Notas iniciais
Gente, a Mellyne que escreveu o capítulo, mas ela teve uns compromissos de cunho familiar que a impediram de postar e estou fazendo esse favorzinho por ela, até coloquei uma assinatura dela, rs Beijos e espero que gostem. Boa leitura.

Depois da Ceia

Reino Unido, as Bordas

Oh Graça Infinda

Nosso bem...

Na gruta de Belém! Na gruta de Belém!

– Jesus amado, o salvador! – as crianças cantavam, conforme a moça sentada no órgão conduzia a melodia. Os órfãos da Igreja eram todos meninos, com as cabeças raspadas e suas roupas brancas, pareciam anjos, embora a maioria ostentasse cicatrizes que anjos não teriam. Pajens caminhavam por todos os lados, entregando ramos verdes. A neve preenchia todas as árvores e a Catedral estava completamente fechada, as velas iluminavam as vidraças cheias de desenhos de Cristo e dos Santos. Dominique adorava a Véspera de Natal. Em Aragão, tinham o costume de trocar presentes, assim como os reis trouxeram presentes ao Deus-Menino quando nasceu. Mas nas Bordas... Naquele castelo frio... Era seu segundo Natal ali, ouvindo as mesmas crianças, balançando o mesmo ramo, sentada num banco de madeira duro. Ao seu lado o Arcebispo Michael balançava a cabeça, olhando alegremente os meninos órfãos.

– São todas crianças, o mais velho está conosco há cinco anos, possui quinze. – contou um dos padres que estavam a bajular o Arcebispo Michael. Dominique fingia não prestar atenção.

– A Missa será pregada assim que der meia-noite, então quero que todos estejam lá.

– Os meninos não têm permissão para...

– Imagine. Qualquer criança tem a permissão de assistir a uma missa, principalmente a de Natal! – Arcebispo Michael sorriu, seus lábios grossos e engordurados emolduravam os dentes tortos e amarelados. Sua barriga parecia pesar muito, obrigando-o a se sentar com as pernas abertas e os joelhos afastados. Uma grande falta de classe. Mas o que se esperar de um Arcebispo das Bordas? Michael deveria ter conseguido seu cargo com o dinheiro de alguma família de Barões.

Dominique notou como todos os camponeses pareciam maravilhados com as vozes ensaiadas das crianças. Imaginou-se lá embaixo, cantando junto. O menino órfão mais velho também era um ano mais velho que ela, então tinha idade. Mas não era órfã, e nem era uma menina. Perguntava-se por que a Catedral de Tourton só abrigava meninos. Talvez para fazer deles padres. E assim, o Convento de Tourton abrigava as meninas que se tornariam freiras. A vida de um órfão era mais promissora que a de um camponês comum com alguns porcos e galinhas.

– Aquele. – sussurrou Arcebispo Michael no ouvido do padre que lhe explicava a cantata dos órfãos. O homem de cabeça nua assentiu, capturando a imagem no menino que Michael havia apontado. Os homens se separaram e o Arcebispo virou-se para Dominique, com seu sorriso engordurado. – Gostando da peça, querida?

– Vai levar aquele garoto para a capital? Ele se tornará bispo? – perguntou, espetando as feridas do Arcebispo Michael. Detestava o Natal ali. Detestava ouvir as escolhas exigentes dos bispos e homens de Deus, enquanto decidiam quem lhes serviria naquela noite santa. Era horrível. Nojento.

Michael apenas sorriu.

– Claro, ele me parece um ótimo barítono.

– É o menor, entretanto, não sobreviveria a uma gripe. – respondeu, encarando-o.

– Jesus-Menino também não parecia muito, nascendo em uma manjedoura.

– Espero que tenha uma boa noite, Arcebispo Michael. – levantou-se, levando as rendas para as escadas. Notou que alguns nobres estavam apostando na corrida de cavalos que aconteceria daqui três horas, após a Missa. Irrompeu nas portas da Catedral, milhares de pessoas se amontoavam nas escadarias, mas havia um espaço reservado aos nobres, onde os guardas impediam as passagens. Tomou caminho da capela, onde as freiras oravam sussurrantes, como Ana orou a Deus por um filho. De joelhos, elas pareciam muito mais santas que os homens dentro daquela Catedral. As velas lançavam sombras sobre as imagens em cada pedestal.

Ajoelhou-se no último banco e começou uma prece lenta para que o menino que o Arcebispo escolhera não sofresse, que ele conseguisse escapar de seu destino detestável. Quando a meia-noite badalou, o sino soou, e a Missa teve início. As mulheres se levantaram e migraram para as escadarias, onde acompanhavam a Missa. Dominique continuou sozinha, orando. Quando Catarina orava, coisas aconteciam. Isabel, a rainha, também lhe dizia que tudo era possível quando pedíamos a Deus. A Missa terminou e todos se encaminharam para a corrida. Os camponeses adentraram o castelo, onde no pátio havia mesas e mais mesas, com servos e comida. Muita comida. Era o único dia no ano onde eles poderiam participar das festas junto com os nobres. E comerem com os nobres. Rirem com os nobres. Serem felizes de verdade. Mas não como os nobres. Dominique arrastou-se, em seu vestido cor-de-vinho, enquanto os meninos órfãos corriam para as arquibancadas, ansiosos pela corrida. Muitos passaram batido por ela, mas a maioria se lembrou de fazer uma reverencia e continuar a correr. Puxo-o quase imediatamente pelo pulso.

– Você! – disse, e ele se encolheu todo, feito um coelho. Seu cabelo negro era grosso e o rosto fino tinha os ângulos bem definidos. Olhos profundos e azuis, um nariz delicado e lábios desenhados. Quase como o de uma garota. As madeixas chegavam a seus ombros e a roupa da cantata era grande demais em seu corpo.

– E-eu não fiz... – ele começou e então a olhou melhor. Percebendo que se tratava de uma grande nobre, ou melhor, da princesa do Castelo das Bordas, não houve o que mais dizer além de se inclinar desajeitadamente. Suas canelas eram finas demais, os dedos ossudos e as mãos calejadas. Como se houvesse trabalhado anos e anos como um ferreiro.

– Será meu pajem! – ordenou, e ele assentiu imediatamente, seguindo-a enquanto se conduzia para a Ceia. O Arcebispo Michael estava orando pela comida, quando os encontrou com os olhos gordos. Michael terminou a prece e se sentou, ainda seguindo Dominique, e ela apenas acenou.

Sentou-se ao lado de sua Ama Jane e deixou que o garoto se sentasse ao seu lado. O Natal não era a época em que se tinha bondade no coração para dar comida aos pobres, mas o momento em que podíamos sair de um castelo frio e encarar o calor do inverno junto de uma mesa lotada. Queria poder trazer os camponeses sempre, mas ela não mandava de verdade no castelo. O menino estava inquieto, olhando em direção aonde a corrida de cavalos aconteceria. Ele parecia realmente querer estar com seus amigos órfãos.

Dominique revirou os olhos.

– É melhor ficar ao meu lado. – disse-lhe, enquanto cortava um pedaço de carne e colocava em seu prato. Ele olhou para ela, os olhos brilhando e os lábios tremendo de frio. – Qual seu nome? Agora será Vítor, e seu sobrenome é Ardolini.

– Eu sou inglês.

– Não é mais. Você veio da Itália comigo. – explicou.

– Por quê?

– Arcebispo Michael quer levar você com ele. – disse, lentamente. – E não é para se tornar bispo.

Mastigou seu porco. Vítor assentiu e petiscou um pouco do que havia em seu prato. Dominique observou o Arcebispo, ele provavelmente já havia desistido de Vítor e agora decidia por outro menino. Tinha de impedi-lo de levar qualquer um. Eram apenas órfãos! Pediu fortemente a Deus para que o homem desistisse. E por toda a noite não houve menção de Michael tentar outra vez. Era uma podridão ver aquilo dentro da Igreja, mas eles não eram como Roma. Como o Papa. Ah, sim, os italianos sim. Eles sabem servir a Deus.

– Obrigado – ele sussurrou, quando terminou de comer, e então se levantou – Mas não posso ficar aqui. Tenho outras coisas a resolver. Guardarei o nome que me deu, entretanto. – ele disse. Não como um garoto órfão e pobre, mas como o filho de algum conde. Seus traços não eram brutos como os dos fazendeiros, e o modo como suas mãos mexiam nos talheres pareciam muito mais familiarizadas com eles, que os outros camponeses.

Vítor continuou com ela por toda a noite, e quando o dia amanheceu, deu-lhe uma muda de roupa e algumas moedas. Ele disse que iria para a Itália, como ela disse, e que lá viveria. Mas antes de partir, disse:

– Um dia, irei explicar tudo.

Mas esse dia nunca chegou e então Dominique foi embora.

º º º

Overath

– Está na hora dos presentes! – exclamou Emma, a irmã de Edith, correndo em direção ao grande presépio. Edith caminhava com elegância e Jennel as observava, ancorada no braço de seu marido. Cora revirou os olhos.

–... está me ouvindo, Coralina? – Wanda lhe cutucou o braço, tirando-a de seus devaneios. Assentiu, caminhando ao lado da amiga. Estava cansada de ouvir Wanda e seus suspiros sobre o príncipe. Ela parecia alimentar um romance impossível. Uma bastarda e um príncipe? Imagine! Impossível!

– Será que seu pai gostará de meu presente? – Cora perguntou. A tradição de Overath após a Ceia era sortear os nomes uns entre os outros e se presentear. Este ano, Cora havia sorteado o nome do pai de Wanda, Hartwig. Wanda tirara Conrad, por obra do destino, o que a fazia falar mais e mais dele, até os ouvidos de Cora explodir.

— Acho que sim, papai não se importa muito com luxos — respondeu gentilmente.

Mais tarde após a troca de presentes, as damas mais jovens e mais velhas retiraram-se para seus aposentos, alguns homens também fizeram o mesmo, mas vários preferiram ficar pelos salões do castelo a discutir sobre guerra, politica e outros apenas aproveitando-se da ausência de suas senhoras para cortejar outras senhoritas.

Por uma faixa de grama congelada que estalava sob os pés, a mulher de capa negra andou no escuro até a capela do castelo, dedicada à Virgem Abençoada, Santa Hildegard, e para a antiga Rainha Helmine. Optou por ir ao recinto pelo lado de fora do castelo, para não ser vista e muito menos percebida. À luz das estrelas, com a respiração formando uma névoa a sua frente, Cora tirou a neve da maçaneta de madeira e abriu devagar a porta.

Quando entrou suspirou, ela tirou seu capuz, Cora caminhou alguns passos entre os bancos e sentiu-se aliviada por ninguém tê-la descoberto em seu percurso. Ainda bem que em Overath, as missas são realizadas de manhã cedo e os nobres não se importavam muito em frequentar qualquer recinto religioso antes de voltar aos divertimentos mundanos.

A princípio, a capela parecia vazia, embora Cora sentisse a presença dele e depois vislumbrasse Otto em pé entre as estátuas. De túnica escura, o homem era quase invisível até se mover em direção da mesma e puxá-la com força para si e beijá-la, com os lábios ardentes e a língua exploradora, e toda a paixão e o desejo que uma mulher poderia querer. O homem fez com que ela se sentisse linda, preciosa, inestimável. As mãos, tão grandes e fortes que pareciam cobrir metade de suas costas, a seguravam com uma força que a deixava sem fôlego.

— Senhor – disse ela por fim. – Eu...

– Shh...

Ele a silenciou com a própria boca, mordiscando o canto dos lábios dela. Quando Cora relaxou em seus braços, ele recuou apenas o suficiente para conseguir fitá-la nos olhos.

— Pensei que nunca viesse — admitiu.

— E eu tinha escolha, era isso, ou você acabaria invadindo meu quarto.

— Vai me dizer que não gostaria que isso ocorresse? Não seria a primeira vez — ele riu.

— Hoje não — ela disse depositando um beijo na mão dele que acariciava o rosto dele.

— Uma pena. Então o que viemos fazer mesmo? — indagou, em dúvida.

— Recebi uma carta de meu pai, o Duque de Milão, ele diz que está tentando negociar um casamento meu com Juan Cabrera de Castela, Visconde de Girona.

— Você em Castela? Acho que você não sobreviveria dois dias lá, eles são religiosos demais e sua primeira consumação seria observada por vários membros do clérigo para comprovar que não houve alguma farsa, impotência por parte do marido e a mulher não ser virgem...

— Como sabe de tudo isso?

— Minha mãe era uma princesa espanhola...

— O que eu faço? Eu não quero ir para a Espanha! — bufou.

— Fale com sua mãe, eu não posso intervir nisso.

— Minha mãe? A esposa do meu pai odeia minha mãe e sequer deixa as cartas delas chegarem a Milão, além disso, ela com certeza o apoiaria está decisão achando que eu ganharia muito mais.

Iluminada por sombras e o ouro cintilante das joias, Cora demonstrou frustração e sentou-se em um dos bancos.

— Por que não cumpre logo seu plano? Dê um fim no príncipe e você é o herdeiro...

— Coraline Sforza não seja precipitada — ele pediu seriamente. — A culpa recairia logo para cima de mim, justo agora que estou tentando me reconciliar com Willian, não posso fazer isso.

— Vai deixar que eu seja levada embora? Depois de tudo...

Quieta! — ordenou, a moça pôs as mãos no rosto os cobrindo para que ninguém a visse perto de chorar.

— Mas talvez possamos adiar os planos de vosso pai — as palavras deram um pouco de esperança a Cora, que imediatamente desvelou o rosto e limpou as lágrimas com as costas da mão.

— Como?

— Jennel estará viajando para Polônia em algumas semanas. Quando isto ocorrer, eu posso pedir ao rei que a faça dama oficial da corte, ou seja, trabalhará para as nobres deste castelo. Se contar isso ao seu pai, ele verá que dentro da corte vós tendes mais chance de achar um marido adequado e adiará os compromissos com o visconde.

— É claro, é claro... — Cora sorriu.

Levantou-se abruptamente e beijou o amante, dizendo vários “obrigadas”.

— Está bem — ele a afastou. — Agora pare de choro, não suporto mulheres muito emocionais.

— Então nem sei como me aguenta — e novamente sem pedir ela selou seus lábios com os dele.

Notas finais
E aqui encerra os extras de natal. Boas festas a todas!