The Bastard Heir

31 Capítulo 27 - O Sangue Que Me Deve


Notas iniciais
Boa leitura!

Capítulo 31– O Sangue Que Me Deve

Hoje era o dia do baile. O baile estava acontecendo debaixo de seus pés. Aaron não queria sair. O livro que pegara emprestado na biblioteca estava muito interessante, e além disso, a gravata lhe dava coceira. A camisa estava aberta no peito, mal enfiada dentro das calças. Os sapatos foram jogados longe, e a cama era confortável. Tinha passado mais da metade do tempo dentro do quarto desde o dia em que chegara lá. O meistre o livrou em duas semanas dos medicamentos, embora agora fosse mais difícil para Aaron dormir. Sua mente estava sempre a mil por hora. E por algum motivo, a floresta que via da janela parecia convidá-lo. Mesmo de noite, na completa escuridão, era como se visse fantasmas luminosos sussurrando seu nome docemente, como ninguém jamais fizera e como ele não sabia possível fazer. Ergueu o livro, bloqueando tais pensamentos da mente.

Já era meia-noite, o baile demoraria mais algumas horas para terminar. Com sorte, ninguém notaria sua ausência. Aaron não fizera amigos, muito menos descobrira o que aconteceu na taverna vindo para o castelo. Os meninos que estava juntos dele afirmaram a mesma coisa: ele perdeu a cabeça e partiu para cima do taverneiro. Mas Aaron tinha certeza de que não fora nada disso, e além do mais, não se lembrava de ter dividido o coche com mais ninguém, além do cocheiro, o qual volta e meia ouvia assobiando pelos corredores do castelo. O que sempre lhe causava um arrepio desde o pé da coluna até a nuca.

Aaron forçava-se a pensar que era tudo fruto de sua imaginação. Ou melhor, da doença que o estava contaminando. Sua mente a cada minuto atrofiava mais alguns neurônios. Olhava para o céu e decidia que iria mudar aquilo, que não ficaria louco. Mas então logo se lembrava de que as doenças não são combatidas deste jeito. Ninguém lhe disse que era doente. Ele também não sabe dizer quando começou. Com certeza a primeira recaída foi quando saiu de casa. Os pais estavam felizes em expulsá-lo, mamãe o havia preparado muito bem. O que seria então? A história de sua infância, cuja parecia ligá-lo tanto a floresta do castelo voltava sempre a sua mente, sendo sugada.

Uma floresta quase igual aquela. Um menino correndo entre raízes e arbustos, descobrindo flores, animais e sentindo o vento fresco. Aaron lembrava-se de que fugia das aulas de literatura para ir a floresta. Nunca gostara de livros. Eles eram entediantes demais para a criança vívida dentro de si. Então...

Vozes, gritos, mãos. Os hereges o agarraram. Ajoelhado, de costas para o grupo, cantavam o hino de sua morte. A lâmina se prendeu a sua garganta e ele sentiu o sangue escorrendo. Iria morrer. Sabia disso. Mas... Piscou, atônito. O que aconteceu depois? Não havia morrido, disto estava certo, afinal ainda estava lá. Mas depois disto, Aaron nunca mais gostou de correr ou de explorar a floresta. Preferia ficar em casa, lendo livros grossos e empoeirados. Não havia mais criança vívida dentro de si, apenas um braseiro que se apagava lentamente.

Ergueu novamente os olhos, inconscientemente, e olhou para a janela. Uma dama acenava-lhe, de cabelos prateados como a Lua. Sua pele era alva e ela não vestia roupas, nua e esbelta. Aaron esbugalhou os olhos, abandonando o livro. Não podia ser verdade, a mulher falava seu nome, soltando o pó das estrelas de sua língua. Ela o convidou a vir passear na floresta, a mão erguida ainda, aguardando-o. Aaron mordeu os lábios, olhando ao redor. O baile estava acontecendo, mas ele não podia simplesmente ignorar aquilo. A moça parecia urgente, parecia desesperada.

Então calçou as botas, pegou a capa e saiu correndo escadas abaixo. O baile estava acontecendo, mas pouco se importava com isso, quando passou em frente a porta do salão de festas, ouviu o som de cordas e uma fina melodia, todos em silêncio. Isso lhe chamou a atenção. Então deu meia-volta e espichou a cabeça para dentro do salão. Viu a princesa assentada sobre um banco, com uma harpa entre as pernas, dedilhando-a. Seu vestido estava preso nas coxas, deixando as longas pernas expostas no lado direito da cena, o que fez a cabeça da maioria dos jovens do salão rodopiar.

Mas Aaron sentiu que não era aquilo que deveria fazer. A floresta o espera. E era para lá que iria. Abandonou a apresentação e a melodia, correndo para o jardim e depois para a floresta proibida. Havia casais para todos os lados, caminhando de braços dados, mas ninguém se aproximava do local obscuro. A mulher que ele vira da janela não estava ali embaixo. Mas por algum motivo, Aaron conhecia o caminho. Seguiu e não hesitou em abandonar a trilha. Colocou a mão na cintura, sem se lembrar quando é que havia pego a espada que agora pendia da bainha. A capa voava ao seu redor, enquanto o vento forte e furioso a fazia se prender entre arbustos e galhos. O capuz cobria sua cabeça, e ele teria se julgado um ladrão, caso realmente estivesse em plena consciência.

Então Aaron os viu.

Eram pequenos, brilhavam. Levemente arredondados, possuíam um calor anormal, era o calor da vida, não o calor do fogo. Luminosas, flutuavam, lentamente percorrendo o caminho para o qual ele deveria ir. Aproximou-se de um deles e no exato instante em que o tocaria, a figura desapareceu. Eram as luzes, e elas o guiariam até seu destino. Aaron já havia lido sobre aquilo, conhecia a lenda herege. Luzes apareciam às pessoas que não possuíam um objetivo na vida ou não possuíam uma missão. Essas luzes traçavam o destino da pessoa errante, para que ela não se perdesse na própria vida. Os heróis normalmente eram guiados pelas luzes. Mas Aaron não se achava um herói. Seguiu-as mesmo assim. Enquanto elas surgiam e desapareciam, o rapaz notou que estava mais frio que achou estar.

Brilha luz no céu, cobre a noite com teu véu. Traz sorriso a minha alma desolada... – Aaron ouviu a voz mais doce e pura que jamais imaginou ser possível ouvir. As luzes ganharam um novo brilho, um novo calor. Estavam mais intensas, mais humanas. – Brilham luzes no chão, pequeninas elas o guiarão. Para que traga sorriso a minha alma desolada... – A dona da voz possuía longos cabelos negros, que à luz da Lua a deixavam com uma aparência maléfica. Sua pele morena era lisa e brilhava de suor, enquanto os olhos fechados forneciam lágrimas quentes e gordas. Aaron sentiu desejo por ela, mas não a atacou naquele momento. A canção tinha de ser finalizada. – Brilham luzes em ti, tão fortes como jamais vi. Venha até mim, cavaleiro da noite. Venha até mim, o sangue que me deve.

Aaron deu alguns passos a frente, em direção a ela, porém assim que ouviu a última frase, estancou, gélido. Ela se virou, revelando olhos brancos. Completamente brancos. As luzes em todo o caminho se apagaram e o vento soprou estranho. Ela era linda, e cruel. Aaron notou que novas luzes surgiam agora entre os arbustos e as árvores. Eram pessoas.

Notas finais
Espero que tenham gostado e perdão por não ter a música nem a frase, ou foto. Mas o próximo está mais elaborado (sim, já comecei ;) Beijos da Meell :*