The Bastard Heir

27 Capítulo 23 - A tempestade escurece um dia, a aurora brilha no outro.


Notas iniciais
❤ Srta. Vancou e Ella, muitíssimo obrigada pelas recomendações maravilhosas de ambas. Muito obrigada mesmo princesas! ❤Boa leitura princesas. E matèria nova no blog, eu ja postei tb outra matèria là com a foto dos selecionados " O harèm da princesa". http://thebastardheir.blogspot.com.br/2015/08/a-primeira-rainha.html ❤ Alguém entendeu o titulo? O tempo é o senhor de tudo, por mais que as mágoas sejam grandes, nós acabamos por aprender a superar um dia. Vocês vão entender, eu acho, quando notarem o comportamento dos dois personagens principais do capítulo. Enfim, boa leitura novamente, meus anjos, por vocês vale a pena escrever de madrugada.

Capitulo 23.

A tempestade escurece um dia, a aurora brilha no outro.

O coração precisa estar, em cada patamar da vida, predisposto à despedida e a um novo início. — Hermann Hesse

Emotional Music — Solitude

Quatro anos antes.

Dia chuvoso e tétrico. Sem alegria e apenas tristeza, nem um pingo de esperança no ar. Schellenberg estava enevoada, a chuva parecia não querer partir e contribuía apenas mais para o coração entristecido e acabado do pobre rapaz de quinze anos, um viúvo que nunca subiu ao altar.

Tudo estava perfeito demais para ser verdade. Ele precisava se conformar que aquele dia em que, pode acariciar seus sedosos fios loiros e admirar seu belo sorriso seria único. Gisele agora estava morta. A morte produz inúmeras formas de desordem emocional. Ela é parte daquilo que nos torna humanos e pode causar muitas emoções intensas: da tristeza à raiva, e até ao ódio. Essas emoções podem nos destruir, mas também são capazes de contribuir para nosso crescimento. Infelizmente, até a perda de um grande amor. Por mais que nos abale emocionalmente.

Aquele dia de março já amanheceu com um ar estranho pairando no ar, fora ontem que sua família recebeu a noticia que os Schulz, os viscondes do sul juntamente com a única herdeira, haviam sido brutalmente assassinados em seu casarão.

Alberich ao caminhar alguns passos, para dentro de alguma sala da capela de São Norberto, deparou-se com o corpo de sua amada dentro de um caixão aberto. Passou a mão devagar pelo seu rosto delicado e suave, todavia coberto por uma mortalha branca e fina de renda que chegava até seus pés. Por de baixo desta mortalha, um tecido grosso e cinzento cobria do pescoço a baixo, talvez para esconder as marcas e cicatrizes do assassinato. Seus lábios rosados ainda pareciam vivos, uma pena ter os beijado apenas uma vez há alguns meses. Tinha sido algo tão mágico e único, sentimentos típicos de um adolescente apaixonado.

— Meu filho — disse uma voz feminina. Alberich reconhecia ser a voz de sua progenitora, a Condessa Esther, mas ignorou completamente. Queria apenas ficar ali perto do corpo de Gisele, ainda tinha esperança de que tudo isto fosse um sonho e que quando ele acordasse, uma carta de sua amada estaria a sua espera. Para planejarem o casamento, mesmo que ele só fosse ocorrer quando sua jovem noiva fosse um pouco maior.

— Deixe-me só — sussurrou, mas a senhora tocou em seu ombro.

— É triste, eu sei, mas a perda faz parte da vida meu amor. Infelizmente não podemos evita-la.

— As pessoas possuem diferentes formas de sofrer. — e dizendo por cima do ombro, ou melhor, praticamente implorando. — Por favor, deixe-me aqui em paz, em breve ela estará de baixo da terra.

De um lado, encontrava-se um pequeno grupo de monges cantando salmos e entoando o serviço dos mortos.

O que teria sido de mim sem você? Oh, amor da minha vida — murmurava o rapaz.

Lágrimas de compaixão rolavam pelo rosto da condessa, ao presenciar aquele momento de despedida do seu filho para com a amada já falecida. Era certamente cedo demais para ser o fim, orava pela alma da jovem Gisele e para que seu filho se recompusesse logo.

Um novo começo deveria surgir logo, uma mãe não pode suportar ver seu filho naquele estado lastimável de dor.

Oh, que belo jardim. Cada flor mais bela que a outra, algumas de espécies que ele nem sabia que existiam. Muito menos no inverno, ora essa! Apenas naquele reino abençoado pela Mãe Natureza para ocorrer algo deste patamar, algo encantador e ao mesmo tempo estranho. Entretanto, a beleza não conseguia chegar ao coração de Alberich, que dominado pelos pensamentos do seu passado, desejava apenas ir embora. Não queria estar ali e muito menos fazer parte daquela estranha competição.

A hipocrisia humana é terrível, seu padrasto Ralph, que nunca escondeu o desdém que sentia por ele, de uma hora para outra fica feliz pelo querido enteado esta concorrendo à chance de ser um príncipe e futuramente um Rei. Ter um membro da família casado com uma pessoa da mais alta realeza era algo de grandioso prestigio. Ser um rei então!

Desde que chegara naquele castelo, a rotina de Alberich era simplesmente ficar trancado no quarto, ir à biblioteca uma hora ou outra e dormir, mas até agora não havia trocado uma palavra sequer com a princesa, a bem da verdade, quase não a via. Era espantoso, o mesmo silêncio da madrugada, os mesmos repiques, o mesmo hábito negro. Um castelo de grande beleza, porém de grandes mistérios, repleto de pessoas sérias e algumas estranhas.

A fumaça fria saia de suas narinas, o inverno estava próximo, porém o frio ainda era suportável. Nada que roupas de tecidos mais grossos não pudesse fazer. Mas, Alberich não se importava, gostava do frio. O frio overatiano não era tão terrível como o frio escandinavo. Deveria ser esse o motivo da palidez da princesa que chegara há alguns dias. Úrsula? Sandra? Não, Serafina. Ah, quem se importava?

Pôs-se de pé daquele gramado. Não aguentava mais. O que ainda fazia naquele local? Não tinha amigos e sua mãe só lhe mandara uma carta! Com certeza o maldito de seu padrasto a impedia de querer se comunicar com ele. Ou será que ela não queria mesmo? Quem sabe se pedisse pessoalmente ao rei para ir embora, seu pedido fosse concedido? Poderia dizer que recebera uma carta avisando de problemas sérios em sua família... Deixou para lá. Não adiantaria. Apenas pelo fato de estar naquele lugar competindo por uma princesa, o fazia se sentir como um infiel. Traindo sua Gisele e aquilo era muito desagradável.

Ele ficara imaginando isso durante todo seu percurso de volta ao palácio e principalmente, tentando criar alguma ideia para lhe tirar daquele lugar o mais rápido o possível. Porém, som da batida dos galopes sobre o chão empedrado que encheu o pátio pôs – infelizmente — um fim aos pensamentos de Alberich. Será que eram mais convidados para o baile? Não poderia ser, pois os Tudor, Valois e Megalos já haviam chegado ontem. Os Valois chegaram próximo do entardecer, Rei Carlos, Rainha Ana e seu único herdeiro — o único deles sobreviver à infância dentre quatro filhos — Príncipe Orlando.

O pátio estava agradavelmente fresco, o doce perfume estival do jasmim e das flores de inverno overatianas que se enroscavam em volta das colunas da arcada espalhava-se no ar. Observou de longe a duquesa Genova abraçar fortemente outra dama trajada em um longo vestido bege e o ministro cumprimentar a tal senhora com um beijo na mão. Deveria ser alguma convidada especial? Seria escandinava ou russa? Deduziu isso pelo cabelo ruivo que se mostrou após a retirada do capuz branco do manto, mas ela parecia ousada demais para pertencer à austera corte dinamarquesa ou russa. A tal dama ria alto e abraçava muito a duquesa e o ministro, dando-se a liberdade de beijar até o rosto de Hartwig, todos ali pareciam velhos amigos.

Um escudeiro supervisionava o descarregamento de tapeçarias, enormes baús e baixelas de ouro e prata, além de grandes candelabros. Hartwig e Genova levaram à senhora para dentro do palácio, em seguida desceu do coche um rapaz que aparentava ser um pouco mais novo que Alberich e assim como ele, exalava um tédio que apenas vendo.

— Essa não... Mais gente — suspirou. Resolveu entrar pelo castelo através da porta dos fundos.

— Acho que irá gostar da surpresa, Will — disse Genova.

— Ou melhor, adorar — concordou o ministro.

— Eu adoraria e gostaria de saber o motivo destas delongas todas, vocês sabem que eu não gosto de surpresa — respondeu sem emoção enquanto fingia estar assinando alguns pergaminhos, quando na realidade estava apenas desenhando uma rosa. Desde criança sempre fora um bom desenhista, a bem da verdade, tudo que se relacionava a arte sempre lhe despertava grande interesse, mas são poucos que sabem desse seu gosto intimo.

Hartwig e Genova se entreolharam, sorriram e saíram do gabinete real, deixando o rei com um ar de curiosidade, mas antes que ele se levantasse para seguir seus amigos e descobrir o motivo daquele silêncio, uma figura feminina entrara naquele recinto. É uma senhora de compleição bela, pele branca como alabastro, longos caracóis ruivos que lhe escorrem até abaixo dos ombros e salientes olhos azuis claros, também era alta e não aparentava nem pouco ser a mulher de meados trinta anos que era. Em passos graciosos, a mesma quando olhou para Willian, inclinou a cabeça em sinal de reverência e quando a ergueu, deixava um sorriso amostra.

— Percebo que ainda gosta muito de tapeçarias flamengas, Vossa Majestade — afirmou a senhora ao observar melhor o recinto em que se encontrava.

Tapeçarias flamengas transformavam as paredes de pedra em grandes extensões de bosques primaveris. O tremeluzir das tochas, presas nos candelabros da parede, e as pesadas cortinas de veludo azul postas de forma a impedir correntes de ar. Um local confortável e bonito, os overatianos sempre foram talentosos em escolher tudo do bom e melhor para decorações.

O rei largou a pena e analisou a mulher por mais alguns segundos, antes de finalmente perceber de quem se tratava realmente. Alargou um sorriso simples e levantou-se indo de encontro com a senhora com os braços abertos.

— Senhora Gabrielle Vaudémont, Condessa de Tarcaville, mas quem é vivo sempre acaba aparecendo uma hora ou outra.

Willian aproximou-se com um sorriso da mulher ruiva e depositou um beijo carinhoso em suas mãos. Ela aceitou-a, inclinando exageradamente a cabeça num gesto gracioso.

— Gabrielle Báthory, querido — respondeu risonha. — Agora pare de formalidades e me dê logo um abraço, meu amigo.

Gabrielle nem esperou o amigo responder antes de abraça-lo, Willian apenas devolveu o gesto amigável.

— Que saudades eu estava de você, Will — afirmou desvencilhando-se de seus braços.

— Nunca mais me escreveu, praticamente sumiu. Ora essa, senhora, a Hungria não é tão longe.

— Ah nem me fale — bufou. Sentou-se em uma das cadeiras a frente da mesa do rei.

— Mesmo assim, doce Gabrielle, seja bem vida. Jamais iria imaginar essa sua surpresa.

— Willian, o senhor sabe muito bem que de mim jamais deverá esperar algo monótono. Dizer um oi ou adeus, nunca foi e provavelmente nunca será meu forte.

Ele devolve-lhe o sorriso e senta-se na cadeira reservada aos visitantes, apenas para ficar de frente para Gabrielle.

— Como andas André? E teu filhos, Stephen e Matias? Nem consigo acreditar que se tornou esposa e mãe.

O olhar azul de Gabrielle sobressalta-se, ela pigarreou para disfarçar uma risada em consequência do comentário de Willian, de fato, nem ela esperava que um dia fosse se tornar uma mãe de família. Por fim, se recompôs.

— Mudanças inesperadas podem ocorrer em nossa vida, cabe a nós estarmos preparados, afinal nada ocorre por acaso — respondeu, porém agora mais séria. — Meu marido é um barão e chefe militar, luta para defender aquele reino de discórdia das garras dos infiéis turcos. Meu primogênito preferiu seguir o pai, a ficar com a mãe para viver uma vida mais tranquila. Por pouco Matias não vai também, porém o convenci a vir comigo. Pretendo arrumar um casamento para ele, meu menino beira os dezessete e ainda age como uma criança.

— Tenho que certeza que ao pai não puxou — comentou sarcástico e Gabrielle bateu em sua mão com o leque.

— Sem piadas, por favor, ora essa, eu quero netinhos para tomar conta — respondeu de braços cruzados, fazendo uma cara de criança.

— Sim, sim, perdoai-me — apressou-se ele a pedir.

A condessa e baronesa Gabrielle suspirou, deixou-se levar pelos pensamentos do passado. Aquele castelo lhe trazia tantas recordações, algumas boas e más. Nasceu a cresceu na França, como filha de Renato, Duque de Lorena, Conde de Guise e Senhor de Joinville. Seu pai era um poderoso nobre, apesar de ter fracassado na tentativa de reclamar à coroa de Nápoles. Sua falecida mãe, Jeanne DHarcourt, Condessa de Tancarville — de quem Gabrielle, herdou o titulo — concebeu apenas Gabrielle e teve apenas ela como filha durante dez anos de casamento. Como na França, impera a lei sálica, Renato ao perceber que Jeanne não lhe traria herdeiros homens, a repudiou e meses depois contraiu matrimônio com a Duquesa Filipa de Gueldre. Essa conseguiu dar-lhe a prole de doze filhos, oito varões e quatro moças.

Gabrielle com dez anos foi mandada para viver no meio da corte francesa como dama de companhia da Rainha Carlota, em seguida de quatro anos mais tarde, por possuírem a mesma idade, seus serviços foram cedidos para uma recém-princesa hesseniana chegada à corte francesa, que se casaria com o Delfim Joaquim. Gabrielle ainda lembra-se dela, como poderia esquecer-se de uma menina a quem por anos considerou sua irmã, acompanhou ao lado dela todos as alegrias e sofrimentos. Senhora Báthory havia sido dama de companhia da Princesa Cristina durante a época em que elas viviam na França, também a acompanhou até Overath, quando a princesa precisou ficar instalada neste reino durante um período de meses e ao seu lado esteve quando a mesma faleceu.

Por fim, Gabrielle despertou, pois já se encontrava imersa em um mundo de lembranças apenas dela.

— Willian, por algum acaso, o castelo de Felbach fora cedido? Penso em passar algum tempo neste reino, os turcos estão ameaçando a região onde vivo e fora um conselho de meu marido ir para um local seguro, por isso estou aqui em Overath. Não é de meu desejo voltar para a França, meus irmãos verdadeiros estão aqui. O senhor, Genova, Hartwig... Meus irmãos de coração, que valem muito mais do que os vários de sangue legítimos e ilegítimos que tenho — confessou a condessa, contendo-se ao máximo para não chorar. Por pouco não mencionou o nome de Cristina em seus irmãos de coração, mas dela só tinha lembranças, recusava-se a crer que sua irmã de alma estava agora dentro de um mausoléu. Aliás...

— Senhora, claro que não. Mas não vás para aquele lugar! Fique aqui, ora essa — pediu, ou melhor, ordenou.

— Não quero ser um incômodo.

— Minha querida, você nunca será um incômodo para ninguém. Agora mesmo peço dois aposentos, para você e seu filho.

Gabriele sorriu, mas o mesmo sumiu quando se lembrou dele.

— Prefiro não correr o risco de me encontrar com ele. Entende? — perguntou apertando os punhos sobre o vestido bege, amassando aquele rico tecido de veludo.

Willian entendia, ele realmente entendia. Ele pôs-se de pé e segurou as mãos de Gabrielle, puxando ela devagar para se levantar e quando ela o fez, o rei colocou suas mãos sobre os ombros dela.

— Caso eu não o mande para a forca dentro de um mês, ou exilá-lo em outro país ou castelo, ele nunca vai lhe incomodar. Caso se encontre com ele, faça que nem eu faço há muito tempo. Ignore-o completamente.

A dama riu com o comentário e assim eles saíram do gabinete, onde a duquesa de Brauner e o ministro os aguardavam.

Medieval Harp Music — Butterfly

Alberich parou seu caminhar no meio daquele corredor vazio, ouviu um som suave, uma bonita melodia. Olhou para um lado e depois para o outro. Nada. Nenhuma alma viva naquele recinto estava tocando algo de tão singela beleza. Apenas a figura de Davi tocando sua harpa para o rei Saul, estava estampada em uma das artes daquele corredor.

O rapaz seguindo a melodia dobrou o corredor e não demorou menos de alguns segundos para encostar seu ouvido a uma porta de madeira escura, cujas maçanetas pareciam ser de ouro puro. O som ficou mais alto, então devagar ele girou a maçaneta, por sorte a porta não rangeu.

Era a capela de Santa Hidelgarda, o pequeno santuário religioso do castelo, geralmente é mais frequentado a noite. Ele nunca havia pisado naquele lugar.

A bela capela é composta por uma nave lateral, transepto com corredores e absides. O altar principal era completamente dourado está à altura do dossel de mármore branco sustentado por quatro pilares.

De cabeça baixa, Alberich mordeu o lábio, sem olhar sequer para a direita, ou para a esquerda, caminhando lentamente e direto, até que se escondeu atrás de uma das colunas. Estava tão encantado com a melodia pairando no ar, que nem notara que estava perto do mausoléu da falecida rainha Beatriz. Oh, como ele tinha medo de ficar perto de qualquer coisa que lembrasse a morte, mas aquele som o fazia esquecer-se de tudo.

Fechou seus olhos e imaginou-se sentado em uma canoa, passeando pelo riacho ao entardecer. O som dos pássaros, do vento batendo contra seu rosto... sentir o aroma das flores. Por um instante esqueceu-se dos problemas. Do que estava com raiva agora a pouco? Nem ele sabia mais, queria apenas deleitar-se da dança das emoções que estavam sobre ele e nada mais.

Quem será que estava produzindo aquela melodia? Será que era mágica? Alberich ousou olhar através da coluna de mármore branco e avistou no altar religioso, sentada no terceiro degrau da escadaria, uma jovem. Seus cachos loiros estavam disfarçados sob um véu de tecido azul muito fino, seu vestido era branco de seda e mangas curtas, usava uma sapatilha branca com pedrinhas brilhantes, mas fora a pequena tiara prateada por cima do véu denunciou sua posição, seu status e sua pessoa. Tratava-se da Princesa Hannelore, que movendo com graça seus braços, como uma borboleta a voar graciosamente, tocava uma harpa dourada.

Céus, ela parecia um verdadeiro anjo. Os vitrais coloridos da capela, com suas figuras de anjos e a luz de fora que brilhava sobre os vitrais e batiam diretamente ao encontro da princesa, davam-lhe um ar mais mágico, angelical... Divino.

Não lembrava mais de nada, muito menos por que estava ali, porém Alberich sentiu-se abençoado apenas em poder admirar aquela beleza, uma beleza que sem dúvida poucos teriam a sensibilidade de perceber. Nem mesmo quando a moça encerrou a música com sua última nota, ela pôs a harpa ao seu lado e curvou a cabeça, como se estivesse agradecendo ao público.

Reza a lenda que as mulheres sempre possuíram o dom da sensibilidade, por isso nas religiões da antiguidade, onde os povos cultuavam a Deusa Mãe, a figura da mulher era mais propicia a assumir altos cargos no sacerdócio, pois a intuição feminina sempre fora mais aguçada e ativa que a masculina. Um dom natural da mulher, principalmente aquelas ostentam o coração puro e a mente aberta. Tal dom que não viria ser diferente com Hannelore, que de alguma forma sentiu que não estava sozinha naquele rincão.

Ela levantou-se e seus olhos esmeraldas vagaram por todos os cantos, até mesmo os lugares onde as luzes das tochas, presas nas arandelas das paredes não alcançavam. Hannelore ajeitou seu véu azul e desceu as escadarias do altar, caminhou até o centro da capela. Tudo estava tão silencioso, que a princesa conseguia ouvir o barulho das chamas.

— Sei que estás em algum lugar, pois é bom saíres logo. Não colocarei meus pés para fora deste recinto até que apareça — proferiu a princesa movendo sua cabeça para a esquerda, direita e outrora girando o corpo para trás.

Alberich suspirou, não queria passar o dia todo naquele lugar. Se ao menos a princesa estivesse tocando a melodia angelical, talvez ele ficasse. Entretanto não era de seu interesse ficar ali. Igrejas lhe arrancavam certo pavor. Então, o nobre rapaz saiu de trás da coluna com o rosto um pouco corado de vergonha. Será que a princesa ficara com raiva?

— Erga sua cabeça, meu caro — e sorriu. Mas Alberich preferiu se ajoelhar perante a Princesa.

— Alteza — disse com timidez.

— Levante-se senhor, estamos em um local sagrado. Dentro de uma Casa de Deus, apenas ele é superior a tudo. Aqui e lá fora, em tudo — afirmou confiante de suas palavras.

O rapaz se ergueu, deixando que finalmente os olhares se encontrassem. Alberich sentiu novamente a dança das emoções percorrer por sua alma, principalmente quando olhara tão fixamente para aquelas duas esmeraldas, que eram olhos da princesa. Hannelore por outro lado sentiu seu coração palpitar mais forte, por algum instante sentiu que conhecia aquele rapaz. Ela já o vira antes, sim no dia da apresentação dos selecionados, porém todos estavam curvados e a princesa mal havia decorado seus títulos de tão nervosa que estava. Todavia, neste instante era diferente, Hannelore sentiu que realmente o conhecia... Há muito tempo.

— Eu que não deveria ter ficado escondido, mas estava com vergonha — tentou explicar-se.

— Então por que ficou? Aqui e escondido? — indagou com serenidade a princesa.

— A melodia angelical... — Alberich sentiu vontade de se jogar da primeira janela ao dizer aquilo.

— Borboletas — respondeu, Hannelore sentiu seu rosto corar e sua pele clara não ajudava. — Se o senhor está a se referir para com aquela humilde melodia de agora pouco, o nome dela é este. Borboletas. Vou toca-la no baile, tudo precisa ser feito para agradar os franceses, o rei disse que devemos fazer de tudo para que eles abandonem a aliança com Hessen e juntem-se a nós.

— Borboletas? — sorriu. Não se importando com nada que ouviu após a princesa revelar o titulo da melodia.

—A Borboleta simboliza a mudança, é o símbolo da alma, pois da mesma forma que esta abandona a crisálida para voar, o espírito também se liberta do corpo físico para ganhar espaço infinito. Ela representa os estágios da vida, de uma maneira belíssima por sinal, pois do animal pequeno sai o mais bonito dos seres. Assim como a flor de lótus, que nasce da lama para tornar-se a mais airosa das flores. Incrível, não?

Antes que pudesse dizer algo, a duquesa Genova entra na capela.

— Vossa Alteza está na hora de provar de seu traje para o baile e oh... Desculpe-me, não queria interromper — falou um pouco constrangida.

— Não, querida tia, estávamos apenas conversando sobre a música que irei tocar para a embaixada francesa.

— Embaixada e corte? Os Valois chegaram ontem, não lembra?

— Ah claro — Hannelore não ficou muito feliz, tocar para a corte Valois era sinal que precisaria dar tudo de si naquela harpa.

— Minha princesinha, as costureiras terminaram seu vestido — e aproximando-se de Hannelore, analisou seu corpo. — Minha querida, os tecidos ficarão ótimos em você. Vamos, vamos, vamos!

— Mas eu...

— Mas nada mocinha, vamos logo — e pegando Hannelore pelo ombro a empurrou para fora. Alberich que ficara para trás pôs a mão na boca para conter o riso, quem visse as duas imaginaria logo de cara, mãe e filha.

Hannelore ainda tentou olhar para Alberich, porém já se encontrava fora da capela e em poucos minutos nos seus aposentos. Mas a cabeça de Hannelore ainda estava pensando naqueles olhos verdes acinzentados.

As vozes de Edith, Wanda e até Cora, atrapalharam-se, impacientes por lhe dizer como estava bela, como o vestido era perfeito e lhe ficava tão bem, principalmente com o bordado nas sais. Genova colocou um fim naquela discussão em um estalo de dedos, literalmente.

— Chega, comportem-se todas.

— Perdão Vossa Graça — responderam em uníssono. Onde estava Dominique por sinal?

— Senhora, minha prima, se me permitir o elogio, seus pretendentes irão pensar que estão perante a um anjo — comentou Edith.

— Aposto que até os príncipes que vieram ficarão babando pela senhora, minha princesa — afirmou Wanda.

— Alguém viu o Delfim Orlando, príncipe da França? Céus mais que monumento — Cora percebeu que dissera alto demais e as outras damas puseram-se a rir.

— Minha querida, nem tente — disse Genova dando um olhar sério para a italiana de Milão. — Hoje jantarás aqui em seu quarto, Hannelore. Acho que será muito mais bonito, se todos admirarem e conhecerem a Vossa Alteza no baile. Onde estarás deslumbrante. O que acha?

— Tia, se apenas isto me afastar de um alvoraçado de pessoas na mesa dos banquetes hoje, eu aceito.

— Neste caso, meninas, eu marquei de tomar chá com as Rainhas, vistam a princesa — Genova se referia as duas rainhas presentes no castelo, Catarina e Ana.

As aias puseram em Hannelore, um novo vestido branco, a mesma se declarou cansada e pediu apenas que uma das aias fosse buscar sua harpa na capela, para ela ensaiar um pouco mais antes de dormir. Espiar as aulas dos filhos do casal Belshoff, seus antigos guardiões, lhe ajudaram muito.

Quando já se encontrava sozinha, Hannelore apenas ficou lembrando-se do rapaz. Nem perguntou o nome dele, mas continuava sentindo que já o conhecia. Sentou-se onde pudesse admirar a vista de seu quarto. Uma vista admirável, com longínquos vales a perder de vista, uma parte já coberta de neve e outra ainda verdejante. Um belo fio de água prateada descia até o vale, alargando na medida em que caía, até desaparecer numa nuvem iridescente num lago muito azul.

Por um instante, a princesinha pode sentir que estava aonde deveria estar.

Notas finais
❤ Fiz a apresentação de meus personagens justamente aqui, para que no meu capitulo do baile, eu foque apenas nos rapazes, principalmente aqueles que já estão meio sumidinho kkk. Mas gente, entendam que o Alby ainda nem tinha dado sinal de vida, enquanto muitas aqui já tiveram seu personagem com um capitulo próprio. Mesmo assim, vou tentar fazer com todo carinho os meninos de vocês, os que eu tomo conta, pois o resto é com a Meell. ❤ Lembrem-se girls, todos os meninos de vocês terão um desfecho na história e nós, as autoras, temos apenas que agradecer pelos vossos personagens maravilhosos. ❤Sobre a Gabrielle, fiquem tranquilos, ela é do bem, apenas é maluquinha. Digamos que ela é um pouco Dominique, versão ruiva e adulta. Para criá-la, eu me inspirei muito em uma amiga da vida real. Carinhosa, divertida, muito sincera, capaz de mandar uma pessoa ir pro inferno com um sorriso hahaha. Gabrielle viria ser futuramente tia-avó de Mary Stuart, rainha dos escoceses e bisavó de Isabel Báthory, a "condessa sangrenta" da Hungria. Gente, amo essas curiosidades, sério! Mesmo que Gabrielle seja da minha mente, eu já imaginei tanta cena pra ela. Enfim, espero que tenham gostado e provavelmente, a Meell postará o capítulo dela na terça e eu tentarei postar o meu até próximo sabádo. Tentarei. ❤ Bastou o Otto sumir por algum tempo que a energia boa está no castelo. Hahah, tadinho, mas é a verdade. Willian está começando a superar as coisas e voltando a ser o que era antigamente. Quem sabe em breve, ele largue o preto de suas roupas? E o Alby, eu simplesmente me encantei quando li a ficha dele, aliás, assim como várias que li. Vi que assim como ele poderia ser aquele garotinho medroso, poderia ser também bondoso e fiquei toda derretida. "Estaria disposto a pagar qualquer penitência, apenas para não sofrer essa chicotada em minha alma de presenciar uma dama tão bonita chorar". Um dos meninos de vocês, dirá isso no meu capítulo. Quem será? Quem será? Apenas no Globo Repórter. Hahaha. Beijos e até a próxima.