The Bastard Heir
21 Capítulo 17 - Vozes na Multidão / PARTE UM
Notas iniciais
Vozes na Multidão
Savannah & Ernest
Imagine Dragons – On Top of the World
Agarrou-me a mão que oferecia, enquanto suas pernas se apoiavam na perda e subia sem hesitar. Não precisei utilizar muita força, pois Savannah conseguiria por si mesma subir até o rochedo, eu apenas fiz-lhe uma gentileza. O pôr-do-Sol se aproximava, mas ainda tínhamos uns quatro dedos até ele se ir, ou seja, mais meia hora de tempo para explorar toda a costa norte. A maré subia lentamente, as águas estavam geladas, porém do alto do rochedo nós podíamos caminhar tranquilamente que o vento fraco não podia elevar nenhuma gota de água marinha logo abaixo, na arrebentação das ondas. O céu estava claro, tão claro como se o Sol o tivesse engolido todo. Mas fazia frio. Então era mais provável que a claridade viesse das nuvens que nos cobriam. Passageiras, indo para a Rússia.
Soltei, constrangido, sua mão. Não era comum segurá-la por mais que o necessário. Evitávamos o contato físico. Ele sempre me deixava ansioso, e se a ansiedade me tomasse, começaria a tremer e a soluçar, de um modo incontrolável. Savannah tinha medo desses ataques de ansiedade, por isso mantínhamos uma regra base para todas as nossas aventuras: se eu começasse a me sentir angustiado ou de alguma forma sufocado, então daríamos um tempo até que tudo se estabilizasse. Da última vez, ela saíra correndo sem rumo e só a encontramos após meu ataque, no local mais distante de toda a fazenda de seu pai, perto da fronteira com Overath.
– Olhe, os pássaros. – ela apontou, acima de minha cabeça. Ergui meus olhos, protegendo-os da claridade com as mãos. Ela tinha razão, haviam pássaros migratórios cruzando nossos céus. Provavelmente fugindo do inverno, em direção ao Sul. Tinham penas brancas e longos pescoços.
– São patos. – disse-lhe, enquanto deslizava os olhos pelo céu, seguindo o formato em V que o grupo fazia. Li em um livro que aquilo ajudava a todos a voar. O líder fazia mais força que os outros, lançando jatos quentes de ar para os de trás, e assim sucessivamente, o que ajudava-os a não se cansar tanto. Eles trocavam constantemente de líder, o que significava que a ajuda era mútua e sem preferências. Uma utopia.
Savannah continuou a acompanhar os patos até que desaparecessem entre as nuvens. Por minha vez, sentei-me de pernas para o mar, enquanto tirava do bolso o pedaço de fundo de garrafa, o qual havia enrolado em pano para que não ocorressem acidentes conosco. Ela se assentou junto a mim, as pernas dobradas e a calça do macacão erguendo-se acima dos tornozelos. Estava pequeno, porém seus pais não podiam arcar com as despesas de uma nova roupa de brincar. Savannah sempre usava as velhas peças de seu baú para se aventurar comigo.
E fora algo inteligente da parte de seus pais, afinal ela nunca conseguia voltar para casa sem rasgar uma manga, um joelho ou manchar completamente a camisa de algo que não sai com a água. Sendo assim, as roupas que Savannah utilizava comigo eram surradas, sujas e antigas. Ela vestia as melhores para ir a missa ou a cidade fazer compras com sua mãe, a Senhora Reinventon.
O vento atravessou-nos e vi-a estremecer. Era fácil observar o mundo com o canto dos olhos, eu normalmente o fazia, pois minha dificuldade de encarar as pessoas me obrigava a vê-las de um ângulo menos constrangedor. Savannah nunca se importou em não ser olhada diretamente por mim, assim como eu nunca reclamei de suas roupas feias. Como haveria de reclamar? Ela já me fazia feliz demais para que fosse possível pedir-lhe algo a mais. Embora eu não sorrisse, minha mente sorria.
Arranquei o sobretudo que Tomas insistira em me vestir. Meu tutor era como uma segunda mãe, preocupado demais, pegajoso demais e falante demais. Eu normalmente fugia de Tomas assim que acabávamos nossas aulas. Desde que me tornei o órfão Senhor Vanskultter, tenho de manter a fortuna da família com sabedoria e para isso o governo me enviou Tomas, para que administrasse a mansão e minha criação, assim eu não precisaria ir para qualquer orfanato e poderia cuidar das questões econômicas de minha família com independência. Ou pelo menos na teoria, pois quem cuidava disto também era Tomas. E sem muita honestidade, se você quer saber.
Coloquei o sobretudo sobre seus ombros, brancos e estreitos. Ela ergueu o rosto para mim, mas como eu não a olhava, logo se desviou novamente para o mar. Sua cabeça loura esquivava para cima e para baixo, enquanto ela se balançava para frente e para trás. Seus seis anos de idade brilhavam no rosto pálido. Os olhos azuis de uma intensidade que eu jamais encontrei em outra pessoa observavam as ondulações e o ulular das correntes. Savannah desviou o rosto para mim, e pegou-me a observá-la diretamente. Nossos olhos se sustentaram por apenas um segundo, antes que eu voltasse a cabeça para o céu. Não pude ver o que ela fazia, porém emitiu um som direto do fundo da garganta.
– Um cavalheiro – ela disse, vestindo o casaco grande. Quando ousei olhar pelo canto dos olhos, notei que suas bochechas estavam ruborizadas e que tinha um leve sorriso a brincar nos lábios. Então, sorri por dentro e voltei a encarar o céu. Até que ele perdesse a graça e passasse a ser tão feio quanto o vento que soprava como uma obrigação sobre nós. Tudo parecia preguiçosamente forçado a se curvar diante do cenário. As ondas, o céu, o vento. Inclusive eu e Savannah. Todos preguiçosamente encaixados em seus contextos.
Nossas explorações sempre acabavam com reflexões silenciosas. No começo, Savannah tentava romper meus devaneios com perguntar aleatórias sobre qualquer coisa que tivéssemos visto durante a exploração. Eu tinha quase todas as respostas na ponta da língua, o que parecia impressioná-la um pouco. Com o tempo, ela compreendeu que aquele era o único tempo do meu dia em que eu podia sentar e permanecer em silêncio, imóvel e eterno. Ela respeitava esse momento, e tratava de esperar. Às vezes consegui encontrar o caminho dos pensamentos livres, porém era difícil para ela se desligar completamente do mundo real. Por outro lado, para mim era como respirar.
Quando estava ponderando, podia pensar em qualquer coisa. Tudo era permitido, inclusive os assuntos idiotas. E, acredite, eles eram os que mais preenchiam o vazio de minha mente. E se chovesse chá? Como seria um colchão cheio de ar? Ele flutuaria? Savannah poderia usar um vestido de doces? A Igreja pode realizar eventos na cidade sem pedir dinheiro aos moradores? Perguntas bobas para as quais eu já tinha resposta formulada, porém insistia em repensar, ponderar, questionar, flexionar. E esta última era a gota d’água após algumas horas.
Às vezes, eu imaginava um balão em meio interior, murchando rapidamente, sempre que eu olhava para Savannah e a via brincar com os próprios dedos, impaciente, com o olhar atravessado. Gostaria que ela conseguisse pensar um pouco, era um exercício saudável. Mas ela não gostava disso. Ela nunca lera um livro sequer e suas perguntas eram as mesmas que eu fizera quando tinha três anos de idade.
Não que Savannah fosse burra, ela não era. Mas intrigava-me que as crianças normais fossem tão atrasadas quanto ela. Quer dizer, eu já sabia ler. Já lera toda a prateleira de Enciclopédias em minha biblioteca. Tomas me entregava livros que adultos não se aventurariam a ler. Todos diziam que eu era muito inteligente para minha idade, a única coisa que me faltava era interação social. Algo que eu não podia dar mesmo que quisesse, algo que eu realmente não queria. Savannah, como todas as regras possuem, era minha exceção. A bela exceção de uma teoria inabalável de isolamento da sociedade. Eu não odiava o mundo, apenas não entendia as pessoas. Por que elas jogavam lixo onde as placas diziam para não jogar? Por que atravessavam a rua quando as carruagens estavam vindo? Por que urinava em paredes, mesmo que fosse contra a lei? Não entendia, simplesmente não entendia.
– Por que o céu muda de cor? – ela perguntou, baixinho. Era uma tentativa, eu pude notar. Estava tentando me tirar de meus devaneios para que tudo aquilo terminasse mais cedo. Como estava frio e na noite anterior pude ouvir os gritos na cada dos Reinventon, eu abri os olhos e encarei o céu. Teci minha explicação.
– O Sol emana luz, e a luz possui várias cores juntas. Se você possuir um prisma e uma sala em escuro, com um único feixe de luz, poderá colocar o prisma na frente da luz e assim a verá se separar. As cores são iguais às do arco-íris. Após a chuva, existe gotículas de água no ar, vapor. Ele flutua e reflete a luz e suas cores. A cor azul é capturada com maior intensidade pela água. Por isso o céu parece azul. – abaixei os olhos para as ondas, e a maré havia subido consideravelmente.
– E por quê está tudo branco agora? Deveria estar laranja, como sempre.
– As nuvens escondem o céu. – respondi imediatamente, sem precisar pensar muito. – Provavelmente choverá mais ao leste. Talvez na União Soviética. – e então virei o rosto para ela, mas não diretamente ela, e sim seu queixo. Mirei-o fixamente. – As correntes de vento vêm do Mediterrâneo e empurram as nuvens para o leste. Assim como o Mar do Norte empurra a chuva para cá. – eu havia explicado isto a ela ontem.
Savannah balançou lentamente a cabeça, e sustentou meu olhar, com seu queixo fino e delicado. Sua pele era aveludada, macia e tão branca quanto os mais nobres senhores. Ela não tinha as queimaduras de Sol que a maioria dos fazendeiros possuíam. Savannah não trabalhava no campo, pois seus pais simplesmente não se importavam com isto. A fazenda da família era tão pequena que chegava a ser uma vergonha diante de todos os grandes donos de terras. O Senhor Reinventon deixou de ser um homem importante para se tornar um miserável viciado em caça e abate de animais selvagens.
– E qual é mesmo aquela história sobre as cores no céu?
– As Lágrimas do Céu. – corrigi, limpando a garganta. Já contara aquela história a Savannah ao menos um milhão de vezes, e ela sempre arrumava um jeito de pedi-la novamente. Não sei se ela gostava da história em si, da música por trás dela ou simplesmente de me ouvir falando. Espero que seja as primeiras alternativas. – O firmamento é vivo.
Quando empalidece, podemos vê-lo sofrido.
Ao anoitecer, mostra sua calma.
De manhã, emana a alma.
O azul baila, entre o sorriso de donzela.
E a frieza do sentinela.
Mas que dor há quando vem a nuvem.
E apaga as cores que de dia acalmam o coração.
Maior dor, ainda, é quando notamos que o próprio céu sente.
Chora por não te ver contente.
Savannah sorriu, batendo palmas quando terminei. O céu escurecia violentamente agora, como se ouvisse e estivesse furioso com minhas notas desafinadas. Nunca fui bom cantor. Savannah por outro lado tem a voz dos anjos, uma melodia doce. Não como o mel, não como chocolate. A voz dela é como manteiga quente em pão recém assado. É aquilo que temos todo dia, e mesmo assim não nos fartamos nunca. Mas ela não conhecia muitas canções, além daquelas que aprendera na Igreja, junto com as demais crianças da cidade. Por mais que eu não me envolvesse com religião e não tivesse interesse nela, gostava de ouvir os cronicões de Savannah.
E como eu havia lhe cantado um poema, ela procurou dentro de sua mente algo que se equiparasse.
– Três moças cantavam d’amor.
Mui fremosinhas pastores
Mui coitadas dos amores
E dizendo, mia senhor:
“Dize, amiga, comigo
O cantar do meu amigo”.
Relaxei os ombros, fechando os olhos para ouvi-la. Não que eu estivesse precisando daquilo, claro, mas era sempre bom apreciar as coisas sem notar o resto. Assim como é melhor observar um quadro sem ouvir música, é ouvir uma cantiga sem ver o céu e o crepúsculo.
– Todas três cantavam mui bem,
Como moças enamoradas,
E dos amores coitadas
E diss’a por que perco o sén:
“Dize, amiga, comigo
O cantar do meu amigo”.
Abri os olhos, encarando-a, enquanto tossia profundamente. Estava com as bochechas vermelhas e tocava o peito, como se pudesse expulsar a tosse de dentro dos pulmões. E então parou, sorriu e voltou a cantar. Mas coloquei a mão diante de sua boca, sem tocá-la.
– Já está bom – resmunguei, não querendo que Savannah se esforçasse além do que podia. A última coisa que eu queria era que ela pegasse qualquer resfriado ali, ao meu lado, e que fosse minha culpa. Por tê-la instigado a cantar.
– Desculpe – disse ela, calminha. Desloquei o peso do corpo de um punho para o outro e então virei o rosto em sua direção. Não era como se eu quisesse lhe retirar as desculpas, não era culpa dela, era minha. Mas não via como aquilo a impediria de cantar, por isso, apenas deixei que continuasse assim, até que o silêncio me irritasse.
Por fim, ergui-me e estiquei o corpo. Eu normalmente iria prosseguir até o céu se escurecer por completo e Savannah precisar voltar para sua casa, porém como o ambiente estava desagradável para a reflexão, apenas estalei os dedos e olhei as ondas, superficialmente. Não estava animado por retornar mais cedo para casa, mas o inverno se aproximava e era melhor que Savannah se abrigasse ao lado da lareira, principalmente com aquela tosse.
Veja bem, eu normalmente penso mais em mim que nas outras pessoas. Mas com Savannah é diferente. Ela é minha única amiga em um raio de 200 quilômetros. Todos os outros ou são meus servos, ou meu tutor Tomas, pelos quais não tenho tanto apreço. Estiquei a mão para ela, e Savannah a agarrou, se apoiando em mim para levantar. Juntos, descemos o rochedo e alcançamos a praia, onde a areia molhada recebia ondas leves de mar. A maré subira muito, mas não cobrira totalmente o lugar. Graças a isso, nós podíamos descer com segurança.
A volta para casa era a parte mais divertida de toda a tarde. Mesmo com a Lua já no céu e as estrelas brilhando, a floresta era clara. Acho que “floresta” é um equívoco. Bosque seria muito melhor. Quem colocou o nome de Floresta das Sentinelas com certeza não sabe o que é uma floresta. As árvores eram altas, porém espaçadas, permitindo que o céu surgisse. A trilha estava bem demarcada, pois a usávamos todos os dias, inclusive domingos. Hoje, era quarta-feira.
Savannah gostava de saltitar, cantarolando uma cantiga sobre fadas e duendes da floresta. Ela dizia que sentia-se como uma dessas criaturas, sempre que saía no crepúsculo comigo, para perambular até a porta de casa. Seu pai a repreenderia por ficar tanto tempo longe de casa, porém ele não me achava totalmente uma má influência. Sabia que minha relação com Savannah poderia ser frutífera. Poderíamos casar, e ela seria então uma condessa de Hessen, mesmo que senhora de terras infrutíferas e abandonadas. Era essa a esperança que ele alimentava que permitia que sua filha mais nova retornasse após oito horas inteiras explorando uma floresta de 16 quilômetros, com os perigos de bandidos, caçadores, javalis e o mar em tempo de tempestade.
Se eu pensava em me casar com Savannah? Pode-se dizer que sim. Quem mais poderia? Não havia meninas de minha idade ao redor de minhas terras. Todos os outros viviam em burgos, distantes e pobres. Os nobres não se interessariam por um conde de oito anos de idade, órfão e com metade da riqueza que possuíam. As únicas coisas de valor eram minha casa e minhas terras.
– Ernest, você já sonhou que estava voando? – ouvi-a perguntando-me. Ergui a cabeça, mas não olhei em seus olhos. Fiz que sim com a cabeça. Apenas com ela eu conversava. Dificilmente dizia mais de quinze palavras para Tomas ou qualquer outra pessoa. Para Savannah, eu era capaz de cantar. – Eu também. É tão estranho.
– Há pesquisas que comprovam que quando sonhamos que estamos voando ou caindo, significa que paramos de respirar durante o sono e nosso cérebro está tentando nos acordar. Por isso a sensação de que estamos caindo, para que nos assustemos e acordemos, e assim voltemos a respirar. – expliquei, calando-me em seguida. Sabia que era uma informação que Savannah não precisava, ela nem deveria querer saber. Fizera um comentário bobo, como muito, quando temos um amigo, fazemos. Porém eu não podia deixar de lhe dizer. De lhe informar. De colocar algo em sua mente.
– Interessante – ela disse, embora fosse mentira. Em seguida virou-se para a trilha e continuamos caminhando em silêncio.
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