The Bastard Heir

16 Capítulo Extra - Fagulhas - Espirro do Fogo Parte Um


Notas iniciais
Boa leitura.

Capítulo Extra

Fagulhas – Espirro do Fogo

“Fagulhas – Espirro do fogo” – Vitor Caruso

Scalene – A Luz e a Sombra/Branco

Abriu os olhos, sentindo as gotas de orvalho escorrendo pela testa, até o cenho. Nenhuma tocha dava sinal de vida, apenas o silêncio e o pio das corujas distantes. A floresta era de uma mortal monotonia atípica. O céu escondido pela copa das árvores, os animais selvagens não davam sinal de aproximação.

Vagalumes dançavam no calor da noite, aquela noite quente que raras vezes experimentavam no fundo da floresta. Sentiu as pernas dormentes e nuas. Cobriu-as com o vestido e tocou suas coxas, sentindo a dor. Provavelmente havia hematomas ali, e também em seus braços, costas, rosto... Cair de uma árvore estando no terceiro galho não era uma coisa boa. Sorte que tinha crânio duro.

Tocou os seios expostos e ergueu as mangas do vestido. Sentia-se tocada, usada. A pele arrepiada, por mais que estivesse quente e o vento não soprasse. Passou as mãos pelos cabelos e sentiu as madeixas escorregarem pelos vãos dos dedos. Ótimo, estava viva.

Limpou a gota de orvalho do rosto e encolheu-se, trêmula de frio, os músculos em espasmo frenéticos. Esfregou os cotovelos e se apoiou sobre os galhos mais baixos do carvalho. Escalou como um esquilo, quase tão acostumada que poderia ver os pontos de apoio no total escuro. O som da casca da madeira seca e as folhas verdes roçando seu corpo pareciam com o que o som faria o vento.

Não conhecia realmente aquele canto da floresta, mas com o passar do tempo, todas as árvores são iguais, e subi-las é o mesmo que pular sobre a cama antes de dormir. Enquanto subia, sentiu o sangue escorrer entre as pernas, onde deveria estar machucada. Suspirou, tentando ao máximo ignorar aquilo, pois era o que realmente incomodava em tudo. Não a noite silenciosa, não a morte do vento, mas o fato de ter sido possuída por outra pessoa contra sua vontade.

Tudo isto só provava algo que todos já sabiam: era covarde e não poderia se proteger sozinha. Era uma mulher fraca, uma mãe irresponsável, uma guerreira sem espada, suja.

– Podemos dormir com quantos homens quisermos, desde que esteja nos nossos desejos. Mas se um homem quiser nos arrastar e conseguir, a culpa é nossa. – exclamou, consigo mesma. Parou de escalar quando notou que já estava alto o suficiente para olhar a noite.

Havia inúmeras estrelas no céu, e a Lua aparecia grave no céu azul escuro. Não havia vento mesmo ali em cima, algo que só podia anunciar um verão quente e agradável. Seu vestido de donzela deveria estar completamente rasgado pelos galhos que em que se prendera enquanto corria desesperadamente. Enquanto repassava toda a noite, tudo parecia ainda mais ridículo. O encontrara na taverna da cidade, brincara com algumas palavras doces demais, um bêbado velho. Então a caçada começou. Sua intenção era correr e despistá-lo na floresta, fazendo-o se perder ali. Porém não esperou que o homem conhecesse o terreno, ele deveria ser um caçador. E obteve seu prêmio pela perseverança. Não conseguiu fugir. Tocou-se.

Sim, estava sangrando. E provavelmente não eram aqueles dias.

Esperou, e esperou, até que a Lua desaparecesse por trás das nuvens que se aproximavam e o Sol começasse a nascer. Ficou ali apenas pensando e pensando e no fim não pensou em nada. Uma de suas atividades preferidas, depois de escalar e rir.

Quando achou que já seria tempo suficiente, desceu a árvore com a mesma facilidade com que subira e partiu correndo sem prender os pés em nenhuma raiz, sem se importar com as pedras, as folhas estalando sobre as solas ou o musgo úmido. Viu os sinais nas árvores, dando-lhe a direção do clã. Caçadores provavelmente pensariam que as cascas de cigarras nas árvores eram aleatórias, entretanto havia apenas um tipo de cigarra que trocava de pele de cabeça para baixo, e ela habitava o lado leste da floresta. O que significava que da tribo estava próximo.

Ouviu o som de risadas, de música (sempre interminável) e o estalar da fogueira, fervendo água. Tomou mais impulso para correr, então se deteve. Falhara. Seu teste fora reprovado, ela não era digna do sangue Rhein. Engoliu em seco. Até agora não notara isso, mas ainda havia sangue seco em sua perna, ainda estava marcada e devia se apresentar antes do Sol chegar ao meio das alturas. Respirou fundo. Não havia como escapar, todos saberiam que havia falhado. Que a filha de Dallas era fraca assim como o pai. E a mãe. Respirou fundo novamente.

– Aislin – ouviu seu nome e virou-se prontamente nos calcanhares. Betha, Bonnie. Mordeu os lábios. Quando ambas as garotas olharam para suas pernas, compreenderam perfeitamente o que acontecera, seus olhos se cruzaram e elas franziram o cenho, em seguida sorrindo fracamente – Você está bem, Lin?

– Tirando o sangue seco, o vestido esfarrapado e o fato de que perdi minha virgindade para um bêbado fedorento, sim, estou muito bem.

Betha encolheu os ombros, ela não tivera a intenção de ser insensível. Betha nunca tinha a intenção, ela era a pessoa mais alegre e inocente que Aislin já conhecera. Tão bondosa e sonhadora quanto uma fogueira ardendo. Ela olhou para sua irmã e moveu os pés, tirando o peso de um deles. Era fácil notar quando Betha envergonhava-se. Bonnie, por outro lado, estava impassível.

– Você já...

– Não. – respondeu cortando-a. Não queria ouvir a pergunta no ar. O simples fato de conseguir formulá-la em pensamento já era uma tortura. – Ainda não.

– Sabe que tem de...

– Sim, eu sei. – revirou os olhos. – Acabo de chegar à cabana e já me mandam ir dar satisfação a Kelly, como se ela fosse a suprema rainha da tribo.

Tecnicamente, Kelly era. Embora fosse apenas Irmã mais nova de Ula, a verdadeira rainha, que não saía da cabana para nada desde que seu marido morrera queimado em Praça Pública no final do último inverno. Kelly era a líder das tropas femininas, a Amazona, porém com a ausência de Ula, caía em seus ombros a responsabilidade de cuidar das novas guerreiras.

Das garotas treinadas a vida inteira para não falharem.

– Aposto que Ula lhe dará mais uma chance. – disse Betha, tentando arrumar o seu primeiro passo em falso, porém foi apenas um chute a mais no balde que separada Aislin do lago e a ponte.

– Ula está louca de pedra, e não tenho mais pureza para negociar. – disse, com convicção.

– Pode dizer que quem a possuiu foi Edan. Ele é da tribo. – Bonnie disse, tentando tirar Betha de uma situação ruim.

– Edan não mentiria nem se todos os deuses dissessem isso a ele. Morre de medo de Kelly e sua honra é maior que o orgulho.

– Mas ele te ama. – Betha sorriu – Edan a ama desde que eram crianças, aposto que ele aceitaria mentir para todo o mundo, inclusive Kelly, por você.

– Se continuar apostando em todas as escolhas erradas ou simplesmente surreais, perderá mais que dinheiro. – Aislin retrucou, com ar soturno. Aos poucos, seu humor leve da madrugada se transformava em uma tempestade. Sabia que estava em maus lençóis, não precisava que Betha e Bonnie lhe lembrassem a cada segundo. Será que elas poderiam falar de qualquer outra coisa? As meninas tinham pouco mais e menos de sua idade. Bonnie era mais nova e ainda não passara pelo ritual, Betha era dois anos mais velha e por milagre conseguira. Ela não era boa nem em arco, nem em espada, era uma negação para escalar árvores e nadar. Mas tinha beleza e persuasão, dois itens bons para usar a seu favor, com a inteligência disponível.

O pior de tudo era que Aislin sabia que não haveria segunda chance. Kelly era um poço sem sentimentos e a odiava particularmente por ser filha de seu ex-namorado e de um traidor. Seu pai fora um homem bem aventureiro e escapara da tribo assim que conseguira, mas antes arranjou tempo para deixar uma mulher grávida para trás e mais três chorando de coração partido. Uma delas, Kelly. Sua mãe morrera no parto, o que a levava a ser uma mulher fraca, sem capacidade de conceber filhos, um dever e um talento que toda mulher possui. Seu pai era um mundano de espírito e coração livres, querendo gozar da vida, sem responsabilidades. Assim, fugiu. E ela, órfã de mãe, apenas se deixou levar pelo embalo da onda. Isso nunca a afetou. O fato de não possui mãe ou pai para ajudá-la só lhe deram mais ânimo para ser independente.

– Aislin, estive tão ocupado pensando em você que mal pude dormir esta... – Edan estancou, encarando perplexo suas pernas. E sim, o sangue. – Mas... Aislin!

– O que foi? Nunca viu uma menina menstruada?

– Oh – ele desviou os olhos – Perdão. Eu pensei que você havia... Desculpe. – seu rosto se tornou um borrão vermelho por debaixo dos cabelos ruivos. Edan era irmão mais velho de Bonnie e mais novo de Betha. Tinha a sua idade e sempre estivera ao seu lado, nos momentos em que queria e nos momentos em que não queria a sua presença. Edan era o tipo de rapaz que quando decide algo, é para valer e ele já havia se decidido sobre Aislin há anos. – Eu...

– Tudo bem, Ed. – suspirou, movendo as mãos. – É verdade, eu não consegui.

Os olhos verde-cinza do menino saltaram e ele quase agarrou seus ombros. Quase. Edan sabia que não podia invadir o espaço entre eles, era uma das leis da tribo. Homens e mulheres não se tocam até pertencerem um ao outro. Até que tenham certeza de que a única pessoa a tocar será seu par. Para ela, seu par era um velho cheirando a cerveja da cidade e que muito provavelmente nunca mais o veria.

– Onde?

– Há alguns quilômetros. – disse, com sinceridade, movendo-se sobre os pés para frente e para trás, normalmente. – Mas caí de uma árvore, e por isso desmaiei. Não sei o que houve, apenas acordei no chão. Coberta de orvalho. – apontou para suas próprias pernas – e isso também estava assim. Tentei ver se era menstruação ou rompimento na virgindade, mas não consegui. Não entendo disto.

– Isso significa que você pode não ter sido estuprada. – o rosto de Betha se iluminou e em seguida o de Edan. Ele se aventurou a erguer a mão e a pousá-la em seu ombro, em sinal de companheirismo.

– Não se preocupe, Ais, eu ouvi sobre as mulheres que falharam. Elas voltaram fracas, pálidas. Quase mortas. Você está como sempre, sarcástica, divertida e linda. Mesmo sangrando. – ele sorriu, seu sorriso mais bonito. Aliás, todos os sorrisos de Edan eram lindos. – Eu aposto, Ais. – e em seguida colocou a outra mão em seu ombro. Como Aislin não se moveu nem recuou, Edan sentiu coragem para envolvê-la em um leve abraço. E então aconteceu. Ele sorriu, seu coração desmoronou, e foi tomado pela paixão. Sim, ele já lhe pertencia. Agora e para sempre.

Não que isso fosse novidade.

– Obrigada, Ed, mesmo. – disse, e logo em seguida se desvencilhou de suas mãos. – Mas não sei. Kelly irá me inspecionar, ela pedirá por informações. Se disser que fui derrubada de uma árvore, no terceiro galho, ela virará uma fera.

– Você nunca caiu antes. – concordou Betha, meio impressionada. Era verdade, Aislin nunca caiu nem escorregou de uma árvore. Todos diziam que ela estava em total sintonia com a natureza. Mas, como sempre, eram apenas palavras.

– Ed, você me faria um favor? – perguntou, com a voz calma e calculista. Tinha de medir exatamente até onde ele iria, antes de perguntar. Os olhos dele se fixaram nela e Edan concordou com um movimento firme. Ele faria tudo, concluiu. – Mentiria a Kelly, por mim? Diria a ela que o escolhi ontem a noite?

Os olhos de Edan se tornaram verde-musgo, escurecendo cada vez mais, até quase parecerem negros. Ele abaixou a cabeça, os cabelos de fogo faiscando sobre as sobrancelhas. E então a encaro fixamente por mais alguns segundos, antes de respirar fundo.

– Está pedindo para trair minha Rainha.

– Kelly não é a rainha.

– Mas a representa. – ele interrompeu. Sua voz parecia um trovão, e então Edan notou que estava ameaçando-a e estancou. – Desculpe, Ais. Mas, eu preciso pensar. Quer dizer, mentir para as sacerdotisas é algo muito... Arriscado. Dizem que elas podem ler o coração dos homens.

– São palavras ao vento – Aislin retrucou, como sempre, uma sabe-tudo. – Já fui sacerdotisa, aliás, todas nós já fomos. Afinal éramos virgens. Bonnie está sendo agora. Não senti nenhum poder estranho de ler o coração das pessoas. E você, Bonnie?

– Não. – concordou Bonnie – Mas acho que não se pode arriscar tanto se você não tem certeza sobre algo.

– Como assim? – Aislin ergueu uma sobrancelha, escura.

– Como pode pedir a Edan que minta por você, se você não faria o mesmo por ele. – Bonnie provocou.

– É claro que eu faria. – Aislin nem mesmo pensou sobre o assunto. Não havia como recusar, e além disso, detestava Kelly. – Faria e repetiria. E iria contra todos.

– Então prove. – Bonnie deu de ombros. – Diga alguma mentira a Sacerdotisa Mãe.

Aislin sentiu uma bofetada na bochecha direita. Edan a encarava com esperança. Com desejo. Ele queria que ela o fizesse, queria ver até onde ia sua amizade, seu companheirismo e sua confiança. A fidelidade que os entrelaçava. Mas não era o fato de ter de mentir para a pessoa mais importante de toda a tribo (inclusive a Rainha e o Rei) que pressionavam Aislin. Era o fato de não ter um boa mentira em mente no momento. Pensou, pensou, até que bolou algo rápido e bom o bastante.

Virou as costas e seguiu em direção a tenda onde a Sacerdotisa Mãe e suas outras virgens estariam falando com alguma divindade, ou ao menos tentando. Preparou o rosto da menina chorona, arrumou o sangue entre o vestido escondeu as marcas dos hematomas nos ombros com os cabelos. Entrou. O incenso impregnava todo o ar, e as vozes graves das moças cantavam músicas na língua antiga. A Sacerdotisa estava sentada sobre os joelhos, de olhos fechados e folhas de carvalho secas em ambas as mãos. Quando abriu a cortina da tenda, ela abriu um dos olhos e encarou-a desde o primeiro fio de cabelo até o último centímetro dos dedos do pé. E então abriu um sorriso gentil.

– Em quê posso ajudá-la, querida?

Aislin balançou os ombros e reprimiu um soluço.

– Entreguei-me ontem a um rapaz que amo há anos, porém sua passagem de garoto para homem acontecerá apenas hoje. Queria saber se esta diferença inflige alguma lei da tribo.

A mulher a estudou e balançou seus cabelos brancos.

– É natural que uma mulher amadureça primeiro que um homem. Seu garoto já é um rapaz formado, pois dividiu com você o primeiro sangue. Não tema, criança, pois as forças abençoam o amor verdadeiro. – e com isso, ela fez um movimento com a mão em direção a saída da tenda. Aislin obedeceu silenciosamente, esgueirando-se para fora.

Sorrindo, vitoriosa.

Voltou para onde Betha e Bonnie estavam. Edan tinha as bochechas coradas e os ombros estreitos, como se as irmãs aproveitassem a ausência de Aislin para chacotear o irmão. A tribo já estava em movimento, com homens afiando lâminas, triturando grãos, arando a terra ou cuidando das ovelhas. As mulheres costuravam as roupas, matavam e preparavam os animais, colhiam os frutos e cuidavam das crianças e dos velhos. Todos sabiam seu trabalho e obedeciam. Bonnie logo mais teria de ir para a Casa da Linha, onde costuraria por cinco horas roupas novas de verão. Betha teria de cuidar das crianças para aprender a ser uma mãe, antes de ter sua própria cria. E ela, teria de se apresentar diante de Kelly e relatar como fora seu rito de passagem para a vida adulta. O que mais a assustava era o fato de que caíra de uma árvore e não sabia se machucara a coluna, não o fato de não ter conseguido cumprir o ritual.

– Pronto, está feito. – e inclinou a cabeça para Edan – Agora é sua vez. Fará isto por mim.

Edan concordo com um meneio leve e relaxou os ombros, embora estivesse ainda vermelho. Ele era bonito, forte, e um dos melhores guerreiros da tribo. Era inteligente, um ótimo piadista e a mantinha entretida quando estava irritada ou entediada. Gostava de Edan e não se sentiria mal caso tivesse de passar o resto da vida com ele. Edan lhe passou os braços pela cintura e beijou sua testa com delicadeza. As irmãs do rapaz sorriram uma para a outra, mas Aislin não se importou. Edan era o melhor homem para ser seu par, sua outra metade. Não se via com mais ninguém, então qual o problema? Ele respirou sobre sua cabeça, alto e largo, como era.

– Podemos deixá-los sozinhos. – disseram juntas as garotas.

– Não faço questão – Aislin admitiu.

– Seria um grande favor – interveio Edan e lhes lançou um olhar acusador. As meninas deram de ombros e acenaram em retirada. As ruivas eram atraentes e causavam torcicolo a todos os homens quando atravessavam o pavilhão. Edan lhe apertou o abraço, chamando sua atenção. – Você sente algo diferente?

Demorou-se pensando, embora soubesse a resposta.

– Não. Na verdade, me sinto tão indiferente quanto poderia estar. Mas tenho quase certeza de que ele me usou, Ed. – e então ergueu seus olhos para ele. O cinza esfumaçado encontrando o mar de jade. – Não se importa em me dividir com ele?

– Sinceramente? Não. – Edan deu de ombros. – Ele nunca mais a verá, eu estarei sempre aqui. Esse ritual é uma mentira que Kelly inventou para pressionar a todos a dar o melhor de si. Antes era preciso apenas uma festa onde todos se tocassem e pronto. Éramos adultos.

– Eu prefiro poder escolher. – Aislin sussurrou, como se fosse um segredo terrível – Prefiro poder olhar para a tribo e erguer meus olhos para alguém, ao invés de me deixar ser levada por uma festa, bebida e risada. Não quero ser dividida por muitos. Quero ser apenas de um.

Edan ruborizou.

– Eu não abriria mão disso. – falou e beijou-lhe a bochecha, ousadamente. Aislin deixou um sorriso escapar dos lábios. Edan estava cada vez mais ousado, abraçando-a em público ou beijando sua testa, seus cabelos, como se marcasse seu território, dizendo “está tem dono”. E como todos conheciam sua fama de “Invicto no Círculo de Sangue Novo”, não arriscariam perder uma mão ou um braço apenas por uma garota morena filha de traidor e que provavelmente seria uma mãe fraca.

– Por que você ainda está aqui? Por que ainda está comigo? Sou a última escolha na tribo, sou a pior entre as piores. Tenho um sangue fraco, sangue de traidor. Minha mãe era uma mulher fraca, é muito provável que eu também seja. E além disso, você é o melhor, o mais forte. É inteligente, bonito, engraçado... É simplesmente ridículo isso. Quer dizer, nós dois.

Edan não se ofendeu.

– Escolho quem eu quero, certo? Que adianta escolher uma menina de cabelos de fogo como os meus, ombros mais largos que os meus e uma voz mais grossa que a minha, se ela não me faz feliz, se não posso tê-la nos meus braços? – e então a apertou. – Odeio pensar que minha esposa seria maior que eu. E nós dois sabemos que muitas são maiores que eu. Você é a menor e a mais magra.

– Nasci para ser Mãe, não para ser Guerreira. E mesmo assim...

– Não diga que seu sangue é fraco. Seus quadris são largos e seus seios... – ele engoliu em seco – Aposto que são bons para um bebê. Você é linda, e é inteligente, e engraçada. Tudo o que eu sou, ou o que você pensa que eu sou. Somos tudo isso porque vemos isso um no outro. Porque nos encaixamos – e então ele segurou sua mão e beijou seus dedos, um a um.

– Betha é uma Mãe, Bonnie uma Guerreira. Você é Guerreiro, e eu Mãe. É assim que tudo se encaixa. Homens que nasceram para serem lavradores têm de ficar com mulheres que são Mães, as Guerreiras preferem homens Guerreiros, para ter filhos fortes e saudáveis. Mas os Guerreiros preferem uma Mãe, pelo mesmo motivo. E uma Mãe... Uma Mãe ama quem quiser. – sorriu – Porque tem coração de mãe.

– O seu coração é o mais bonito.

Sabia que era mentira, sabia que seu coração era um dos piores. Mas não disse. Gostava de ouvir Edan dizer aquilo, mesmo que soubesse que era engano dele. Se ele achava que ela tinha um bom coração, se ele gostava da cor de seu cabelo, ou da largura de seus quadris e do tamanho de seus seios, estava tudo bem. Pois achava que ele tinha um bom coração, gostava da cor de seu cabelo, da largura de seus ombros, do tamanho de seus braços. De sua força, e de sua segurança. Encostou a cabeça em seu peito e se deixou ser abraçada.

– Sempre soube que seria minha – ele confidenciou em seu ouvido, sussurrando. – Desde que a vi, quando brincamos juntos. Quando passei os dedos pelas mechas entrelaçadas de sua trança e senti a textura dos fios grossos e negros como a noite. Eu sabia que já estava perdido quando notei que seus olhos possuíam íris branca em meio ao temporal cinza-negro. Eu soube que não havia salvação quando me sorriu. E quando a fiz rir pela primeira vez.

– Pare de dizer coisas tão adoráveis. Um dia não terá mais o que dizer, e eu ficarei entediada.

– Eu nunca ficarei sem o que dizer. – prometeu. Edan era simplesmente apaixonante.

Queria ficar ali, encostada nele, pelo resto da tarde, porém precisava se lavar e trocar as roupas de donzela por uma roupa de mulher. Então lembrou-se de algo.

– Perguntei a Sacerdotisa se havia problema em me entregar a um rapaz que se tornará homem hoje. Ela respondeu que não havia problema, pois as mulheres amadurecem primeiro que os homens e que, se compartilhamos nosso sangue, você já é um homem feito – explicou – Então não precisa participar do ritual hoje.

Os olhos de Edan a seguiram e então se iluminaram.

– Verdade?

– Sim. – concordou. – Poderíamos nos apresentar juntos a Kelly.

– Tudo bem. – ele deu de ombros. – O resto do dia será voltado para tarefas de lazer. Podemos passar a tarde toda juntos.

“Isso sim é interessante”. Sorriu, transparecendo os pensamentos, e Edan lutou contra a vontade de se inclinar e beijá-la. Santíssimos, ela era linda. Como era linda! Seus cabelos, seus olhos, sua face. O modo como sorria, como o olhava. Era linda em todos os ângulos, de todas as maneiras. Seu amor era trovador, lhe trazia um amor cortês, de completa devoção, de sutileza e de platônica comoção. Não precisava que Aislin o amasse na mesma intensidade, apenas que olhasse para ele.

Aislin desvencilhou-se dos últimos laços que os prendiam e virou as costas, caminhando em direção a cabana. Lá, poderia lavar-se com a água trazida do riacho. Havia poucas mulheres na banheira e nenhuma delas olhou feio para seu sangue, afinal tinha idade suficiente para sangrar com dignidade. Algumas já mães ostentavam orgulhosamente o sinal da gravidez. Quadris largos, seios fartos, a barriga inchada e as marcas da costura pós-parto.

– Aislin, filha de Dallas. – disse para retirar uma toalha. Desde a briga de toalhas que alguns homens fizeram, utilizar as toalhas precisava de permissão. A moça de cabelos louros e pele alva entregou o pedaço de pano encardido para Aislin, que entrou na casa de banhos e se sentou sobre um degrau da banheira grande, que cercava quase toda a sala. Cerca de seis mulheres estavam espalhadas, lavando-se.

O sangue desgrudou facilmente de sua pele, enquanto esfregava-a. Lavou também os cabelos, as roupas e o vestido de donzela, embora nunca mais fosse usá-lo. Quando terminou, vestiu roupas comuns: calça de couro e camisa de linho fino, com o corselete para sustentar os seios enquanto treinasse. Colocou botas de cavalgada, compradas na cidade, mas nunca usadas exatamente para cavalgar. Eles não tinham cavalos. Nem mesmo lobos ou ursos, os demais animais não se adaptaram a existência dos Rheian.

Devolveu a toalha e deixou a cabana, caminhando em direção ao pavilhão, onde algumas jovens já se aglomeravam, radiantes. Kelly tamborilava os dedos contra o cinto, mas quando a viu, moveu-se desconfortavelmente sobre os pés. Aislin se colocou ao lado de Edan, e esperou a chegada das últimas garotas. Era visível quem conseguira e quem falhava. Sorrisos vitoriosos, cabeças baixas derrotadas. Como não queria ser uma derrotada, formulou seu queixo erguido, sua expressão indiferente (aquela que Kelly detestava). Com o tempo, brincar com as máscaras se tornou algo fácil, tanto quanto convencer a todos a se curvarem a seus pés, mesmo Kelly.

– Não quero demoras. A partir de amanhã, vocês serão membros ativos de nossa sociedade. – disse a Amazona, sua voz era grave e impunha respeito. Aislin poderia imitá-la, se quisesse. – Deem um passo a frente as batizadas. – pediu ela, e as mesmas meninas que sorriam, o fizeram. Entre vinte, dezessete conseguiram. As três que restaram desabaram em lágrimas. Sabiam que era fracas, viam isso em si mesmas. E nada que fizessem mudaria isso.

Aislin não se deixou abater. Deu um passo a frente e enquanto Kelly as olhava, demorou-se sobre ela, e devolveu o olhar com a mesma intensidade. Kelly possuía leve irritação no canto dos lábios, era possível notar por suas expressões fracas e quase imutáveis. Quase.

– Joan, diga-me como passou pelo seu rito. – ela exigiu, e Joan explicou como havia seduzido um camponês comum e o prendera em uma poça de lama. Ela explicava toda a história com as mãos, o que deixava tudo muito interessante. Ela parecia uma verdadeira criança traquina que havia conseguido fazer sua maior travessura com sucesso, e quando Kelly assentiu, satisfeita, o sorriso de Joan aumentou. – Agora é sua vez, Gillie. – e Gillie disse que havia se entregado a um primo de primeiro grau, pois sua família tinha a tradição de manter o primeiro sangue entre os membros. Kelly concordou com um meneio ríspido e virou-se nos calcanhares. – Aislin, conte-nos.

Aislin limpou a garganta e olhou pelo canto dos olhos para Edan.

– Fui até a cidade, a taberna e lá seduzi um bêbado velho. Corri pela floresta com ele em meus calcanhares. Ele acabou se perdendo, minha intenção era matá-lo, entretanto não tive a chance – deu de ombros, indiferente. – Como a noite havia começado e eu já concluíra minha missão, fazendo um homem se perder entre as árvores, fui até os aposentos de Edan e compartilhamos nosso primeiro sangue.

Kelly desviou seus olhos para o garoto grande e musculoso, que estava vermelho como um tomate. As demais meninas sorriam umas as outras. O primeiro sangue era especial, principalmente quando a troca era mútua, quando vinha de ambas as partes. Ninguém dizia com quem havia se relacionado primeiro, seria motivo de orgulho, ou motivo de chacota. Para Aislin, ir com Edan era motivo de orgulho, afinal ele era tão forte quanto seu pai, o líder dos guerreiros, braço direito de Kelly.

– Então Edan já é um homem. – disse, simplesmente, embora demonstrasse abertamente sua reprovação – Certo, Talitha, conte-nos sua noite.

Kelly continuou até terminar de ouvir as vinte garotas. As três que não conseguiram tiveram de acompanhá-la para a cabana, onde ouviriam um sermão longo e teriam de trabalhar um ano inteiro antes de conseguir uma segunda chance para amadurecer, entretanto não seria tão honrado quanto a primeira vez, pois elas já haviam sido usadas. As que ficaram para trás, dispersaram-se, em grupos ou separadas. Tinham o resto da tarde livre para relaxarem ou se divertirem como quisessem. Assim como Aislin e Edan. O garoto passou um braço sobre seus ombros e cheirou seu cabelo molhado.

– Então é só isso? – perguntou, caminhando com sua amada em direção à floresta.

– Como assim?

– Essa é a passagem? Somos adultos e só isso?

– Antigamente havia uma festa, mas Kelly não realiza nenhum evento sem o consentimento de sua irmã, e a Rainha está triste demais para pensar em festas. Então acho que é só. – concordou, desanimada.

– Vamos para a cidade, atrapalhar a vida dos camponeses. Azedar o leite, assustar as cabras. O de sempre.

– Como espíritos ruins?

– É assim que nos veem. – Edan riu fraco.

– O dia em que eu aprender a azedar o leite irei utilizar este dom para coisas mais úteis além de atrapalhar a vida de plebeus ridículos que se curvam a um rei ridículo, sob leis e soldados ridículos.

– Viva a vida ridícula! – Edan exclamou, erguendo ambos os braços.

– Viva a vida pobre e sem razão!

– Espere, mas qual a razão da nossa vida?

– Deixar Kelly de mau-humor, é claro. Pelo menos para mim.

Edan riu, porém continuou pensativo.

– É sério, qual é a razão?

– Não sei. Os espíritos da natureza nos criaram. Pergunte a eles.

Edan não ficou satisfeito com aquela resposta, mas não questionou mais. Sabia que quando Aislin não queria debater, era melhor não provocar, pois sua garota tinha um temperamento muito sensível. Sorriu, passando as palavras novamente pela mente. “Sua garota”. Gostava de pensar assim. Infelizmente, esta história é um drama, talvez próximo do suspense e muito distante do romance. Edan saltou uma raiz que sobressaía pelo chão e sua capa verde escura se prendeu em alguns arbustos. Puxou com força o tecido, causando leves rasgos no mesmo. Resmungou baixinho.

– Ouviu isso? – Aislin perguntou, parando de repente de andar. Estavam a poucos metros da tribo, onde os sons eram ouvidos de longe, porém o que a garota ouvira não fora a voz de algum conhecido, nem as rodas das carroças, as lâminas sendo afiadas ou o choro baixinho das fracas meninas que falharam. Era outra coisa. Completamente diferente. Como os sussurros de correntes, frias e metálicas. Um arrepio desceu pela coluna e lhe deu diversas pontadas de calafrios. Como os fantasmas vociferando de seu abismo abaixo do solo.

– Espíritos maus. – Edan recuou, colocando a mão instintivamente sobre sua adaga, que sempre mantinha presa debaixo do manto, afinal nunca se sabe quando precisará usá-la.

– Você acha que são? – Aislin voltou os olhos para ele, um pouco hesitante. Ela não acreditava realmente nas lendas da tribo, nunca vira um espírito, muito menos as divindades. Preferia acreditar que estava sozinha no universo, sem qualquer deus que a criasse ou que quisesse ser adorado por ela. Mas agora, ouvindo aquelas preces feitas em línguas irreconhecíveis, julgou que havia se precipitado muito para o abismo e agora, viam-na ali, oscilando.

– O que mais podem ser? Vamos voltar, há névoa brotando das árvores. – Edan deu alguns passos atrás, segurando o braço de Aislin. Realmente, névoa estalava da casca dos carvalhos, escorrendo para o chão e elevando-se lentamente até cobrir cogumelos e raízes. – Aislin...

– Eu sei – a menina sussurrou em resposta. Os pés estavam vivos, conseguia movê-los, mas não era como se quisesse. De onde vinha a névoa? Todos sabiam os sinais dos espíritos maus: frio, dor, luzes fantasmagóricas e névoa. Mas não era certo afirmar aquilo, afinal só havia um sinal claro: a névoa.

– Aislin! – Edan gritou, agora, realmente amedrontado. E não era de se surpreender. Os espíritos maus conseguem possuir o corpo e a alma das pessoas fracas e dependendo do espírito, podem destruir seu interior completamente, enlouquecendo-o. Eles são máquinas de triturar almas, se alimentam do espírito de suas vítimas, até que não reste mais o recheio, apenas uma casca vazia. E então pulam para o corpo de outro indivíduo, até estarem tão grande que possam possuir uma cidade inteira. Mas caso fosse isso, por quê não existiam espíritos dominando cidades o tempo todo? Era estranho, afinal eles não “nasciam” nem “morriam”. O mundo tinha vários anos e muitas pessoas fracas. Matematicamente, é razoável que pelo menos um terço do mundo esteja devastado por eles.

Quando a névoa já estava quase em seus pés, Edan puxou-a para trás e começou a correr desesperadamente para a direção da tribo. Um estalo ecoou pela mente de Aislin e ela voltou ao seu estado emocional costumeiro, correndo feito o vento, ao lado de Edan. Conseguiu saltar pedras, arbustos e contornar árvores de um modo que fazia anos não conseguia, afinal não é todo dia que corremos por nossas vidas.

Edan era rápido, porém não rápido o bastante. Ele tinha músculos demais para conseguir se desviar e saltar alto o bastante. Ele tinha pés com o dobro do tamanho dos seus, respirava com maior profundidade, e não havia tempo para o oxigênio chegar ao cérebro. Se continuasse assim, logo desmaiaria. E então, tropeçou. Um dos pés prendeu-se a uma raiz, a mesma que havia saltado alguns minutos atrás, e sua queda foi apenas um vulto pelo canto dos olhos de Aislin. Virou-se para vê-lo. A névoa crescia, lentamente, o bastante para retornar e ajudar Edan.

– Aislin, não... – ele arquejou, tocando o tornozelo, onde um rasgo na pele mostrava osso, carne e cuspia sangue. Ele gemeu ao tentar mover-se.

Aislin não sabia exatamente o que fazer. Não conseguiria carregá-lo até a tribo, e tinha medo de que caso o fizesse, a névoa alcançasse-os e dominasse todos os Rheian. Mas não podia deixar Edan ali, afinal ele não a deixaria se fosse o contrário. Mas ele era forte. Ele conseguiria carregá-la.

– Por favor, Aislin, deixe-me e vá avisar os outros. – ele gaguejou, o rosto vermelho expressando toda a dor que sentia. Aquilo despertou a raiva de Aislin.

– O que você acha que sou? Alguma aproveitadora? Sou sua amiga! – gritou – Não me peça para te deixar aqui enquanto salvo minha pele, seu monte de germe!

Aislin sentiu o rosto explodir em calor e suas mãos agarrarem um dos ombros de Edan, jogando seu braço sobre seus ombros. Ergueu-o com dificuldade (muita dificuldade) e enquanto isso, a névoa aproveitou para crescer ainda mais ao redor e agora já tocava as flores silvestres próximas. Aislin deu um passo a frente e outro em seguida, começando a correr e arrastar Edan. Ele pisava com seu pé bom e tentava não pesar muito seu corpo sobre Aislin, mas mal podia saltar por alguns segundos e então fraquejava.

Mal tinham chegado a metade do caminho, e a névoa tocou seus calcanhares. Fria, sugando sua alma aos poucos. Não conseguiu dar o próximo passo, a névoa imobilizava seu tornozelo e seus dedos subiam pela perna, até o joelho. Não conseguia sentir o local onde estava imobilizava, era como se o sangue parasse de circular e então não tinha mais noção ou domínio sobre o membro.

Isso aconteceu em todo o corpo, subindo lentamente, até que Edan caísse de seus braços e seus olhos se petrificassem. Até que os pulmões se tornassem pedra.

E então, o coração faltou em uma palpitação.

º º º

A primeira coisa que notou era o calor. Suor escorria por suas costas, pelos braços, pelo rosto. Estava banhada a suor em todos os cantos. A boca seca, os olhos bem abertos, como se nunca os tivesse fechado. Sentia o cabelo grudar na nuca, nos ombros e no começo da coluna, como se fosse uma segunda pele. Sentia as gotas salgadas pingando em seus lábios e fazendo arder as feridas onde os dentes estavam fincados.

Aquele era o inferno.

E então, notou o cheiro ácido e ao mesmo tempo metálico. Notou o ar abafado, extremamente raro na floresta. Notou que suas roupas estavam em frangalhos e notou que segurava uma adaga na mão direita e um braço sangrento na mão esquerda. Olhou fixamente para o membro amputado e em seguida para o cadáver aos seus pés.

Exclamou, sentindo as ânsias inundarem a garganta e então vomitou tudo o que comera (e não comera) durante o jantar. Piscou os olhos diversas vezes, tentando re-animá-los com as lágrimas, enquanto cobria os lábios com sua mão ensanguentada. A adaga estava tão firme que não conseguiu mover os dedos ao redor de seu cabo, e sentiu os músculos e os nós ardendo com a força que fazia.

A frente, estava a imponente cabana, agora estalando conforme as chamas diminuíam. Estava metade carbonizada, metade ardendo ainda. Não havia gritos, entretanto, e isso foi o que mais a surpreendeu (sim, há pessoas que conseguem se surpreender em meio a uma carnificina), o silêncio perturbava. Como se não existissem mais pessoas ali para correrem por todos os lados, ou clamarem por suas vidas, ou...

Então entendeu. Ah, sim, sim. Claro que não existiam pessoas para gritar, nem para correr. Afinal estavam todas mortas.

Embora tenha vomitado, Aislin não sentiu pavor ou tristeza com todos os corpos e a tribo devastada. Nem mesmo quando lembrou-se de Edan na floresta e que ele deveria estar sentindo dor em seu tornozelo. Se é que ainda estava vivo. Não era estranho, entretanto. Pois nunca sentira afeto ou amor por nenhum deles, muito menos por Kelly ou Ula. O máximo que conseguia encontrar em seu coração era pena de Edan, por morrer tão jovem.

Caminhou em direção a cabana e olhou por dentro. Haviam corpos carbonizados. Caminhou em direção ao arsenal e olhou por dentro, haviam fornalhas acesas, metais derretidos e poucas manchas de sangue. Caminhou em direção a floresta e encontrou Edan caído ao lado das raízes e cogumelos que cresciam durante o verão.

Continuou caminhando, até alcançar a cidadela, onde o dia ainda começava e seus camponeses iam de um lado para o outro. Não se importou com os olhares que lhe lançavam, nem com o estado de seu corpo e provavelmente de suas roupas. Ainda agarrava-se a adaga como se ali estivesse toda a essência de sua vida.

Alcançou a taverna onde na noite anterior seduzira um dos clientes até a floresta. Sentia os dedos formigando. Iria buscar vingança.

Notas finais
A Aislin é uma personagem secundária que fará diferença na fanfic. Os capítulos dela serão da saga A Cortesã do Rei. Vocês entenderão melhor depois, incluindo o que houve com ela e... Bem, tudo. Beijos da Meell