The Beginning
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O relógio marcava duas horas da tarde desde que a garota tinha pisado os pés na praça central da cidade naquele entardecer ensolarado com algumas nuvens no céu. O encontro tinha sido marcado ao meio-dia do sábado, para que as duas pudessem resolver de vez aquele assunto. Ou essa tinha sido a ideia inicial.
Sexta-feira, cinco horas da tarde.
— Ei, Lizzy! – A ruiva de olhos azuis gritou, saindo do quarto e chamando pela amiga.
— Estou na cozinha! – Respondeu, a garota, no mesmo tom para que fosse escutada.
Recebida a resposta, desceu as escadas com pressa para fazer companhia à amiga de infância e aproveitar o momento para esclarecer tudo enquanto ela fazia a janta.
Não era nenhuma novidade as duas estarem juntas, desde pequenas as duas garotas sempre foram muito unidas. Se conheceram no jardim de infância, quando Lilian estava chorando escondida no banheiro por ter recebido uma bronca da professora, que tinha um galo enorme na cabeça por causa da arte que a ruivinha havia feito, e Elizabeth foi atrás dela por ter ficado com dó.
— Lizzy, eu precisava falar com você... Sobre aquilo— murmurou, envergonhada e hesitante, estalando os dedos em pura demonstração de nervosismo.
"Aos quinze anos, em um dia nublado, duas garotas se encontravam na parte de trás da escola. Não era um dos melhores lugares para se iniciar um assunto sério, porém, devido a ansiosidade de Lilian e a insegurança de Elizabeth, aquele local foi o único que se passou por suas cabeças. O cheiro de grama cortada, a parede branca do edifício — onde a loira estava encostada — e o céu repleto de nuvens cinzas, que deixavam o ambiente escuro, formavam um cenário um tanto melancólico.
Lilian havia percebido que estava apaixonada pela mais alta há dois anos, desde então tinha guardado esse sentimento para si, imaginando que se contasse os seus sentimentos para com a loira, perderia sua amizade. Não era um medo insignificante, as pessoas tendiam a evitar problemas e manter uma imagem adequada para o padrão da sociedade mesmo que fosse sua melhor amiga de infância envolvida num assunto tão delicado.
Elizabeth a olhava confusa, ou melhor, se fazendo de confusa, já sabia dos sentimentos da amiga há muito tempo, mas nunca se importou de verdade. A loira não era uma pessoa de boas intenções, nunca foi. Criada por pais que sempre a mimaram e lhe davam tudo o que quisesse, adquiriu uma personalidade distorcida e manipuladora que facilmente era escondida por sua máscara de menina perfeita e dócil.
— Lizzy, sei que isso é inesperado, nunca imaginei que um dia poderia chegaraa ter esses sentimentos por você. Não estou dizendo que não é merecedora de algo tão belo, mas sim que isso vindo de mim para você chega a ser assustador, principalmente por não saber qual será a sua reação – sussurrou, respirando fundo para manter a calma.
— Lilian, sabe que pode me contar tudo, não é? – A voz aveludada da amiga lhe ajudou a se acalmar, porém não totalmente.
— Eu sei — fechou os olhos, munindo-se de coragem — Eu te amo, Elizabeth – disse finalmente, tentando aparentar segurança, mesmo que por dentro estivesse desesperada.
Por dentro, Elizabeth sorria vitoriosa, como sempre, ela saía vencendo e levando consigo o melhor brinquedo para deixar guardado em sua coleção. Ele esperaria dia após dia, sonhando com o momento em que sua dona o escolheria para fazer parte de sua vida.
— Me dê um tempo para pensar, sim? Não quero lhe dar uma resposta equivocada — sorriu, gentil, estendendo a mão para Lilian.
— E-entendo... Eu vou esperar, quanto tempo for necessário – a ruiva disse com um sorriso fraco, aceitando o cumprimento da amiga.
O que Lilian não sabia é que esse tempo seria a sua ruína."
As duas garotas agora se encaravam, visivelmente desconfortáveis e nervosas com a situação. Elizabeth queria ao máximo evitar entrar naquele assunto, para ela a vida estava boa daquele jeito e nada precisava ser modificado. Enquanto que para sua amiga, todos os dias eram uma bagunça infernal dentro de si.
— Lilian, eu acho que pedi por um tempo para responder à sua confissão – nem mesmo se dignou a desviar o olhar da janta, ditando com a voz firme e nada feliz por esse assunto ter sido levantado.
— Três anos... – a ruiva murmurou, olhando para baixo com os olhos marejados e dentes cerrados.
— O que disse? — Indagou, desgostosa, vincando o cenho.
— Eu disse ‘três anos’! Estou esperando pela sua resposta faz três anos, Elizabeth. Se somar isso com os dois anos em que guardei os meus sentimentos por você para mim mesma, seriam cinco anos de angustia por causa da incerteza e do medo – sua voz estava alta, um pouco descontrolada e embargada pelo choro.
— Lilian... eu-
— Você! É sempre você. Nunca sou eu, ou seus pais, ou o seu cachorro, é sempre a Elizabeth. Por quanto tempo mais eu vou ter que esperar? — Fechou os olhos, permitindo que as lágrimas caíssem.
— Me desculpe... – Agora a loira olhava para baixo, envergonhada por ter deixado tanto tempo passar.
— É a única coisa que você tem a me dizer? Desculpa? – A mais baixa encarava a outra seriamente.
— E o que você quer que eu diga? Que eu também te amo? Que estou perdidamente apaixonada por você? Ou que eu te odeio e não quero mais te ver? Me responda!
— Você é a única me devendo uma resposta. Uma resposta, é isso o que eu quero! – Ditou, nervosa.
O silêncio tomou conta do local, nenhuma das duas se encaravam com medo de perder a razão da discussão.
Elizabeth estava de costas e olhava para cima, impaciente, como se implorasse por ajuda, quando ouviu o barulho abafado de algo caindo no chão, seguido de soluços. Lilian tinha perdido as forças nas pernas e agora estava ajoelhada, escondendo o rosto nas mãos para não mostrar seu estado deplorável.
— Vamos, levante... – Elizabeth foi até a ruiva e ajudou-a a se levantar, em seguida lhe dando um abraço – eu tive uma ideia, quer ouvir? – Perguntou com a voz mansa, sentindo a ruiva fazer que sim com a cabeça – amanhã ao meio-dia, me espere na praça central da cidade e você saberá a minha resposta, concorda?
— C-concordo... – Choramingou inocentemente, sem perceber o sorriso de deboche nos lábios cheios da amiga.
— Ótimo! Agora vamos comer, porque estou morrendo de fome e aposto que você também está – disse animada, começando a preparar a mesa.
Sábado, duas horas da tarde.
Duas horas depois da hora marcada, a ruiva, já cansada de esperar, sentia que todos os pedestres e até mesmo as nuvens que deslizavam suavemente no céu estavam rindo de si.
Sabia que se encarasse a realidade, poderia seguir em frente, mas ela não conseguia, não queria. Não queria acreditar que para a mais alta ela era apenas uma palhaça, que poderia ser feita de boba e idiota quando bem entendesse.
Todos os dias eram iguais, e enquanto a carregava a Terra girava como se não soubesse de nada e fazia com que fosse levada ao mesmo ciclo vicioso de sempre; acordar, comer, ir à escola, ver a amiga ignorar seus sentimentos, voltar para casa e se enfiar em um mundo melancólico chamado ‘Elizabeth’.
Lilian estava cansada, exausta de ter que ficar sempre esperando pela mais alta aonde quer que fossem, em um shopping, no banheiro, na escola, quando ia buscá-la em casa... Não aguentava mais, caiu agachada no chão da praça se colocando a chorar, sem se importar com as pessoas que passavam e a olhavam preocupados, afinal nenhuma delas poderiam ajudá-la.
Passos leves, quase sem som, se aproximavam da garota ajoelhada no chão, passos que não foram percebidos até que a pessoa parou à sua frente chamando sua atenção. Lilian levantou a cabeça na esperança que fosse a loira, mas quando focou a sua visão na pessoa à sua frente, viu que aquela garota estava longe de ser Elizabeth.
A menina tinha cabelos castanhos escuros e ondulados, olhos igualmente castanhos e aparentava ser mais baixa que si — não que Lilian fosse baixa, muito pelo contrário, a ruiva tinha quase 1,70 -. Em seus lábios havia um sorriso fofo, com dentes brancos á mostra, o que ocasionava covinhas nas bochechas gordinhas.
Após quase um minuto descrevendo a garota mentalmente, Lilian percebeu que a mesma lhe estendia a mão, olhando expectante para si. Era um cena estranha aquela na qual a ruiva se encontrava, mas depois de tantos desastres naquele dia, ela apenas queria seguir o fluxo da Terra.
—Vamos! O que está esperando? – A garota perguntou divertidamente, lhe indicando à segurar sua mão.
— Perdão?
— Não estou ofendida – respondeu, calma e objetiva.
— Quero dizer, você está falando comigo? – Lilian estava visivelmente confusa e um pouco hostil.
— Não vejo mais ninguém agachado ao chão e chorando como um bebê – a outra retrucou num tom de provocação, se divertindo com as expressões da ruiva.
Lilian ficou vermelha de raiva e constrangimento, mas não se deu por vencida e virou o rosto em uma direção qualquer com um sorriso ao seu enlaço, sorriso esse não passou despercebido por nenhuma das garotas presentes ali.
— Vá, levante-se, ruivinha. Vamos à uma lanchonete e depois à um shopping fazer algumas compras e fofocar sobre a vida alheia – falou, desleixada, abrindo um novo sorriso torto.
— O que você vai ganhar me ajudando? Além do mais, você nem me conhece! – Lilian olhou para a garota à sua frente, estava indignada com toda aquela petulância, para uma garota baixinha e fofa, ela era bem intrometida e mandona.
— Vou ganhar meu presente de Natal, oras! Essa vai ser minha boa ação do ano – se manteve séria, apesar de querer gargalhar com a expressão da jovem agachada.
— Pois então terá que ajudar outra pessoa, porque se depender de mim você não ganhará presente nenhum – Lilian tornou a virar a face, com um bico enorme, em um gesto infantil.
— Ei, era brincadeira! – Se defendeu, levantando as mãos no ar – eu só quero ajudar, tá legal? Te vi aí tão indefesa e achei que se viesse até você, poderia ajudar de alguma forma. Vamos, coloque um sorriso no rosto e esqueça o que ou quem te fez mal, siga em frente – voltou à estender a mão, esperando que dessa vez a ruiva aceitasse.
— Como vou saber se você não está me enganando? E no final, vai virar as costas para mim como se eu fosse um simples palhaço e você a princesa inalcançável? – A ruiva perguntou com a voz baixa, mas ao mesmo tempo firme.
— Palhaço...? Princesa? – A morena pareceu não entender no início, mas logo que caiu a ficha voltou a sorrir novamente – Você não vai saber, – esperou que a ruiva demonstrasse uma expressão confusa no rosto para continuar – porque o final ainda está longe, e nós acabamos de começar. Pode parecer cruel falar assim, mas tente entender que o final só acontece quando se já tem um começo – encerrou a frase com um sorriso esperto no rosto delicado.
A ruiva olhou para a figura divertida à sua frente, e sorriu, sorriu como não fazia há três anos, mostrando seus dentes no meio do ato. Esticou sua mão e segurou firmemente na da garota à sua frente, que até então não tinha abaixado o braço, e em seguida foi puxada para cima.
— Eu me chamo Milena – disse a morena engraçada, com um sorriso no rosto, finalmente se apresentando – E você?
A mais alta fez uma nota mental, para começar a contar quantos sorrisos verdadeiros e bonitos uma pessoa pode ter.
— Lilian, me chamo Lilian – Disse por fim, começando a andar ao lado da outra.
Atrás de uma parede, o verdadeiro palhaço da história assistia toda a cena com indignação, mas ele não era nem ruivo, nem moreno, ele era loiro. Aquela que achava que terminaria o espetáculo sendo a personagem principal, que sairia com um sorriso de vitória no rosto, saiu como personagem secundária e com lágrimas à escorrer em seu rosto pálido.
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