The Bastard Heir

22 Capítulo 18 - Terra, Pena e Vinho


Notas iniciais
Boa leitura.

Capítulo 18

Nikolaus Heidelberg

Panic! At the Disco – The Ballad of Mona Lisa

Rolava para um lado, e então rolava para o outro. De costas ou de barriga, com ou sem o travesseiro. Os cobertores estavam no chão. Pela janela, a luz da Lua lhe dizia que não, ele ainda não podia sair do quarto. Encarava o teto com firmeza, quase como se pudesse corroê-lo com a força de vontade. A boca estava espremida em apenas uma linha, fina e branca, o sangue não circulava. As mãos úmidas de suor e a nuca molhavam o lençol. Bufou, sentindo o calor derreter seus ossos. A maldita janela não era aberta há anos, e emperrara com impressionante vigor. Mas isso lhe deu horas extras para pensar em quem havia deixado para trás.

Em Lette, Arabella e Susanne. A pequena Quieza, que mal falava. Suspirou. Levantou-se, caminhou até a escrivaninha e acendeu a vela. Pegou pena, tinteiro e papel. Colocou o pulso sobre a folha, e umedeceu-a com o suor. Olhou para as linhas.

Anne, querida irmã, estou escrevendo para saber como estão nossos irmãos e nossos pais. Como vai seu filho e seu esposo? Espero que a saúde de ambos não tenham falhado enquanto estive fora. É apenas uma semana e já sinto a falta sufocante de vocês. Gostaria de estar ao seu lado, talvez embalando Quieza e Arabella em uma cantiga de ninar. Até mesmo Félix, sinto falta dele. Por favor, assim que puder, responda. Estou muito bem aqui no castelo. Embora a família real esteja em momento de luto, Hannelore é tão bonita quanto todos previam e parece adorável.

Lançou um olhar frio e grosso para a frase e respirou fundo. Odiava mentir para Susanne.

Um grande e demorado abraço, de Nikolaus de Heidelberg.

Esperou a tinta secar, dobrou o papel, enviou-o em um envelope e selou com cera e o símbolo da Corte de Overath, que tinha sempre ao seu lado, pertinho do tinteiro. Era uma carta curta, mas o suficiente para dizer a Susanne que não estava aguentando aquele lugar. Desde que chegara sofreu com o calor de seu quarto, com a estranha falta de comunicação da princesa e suas damas, com o luto e todo aquele ambiente cheio de olhares furtivos. A biblioteca era um paraíso, sim, poucos iam para lá e o silêncio reinava, porém de todas as vezes que se aventurou entre os corredores, encontrou sempre duas das damas de Hannelore, uma loura e outra morena. A loura o olhava por cima dos óculos de leitura como se fosse um intruso asqueroso. A morena saltitava até seu lado e lhe dava um cutucão no ombro.

– Olá, Laus.

– Nikolaus. – corrigia – Olá, Dominique.

– Nique. – corrigia.

Não era de se espantar que estava se irritando com tudo aquilo. A princesa parecia um cordeirinho fugindo do abate, como se temesse que os seus selecionados pudessem machucá-la. O rei que o diga, não viu a face do homem em jantares ou pelo castelo, apenas em pronunciamentos reais e durante o funeral. Todos os criados, guardas e membros do conselho tinham de vestir o negro do luto, em homenagem a falecida esposa do irmão do Rei Willian, seu comandante Otto. Nikolaus queria apenas sair dali, poder ter um tempo para pensar em qualquer outra coisa. Lutou tanto para conseguir a liberdade de sua família e agora não via a hora de voltar para sua vida pacata e controlada. Pensar exigia esforço que ele detestava fazer.

Sentiu uma lágrima escorrer no canto dos olhos e tocou-a com rapidez, afastando qualquer indício de choro. Como se de repente fosse visto por todos os membros da Corte de Overath, jogou-se contra a cama e escondeu o rosto em meio ao travesseiro. Parou apenas para respirar. O problema não era o castelo, a janela, a princesa ou as damas. O problema era a distância entre ele, Susanne, Arabella, Lette e Quieza. Não havia o que lhe torturasse mais que a saudade. Palavra estranha na língua, nunca passara mais de três dias longe das irmãs. Pensou em Susanne, encolhida em seu quarto, chorando baixinho para não acordar o marido. Pensou em seu bebê que logo morreria enfermo. Pensou em Arabella e todas as aulas que a mãe deveria estar enfiando na cabeça da garota, esmagando os miolos dela. Pensou em Lette, no sótão. E não se aguentou. As lágrimas vieram, uma após a outra, até que se unissem e formassem um mar quente. Ofegou, soluçou e bufou. Enfim, fungando e limpando os olhos com a manga da camisa de linho. Pousou a cabeça no travesseiro, a umidade das lágrimas se misturando com a umidade do suor.

– Senhor Heidelberg, precisa de alguma coisa? – ouviu ao pé da porta a voz de uma criada. O sotaque espanhol era intenso. Virou a cabeça por cima do ombro e ela fitou seus olhos vermelhos, antes de desviar-se deles e encolher os ombros – Vi a luz da vela e pensei que precisasse de algo...

– Tudo bem. Se puder, traga-me água e um pano. – pediu, em seguida sentou-se na cama e suspirou. – E envie esta carta para minha casa – disse, apontando a escrivaninha. A criada assentiu, adentrando o quarto e segurando o envelope com cuidado. – Que horas são?

– Não mais que quatro da manhã. – ela olhou pela janela. – Este quarto está bem abafado, gostaria que eu...

– Não importa – cortou-a, de imediato. – Por favor, vá embora. Apenas traga o que pedi e vá embora.

A mulher assentiu, curvou-se, deu meia volta e partiu. Nikolaus não se sentiu mal por falar daquele modo com ela. Não estava em seu melhor momento. Queria ficar sozinho, queria se refrescar, queria poder sair do quarto e perambular pelo castelo, sem rumo. Queria suas irmãs. Será que se pedisse a Dominique, ela poderia dizer a Hannelore para trazer Susanne, Arabella, Lette e Quieza a Corte? Suas irmãs eram educadas e nobres. Suspirou. Seria bondade demais da parte dela. A princesa não deveria pensar em outra coisa além do próprio nariz. Deveria estar há dias trancada no quarto, apenas pensando em como aparecer e dizer que não quer mais se casar com nenhum dos rapazes.

E, em meio a tudo isso, existe o amor.

Nikolaus sempre acreditou no amor, e ainda acredita. Assim como ama suas irmãs, sabe que irá amar sua esposa, e que só se casará por amor. Quer fazer uma pessoa feliz, e quer ser feito feliz por esta pessoa. Mas o amor é mais que isto. Se fosse o caso, abriria mão de sua felicidade pela felicidade de quem ama. Isto também é amor. Ele quer amar. Quer amar alguém além de si mesmo, não suas irmãs, nem seus pais. Alguém.

– Aqui está, senhor Heidelberg – a criada voltou ao quarto.

Ergueu o rosto e a encarou, até que desaparecesse pela porta. Nikolaus levantou-se, caminhou até a bacia sobre o criado e molhou a toalha de rosto. Limpou a nuca, os ombros, os cabelos. Mergulhou as mãos na água e arrancou as meias. Pela janela, podia ver a Lua. Podia ver o céu, sem uma estrela sequer. Piscou, atônito. Seus dedos agarravam com força a madeira, enquanto o pano pingava no carpete. A mão, como um raio, acertou a bacia e ela voou, água e porcelana para todos os lados. Nikolaus olhou para o chão, para os pés descalços. Pisou com delicadeza sobre os destroços da bacia tão bonita. Alcançou a escrivaninha. Lançou o candelabro para a parede, destroçando as peças de prata e cera. Ainda em que a chama havia se apagado. Agarrou os puxadores das gavetas e as arrebentou, atirando todos os objetos que ali estavam. Saltou sobre a cama, até o armário. Dançou com as roupas, formando um mar de peças sortidas pelo chão. O barulho que fazia chamou a atenção de guardas, porém enxotou-os com rispidez, jogando um travesseiro pela porta afora. Correu até as paredes, atirou os quadros, pisou-os, rasgou-os. Ergueu o vaso cheio de margaridas. Ao cair, espalhou terra, água, pétalas e folhas. O sangue fervia pela cabeça de Nikolaus, fluindo por suas veias com a adrenalina impulsionando-o.

Pela janela, a Lua desaparecia. Apreciou seu trabalho. O carpete estava molhado, cheio de roupas, penas de travesseiro e terra. Haviam cacos de porcelana em ambos os cantos do quarto e um candelabro em pedaços. Havia suor por todo o seu corpo e havia uma risada brotando do fundo de sua garganta, não, mais profundo ainda, em seu estômago. Era uma risada pouco humana, quase maníaca.

– Laus, você faz muito barulho. – ouviu, ao pé da porta.

Virou-se num clarão e atirou o travesseiro mais próximo em seu corpo. Dominique se curvou, porém foi atingida no rosto. As penas voara, a menina cambaleou até cair no chão, de costas. Demorou alguns segundos para se erguer novamente. Ela piscava, segurando o travesseiro. Olhou-o por mais alguns segundos, antes de revidar o ataque.

– Isso é trapacear! – ela gritou, atirando-se sobre as roupas e agarrando um dos travesseiros que quase se perdiam debaixo da cama. No chão, foi fácil atingi-la nas costas, porém ela foi rápida e conseguiu a altura perfeita para atacá-lo no rosto. Nikolaus sentiu tontura, o impacto o fez cambalear, entretanto estava rindo. Rindo com força. A dor chegava e as cordas vocais ardiam. Mas continuou a rir. Dominique soltou uma gargalhada de moça, uma das músicas mais doces que um homem pode ouvir. Nikolaus começou a jogar as roupas.

Criados se amontoavam à porta do quarto. Outros selecionados também vieram para observar. Dominique atirou um calção marrom, e ele revidou com um par de botas de cavalgar. Sua camisola de dormir estava molhada em algumas áreas e em outras estava suja de terra, formando a lama e se espalhando pelos braços e pernas da menina. Mas ela ria, e os cabelos balançavam sempre que caía ou levantava.

Dominique então atirou um bolo de terra na direção de um dos telespectadores, e acabou acertando o peito de Edith. A loura abaixou a cabeça para a camisola e em seguida para Dominique. A fúria riscava seus olhos. Abaixou-se, pegou uma camisa de mangas compridas azul e lançou-a. Dominique desviou e mostrou a língua para a outra garota. E assim Edith entrou no quarto. Nikolaus não soube o que pensar no instante, porém logo estava atirando mais e mais coisas em ambas, e elas também atiravam. Outras roupas, terra e sapatos acertaram os observadores e eles, um a um, entravam no quarto para revidar. Nikolaus correu e sentiu uma lasca de porcelana entrar no peito de seu pé. Atirou-se sobre a cama e se ergueu. Agarrou um dos travesseiros e jogou-o em direção a um dos rapazes por perto. Os criados corriam, jogavam jarros d’água, panos, até mesmo a terra em vasos próximos. Dominique se perdeu em meio a confusão, junto de Edith e de todos os rostos que Nikolaus ainda conhecia. Ele saltava na cama, desviava de tudo e jogava os lençóis, as cobertas, mais e mais coisas aleatórias.

Pela janela, um fio fraco de luz começava a nascer no horizonte.

Quando a os guardas entraram no quarto e olharam para todos, constataram que deveriam contar tudo imediatamente ao primeiro ministro, e assim saíram correndo pelo corredor. Nikolaus caiu sentado na cama, com as pernas cruzadas. Uma criança olhando ao redor, após uma brincadeira que esgotara sua energia, as pessoas que participaram dela. Os criados curvaram-se e começaram a recolher as roupas e sapatos. Os rapazes nobres saíram do quarto com rapidez, e entre eles se foi Edith. Olhou ao redor.

– Dom? – chamou, porém não obteve resposta – Você está aí?

– Psiu! – ouviu fraco, porém definitivamente foi um “psiu”.

– Ei, onde você...? – não terminou de falar, sentindo os chutes e socos no colchão. Inclinou-se, colocando a cabeça para baixo e olhando debaixo da cama. A menina pequena sorria. Ela atirou as mãos em seu rosto, porém conseguiu desviar com rapidez. Puxou-a com força até que fosse arrastada para a claridade. – Você!

– Eu! – ela riu, tentando se desvencilhar, deitada de costas no chão. Nikolaus ignorou a camisola molhada, os traços reveladores.

– Isso é trapacear! – disse, e gargalhou.

– Eu sei! – ela respondeu, levantando-se e se jogando sobre a cama. Os criados continuavam a limpar o quarto, porém era muito mesmo para os sete que estavam ali. Dominique balançava as pernas, deitada de barriga, apoiada nos cotovelos. Seus cabelos caiam sobre as costas, formando uma cortina ao seu redor. Ela tinha uma mancha de terra no queixo e algo parecido com pétalas amarelas entre as madeixas cacheadas. Mas Nikolaus não se importou com isso.

Ofegava, porém estava mais fácil respirar agora. O quarto nem estava tão quente.

– Sabe – ela disse, sorrindo – Você não é tão chato, Laus.

º º º

Artic Monkeys – Knee Socks

Soprava o vento, forte. O inverno se aproximava de Overath, e a geada começava, porém ainda era manhã. As flores estavam dormindo, junto com a maior parte dos animais da floresta. Teria o dia todo livre para passear pelo castelo, enquanto a princesa visitava seu tio e lhe prestava suas gentilezas, em luto. Aquilo começava a irritar não apenas ele, como também alguns rapazes que percorriam os mesmos lugares que ele. A falta de proximidade de Hannelore para com eles os deixava impacientes. Estavam ali para disputar sua mão, algo extremamente nobre, se dado que ela era uma mulher e normalmente os homens não correm atrás de mulheres, e sim o contrário. Além disto, os dias passavam apenas em espera, sem qualquer outra coisa para fazer. Os nobres da Corte não queriam socializar, os criados precisavam trabalhar, a biblioteca tinha livros entediantes, nada como a literatura e a aventura, apenas páginas cheias de anotações sobre anatomia, geografia, genealogia e tratados da Igreja e do Reino.

Estava caminhando em frente ao castelo, aonde as carruagens paravam, os nobres desciam e alguns plebeus vinham e iam vendendo suas frutas, seus trabalhos manuais. Em uma semana, comprou duas camisas de um tecido leve, porém impermeável ao Sol forte, vindo diretamente da Ásia, uma caneta tinteiro com limpador embutido, óleo do Oriente (que pensou em dar a princesa, porém agora não via porquê fazê-lo), papel de carta e balas.

Após o incidente com... Bem, tudo o que estava em seu quarto, a noite terminou tranquila. Conseguiu dormir deitado em um dos divãs do Salão de Entrada, onde alguns criados lhe trouxeram almofadas macias, cobertores quentes, leite e até mesmo brincara com algumas crianças que perambulavam os corredores. Deveriam ser filhos de criados ou nobres, nascidos ali. Estavam tão à vontade que mal o notaram, mas quando o fizeram, logo se amontoaram ao seu redor, fazendo inúmeras perguntas.

As quatro horas de sono que teve, até ir almoçar, foram recompensadoras. Claro, nada era como dormir a noite inteira, porém para alguém com insônia tremenda, Nikolaus tivera sorte. Agora, tinha o resto da manhã e mais a tarde para fazer o que quisesse, ou seja, andar de um lado para o outro, esperando o jantar, mais um dia terminado e outro de espera pela princesa. A pior espera era aquela da qual não temos poder para apressar.

– Pensei que estaria sozinho. – ouviu em suas costas. Virou-se, deparando com Edith, uma das damas de Hannelore. Ela segurava um livro pequeno entre as mãos, mas não o lia. Seu chapéu a protegia do Sol, mas também escondia o rosto. Os cabelos louros estavam trançados sobre o ombro e ela vestia um lindo conjunto de saia e blusa vermelha. Ela tinha uma voz imponente, como sua mãe, sabia que se ela lhe desse uma ordem, começaria a obedecer sem antes notar o que estava fazendo, apenas pela força de suas palavras.

– Senhorita – ele fez uma mesura pequena, não a mesma que faria à família real, mas o suficiente para uma dama. – Que prazer vê-la.

– Imagino – ela deu de ombros, dispensando os comentários lisonjeiros. Era o tipo de dama que não se deixava abalar pela gentileza. Nikolaus achava aquilo forte, as mulheres normalmente se entregam às palavras enfeitadas.

– Gostaria de me acompanhar nesta caminhada?

– Decerto. – Edith caminhou até parar ao seu lado e pousou a mão sobre seu braço. Nikolaus a pegou com cuidado e assim começaram a caminhar. O silêncio reinou, enquanto o jardim terminava, dando espaço para a floresta que cercava toda a parte de trás do castelo de Overath, próximo a cachoeira. Edith tinha cheiro de maçãs e vela queimada. Tinha uma pele macia e alva, os ombros eram estreitos, porém as costas eretas. Uma cabeça mais baixa que ele, um amor. A moça guardou o silêncio até que alcançassem a parte mais isolada do jardim. Provavelmente para que ninguém os ouvisse ou mesmo vigiasse. – Creio que o senhor seja Nikolaus de Heidelberg. – disse, cortando toda a gentileza que poderia ter usado para chegar àquele ponto.

– Sim, crê corretamente. – respondeu, porém Edith não demonstrou convencimento, apenas deu de ombros.

– Após a descrição que Dominique me deu, duvidei que fosse confundi-lo. – e então traçou um leve rodopio sobre os calcanhares e parou a sua frente, bloqueando a passagem. – O que houve hoje em seu quarto, Senhor Heidelberg...

– Eu sei, foi loucura...

– Não me interrompa. – ela disse, com tamanha rispidez que Nikolaus calou instantaneamente e não ousaria falar antes que ela lhe desse a permissão. Nem mesmo a Senhora Dorothea de Heidelberg exercia tanto poder de persuasão. – Tudo o que houve, ficará em segredo. Ninguém precisa saber. – e então deu-lhe as costas, continuando a caminhar. Nikolaus entendeu aquilo como um aviso e a seguiu lentamente. – Quero dizer, meu pai não gostaria nada. E mesmo o rei não precisa de mais problemas para pensar. – ela olhou por cima do ombro – E nem Hannelore.

– Sobre a princesa, eu gostaria de perguntar: o que a está mantendo longe de todos? – quis que a pergunta saísse gentil, ou mesmo preocupada, porém sua voz soou mais rígida do que esperava e acabou se arrependendo. Entretanto Edith não notou.

– Há três dias tentaram matá-la, e conseguiram matar a minha mãe. Os dois filhos de Willian estão mortos, é de se esperar que ele tenha algum cuidado com sua última herdeira. – e então pigarreou de leve – Além disto, Hannelore está muito abalada com a morte de sua tia.

– Era sua mãe. – Nikolaus falou, porém se arrependeu em seguida. Um arrepio subiu a espinha, quando Edith lançou-lhe um olhar congelado.

– Sim, era minha mãe. O que significa que também estou abalada. – e parou de caminhar – Acho que isto é tudo, Senhor Heidelberg. Espero não ter abusado de seu tempo.

– Imagine, Senhorita. Estou a seu favor.

– É bom que esteja. – ela disse e virou as costas, começando a caminhar para longe. A meio passo, parou, pensou por alguns segundos e enfim disse por cima do ombro – Somente por curiosidade: há alguma coisa entre você e Dominique? Vocês se conhecem?

– Digamos que eu a salvei da morte. – falou, com tom desprovido de emoção, Desinteresse. Porém os cantos de seus lábios se ergueram quando as sobrancelhas de Edith fizeram o mesmo. A menina arrumou a saia e a trança sobre o ombro, antes de ajeitar o chapéu e enfim perguntar:

– Isto os torna amigos?

– Não sei dizer qual meu relacionamento com sua amiga. – falou, sinceramente, porém Edith não aceitou aquilo totalmente. Deu de ombros.

– Tudo bem. Boa tarde.

– Boa tarde. – retrucou, vendo-a desaparecer atrás da parede do castelo.

º º º

Sentia-se como uma criança presa pelos braços e pernas, sentada em um canto de uma sala vazia, sem janelas e com apenas uma porta, tentando chamar a atenção de alguém, ou se arrastar até a saída. Se você ainda não entendeu, ele se sentia assim como a criança que ele era, quando Dorothea o trancava no sótão, em seus anos mais verdes.

Encarou a porta com tanta dureza que poderia abrir um buraco nela, se usasse só mais um pouquinho de força. Enfim, ela se abriu. Uma criada de cabelos ruivos presos em tranças e bochechas redondas e coradas curvou-se, deixando os seios caírem para a frente. Ela era rechonchuda e o vestido parecia bem menor em seu corpo. Ela limpou a garganta, encolhendo os ombros. Provavelmente era seu primeiro dia de trabalho.

– Senhor, o jantar será servido em vinte minutos. O rei o convida para cear em sua mesa. – ela se curvou mais uma vez e saiu, fechando a porta com um ruído metálico. Nikolaus respirou fundo, até que enfim! O rei, é claro, nunca estava presente nos jantares, a mesa permanecia silenciosa com todos os trinta e cinco jovens, as cinco moças e às vezes os membros da Corte.

Nikolaus lavou as mãos pela quarta vez, olhou-se no espelho novo (de alguma forma o antigo se quebrou durante a noite, não pergunte a ele). Graças a eficiência do trabalho dos empregados do castelo, a terra foi varrida, a água infiltrou-se no chão, as roupas colhidas e levadas para lavar, enquanto novas peças lhe eram dadas, os vasos recolocados, flores novas, candelabro novo, até mesmo travesseiros com mais penas. Porém tudo permaneceu como antes. Como se precisasse ser quebrado.

Desceu as escadas pulando os degraus, olhou ao redor. Havia guardas, cores oscilando do azul ao vermelho, flores da estação (você adoraria ver as flores de inverno em Overath, são ainda mais bonitas que as margaridas). Os criados desapareciam em suas passagens secretas, crianças vestidas com trapos corriam atrás das cortinas, para cima e para baixo, com cartas ou sussurros para entregar a outras pessoas mais importantes. Nobres diversos com títulos diversos caminhavam e conversavam em direção a Copa do castelo, onde comeriam um belo guisado.

Nikolaus sentou-se em um dos lugares na ponta da mesa, afastado da parte mais nobre, onde os membros da Corte e a princesa estavam. Hannelore tinha os cabelos louros soltos sobre os ombros. Trajava um vestido rosa claro, com gola alta. Em seu peito, um broche em formato de flor negra anunciava que estava de luto. Suas damas usavam roupas de cores claras, também, porém a mesma flor no lado direito do peito, longe do coração. Seus olhos se deslocaram para Edith, que estava mais perto da princesa. Elas eram primas, e se assemelhavam em algumas partes, como a boca e o nariz. Porém ninguém diria que seriam primas, ou mesmo parentes. Todavia, eram. E ninguém poderia questionar a legitimidade disto.

Viu com o canto do olhou um gesto rápido em sua direção. Dominique acenava, com um sorriso esticado do rosto redondo. Devolveu o aceno, mas sem sorriso. Ela amarrou os longos cabelos em um rabo-de-cavalo no alto da cabeça, porém as madeixas continuavam tocando o fim de suas costas com facilidade. Seu rosto estava exposto, com as maçãs coradas, os olhos azuis claros e os lábios grossos. Não era baronesa, nem condessa. Mas sua família era rica e lhe comprou o título de duquesa. Se não fosse uma De Medici, provavelmente nunca estaria assentada ali, ao lado da prima da princesa de Overth. E ele muito menos.

– Senhores – ouviu-se a voz doce de Hannelore. – Por favor, peço a atenção de vocês. Gostaria de primeiramente agradecer a Deus por este alimento que temos em nossa mesa. Em segundo lugar, quero agradecer a cada um de vocês por sua paciência e por não desrespeitarem minhas damas. Elas são... Curiosas, eu admito. Mas são de muita confiança. Pensem antes de qualquer coisa. – e com isso olhou severamente em direção a Cora, com uma mensagem silenciosa. A moça morena assentiu, com os olhos fechados em fendas, e estalando como o tique-taque de um relógio.

E com isto, a princesa deu permissão para que comessem.

Nikolaus colocou em seu prato um pedaço de porco, tomates e molho de cenoura. Encheu o copo de vinho e trocou um aceno de cabeça com sua nova amiga, que riu baixinho e ergueu a taça cheia de... Água. Ele abafou uma gargalhada e bebericou o vinho. A piada era simples, boba, mas para alguém que permaneceu sete dias em silêncio, apenas andando de um lado para o outro, preso em um castelo pequeno demais para seu espírito jovem, era mais que engraçado. Era hilário.

O grito que cortou o ambiente silencioso e o ar pesado do jantar veio da boca de Wanda. A menina fechou com rapidez a tigela onde estava o purê de batata. Seu rosto estava vermelho, e suas mãos trêmulas, porém ela não se moveu. Continuou encarando a tigela. Hannelore parou a colher no ato de comer. Abaixou-a, ergueu o braço e retirou a tampa. O animal saltou do purê em direção a mesa, derrubando taças, garrafas e velas. Uma ratazana com o tamanho de um gato, escura e de pelo duro. Sua cabeça não se erguia, enquanto o rabo tinha quase o mesmo tamanho de seu corpo. Ela se levantou nas patas e saltou sobre o guisado.

Nikolaus contornou a mesa e pegou um dos panos que usavam para limpar as mãos e a boca. Todos haviam se levantado e encaravam o animal monstruoso. Ele estava acostumado com as criaturas, afinal morava em um campo não tão distante da cidade e às vezes as ratazanas escapavam de Heidelberg para invadir a mansão do duque. Aproximou-se com cuidado, iria jogar o pano sobre a cabeça do animal e então agarraria-o em sua fuga. Olhou em frente. Senhorita Genova estremeceu, sobre a cadeira. Estava pálida e a boca se abria constantemente, pronta para gritar. Nikolaus revirou os olhos. Afastou uma das cadeiras ao lado e se preparou. Lançou o pano sobre a ratazana e agarrou-a com agilidade. Os pés do animal chutavam o ar, sua cabeça se contorcia em todas as direções, mas ele o segurava com força.

Caminhou determinadamente até a porta da frente do castelo. No jardim, soltou a ratazana que saiu correndo em disparada para a floresta. Respirou fundo. Virou as costas, voltando para a Copa. Lá dentro, dois criados com aventais manchados ajoelhavam-se diante da princesa, que exibia uma expressão que beirava o nojo e o medo. Guardas seguravam os criados pelas costas e Genova descera da cadeira. Os selecionados observavam, silenciosos.

– Corte os dedos deles! – disse Cora, a moça colocou uma mão na cintura. – Corte e frite-os, depois dê aos cães.

– Que crueldade! – contrapôs Edith, o rosto vermelho, porém controlada. – Apenas mande-os embora.

– Eles prejudicaram a saúde da princesa, poderiam tê-la matado. Quem sabe que tipo de veneno pode haver neste purê? – e então cruzou os braços – Há menos de uma semana tentaram matá-la com vinho, e agora batatas. Que há de vir depois? Chocolate? – e então encarou os criados com tanta frieza que Nikolaus sentiu pena deles. – Deveriam ser enforcados. Uma mostra de que a Corte não tolera falhas!

– Foi um acidente – um dos homens gemeu, porém o guarda que o segurava chutou-lhe as costelas e ele voltou a se curvar, agora gemendo de dor.

Hannelore fechou fortemente os olhos, prendendo a respiração e as lágrimas.

– Certo, certo – disse, soltando o ar. – Acredito que tenha sido mesmo um terrível acidente. Mas não podemos tolerar uma falha destas. Vocês serão despedidos do castelo e exilados da cidade.

– Não, por favor, Minha Senhora, tenho esposa e filhos! – o homem voltou a gemer. – Por favor, minha senhora!

Guarda! – Cora sibilou, e o guarda chutou novamente as costelas do criado. Ele cuspiu saliva e vomitou um pouco no chão. – Hannelore, coloque-os nas masmorras. Mande sua esposa para um bordel e crie seus filhos como soldados, para que morram em frente de batalha.

– Não! – o senhor suplicou, e foi acertado novamente.

– Pare! – Hannelore desta vez interveio, gritando uma ordem que arrepiara até mesmo os pelos da nuca de Nikolaus. Deslocou os olhos instantaneamente para ela. Era a primeira ordem que a via dar por si mesma. Uma surpresa. – Solte ele agora.

– Senhora...

Vossa Graça. – Hannelore o encarou como um rei encara seu servo desrespeitoso. – Solte-o agora.

Soltaram.

– Coloque-o para fora do castelo, com seus filhos e esposa. Dê-lhes uma talento, dez vinténs de prata e cinco cobres, para que possam sobreviver por um ano até se estabilizarem em algum outro lugar. Não trabalharão mais de cozinheiros, nunca. Arrumem-se como construtores, vendedores ou agricultores. Mas não volte a pôr os pés em uma cozinha.

– Sim, Vossa Graça, sim, Vossa Graça! – ele ergueu os olhos, brilhantes.

Os guardas levantaram ambos os criados e levaram-nos para fora. Após alguns minutos de silêncio, os nobres começaram a se dispersas, dando olhares furtivos a Hannelore. Cora deu de ombros, abandonando a Sala de Jantar sem mais delongas. Hannelore suspirou, parecia cansada, como se acabasse de despertar um poder oculto que nem mesmo ela sabia que existia. O incidente com a ratazana ficou marcado como o dia em que a princesa de fato foi uma princesa. E a partir daí, tudo mudou.

Notas finais
Bom, nem todos os leitores comentaram ainda o último capítulo, mas pelo que li, a maioria quer: AVENTURA & AMIZADE, por isso farei uma aventura com amizade. Mas as duas únicas leitoras que responderam a enquete também pediram AMOR & SELEÇÃO e HEREGES & SEXO, ou seja, como foram as únicas, vou colocar amor, seleção, hereges e sexo u.u Resumidamente, o capítulo deverá ter mais de 5 mil palavras, vários personagens e reviravoltas. Tentarei deixar o mais emocionante possível. E... Quem me passar a música mais legal para este capítulo, irei usar a tal música e ainda vai rolar beijo entre seu personagem e a moça que ele está concorrendo. VALENDO!