Notas iniciais
Olá, gente, quanto tempo! Depois do término de Running Away, eu prometi que estaria de volta o quanto antes, mas uma grande falta de imaginação me acometeu e eu me perdi no mar de grandes ideias que eu tive e sem saber como colocá-las no papel.
Em razão dos novos episódios de Glee, sem Quinn ou Dianna, eu não tive animação suficiente para continuar meus projetos, mas Melissa Benoist e sua personagem, Marley, me colocaram de volta nos trilhos. Como eu sentia falta de escrever sobre zumbis, acabei misturando Quinn e Marley e, bem, deu no que deu.
Espero que gostem e vejo vocês lá embaixo!

29 de Fevereiro de 2012

Quarto de Quinn, Mansão Fabray, Lima, OH

03:03 AM

Quinn corria. Corria e corria, mas nunca chegava ao lugar onde queria estar. O mundo à sua volta passava rapidamente pelos seus olhos, e ela já não queria saber dele. Uns morriam, outros pediam por ajuda, mas ela não os dava atenção. Tudo o que importava era alcançar o inalcançável.

Então Santana a acordou com um chute no joelho esquerdo.

Tentou não ficar com raiva. A mansão Fabray parecia grande na época em que morava lá apenas ela e seus pais, mas agora mal cabia a galera do Glee. Ela, Santana e Brittany dividiam a cama de seu quarto. Às vezes ela dormia no chão, por que Santana tomava metade da cama só para si, e deixava Brittany e Quinn espremidas a um canto.

Quinn não queria levantar. Antes, a mansão era rodeada de barulhos e exclamações educadas de seus vizinhos, mas agora só havia grunhidos e ruídos terríveis de se escutar. Antes, podia circular por aí tranquilos; agora, no entanto, um passo em falso e você virava comida de zumbi.

Ninguém sabia direito como tinha acontecido. Tinha passado um mês desde os primeiros indícios dos mortos-vivos no sul, sem um local certo, mas eles só tinham chegado a Lima havia duas semanas. A cidade estava um caos, ninguém estava seguro.

Naquele momento, sabia, Sam estava guardando a mansão com Finn, temendo tanto walkers quanto humanos. Quinn sabia que o grupo tinha de dar o fora dali. O governo dissera que as cidades eram o ponto principal de tudo aquilo, que eles deveriam permanecer em suas casas ao invés de fugir para o campo. Lima estava em uma das cidades nomeadas para servir de refúgio, então havia carros entrando por todos os lados da cidade. Gente de todo o Ohio estava indo para lá, o que para Quinn era uma grande bobagem.

Deviam fugir. Encontrar uma propriedade abandonada no campo e viver lá até as coisas voltarem ao normal. Puck e Finn concordavam com ela, e Sam já estava se preparando para ir. Santana era contra. Convivendo com a garota por quase toda a vida, ela sabia que aquela seria difícil de mudar.

Junto com Sam, Puck e Finn, elas lideravam o grupo. Mr. Schue e Coach Sylvester tinham esse posto antes de terem sido mordidos, três noites antes. Ela os perdera, ou seja, eles ainda estavam vagando por aí em formas de zumbis.

Eram um grupo maior no começo, com os pais de Rachel, os Hummel e Blaine. Podia se dar ao luxo de não se importar com o que estava acontecendo, mas muito mudou em muito pouco tempo. Leroy e Hiram tinham se mandado o quanto antes, deixando a responsabilidade de cuidar de Rachel a Quinn. Eles mantinham contato, e estavam bem. Burt e Carole, com Blaine e Kurt, também tinham fugido, mas Quinn não fazia ideia onde eles estavam.

Finn escolheu ficar. Ela sabia que não fora por coragem, e sim por causa de Rachel, mas mesmo assim admirava o garoto. Os zumbis tinham mudado sua personalidade e sua forma de ver o mundo, e Finn não era mais o idiota que era antes.

Rachel também tinha alguma coisa a ver com minha nova personalidade, Quinn pensou enquanto socava o ombro de Santana, que tentava dormir por cima dela. Quinn amava Rachel mais do que ela própria, mas seu amor não a ajudou quando Rachel caiu de uma altura de dez metros ao tentar pendurar um pôster da campanha de Kurt para o grêmio estudantil.

Kurt, até o dia em que fora com o pai, se arrependia pelo acidente, mas ele nunca ia sentir tão culpado quanto Quinn. Ela segurava a escada na hora do acidente e deveria tê-lo feito com mais força ao ver a bola do time de futebol passar por cima de sua cabeça e acertar em cheio as costas de Rachel.

Desde então, Rachel se encontrava em coma, sem ter nenhuma ideia do que estava acontecendo com o mundo. Quatro meses tinham se passado, e com a loucura que Lima se encontrava, Quinn não acreditava que o hospital duraria muito até ser invadido. Pessoas que tinham sido mordidas entravam e não saíam. Quinn temia por Rachel. Ninguém podia mais entrar mais no hospital, e por isso perdera noites e noites imaginando se Rachel teria acordado, como ela estaria e como ela teria lidado com os zumbis.

Com os olhos totalmente abertos, ela se esquivou para longe de Santana e sentou-se na cama. Seu horário da vigília não era até dali três horas, mas dormir passou a ser uma grande dádiva. Sam e Finn, um no telhado e outro na sala de estar, respectivamente, deveriam estar cansados e sonolentos, como sempre.

Como tomara o turno de Sam na noite anterior, pensou em ir até Finn, na sala de estar. Ficar com o garoto um pouco não era tão doloroso quanto antes, agora que Rachel estava a quilômetros longe de seus lábios. Em razão disso, ela tateou com os pés o chão em busca de seus chinelos e saiu do quarto.

Sua mãe estava com Frannie em New York quando o mundo virou de cabeça para baixo e mandara somente uma mensagem dizendo que estava bem. Isso fora há uma semana, e Quinn tinha certeza de que a mãe e a irmã estavam mortas. Por isso, o quarto de Judy Fabray era de Shelby (a única adulta que tinha sobrevivido) e Puck. Sugar dormia no seu antigo quarto de brinquedos com Tina e Mike enquanto Artie, Rory e Finn dormiam em um quarto de hospedes no andar de baixo.

Ela desceu as escadas vagarosamente, abrindo caminho pelos brinquedos jogados de Beth. Quinn encontrou Finn espiando por uma fresta da cortina a rua escura. Pigarreou, e o garoto sentou-se aprumado no sofá rapidamente. A sala era iluminada apenas por uma lanterna, mas Quinn sabia que Finn tinha corado.

— Darren disse para mim uma vez que tinha visto O Exorcista — Finn falou depois do momento constrangedor. Quinn sentou-se ao lado do garoto no sofá e notou a pistola dele descansando entre suas pernas. — Ele disse que, no filme, os demônios esperam até às três da manhã para sair do inferno. Dizia que a cortina entre o nosso mundo e o deles ficava mais fraca durante esse minuto. — Finn espiou de novo pela janela. — Ele estava certo, pelo jeito.

Quinn se inclinou para ver o lado de fora e encontrou os mortos-vivos caminhando lentamente pela rua, arrastando os pés. Os grunhidos dos zumbis podiam ser ouvidos de longe. Ninguém ousava sair à noite. Durante o dia era mais calmo, os walkers se escondiam (ela não fazia ideia aonde) e a culpa do caos era apenas dos seres humanos. Os crimes já não eram mais crimes; saques e estupros e o misto do pior que a raça humana tinha inventado surgia nas altas horas do dia. Para que pudesse sobreviver ali, precisava enfrentar todas as morais existentes, e Quinn temia dizer que não tinha mais medo.

Lima a conhecia antes como a “amiga da garota em coma”, mas agora ela era Quinn Fabray, a garota com cabelos rosa e roupas esfarrapadas que não permitia que nenhum walker saísse de sua vista “vivo”. Quinn nunca tinha tido interesse em armas, à exceção dos jogos de Resident Evil, mas a situação estava desesperadora.

Na verdade, Brittany a ensinara a atirar. A namorada de Santana não era uma completa imbecil como todos pensavam — embora Quinn nunca tivesse duvidado de sua inteligência. Brittany lera os livros sobre zumbi que Quinn emprestara a ela um dia e aprendera tudo sobre eles. Ela saqueara uma loja de armas e agora pessoas vinham à mansão Fabray pedir por jogos de pistolas e armamentos. Brittany era a maior ajuda que eles poderiam ter.

— Nós vamos sair daqui, Hudson — Quinn disse, ainda olhando o lado de fora. Fechou a cortina e olhou para o garoto. — Sei que vamos.

— Mas Santana disse...

— Santana não sabe porra nenhuma. — Quinn sorriu. — Estamos em 13; a maioria ganha.

— Sam vai embora — ele lembrou-lhe. — Sugar e Rory falam em ir com ele. O grupo está se desfazendo, Quinn.

— Mas ainda seremos muitos, Finn. — Quinn deu um soco amigável no ombro dele. — Não se preocupe.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, mas Finn logo murmurou, fitando o chão:

— O que faremos com Rachel?

Ela gostava da forma de como Finn a incluía nas decisões que envolviam Rachel. Ela passara tanto, ou mais, tempo ao lado da cama de Rachel quanto ele, e Quinn tinha uma leve suspeita de que o garoto até soubesse sobre o que sentia por sua namorada. Se Rachel acordasse um dia, precisaria de todo o apoio que conseguisse encontrar.

— Só há uma maneira de nós levarmos Rachel...

— Se ela acordar — completou Finn, abatido. Ele bem sabia que não daria para carregar o equipamento todo de Rachel seu Cadillac, ou no Impala de Puck.

Ele suspirou. Quinn olhou-o com certa pena.

— Pode ir dormir, se quiser — ela ofereceu gentilmente. — Cubro o seu turno.

— Você não dorme? — perguntou o garoto soltando uma risada.

— Pesadelos demais — respondeu Quinn, dando de ombros. — E quando estou vivendo em um, os sonhos se tornam piores.

Quinn tinha enfrentado o fundo do poço milhares de vezes, mas aquela era a primeira que o resto do mundo a acompanhava. Por mais estranho se possa parecer, sentia-se bem. Perder os pais, amigos e o resto de sua vida fora uma experiência terrível, mas matar zumbis acabava com toda a decepção.

Quinn amava o que andava fazendo nas últimas semanas; adorava ir com Santana à cidade e procurar alimentos e armas; adorava ficar com a filha. Estava vivendo um pesadelo e um sonho ao mesmo tempo. Para que tudo estivesse completo, só faltava Rachel estar ali com ela.

— Ah, eu acho que vou indo mesmo. — Finn levantou-se e espreguiçou, bocejando. Ele beijou a testa de Quinn e disse: — Até de manhã.

Quinn sorriu a ele e caiu de costas no sofá. Nenhum zumbi fazia barulho muito perto. Olhou a televisão desligada e perguntou o que estava acontecendo ao redor do mundo. Os noticiários locais eram transmitidos apenas uma vez por dia, mas o governo já tinha anunciado que cortaria as comunicações. Depois disso, ficaria cada vez mais difícil arranjar algo que informasse como as outras pessoas estavam lidando com aquilo.

Ela sabia que teria de enfrentar Santana. Os pais de Rachel e os Hudson-Hummel tinham ido embora e, até onde sabia, estavam bem. Eles precisavam sair dali. O grupo precisava de uma casa maior, longe da civilização e longe dos walkers. Ohio talvez não fosse cheio de propriedades de terra, mas estavam relativamente perto do Tennessee...

Os planos de Sam era seguir até o sul, o mais longe possível de Lima. Tennessee era um bom estado, talvez um pouco perto de onde tivesse estourado os walkers, mas talvez mais seguro que Lima. Podiam ir para lá, podiam achar uma fazenda e podia criar Beth junto com Puck e Shelby...

Um choro alto, no entanto, tirou todos os planos de sua cabeça. Quinn sentou-se imediatamente, os sentidos em alerta. Não era o choro de Beth, porém; ela conhecia muito bem as birras da filha. Não. Vinha de fora, e era humano.

Quinn respirou fundo e espiou através da cortina. Seu coração parou por um instante ao ver uma menina que não devia ser muito mais nova que ela na soleira da mansão Fabray, sentada abraçando os joelhos. Ela balançava-se para frente e para trás, chorando alto.

Dois walkers se aproximavam dela, mas ela estava presa em seu mundo para notar a morte aproximando. Quinn engoliu em seco e correu para a porta. As regras que Santana forçara-os a cumprir eram bem claras — “Nunca abra a porta para ninguém” —, mas Quinn não deu atenção aos gritos da amiga na sua cabeça. Abriu a porta rapidamente e puxou a garota para dentro.

Quinn tirou sua adaga do tornozelo e enfiou-a no cérebro dos walkers antes mesmo de eles pensarem em atacar. Ofegando, fechou a porta e deixou-se cair no tapete de entrada. A garota que salvara a olhava, impressionada. Tinha cabelos castanhos longos e olhos azuis brilhantes, mesmo na escuridão em que a sala se encontrava. Ela lembrava muito Rachel, a exceção da cor dos olhos.

— O que tá fazendo aqui? — Quinn exclamou o mais baixo que conseguia, tentando aproximar engatinhando da garota. A menina recuou alguns passos, aterrorizada. — É quase quatro da manhã!

— M-meus p-pais... — ela tentou dizer, tremendo violentamente. — E-eles m-morreram e e-eu... M-me desc-c-culpe, m-mas e-eu...

Quinn continuou fitando a garota, mas sentou-se no chão frio de sua casa. A garota também se encontrava sentada, ainda tremendo; não podia dizer se era de frio ou de medo. Procurou por arranhões ou mordidas do walkers, mas não as encontrou. Ela pressionava os joelhos contra seu corpo, olhando a porta atrás de Quinn com desejo, como se esperasse uma oportunidade para poder fugir. Seus enormes olhos estavam fixos em Quinn, o que a fez sentir-se envergonhada.

— Qual é o seu nome? — perguntou Quinn calmamente.

— M-marley — respondeu a garota.

Quinn mordeu o lábio, preocupada. Ela não podia deixar Marley voltar para a rua, tampouco teria comida para alimentá-la se ela ficasse. O grupo tinha um grande estoque de comida, mas era contado para eles. Uma boca a mais para alimentar era problema.

— Quantos anos têm?

— Quatorze — respondeu Marley. Começara a ficar à vontade perto de Quinn; ela soltara seus joelhos e sentava menos tensa. A expressão se suavizara, à exceção dos olhos enormes e verdes, que continuavam fixamente encarando-a.

— Seus pais foram mordidos? — perguntou seriamente. Ela assentiu. — E por que veio pra cá?

— Não sou burra, sei que se ficasse lá morreria — disse Marley com um olhar cético à Quinn. — Fugi para cá por que...

Marley fitou Quinn novamente, e aqueles olhos azuis estudaram sua alma por completo. Esperavam por uma reação dela, mas Quinn não sabia o que ela queria.

Então, se lembrou.

Os pais de Marley moravam perto dali. Russell sempre os convidava para jantar com os Fabray, até três anos antes, quando o pai de Marley mencionou algo sobre os direitos dos homossexuais, e Russell ter ficado ofendido com o “apoio” dele. O contato entre as famílias se perdeu com o tempo, principalmente depois de a outra família ter se mudado.

Quinn adorava brincar com Marley, ou pelo menos era isso que ela se lembrava. Os quatro anos de diferença entre elas não importava. Quinn sentia-se livre de pressões perto da garota, pois o pai nunca prestava atenção no que ela estava fazendo durante aqueles jantares. Marley fora uma grande ajuda para Quinn durante os primeiros dias na McKinley, até entrar nas Cheerios e mudar completamente sua personalidade.

— Marley Rose — ela pronunciou o nome num sussurro contido.

Ela concordou com a cabeça, se permitindo um sorriso vacilante.

— Imediatamente pensei em você, não sei por que. Os boatos d’A Garota de Cabelos Rosa voam por aí e a única coisa que me veio à cabeça foi você. — Marley tocou nos cabelos róseos de Quinn levemente. — Pelo jeito é verdade.

Quinn impulsivamente abraçou Marley. Apertou-a contra seu peito e a deixou chorar por incontáveis minutos. Mas Quinn não queria soltá-la; tal como ganhara a responsabilidade sobre Rachel, tinha conquistado a guarda de Marley. Ela era sua antiga companheira, uma irmã mais nova que nunca tivera. Deveria protegê-la de todo o mal que podia vir a acontecer.

Mas tentou ignorar o fato de que a garota lembrava-lhe Rachel. Quinn se lembrava de Marley dizer que um dia queria ser cantora; não para ir à Broadway, apenas cantar. Marley também fora alegre e amava atuar.

Beijou os cabelos castanhos da garota, ainda abraçada a ela em frente à porta de entrada, e sentiu Marley se enroscar mais em si. Pensou em Rachel no hospital, talvez até morta por causa dos feridos por zumbis que entravam noite e dia, e jurou proteger Marley como não tinha protegido Rachel, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.


29 de Fevereiro de 2012

Sala de Estar, Mansão Fabray, Lima, OH

07:21 AM

— Não podemos ficar com ela! — exclamou Santana desvairada na sala de estar na manhã seguinte. — Temos treze bocas pra alimentar e você ainda quer mais uma?!

Quinn respirou fundo. Santana estava no seu pé havia dias; Marley era apenas o estopim do que tinha acumulado durante a semana. Entendia o que a amiga queria dizer, mas Marley estava aterrorizada e tinha somente quatorze anos. Ela precisava de Quinn — ou melhor, Quinn precisava dela.

Nem Marley nem Quinn tinham dormido na noite anterior. As duas se aconchegaram no sofá e lá ficaram até os primeiros raios de sol saírem. Sam as encontrou quando ia avistar que a vigília dele e de Finn já tinha terminado.

— Santana, ela está bem aqui! — Sam sussurrou energicamente, lançando um olhar duvidoso a Marley, que fingia não ouvir o que se passava ao seu redor. — E é uma criança, pelo amor de Deus!

— Se for desse jeito, eu e Rory também somos crianças — Sugar disse, cruzando os braços. — Também temos quatorze anos.

— Mas vocês são diferentes — retrucou Santana. Olhou para Marley ao dizer: — Têm alguma utilidade.

— Já chega, Sant! — O grito veio sem querer. Quando percebeu, Quinn estava de pé e fitava a amiga com raiva. — Você está sendo insensível com a garota! Três semanas atrás estava pior que ela, só que bebendo e transando com Brittany em qualquer banheiro que encontrava! Eu trouxe você para cá quando você não tinha mais esperanças, então cresça e aceite que estava, ou está, tão apavorada quanto Marley!

A sala mergulhou em um silêncio terrível. Quinn viu Artie fazer uma careta para Sam e Marley encolher-se no sofá. Santana ficou sem reação, a expressão raivosa vagarosamente se esvaindo. Quinn permaneceu firme, com os braços cruzados contra seu peito e o semblante frio.

Santana virou-se e saiu da sala. Puck a acompanhou, lançando um olhar culpado na direção de Quinn, que se deixou cair no sofá ao lado de Marley. Sobraram apenas ela, Marley, Sam e Artie.

— Nossa comida é pouca, mas temos espaço para você, Marley — disse Artie bondosamente. Ele olhou para Quinn como se pedisse desculpas. — Principalmente depois de nós irmos embora.

Sam arregalou os olhos e Quinn se ajeitou no sofá, em choque.

— Você e mais quem? — Quinn não queria desmerecer Artie, mas era impossível o garoto sair pela cidade sozinho. Alguém mais iria com ele.

— Mike e Tina — ele respondeu, observando seus sapatos vivamente. — Nós conversamos e achamos que será melhor se formos juntos. Esperar por você tomar uma decisão é muito...

O garoto calou-se. Quinn percebeu seu rosto ficar vermelho.

— Muito o quê? — perguntou Quinn cuidadosamente. Sam preferira ficar em silêncio.

— Você depende demais de Santana. — Quando Quinn fez menção de retrucar, Artie disse: — Não minta, todo mundo vê o quanto você a ama e o quanto a odeia. Vocês se completam e dependem, sim, uma da outra.

Sam concordou minimamente com a cabeça. Marley, por outro lado, parecia ter adormecido no sofá. Quinn não soube o que responder.

Nunca tinha pensado daquela forma. Para ela, a amizade que tinha com Santana foi por muito tempo interesseira, mas — em algum lugar entre a briga no corredor no primeiro dia de aula do segundo ano e os amassos que tinham compartilhado para que Quinn definisse sua sexualidade, durante o inverno do segundo ano — sabia que não era.

Ela mordeu o lábio e encolheu os ombros para Artie.

— Podem ir. É a escolha de vocês.

— Quinn! — exclamou Sam, indignado. — Temos que manter o grupo unido, o que há de errado contigo?!

Quinn fitou Sam sem expressão.

— Por essa razão anda sussurrando por aí dizendo que vai embora? — ela perguntou friamente.

Sam encostou-se à cadeira e permaneceu quieto.

— Nós partimos à noite — disse Artie, girando sua cadeira de rodas para fora da sala.

Sam encarou Quinn com um olhar triste. A garota não deu lhe atenção, mais preocupada com Marley, que dormia com um semblante perturbado ao seu lado.

O grupo se desfazia. Logo, sobraria Santana, Brittany, Finn e Puck, com Shelby e Beth. E Marley, é claro. Depois da bronca que dera em Santana, era impossível renegá-la.

Depois de um tempo, Sam deixou-as sozinhas, dizendo estar com sono. Quinn sabia que ele queria apenas evitar o constrangimento de estar perto dela. O que Quinn dissera o pegara de surpresa; talvez ele acreditasse que ninguém o tinha visto aos cochichos com Mercedes ou com Rory. Quinn não tinha olhos e ouvidos em todos os lugares da casa, mas sabia quando alguém agia de modo suspeito.

Ela deixou Marley dormindo no sofá e foi ajudar Artie, Tina e Mike com as malas.


29 de Fevereiro de 2012

Sala de Estar, Mansão Fabray, Lima, OH

06:00 PM

— Hora do noticiário! — Santana exclamou da sala de estar.

Quinn parou de brincar com Beth e carregou-a para onde a amiga estava. O noticiário era a hora mais importante do dia, quando eles ficavam sabendo da situação de Lima. Quinn sabia que as coisas estavam indo de mal a pior, mas ela sempre tinha um pouco de esperança ao assisti-lo nas últimas semanas. Sempre se pegava pensando que, em um dia ou no próximo, eles anunciariam que uma cura havia sido criada.

Mas os dias passavam, a situação piorava, e nenhuma cura era feita. Lima News tinha agora em sua equipe duas pessoas, o âncora e o cinegrafista. Quinn sabia que eles estavam escondidos em algum porão perto da sede da rede de TV, e transmitiam de lá. Como eles pegavam as informações, no entanto, Quinn não fazia ideia.

Ao chegar à sala de estar, ela entregou Beth a Shelby e sentou-se ao lado de Marley, abrindo um sorriso animador. Marley ainda estava abalada por causa da noite anterior, e dormira o dia todo, causando uma onda de raiva em Santana. Brittany fora a única que conseguira acalmar a namorada.

Marley aninhou-se em Quinn da mesma forma que Rachel fazia quando Finn a chateava. Quinn adorava estar tão perto da garota. Elas passavam horas na mesma posição, assistindo a um filme ou apenas conversando. Marley tinha o cheiro de Rachel, mas mais fraco, tal como seu estado de espírito se encontrava. Cabia a Quinn deixá-la melhor, e ela não falharia em sua missão.

— Boa noite, Lima — o âncora disse, olhando diretamente para a câmera. — Estamos no 13º dia dos ataques, e as coisas pioram ainda mais. O lado sul da cidade está tomado de pessoas que chegam de outras cidades, querendo abrigo e uma chance de sobrevivência. Infelizmente, não podemos comportar tanta gente e o exército ameaça fechar a cidade.

— Espero que Artie tenha conseguido sair — disse Sam, preocupado. Seus olhos estavam vidrados no televisor.

— Ele conseguiu — confortou-o Mercedes.

— Pena que não demos a eles um comunicador — falou Puck, suspirando. Ele e Artie tinham uma amizade estranha, mas muito importante. Ele ficara sem reação ao descobrir que Artie tinha fugido com Mike e Tina.

— Mas eles têm celulares e... — Antes que Shelby pudesse terminar, Rory exclamou:

— O noticiário, gente!

Marley encostou a cabeça na curva do pescoço de Quinn. Brittany abanou a mão para que todos ficassem quietos, e a única voz que se fez ouvir foi a vinda da televisão.

— O hospital é o único local completamente seguro de Lima. O exército mantém sua base perto do local e só permite a entrada de doentes. — O âncora tossiu desconfortavelmente, alisando os papéis que segurava. — No lado leste, os humanos andam sobrevivendo mais, por conta de certa garota de cabelos rosa. Diz-se que a garota era a grande líder de torcida Quinn Fabray e que sua pistola tem a mira perfeita. Infelizmente não sabemos onde Quinn Fabray se encontra.

Quinn engoliu em seco, se aprumando no sofá. Brittany riu alto. Santana e Puck a acompanharam. Três meses atrás, adoraria ser tema de uma matéria no Lima News, mas agora tudo o que pensava era no grupo. E se alguém atrevesse a descobrir onde morava e os ameaçasse? Tinha que calar a boca desse homem, mesmo ele sendo o único a continuar lhe passando informações de Lima.

— Falei que você era famosa — disse Marley, soprando seu hálito quente no pescoço de Quinn, fazendo a garota tremer.

Quinn ignorou o comentário, deixando o âncora continuar:

— Mas, eu temo dizer que essa será uma de nossas últimas transmissões. Eu não sei quando elas serão canceladas, mas espero que os que ainda estejam ouvindo o que tenho a dizer, continuem vivos. Assim como eu. Obrigado e até amanhã, eu espero.

O televisor ficou preto. Santana bateu palmas, e os outros se apressaram a sair dali. Era a vez de Quinn vigiar o telhado, e Santana cuidar da porta da frente, por isso ela cutucou Marley delicadamente no ombro. A garota abriu os olhos e fitou Quinn preguiçosamente.

— Eu preciso ir — ela sussurrou no ouvido da garota, tentando levantar do sofá. — Minha vigia é lá em cima.

Marley demorou um tempo para processar o que Quinn tinha falado, mas quando compreendeu, sentou-se rapidamente, seu rosto corando. Santana ria em silêncio das duas a um canto distante da sala.

— Beleza, tudo bem — Marley disse, se afastando de Quinn.

Santana riu mais alto do que deveria. Quinn lançou-lhe um olhar feroz.

— Só algumas horas — Quinn tentou animá-la. — Você pode ir para meu quarto, é onde você vai dormir... — Ela olhou de relance para Santana, pedindo uma aprovação da amiga. Santana apenas rolou os olhos e continuou a observar a janela. — Acho que temos um colchão reserva, você vai dormir no meu quarto.

Marley abriu um sorriso cansado, agradecendo com a cabeça.

Notas finais
E aí, o que vocês acharam? Eu sei que Marley jamais foi mencionada na outra fic (e bem, ela não exista quando eu estava escrevendo), mas no final, vocês verão por que.
É uma short fic, e está quase pronta. Terá três ou quatro capítulos de acordo com minha contagem, mas sei lá, sempre pode ter mais.
Desculpem-me por sumir por tanto tempo, mas as notícias de termos algum Faberry no episódio de Ação de Graças me animaram bastante e pretendo continuar um projeto que sempre quis escrever.
Espero que tenham gostado, deixem seus reviews, com xingamentos e elogios, e até a próxima :)