Notas iniciais
Sei que ninguém vai ler essa porra, mas fazer o que né? Só avisando, como este capítulo se passa no Japão durante os experimentos, todos os diálogos estão tecnicamente em japonês,nos próximos capítulos sinalizarei isso colocando as falas em Japonês em itálico,maaas não achei que fosse necessário nesse. Enfim, se alguém ai além de mim mesma estiver lendo isso...Aproveite o capítulo ^^

Kyuzo nunca havia imaginado que uma das crianças fosse ser diferente, até aquele dia.


Alguns dos militares que haviam concordado em participar do projeto seguravam um homem mal vestido, possivelmente algum prisioneiro ou criminoso que consideraram ruins o suficiente para que a sua morte fosse ‘’justificável’’, enquanto o homem que conversava com as crianças lhes demonstrava, na prática, a maneira mais efetiva de quebrar o pescoço de um homem, um método de eliminação que poderia ser deveras útil caso eles estivessem sem munição ou armas por algum motivo.


As crianças presentes na fila observavam a cena disposta a frente deles com uma expressão neutra em seus rostos, ninguém parecia exatamente gostar do que estava vendo, mas nenhum deles parecia particularmente assustado ou enojado com o que havia sido demonstrado...Todos com a exceção de 23.


O cientista viu uma expressão de pena em seu pequeno rosto ao ouvir as súplicas do homem e talvez um pouco de desgosto ao ver a maneira com que fora morto, não foi algo tão surpreendente de início, apesar de ser uma das crianças mais...Efetivas do projeto, ela era a única que parecia questionar o motivo de estar ali, mesmo que guardasse aquilo para si mesma.


23 nunca se negou a matar alguém, nenhuma das crianças nunca havia feito isso, e as regras estritas do projeto diziam claramente que se recusar seguir uma ordem não era uma opção e poderia ser considerada uma forma de traição, e bem, ninguém nunca havia tentado se opor as regras, mas se eles tinham a frieza de ensinar tais coisas para crianças de apenas seis anos, ninguém duvidava da habilidade de tornarem um possível traidor no grupo a próxima vítima.


Mas talvez a maior indicação da sua diferença em comparação com as outras crianças eram algumas de suas ações e o seu comportamento durante os poucos horários ‘’livres’’ que as crianças tinham.


O governo havia exigido no terceiro ano do projeto que cada criança desenvolvesse alguma habilidade própria, alguma atividade que elas realmente gostassem de praticar e que ela tivesse algum tempo livre durante o dia para praticar tais habilidades, mais como uma maneira de incentivar um comportamento mais humano vindo das crianças, já que um dos maiores temores vindos pelo governo era a possibilidade de se tornarem ‘’efetivos demais’’ como consequência de seus treinamentos quase ininterruptos e vasto conhecimento sobre métodos de assassinato.


Uma boa parte das crianças havia escolhido algum tipo de esporte ou atividade competitiva, com uma minoria optando por alguma atividade envolvendo leitura e escrita, já 23 havia sido a única criança a apresentar interesse por música, tendo a guitarra como instrumento de escolha.


O interesse de Kyuzo na criança começou no primeiro instante em que percebera as diferenças entre ela e a criança do projeto, em circunstâncias comuns teria eliminando-a na sua primeira oportunidade, já que o seu comportamento poderia possivelmente prejudicar o projeto, talvez torná-la mais resistente a ordens no futuro ou acabar por poupar a vida de um inimigo num campo de batalha, mas pela primeira vez em todos ao anos em que participara do projeto sentiu pena de uma criança que seria possivelmente eliminada e decidiu dar-lhe uma chance.

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Era o final de seu turno naquele dia, estava exausto como o usual e mal poderia esperar o momento em que poderia finalmente entrar em seu quarto e desligar-se do mundo, de todo o inferno que lhe cercava.


No quinto ano do projeto decidira que seria melhor para ele se morasse no lugar onde o realizariam também, com a segurança do local sendo reforçada a cada ano não era realmente um risco, e bem, muitos outros cientistas que trabalhavam ali tinham quartos próprios, já que a grande maioria não tinha exatamente uma família para qual voltar ou grandes conexões com o mundo lá fora, a grande maioria dos seus colegas de trabalho eram viciados em trabalho, e apesar de não gostar de admitir aquilo em voz alta, ele havia se tornado um também.


Já havia desistido de um relacionamento amoroso há muito tempo atrás, muitas não entendiam que com o seu trabalho ele tinha restrições que o impediam de falar sobre determinadas coisas que aconteciam ali dentro, quero dizer, se a mídia soubesse que o governo financiava projetos envolvendo crianças assassinas aquilo poderia ser extremamente prejudicial para o país, e as consequências para o mesmo seriam no mínimo letais, e relacionamentos com colegas de trabalho não eram muito melhores também, já havia tentado uma vez, e como resultado a mulher com quem namorava desaparecera misteriosamente algum dia, às vezes ele se pergunta o que aconteceu com ela.


O caminho do local em que se encontrava, uma pequena sala que servia como uma espécie de biblioteca com arquivos sobre este e alguns outros projetos relacionados ao governo e mais algumas coisas que poderiam ser consideradas úteis para o trabalho, e o seu quarto era relativamente curta, entre os dois lugares havia apenas um corredor de distância entre os dois, que era exatamente o corredor em o quarto de cada criança ficava.


Não pensou muito sobre isso, sabia que as crianças teriam a capacidade de matá-lo se desejassem, e quero dizer, teriam motivo o suficiente para fazê-lo, mas o sistema de segurança sempre em atualização era o suficiente para que ele se mantesse tranquilo.


A única forma de acessar os quartos era com um cartão de identificação que cada funcionário possuía, durante o dia as portas se mantinham abertas, dando as crianças a liberdade de voltarem para os seus quartos durante o horário ‘’livre’’ que disponibilizavam a eles ou logo após o jantar, mas durante a noite, mais especificamente, a partir das 21:00 as portas dos quartos eram trancadas e não havia nenhuma maneira de eles saírem.


Os quartos eram padronizados. Tendo todos uma pequena cama, uma mesa e uma poltrona, uma estante pequena ao lado da mesa, com alguns livros que eles recebiam a cada mês e um guarda-roupas, um banheiro também existia dentro do quarto, tão pequeno e básico como o resto das coisas naquele quarto.


O corredor das crianças tinha paredes e chão brancos, assim como o resto da construção, era possível contar 24 portas e janelas(onde poderiam ter uma visão do quarto das crianças) espalhadas pelo local, tudo completamente organizado e limpo.


Atravessou o corredor com calma, temendo, mesmo que muito pouco o silêncio mórbido que preenchia o local, sendo surpreendido por um som baixo vindo de um dos quartos, que emitia uma luz fraca de dentro dele.


Por pura curiosidade, se aproximou de tal quarto, erguendo um pouco o olhar, a procura da inscrição que lhe indicaria o número da criança que ali residia.


— 23. — Leu em voz alta, voltando o olhar para a janela da garota.


Ela vestia os seus pijamas e sentava-se na sua pequena cama, a mesma segurava o violão, tocando algumas notas e anotando-as em um caderno de anotações que havia sido concedido a cada criança, algumas vezes apagava algumas coisas e mordia a ponta do lápis, como se estivesse pensando em uma maneira de concertar um possível erro, não reparando em nenhum momento na presença do homem que a observava com tanto fascínio.


Aquela garota, uma menininha criada para ser uma máquina assassina estava compondo as suas próprias músicas?


Bateu levemente no vidro da janela, mas isso não pareceu chamar suficientemente a atenção dela, então Kyuzo, movido pela curiosidade, tomou a decisão arriscada de adentrar o quarto, se as câmeras capturassem os seus movimentos e na manhã seguinte fosse questionado pelo motivo da invasão conseguiria arrumar um motivo para justificá-lo, não seria um problema.


Pegou o cartão de identificação e o passou em frente a máquina de leitura do cartão, reparando em um som assustado que a garota emitiu ao ouvir o curto ‘’beep’’ que indicava que a porta fora aberta, entrando no quarto imediatamente depois e fechando a porta atrás de si.


— 23, o que ainda faz acordada? – Sua postura era mais relaxada do que o costumeiro, a garota não pareceu perceber isso, já que ainda parecia assustada por sua aparição repentina, segurando o pequeno caderno e o lápis mais próximos de si, mesmo que o movimento fosse atrapalhado pelo violão que ainda estava posicionado no seu colo. — Já é muito tarde, o cansaço pode prejudicar seu desempenho amanhã.


Ele continuou, 23 apenas piscou algumas vezes e tentou pensar rapidamente em uma resposta, optando apenas por se levantar, o mais rápido o possível e curvar-se respeitosamente a sua frente.


— Me desculpe! Eu não queria desobedecer à ordem, m-mas estava tão concentrada e...Eu perdi a noção do horário...Eu prometo que não acontecerá novamente, mas, por favor, não me puna.

Ela manteve a sua cabeça baixa, um ato que simbolizava a sua vergonha por ter desobedecido a uma ordem clara, Kyuzo não se moveu do local onde estava apenas se manteve ali, parado, observando-a atentamente.


Não iria a punir por ter feito aquilo, não era uma infração grave, e por estar com um humor bom não via a necessidade de seguir o protocolo dessa vez, além disso, ele estava muito curioso para saber o que a garota andava fazendo e se ela fosse punida talvez nunca tivesse a chance de chegar perto de um violão novamente.

— Não irei te punir, garota.


Ela levantou a cabeça rapidamente, parecendo mais aliviada ao ouvir aquilo, voltou a se curvar, dessa vez um tanto mais rápida.


— Muito obrigada!


23 sorriu, parecendo genuinamente feliz.


Aquela foi a primeira vez que ele havia visto alguma das crianças realmente sorrir.


O efeito daquele simples ato nele foi muito estranho, por um momento ele sentou pena, muita pena da garotinha que tinha que conviver com a culpa de ser a responsável por inúmeros assassinatos e ainda crescer sem o amor e afeto de seus pais, para piorar, a única fonte de verdadeira felicidade que ela possuía era um violão velho e uma guitarra da qual só poderia utilizar em poucas horas de seu dia.


Não conseguiria nem imaginar como seria crescer assim.


23 voltou-se a sua cama, arrumando alguns papéis espalhados por ela e os colocando dentro de seu caderno, colocando-o na estante do quarto logo em seguida pegando o violão que estava usando com a intenção de guardá-lo.


— O que estava tocando quando entrei? – O cientista, que ainda estava presente no quarto, perguntou, surpreendendo 23 novamente.

Ela não demorou muito para responder, parecendo um pouco envergonhada com a sua resposta, era estranho ver uma criança daquelas demonstrando tantos sentimentos, chegava a até a lhe trazer culpa.


— Nada demais, apenas algo que eu criei... — As suas suspeitas haviam sido confirmadas.


— Pode tocar a sua música para mim? – 23 não pareceu processar o que ele havia lhe dito, demorando um pouco até assentir animadamente e se sentar novamente, tocando uma sequência de acordes no instrumento enquanto murmurava algo ininteligível, que ele assumiu que fosse um rascunho de uma possível letra para a sua peça.


Não era muito longa, com a música parando abruptamente em algum ponto, levando-a olhar para o cientista timidamente.


— Foi o que consegui por enquanto, eu não sei exatamente como continuar a música. – O homem se sentou ao lado da garotinha, sorrindo levemente enquanto olhava o instrumento.


— Talvez possa te ajudar com isso. — Lentamente alcançou o instrumento, posicionando-o em seu colo enquanto 23 observava-o com curiosidade.


— Não sabia que você sabia tocar violão, Sr. Kyuzo.- Na verdade, ela não sabia muito sobre ele, muitas das informações que possuía relacionada o homem eram boatos nada amigáveis espalhados por algumas crianças durante o horário livre e coisas que ela mesma assumia baseando-se nas poucas informações concretas que as crianças sabiam sobre ele, mas nenhuma delas era relacionada aos seus gostos e passatempos.


— Há muitas coisas que não sabe sobre mim,23...Essa informação não é exatamente útil para o seu treinamento, então não vale muito a pena falar sobre esse tipo de coisa...Mas como não estamos em horário de treinamento...Bem, sim, eu toco violão...Ou ao menos, tocava, não tenho mais tempo para esse hobby.


Ela o ouvia atentamente, como se tivesse curiosidade para saber mais sobre isso, talvez fosse interessante para ela saber que até mesmo as pessoas que trabalhavam naquele projeto eram indivíduos com emoções e ambições assim como ela, que provavelmente passou toda a curta vida dela acreditando que cada pessoa ali era como um robô programado para ensinar aquelas coisas a ela.


— É um bom instrumento, sabe? As vezes quando estou estressado consigo dar um tempo no trabalho e tocar a minha guitarra, é algo que sempre me relaxa, é quase terapêutico. — O cientista voltou os seus olhos para o objeto presente em seu colo, mesmo com a luz sendo muito fraca no comodo, já estava tão habituado com o instrumento que suas mãos já se localizavam quase automaticamente.


Tocou algumas notas aleatórias de início, como se estivesse apenas se aquecendo para começar, enfim, a tocar algo mais concreto, que poderia ajudar a garotinha de uma forma ou outra em sua composição.


Alguns minutos se passaram daquela forma, 23 havia se apressado para pegar o caderno novamente em sua estante para poder anotar algumas combinações que havia gostado e até mesmo opinar algumas vezes, sugerindo notas e mudanças de ritmo uma vez ou outra, foi uma experiência interessante que ambos haviam compartilhado por aquele momento, uma experiência que havia se marcado na memória de ambos e que havia, definitivamente mudado a vida do cientista e da futura guitarrista do Gorillaz.

Notas finais
Tá uma merda,eu sei. Desculpa por isso eu realmente tô tentando.