. Não soltei minha foice, com medo da sensação de queimação voltar, então com minha mão livre peguei a boneca.
A expressão de Morte era severa, talvez a primeira palavra que venha a mente quando se fala dela. Aguardei até que as sombras terminassem o seu trabalho, e estendi a boneca para que um dos dois pegasse.
— Vejam com seus próprios olhos. — Falei sorrindo em seguida.
Merida hesitou, e Jack acabou pegando o objeto da minha mão. Eu já sabia suas camadas de cabeça, mas era sempre bom relembrar. O garoto observou a primeira camada e logo foi para a segunda.
Nessa, Morte tinha um sorriso brilhante e ligeiramente vingativo. Muitos acreditam nessa faceta, na verdade. Na terceira ela estava de olhos fechados, de certa forma aliviada, e na quarta, uma pequena moeda de ouro estava em sua mão. Na quinta e última camada, se podia vê-la com a expressão de sempre, um sorriso de conforto.
"Vitae"
Era o que estava escrito em latim, perto da base.
— Vida. — Sorri pela terceira vez com a cara deles. — Quem diria, não é mesmo?
— Como? — Merida perguntou olhando para a boneca e em seguida para mim.
— A Morte tem muitos segredos. — Ri e dei de ombros. — Mas não era só isso que eu queria contar para vocês. Sabem o Seymour, o garoto que matou Raoden e o irmão ?
— Sei. — Eles responderam em uníssono.
— Ótimo, lembrem bem esse nome, pois ele tentou matar vocês algumas vezes, e com certeza vai tentar de novo.
Os Guardiões fizerem mais algumas perguntas, e de maneira breve, as respondi. Eles foram embora minutos depois, num redemoinho de neve e vento. Suspirei e voltei para o chalé. Assim que entrei soltei um palavrão, achando Carcereiro jogado no chão.
— Merda. — Acabei deixando a foice de lado, mas não fui tomada pela queimação de novo.
Corri até o sofá e peguei um casaco de couro jogado sobre o estofado, o colocando nas costas de Carcereiro.
Ele abriu os olhos e puxou o ar rápido, me olhando assustado.
— Temos que avisar a Morte. — Falei o repreendendo com o olhar.
— Podemos resolver. — Ele resmungou ainda um pouco grogue.
— Não, não podemos. Isso não pode atingir os outros Guardiões. — Falei tirando uns fios de cabelo da frente do seu rosto.
— E falaremos o que para ela ? — Ele perguntou num suspiro, vencido.
— A verdade. —Declarei sentando no chão e colocando a mão sobre o ferimento da minha barriga. — Os Guardiões não estão mais seguros. Uma Epidemia se espalha.
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