The Bastard Heir

46 Capítulo 38 - Anny, a Copeira


Notas iniciais
Um pouco mais da Hanne para vocês. A partir dos próximos, focarei nos hereges, como prometido. Boa leitura!

Anny, a Copeira

Hannelore tampou a boca de Edith, cobrindo-a com a mão. A prima arregalou os olhos, mas teve a astúcia de se manter em silêncio. Todas as damas se entreolhavam, esperando alguma reação da princesa, que apenas soltou a prima e suspirou, aliviada. Hannelore chamara todas até o Portão Leste, com o intuito de roubar-lhes de suas tarefas na Corte e levar-lhes consigo até a cidade. Uma carruagem já se aprontava e outra logo atrás, para levar aquelas que não conseguissem um lugar na primeira. Tantas damas para lhe fazerem companhia, no começo se perdera em meio a elas, mas logo notou que eram simplesmente tudo o que precisava.

— Silencia-te, prima minha, pois não podem ouvir-nos aqui. – disse, utilizando-se das palavras que Gênova lhe ensinara. Hannelore gostava do modo como os nobres diziam e achava-se bastante boa nisso.

— Que maquinas nesta tua cabeça, Hannelore? – Edith sussurrou, embora não houvessem guardas por perto ou qualquer um além do cocheiro e os cavalos.

A princesa apenas se virou para o coche e abriu a portinhola, inclinando-se levemente para frente, numa reverência. Seu sorriso brincalhão tornou tudo mais descontraído entre as garotas, mas a pergunta ainda estava flutuando no ar. Que queria a princesa Hannelore em pleno Dia de Santa Ceia? Deveriam cear com os padres e o bispo ao anoitecer. E não perderiam aquilo por nada no mundo. Mas Hannelore apenas apontou para a carruagem, chamando-as novamente a entrar.

— Por favor, ou terei de ordenar-lhes. – e isso as convenceu. Entraram Edith e Wanda na primeira carruagem e Dominique, Cora e Serafina na segunda. Nenhuma sequer imaginava o que Hannelore queria. A princesa estivera silenciosa por toda a manhã. – Leve-nos para a capital. – pediu ela ao cocheiro, e assim que os cavalos começaram a andar, Edith abriu a boca em descrença, pronta para questionar tal coisa. – Não te preocupes. Sei bem o que faço.

Edith queria responder, mas se conteve. Não era bom questionar a princesa a quem servia, uma boa dama iria manter o bom comportamento, mesmo contrariada, enquanto arrumou as pregas do vestido e puxou a cortina da janela, deixando o vento entrar, junto com a luz solar e a belíssima visão das estradas que levavam até a Capital. Ela sempre gostava de visitar a cidade com a mãe, onde poderiam comprar e encomendar vestidos belíssimos. A cidade também era o lar dos artistas, eles se aglomeravam nos salões, entre mesas de café e galerias de exposições. Mas nenhuma outra arte em Overath se comparava àquela que estava no seio do reino. A música. E assim que o coche deixou a estrada para percorrer as ruas de pedra, ela pôde ouvir exatamente aquilo que estava vívido em sua memória.

Ao seu lado, Wanda espiou pela janela, curiosa. Seus olhos nunca viram tais construções, tão próximas umas as outras. Embora ela nunca tenha saído do castelo, na verdade. Estava terminantemente proibida. Na Corte tinha a proteção de seu pai e do rei, mas nas ruas da cidade... Quem saberia que ela era a filha bastarda do primeiro ministro? Iriam enforcá-la com certeza por se parecer... turca. Assim que viu os trajes marrons surgindo entre as pessoas caminhando nas ruas, escondeu-se no fundo do coche, assustada.

Hannelore apenas sentia o entusiasmo aumentar.

— Pare perto daquela loja, por favor – pediu ao cocheiro e ele obedeceu. Desceram, aguardando a segunda carruagem. Assim que estavam todas juntas, Hannelore entrou na loja que tinha como nome “Madame Henrietta”. Todas ainda se perguntavam o que a princesa queria em uma loja tão popular e com uma clientela tão... normal. Assim que a costureira de nome Henrietta viu suas novas clientes, sentiu os olhos marejarem e arrumou o avental em seu peito, abandonando o balcão com os braços abertos.

— Queridas, que honra recebê-las... Por favor, me deem suas capas, meu filho as passará. – ela pediu, e Hannelore entregou com um sorriso e assim todas fizeram, inclusive Cora, que estava tão hesitante. O convite de Hannelore fora tão urgente que ela nem ao menos havia avisado Otto de que sairia e muito menos que seria com a princesa.

— Senhora Henrietta, eu e minhas colegas gostaríamos de vestidos novos para usarmos no castelo, em nosso trabalho. – pediu Hannelore, sempre com seu sorriso mais gentil.

Henrietta piscou, atônita.

— Trabalho? As senhoritas são...

— Copeiras, senhora. Servimos especialmente a corte da Princesa Hannelore e fomos convocadas recentemente para servir a festa de aniversário da Princesa. Ela nos pediu para que vestíssemos trajes especiais para tal ocasião, mas não temos muito, por isso nos deu estes – Hannelore mostrou-lhe as roupas e Henrietta teve de concordar que eram peças dignas do guarda-roupa de uma princesa. – Mas achamos esvoaçantes demais para tal. Gostaríamos de vestidos mais simples, poderias fazer para nós tais vestidos, em troca destes?

Os olhos de Henrietta quase inundaram sua loja.

— Mas é claro, senhorita, em um instante tirarei as medidas de todas e...

— Gostaria de alguma coisa já pronta. Para hoje.

— Hoje? – Henrietta mordeu os lábios – Mas são vestidos muito bonitos para trocar por meras peças de segunda...

— Que isto, queremos os vestidos hoje. – Hannelore sorriu, conquistando a velha costureira – Agora.

Henrietta assentiu, apressando-se. Chamou seu filho que levou as capas para passar, enquanto a mãe oferecia vestidos prontos para que elas experimentassem. Hannelore escolheu o seu, o mais simples, com um corpete branco e a saia cinzenta. Edith não queria dar seu vestido para a senhora, ele fora bordado com pérolas em toda a saia e pequenos desenhos nas mangas faziam um lago e pequenos patinhos nadando, cada um com um rubi brilhando nos olhos. Era o seu favorito. Hannelore soltou os cabelos enrolados e os panos que o prendiam, deixando as madeixas caírem até metade das costas. Ela se virou para as companheiras e sorriu.

— Estão demorando demais, meninas, a princesa não nos esperará para sempre.

E dito isso, elas começaram a se despir e a vestir o outro vestido. Edith abriu mão de seu precioso conto de pedras, vestindo-se com uma simples saia e uma manta quentinha que a protegeria do final do inverno. Enrolou a manta sobre a cabeça, vestindo luvas de lã. Todas se trocaram e por fim Madame Henrietta tinha um brilhante sorriso no rosto, com os vestidos todos sobre os braços, agradecendo-as pela preferência. Assim que abandonaram a loja, Hannelore se viu em meio a maus lençóis.

— O que foi isso? Aquilo foi um presente de minha mãe! – Edith foi a primeira a abrir a boca.

— Iremos comprá-lo de volta. – Hannelore prometeu – Sê paciente, por favor, Edith. Todas vocês, comparei os vestidos todos de volta, mas me acompanhem primeiro.

E dito isso, virou-se, procurando aquilo que tinha em mente desde a primeira semana que estivera no castelo. Queria explorar sua cidade, e para isso poderia muito bem dar todos os seus vestidos bonitos para Madame Henrietta. Agora que estavam vestidas como pessoas mais comuns, poderiam se misturar na multidão. Cobriram suas cabeças com as capas recém passadas e juntas começaram a andar. Ninguém parecia perceber qualquer anormalidade, afinal jovens burguesas sempre passeavam pelo burgo. A loja de Henrietta era apenas mais uma em uma longa rua, e puderam ver todas as vitrines, até mesmo experimentar doces de vendedores ambulantes. Mas nada se comparara a quando chegaram na esquina e Hannelore pôde ouvir o som de um violino. O pandeiro o seguia, junto com uma gaita e o alaúde. Sorriu, caminhando apressadamente até a taverna de onde o som vinha.

Elas entraram e se depararam com um pandemônio. Pessoas conversavam alto e riam, o cheiro de cerveja vinha em peso e garçonetes passavam perguntando se queriam mais uma dose. Hannelore olhou para suas companheiras com o canto do olho, deveriam estar pensando que aquele não era o local ideal para nobres senhoritas, ainda mais sem uma escolta. Não, com certeza era perigoso demais. Mas ninguém saberia quem eram. Sentou-se em uma pesa no centro do salão, onde era possível ver muito bem o palco. Em cima dele, um harpista dedilhava emocionantemente uma melodia triste que arrancou de Hannelore um suspiro. Ela queria que suas damas sentissem a música também, mas todas olhavam ao redor, receosas.

— Escutem tudo o que puderem – aconselhou-as, fechando os olhos e entrando em sintonia com o ambiente.

Na mesa ao lado dois guardas conversavam sobre um dos calouros que parecia ser um desastre com a espada. Logo atrás um padre aconselhava um burguês a não investir demais naquilo que poderia lhe dar arrogância e ganância, e sim nas obras de caridade e de amor ao próximo, o que significava doações aos mosteiros. Ouviu os sussurros ávidos de uma garçonete e um freguês ousado, e também as gargalhadas de dois irmãos que acabaram de voltar da caçada com um cervo inteiro. Duas senhoras corcundas bebericavam suas sopas, com um ruído áspero. Foi quando uma família nômade chegou. Era um pedreiro, visivelmente, carregando suas ferramentas. Haviam duas crianças menores e a mulher parecia grávida. Eles se aproximaram do balcão.

— Estalajadeiro, tem quarto?

— Tem. – o homem do balcão limpava uma caneca com o pano de seu ombro. – Mas não cama para todos.

— Não se preocupe, uma basta. – o pedreiro lhe sorriu, tentando se mostrar humilde. – Estou procurando emprego desde Ynnsperth, mas não encontro nada, nem mesmo um comércio para remendar telhas ou qualquer construção inacabada. Todos me dizem o mesmo: não há trabalho, as obras já estão terminando. É inverno, e ainda não consegui emprego, desde o outono venho procurando. – ele explicou sua situação delicadamente, tirando a boina esfarrapada em certo ponto. – Minhas economias acabaram, não tenho como alimentar meus filhos. Estão mortos de fome.

O estalajadeiro suspirou. Via aquele teatro todos os dias, e a resposta sempre seria a mesma.

— No inverno não há construções! E ainda restam meses até que seja primavera! Estou desesperado, senhor.

— Lamento, mas creio que nesta cidade não haja construções, também. As pessoas se instalaram muito bem, afinal estamos na encosta de uma montanha, todas as casas são firmemente construídas, e a catedral foi terminada há quatro anos. Não há um mosteiro precisando de ajustes que eu conheça, mas pode visitar o castelo. Eles sempre têm algo a consertar.

— Sou um homem simples, quem seria eu para me apresentar como pedreiro ao rei? – ele abaixou a cabeça, desesperançado. – Por favor, suplico, trabalharei onde quiser, mas dê-me o quarto e a comida!

— Não preciso de um ajudante. Não há lucro em bancar um funcionário a mais. – o estalajadeiro pousou a caneca no balcão e olhou sinceramente para o pai de família – Eu lamento, senhor. Profundamente, por você e suas crianças. Mas não creio que possa ajudá-lo. Procure outra estalagem.

O pedreiro parecia disposto a protestar e insistir, mas assentiu e, hesitante virou-se para sua família. A esposa tinha cabelos negros e cacheados, armados e cobertos de sebo. Seus olhos eram verdes como musgo e sua pele morena pelo Sol forte que enfrentara. O vestido visivelmente puído e a barriga grande, prestes a explodir. Mas mesmo que estivesse grávida, não apresentava a vermelhidão de seu estado, nem parecia cheia. Seus seios estavam caídos, invisíveis pelas roupas, as bochechas descarnadas e os dedos ossudos sobre a barriga. Seus filhos eram como pequenos esqueletos. O garoto, quase do tamanho do pai, e mesmo assim com o rosto de um menino de doze anos. E a garotinha, loura e delicada, parecia que quebraria o tornozelo caso saltasse alto demais. Hannelore sentiu seu coração doer.

Levantou-se sem perceber e partiu, seguindo a família, enquanto esta voltava para o trabalho de procurar abrigo. Não sabia muito bem o que estava fazendo, apenas que tinha certeza de que não poderia deixá-los tão a mercê da sorte. Afinal eram seu povo, e morriam de fome, visivelmente. Segurou o ombro da mulher antes que percebesse, e sentiu os ossos pontudos dela por baixo da pele.

Ela se virou, assustada, protegendo a barriga com ambas as mãos. Seu esposo pousou a mão no martelo de pedreiro no cinto. E Hannelore lembrou-se de que era um povo acostumado a viver nas estradas, sofriam assaltos a todo o momento. Respirou fundo e procurou as melhores palavras.

— Perdoa-me senhores, pois vos ouvi em vossa conversa com o estalajadeiro, e minha alma se compadeceu de vossas dores. – terminou, sentindo-se orgulhosa. Nem ao menos gaguejara. Porém o rosto da mulher se contorceu, talvez de espanto, talvez de medo.

— Quem é você? – ela perguntou, empinando a barriga para frente. Parecia contrariada. – Que é que pensa ao ouvir a conversa alheia? Deus a perdoe, isso sim.

Hannelore enrubesceu. Não esperava aquilo. O pedreiro tomou a frente da conversa, afastando sua esposa com um leve toque no ombro. Ela se afastou, relutante. O homem parecia mais afável e por isso Hannelore sorriu. E ele devolveu o sorriso humilde.

— Disse que se compadeceu de nossa dor. – ele ergueu uma sobrancelha, curioso.

— Pois é verdade. Meu coração chorou ao ouvir tantos infortúnios que tu e tua família passaram. – Hannelore adotou uma linguagem mais informal, pensando que aquele era um povo simples e só confiaria nela se parecesse com alguém “como eles”. – Trabalho no castelo, como copeira, e sirvo a Princesa. Ela é uma dama de coração mui nobre, e aposto que vos daria trabalho e teto para dormir.

Ele balançou a cabeça.

— Bobagem, príncipes e princesas não têm tempo para pessoas como nós. Vamos indo, pois logo o Sol irá desaparecer e não teremos onde dormir. – ele segurou uma das crianças pelo braço e começou a levá-la. Hannelore sentiu o alarme soar dentro de si. Suas damas já haviam se aproximado e observavam, interessadas.

— Mas não a princesa Hannelore. Eu a conheço! Nasceu como uma bastarda, sabe muito bem como é ter toda a dificuldade para viver e como aguentar o sofrimento. – tentou agarrar-se às suas esperanças. – Senhor, não seria melhor ao menos tentar, antes que escureça?

Ele parou de andar e pareceu duvidar. Voltou meio passo e lhe encarou, seriamente.

— Não posso perder tempo. Há três dias não comemos nada. Eu a cinco, meu filho mais velho a quatro. Temo pelo meu filho que está no ventre de minha esposa e por minha garotinha tão pequena e delicada. Temo por todos. Dê-me uma garantia, copeira, de que terei comida para dar aos meus filhos, pelo tempo perdido indo até o castelo e depois voltando para a cidade.

Hannelore sentiu-se vitoriosa e se deixou inundar de felicidade.

— Pois é claro, meu serviço na copa me obriga a passar pela cozinha. Providenciarei imediatamente, assim que chegarmos. E então poderás tratar com a princesa pessoalmente. – ela entrelaçou as mãos. – Serás bem pago, aposto.

O pedreiro amenizou a expressão e virou o rosto para sua esposa. Ela balançou a cabeça negativamente, mas sem convicção. Hannelore acompanhou-os, a carruagem ainda os esperava em frente a loja de Madame Henrietta. Suas damas estavam agora ajudando a mulher grávida a subir a bordo e Dominique já se enturmara aos pequeninos, carregando a garotinha nas costas e trocando piadas com o menino. O pedreiro pediu para que fosse andando, pois não merecia tal privilégio.

— Se é assim que queres, então que seja. Mas mandarei que o cocheiro vá devagar.

E assim, retornaram ao castelo com o dobro do tempo que demoraram para chegar lá. O homem não parecia exausto, pelo contrário, a caminhada lhe tinha devolvido o brilho dos olhos, como se acabasse de comer um prato de sopa de legumes e... Hannelore piscou, o cheiro era certo! Vinha das cozinhas! Apressou-se com as saias simples e entrou rapidamente, retirando o manto e permitindo que todos vissem seu rosto. Em meio segundo, a cozinha parou com todo o serviço e todas as cabeças se curvaram diante da princesa. Ela agitou as mãos, dispensando as honras.

— Preparem uma mesa, quero uma mesa com quatro cadeiras. Separem quatro tigelas de sopa para as pessoas que entrarão aqui. São meus protegidos. – disse, as ordens foram imediatamente atendidas. Ao lado das toras de madeira que usavam no fogão, uma mesa com quatro cadeiras foi servida com pratos de porcelana, taças e talheres de prata, velas foram acesas e as cadeiras devidamente estofadas.

— Vossa Alteza, nossos convidados preferem vinho ou cerveja?

— Creio que cerveja – escolheu. Ouviu suas damas se aproximando, conversando com os convidados. Sorriu para si mesma. Iria ajudar seu povo. Eles entraram, abaixando suas cabeças na porta. Hannelore indicou a mesa. A família se entreolhou, estupefata. – Sentem-se, por favor.

Eles obedeceram, agora muito mais inclinados a obedecer qualquer ordem. Sentiam-se estranhos. Havia comida quente diante de seus rostos, e prataria por todos os lados. Os criados da cozinha também se desviavam educadamente da figura loura que lhes dera a segurança de comida e abrigo. O pedreiro bebericou com a colher a sopa, e abriu um sorriso. A barba se molhando com o caldo.

— É delicioso. Comam, é melhor que tudo! – disse. E as crianças atacaram a sopa com voracidade. Até mesmo a mulher, receosa, tomou com alegria. Hannelore saiu da cozinha, com as damas atrás.

Elas pareciam esperar o próximo passo.

— Edith, mande um mensageiro até a Madame Henrietta pedindo para comprar todos os vestidos que foram trocados hoje de manhã. – ordenou, de repente com o ímpeto de uma soberana – Cora, avise minhas criadas de que precisam aquecer a banheira e preparar duas roupas pequenas, uma para menina e outra para um menino, e duas roupas grandes, para uma senhora grávida e para um senhor corpulento. – ela girou na ponta dos pés, graciosamente – Wanda, avise Gênova de que tomei liberdade para contratar novos serviçais para minha corte, duas aias, um mensageiro e um pedreiro. Dominique... – a garota empinou o nariz, aguardando seu dever. – Fique com eles e, quando terminarem, guie-os até meu quarto, para que possam se banhar e trocar as roupas. Depois os levem à biblioteca onde estarei para distribuir suas funções.

Ela assentiu.

— Agora.

E todas se dispersaram. Hannelore sentia-se nas nuvens. Finalmente, agindo como uma princesa. Ajudando seu povo, dando ordens, tomando decisões... salvando vidas! Mordeu os lábios, empolgada para o que vinha a seguir. Mas... espere... o que vinha a seguir? Piscou, atônita. Havia distribuído funções a todos, menos a si mesma. Que deveria ela fazer agora? Vigiar os preparativos das roupas? Não, caso o fizesse demonstraria não confiar em Cora. Não queria isso. Respirou fundo, começando a andar. Não iria tremer. Não agora que havia encontrado sua vocação como princesa e futura rainha.

Subiu as escadas rapidamente, os saltos ecoando no piso. Parou em frente as portas da sala e arrumou o cabelo. Olhou para o vestido que usava. Não importa. Agora nada importa. Bateu suavemente, até que alguém lhe mandasse entrar.

Entrou.

Rei William se encontrava sentado sobre sua cadeira grande de veludo, papeis sobre a mesa, a pena e a tinta logo ao lado. Seus olhos carregaram olheiras e o gibão estava amassado em diversas partes. Mas ignorou tudo isso. Os cabelos foram escovados e ele parecia muito mais disposto, desde que Hannelore chegou ao castelo.

— Sim? – ele perguntou, um pouco surpreso por sua presença.

— Pai.

— Diga. – ele soltou as folhas que segurava e se levantou da cadeira, parando em frente a ela. – Vá em frente.

— Pai, hoje fiz algo que me alegra muito o coração. Eu... acho que finalmente estou sendo uma princesa herdeira do trono. – ergueu os olhos para ele. – Tenho de compartilhar isto com vós.

O rei concordou com a cabeça, dando permissão para que prosseguisse.

— Hoje fui à cidade para visitar o povo...

— A cidade? – William piscou. – Como foi à cidade?

— Pedi uma carruagem e ela me levou. – Hannelore notou que ele parecia transtornado – Nada de mal aconteceu comigo, eu juro!

— Olhe só essas roupas! – ele exclamou, de repente vermelho – E se expondo ao perigo de... de um assassino a encontrar! E... indo visitar o povo? – ele bateu a mão na mesa, o estrondo ecoou e fez Hannelore saltar. Sua pele estava toda arrepiada. – O que fez fora do castelo? Onde tirou a permissão para tal? Como ousa abandonar a segurança deste modo? ÉS A HERDEIRA DO TRONO, NÃO SE BRINCA COM ISSO! E ainda diz que sente-se como uma princesa!

Hannelore começou a soluçar antes que ele terminasse. Os olhos não aguentavam mais as lágrimas, e as derramaram pelas bochechas. Sentia o coração despedaçar, sentia-se culpada e pior ainda: sentia a raiva do pai explodindo de sua boca. Não queria ouvir aquilo, não queria nem mesmo vê-lo. A vergonha cobria-lhe o rosto, a irresponsabilidade de seus atos gritando conforme o coração disparava. Fora tola, imprudente, audaciosa. E tudo resultou apenas na fúria de seu pai. A quem achava estar agradando, mas não, só o preocupava, só o irritava! Era uma filha terrível, uma princesa ilegítima! Jamais deveria ter entrado naquela Corte, deveria permanecer no campo, com os duques, vivendo como uma criada...

Hannelore... — ouviu sua voz por trás dos próprios gemidos — ... me perdoe... não quis dizer coisas tão, tão más... e-eu...

Engoliu os soluços e abriu os olhos, olhando-o.

— Não. É a mim que tem de perdoar, pai. Fui imprudente. Infantil.

Conte-me... que fez de tão bom, querida?

Ele nunca a chamara de querida antes. Hannelore ergueu novamente o rosto, deliciada com o tratamento carinhoso. Ele parecia arrependido. E ela parecia... riu de si mesma. Parecia arrependida. Ambos, tristes de seus atos.

— Eu encontrei uma família necessitada e a trouxe ao castelo. O pai é pedreiro, e tenho alguns planos em mente para expandir meu quarto. – disse, e então mordeu os lábios – Se o senhor permitir.

— É claro, é claro, é seu. – William deu de ombros, encolhendo-se a medida que o coração de ambos voltavam ao normal. – Tinha filhos?

— Três. Um ainda no ventre de sua esposa – Hannelore sorriu – Prestes a nascer. A mulher parece bem sensata e adoraria tê-la como aia, para me aconselhar e me animar. Minhas damas são todas nobres e, embora tenham boas intenções, não me entendem de verdade. E a garotinha é bonita, será minha aia também, pois todos sabem que a opinião de uma criança é pura e suas palavras sinceras. Quero alguém incapaz de mentir para mim.

— Disse que eram três crianças...

— Ah, sim, um rapaz de doze ou treze anos. Tem pernas longas e parece disposto a percorrer longos caminhos em um dia. Quero-o como meu mensageiro, para correr por ai levando minhas cartas. Alguém de minha confiança.

William assentiu.

— Tinham fome, então dei-lhes de comer. Tinham fedor, então preparei-lhes banhos. Tinham sono, e arrumei colchões para seus corpos cansados. – ela respirou fundo. – Sinto-me bem por ajudar, mesmo que apenas essa família.

O Rei assentiu novamente, pensativo. E então sorriu, parecia tão alegre a ponto de chorar.

— É algo que Cristina faria...

Hannelore demorou a assimilar.

— Cristina?

William arregalou os olhos, transtornado.

— Uma amiga, ela já se foi, mas... Muito querida por mim. – engasgou-se – É bom, ela era boa também. Digo, uma alma boa. Santo Deus, poderia me deixar a sós? Sinto que minha cabeça está a ponto de explodir.

Hannelore assentiu, fazendo uma mesura e se retirando. Fechou a porta e encostou-se à parede, sentindo os olhos voltarem a se encher de lágrimas. O sorriso preencheu seu rosto, a alma agora completamente envolvida de felicidade abundante. Cristina. Seu nome era Cristina. Hannelore respirou fundo. A partir de hoje seria uma nova princesa. Renovada, responsável, boa. E seria como ela, seria como sua mãe. Uma alma boa.

Notas finais
Ela não é um amor? :3 Beijos da Meell Gomes!