The Bastard Heir
19 Capítulo 15 - O herege + o ignorado = Um laço de amizade formado.
Notas iniciais
Capitulo Dezenove.
O herege + o ignorado = Um laço de amizade formado.
“Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos”. – Stendhal
Dark Fantasy Music — Reign of the Dark
Ouviu-se um grito, seguido do crepitante ruído do fogo que envolvia as cortinas de veludo verde da tenda. Gritos, berros aterrorizantes e tudo isto misturado ao som de lâminas de espadas. A criança de seis anos rapidamente levantou-se com o susto. Seus pais não estavam no momento, apenas sua irmãzinha chorando e tapando os ouvidos com suas pequenas mãos. Adalwolf vendo aquilo pegou sua caçula, Ramona, pelos braços e saiu da tenda.
— Fujam! São os cristãos, eles estão destruindo tudo... — berrou um homem assustado, mas antes que pudesse continuar uma lança oriunda de um soldado, atravessou-lhe em cheio o estômago.
Adalwolf segurando sua irmã, corria desesperadamente para algum esconderijo. As cortinas da tenda agora estavam iluminadas em chamas. Milhares de tendas do acampamento foram incendiadas.
— Mãe, pai! — o menino gritava, mas seus pais não apareciam em nenhum momento.
Adalwolf e Ramona eram simples crianças, seres inocentes e indefesos largados para sobreviver naquele estranho campo minado. Vários corpos já se encontravam espalhados pelo acampamento. Tudo isso por eles professavam uma fé diferente e estranha aos olhos daqueles que se dizem “cristãos”. Os dois irmãos eram rheians de puro sangue, seguiam a doutrina ancestral de cultuar o Sagrado Feminino, a Deusa Mãe, cujo principal mandamento não se distanciava do “ame ao próximo, como a si mesmo”, apenas as palavras mudavam. Respeitar a natureza, amar ao próximo, perdoar, amizade e muitas outras coisas eram ensinadas aos rheians... Por que os outros os viam como espíritos demoníacos?
Os olhos verdes acinzentados do menino observaram dois cavalos andarem de trás para frente entre as tendas queimadas, mas a atenção mirou definitivamente em um buraco dentro de uma árvore, com uma distância não muito grande do acampamento, mas perfeita para se esconder. Adalwolf puxou sua irmã e correu por trás das tendas para aquele esconderijo, Ramona entrou primeiro. Eles eram rheians, as raízes grandes e grossas da árvore não lhe assustavam nem um pouco, um rheian tem a natureza como sua grande amiga e às vezes aliada. Adalwolf entrou em seguida e ficou abraçado com sua caçula.
— Temos que voltar e buscar a mamãe... — o mais velho tapou a boca da caçula quando percebeu que alguns soldados corriam pela área. Seu coração acelerou de uma maneira incomum, porém a Deusa havia intercedido por ele de alguma maneira e em nenhum momento as crianças foram pegas. Adalwolf apenas observava de longe aquela covardia ardendo em chamas.
Horas e horas se passaram, o mais velho percebeu que Ramona havia cochilado. Dentro daquele esconderijo era impossível sentir o cheiro de fumaça, a Mãe Natureza com certeza estava ajudando aquelas crianças. Adalwolf afastou sua irmã e saiu daquele lugar, agora notava o desastre que havia ficado aquela pequena área do bosque.
Deveria ser início da manhã, pois o dia já estava um pouco claro, mas muito enevoado. Adalwolf caminhava devagar, era possível ouvir o barulho de suas frágeis sandálias, pisarem nos galhos. Nenhum pássaro cantarolava como de costume, isso deixava a pequena criança assustada, contudo ele não estava tão distante do acampamento. Lá fora o cheiro de queimado estava forte, porém não devia se comparar com aquele há algumas horas atrás, todavia Adalwolf prendia com força a sua mão contra seu rosto.
Era uma confusão úmida de cortinas chamuscadas, tendas destruídas, pilhas de forragem fumegantes, tudo destruído e juntamente disto, vidas acabadas. Vários corpos queimados estavam espalhados por aquela área. Talvez alguns, como Adalwolf e Ramona, tivessem se escondido e fugido a tempo. Adalwolf já havia perdido a esperança, com certeza seus pais foram vitimas da covarde chacina e seus pensamentos se mostraram corretos quando identificou o corpo queimado de sua mãe, Bertha e seu pai, Wilmer. Ambos queimados e de mãos dadas...
***
“O medo tem alguma utilidade, a covardia não” – Mahatma Gandhi.
Arnold encontrava-se sentado no gramado florido do Kaiserburg, sempre gostou de estar o mais próximo à natureza. Sentia-se em casa e lembrava-se da época em que era apenas Adalwolf, o garotinho que corria descalço pelos bosques, escalava arvores e todos os dias tomava banho no riacho cristalino. O garotinho que era feliz. Entretanto sua infância foi roubada, ou melhor, aniquilada por completo. Após aquela chacina, ele e sua irmã foram obrigados a viverem nas ruas do vilarejo mais próximo e sobreviverem como podiam. Ele tinha apenas seis e anos e viu-se obrigado a crescer, tudo pela sua querida irmãzinha.
Um vento fraco, porém gelado bateu sobre seu rosto pálido. Arnold fechou os olhos e lembrou-se dos tristes momentos que marcaram sua infância, ou melhor, a destruição dela.
Este sou eu, um homem formado com seus vinte e um anos. Sentado em cima de um gramado bem cuidado, tenho um rosto branco, cabelos castanhos e olhos verdes cinzentos escancarados de medo. Recuso a tremer e morder os lábios para não voltar a chorar. Quem me ver neste estado, pensará logo que sou um fraco, mas isso pouco me importa. Eu devo ser mesmo. Sou filho de sangue de duas pessoas que se amavam, mas nasci em um mundo cruel e hipócrita. Fui obrigado a abandonar minha infância, apenas quem já passou por isso sabe o quão é doloroso. Vivi nas ruas com minha irmã durante dois anos, porém em uma noite fria e chuvosa, fui pedir abrigo no local religioso dos cristãos... Uma igreja, eu acho, eles negaram-me. O colar que eu usava entregava minhas origens rheians, por isso tive que dormir o chão frio do vilarejo e o espirito de minha amada irmã fora levado na mesma noite. Como manda a tradição, precisei cremar seu corpo no dia seguinte antes do por do sol. Eu provavelmente estaria morto hoje, pois sou o que eles denominam “hereges”. Não tenho muito conhecimento sobre esta palavra, no entanto coisa boa não deve ser. Os cristãos têm como grande exemplo de vida, um homem chamado, Jesus. Quando tive acesso, parei e estudei um pouco a vida dele. Era um grande homem, que pregava bondade e amor ao próximo. Aí eu pensei: Esse ser iluminado veio na terra e os homens até hoje não entenderam o que ele queria dizer. Será que eles não sabem o que é amar ao próximo? Enfim, pouco tempo depois da morte de minha irmã, um anjo, ou melhor, uma anja com nome, Johanna, apareceu em minha vida. Com seu grande coração, a duquesa de Cloppenburg me adotou como seu filho, quando ela passeava em seu coche, sentiu pena de mim ao me ver na rua e resolveu cuidar de mim. Não é a toa que até hoje, eu não tenha buscado vingança pelo o que já fizeram comigo, essa senhora é um verdadeiro poço de bondade e caridade. Eu deveria ter oito ou nove anos quando ela me adotou, não lembro muito bem. Sou extremamente grato e orgulhoso por chamar essa mulher de mãe. Entretanto, precisei contar a verdade a Johanna. Não tive saída se não me converter ao cristianismo e de Adalwolf, passei a me chamar Arnold. Arnold Heinrich Schleyer.
O jovem olhou para o céu. Estava lindo e muito azulado, suas mãos se redirecionaram para as pétalas das flores, Arnold passou lentamente as mãos sobre aquelas frágeis plantas da natureza. Lembrou-se de um ritual rheian, feito pela sacerdotisa da tribo. Não lembra mais o nome dela, mas lembra-se perfeitamente do que ela recitou:
A Ti, Ó Mãe Terra ofereço minha alma e meu amor,
A Ti, Ó Deusa Sagrada, Criadora de todas as coisas.
Mãe de Tudo o que Há,
Doadora da Vida, que a partir do Caos criou a Luz e a Harmonia.
Mãe é Teu Nome Sagrado
Nos Te imploramos
A Sua bênção, a Sua Força.
Diante de todas as injustiças
E blasfémias feitas a Ti.
Que assim seja.
Cada palavra fora dita em sua mente, com amor e muita fé. Arnold continuava fiel as suas raízes rheians, não tinha ódio dos cristãos, pois seria um tolo se julgasse que todos eram maus, porém negar suas raízes seria negar o período de vida em que foi feliz sendo ele mesmo. Seu passado aniquilado.
— Eu já disse, a menina bate a cabeça na parede!
Arnold ouviu vozes masculinas se aproximando, também sentiu seu pequeno momento de solidão se esvair lentamente.
— Alfons, será que ela tem algum problema? — perguntou Marwin.
— E quem se importa? — indagou o rapaz ruivo, um pouco zangado.
— Ninguém, mas... Tinha que ser justo na hora de todos dormirem? — Marwin falou como se fosse óbvio.
— Então eu não me importo. Afinal, você ronca... Aí eu durmo primeiro, antes que faça isso.
— Eu não ronco, ressono. É diferente.
Arnold precisou pigarrear para disfarçar uma risada, mas fora notado por Alfons e Marwin, seu momento de quietude já havia se encerrado de qualquer jeito. Uma companhia até seria boa coisa.
— É por isso que faltou o café da manhã hoje? Para ficar aqui quieto como uma estátua. Umas duas criadas, Savannah e Olga, disseram que suas preces são demoradas — disse Alfons com os braços cruzados. Arnold havia pagado as duas menininhas, com algumas moedas para não lhe dedurarem que tinha saído mais cedo e ficaria no jardim até que seu “estado de espirito” melhorasse.
— Eu não me importo, de qualquer jeito, irei embora daqui o quanto antes — respondeu Arnold.
— Sério mesmo? Se casar com a princesa não lhe importa nem um pouco?
Antes que Arnold pudesse se dar conta, Alfons e Marwin sentaram-se perto dele, um a esquerda e outro a direita. Suspirou. Ele não trocara uma palavra sequer com a herdeira do trono, ela era praticamente protegida a sete chaves por guardas e suas aias. Como poderia se casar com uma menina assim? Tão prisioneira de seu destino, enquanto o que ele gostava era de ser livre. Não parecia ser uma ideia muito alegre para se deleitar. Ficar trancado em um castelo e dependendo de muitos. Ora essa, ele não era um ser sagrado. Entretanto por um lado, gostava da ideia de que o rei Willian seria sucedido por uma mulher. Desde Helmine, a sábia, Overath não possui uma rainha soberana. Isso já fazia praticamente 288 anos. Seria uma verdadeira tapa na cara de muitos, que finalmente uma princesa subisse ao trono. E Arnold iria adorar ver isso.
— Ei, ei! Dormiu? Eu te fiz uma pergunta! — interrogou Alfons.
— Mesmo assim... — intrometeu-se Marwin — não importa qual de nós ganharmos!
— Como assim não? Ser o futuro rei, isso não é importante? — replicou o ruivo, encarando com desdém os olhos verdes de Marwin.
— Simples. A princesa Hannelore será a rainha reinante, seu esposo será um rei, mas um rei consorte, ou seja, não terá poderes políticos — respondeu Marwin dando com os ombros. — Ser rei também não é meu objetivo.
— Parece que estamos no mesmo barco — comentou Arnold risonho.
— Meu Deus, vocês não tem ambição nenhuma! — Alfons suspirou derrotado e deitou-se na grama. — Não me importo à mínima com essa história de “rei consorte”. Influenciar a princesinha, não parece ser uma tarefa muito complicada.
Arnold se viu obrigado a arregalar os olhos com espanto, Marwin parece ter sentido o mesmo. Influenciar a princesa? Ou este tal de Alfons não era de nenhuma confiança ou tratava-se apenas de um rapaz mimado a querer tudo. Quem sabe os dois? Foi isso que concluiu Arnold.
— A semana tem estado tão obscura — disse Marwin, claramente tentava mudar de assunto — com a morte da duquesa de Henstaufen, então...
Sem dizer nenhuma palavra, Alfons ergueu-se rapidamente do gramado e saiu rumo ao castelo ou a qualquer outro lugar que não fosse ali. Marwin suspirou tristemente, Arnold que estava ao seu lado ficou com um pouco de pena do menino loiro.
— Sinceramente, não você, mas ele precisa sair daqui o quanto antes. A princesa com certeza não o merece — foi à única coisa que Marwin disse.
— O que estava dizendo? Sobre a semana obscura.
— Ah, nada. Apenas iria dizer o que todos já sabem... — o rapaz parecia claramente envergonhado. Talvez já estivesse acostumado a ser ignorado.
— Realmente, e ela parecia ser uma mulher boa. Pelo menos é o que todos dizem, triste também foi o fato do esposo dela parecer nem ligar. Ou será que ele deve ter aquela cara carrancuda mesmo? — perguntou Arnold ironicamente e Marwin não resistiu a uma risada.
— Ele vai poder arrumar uma esposa dentro de um ou dois meses se quiser. Sabe... As mulheres quando ficam viúvas, precisam esperar um ano para se casarem de novo. Já os homens, precisam esperar apenas algumas semanas ou poucos meses. Estranho e...
— Injusto! — completou Arnold.
— Isso, injusto — concordou Marwin.
Um pequeno silêncio, porém confortável, pairou no jardim. Apenas o barulho do vento batendo sobre as folhas e balançando os galhos das árvores predominava o ambiente, até que Marwin o quebrou:
— Gosto daqui. Eu estava habituado às flores silvestres e a natureza simples do castelo do marquês de Bramberg... Tudo se movia lentamente ao ritmo do vento, tudo tão sem vida. Aqui no Kaiserburg é diferente! Descobri neste castelo imensos jardins salpicados de flores das mais variadas espécies, um riacho, um labirinto... É impossível não se maravilhar.
— Parece até um pintor ou um poetada falando, mas realmente a natureza aqui é belíssima. Lembra-me muito os rituais... — Arnold calou-se imediatamente.
— Rituais? Ouvi direito?
— Ouviu, porém eu que disse errado. Estava querendo dizer festivais! Em Cloppenburg temos muitos festivais e a cidade fica repleta de flores...
— Ah claro, entendi...
— Está aqui de bom grado, ou apenas não quer fazer desfeita à corte real?
— Acho que todos... — Marwin lembrou-se de Alfons — quase todos estão aqui pelo último motivo. Ainda estamos disputando com o príncipe Eduardo!
— Talvez não, soube que Hannelore o rejeitou!
— Isso é apenas um boato.
— Não, não. Dizem que é para que a dignidade do filho dos reis católicos não seja quebrada. As criadas e as crianças confirmaram. É bom fazer amizade com elas, pois aí lhe contam de tudo. Soube de uma criada, que em um mês Overath receberá uma grande visita.
— Grande visita? — o jovem irradiou curiosidade. — Ora essa, Arnold, conte-me. É legal saber de algo que os outros ainda não sabem.
— É mesmo — concordou com um sorriso. — Não é nada confirmado, mas parece que a Infanta Catarina de Aragão e seu novo noivo, príncipe Henrique, virão aqui em nome do rei Henrique VII da Inglaterra, para assinar uma aliança definitiva. Talvez apoio com mais soldados, armas de guerra e essas coisas que não me interessam nenhum pouco, porém ingleses são tão apaixonados por festas como franceses e tudo é motivo de comemoração.
— O noivo da infanta não era Arthur? Ou melhor, seu esposo?
— Ele morreu tem poucos meses. Está meio desligado dos assuntos, não? Parece que o casamento não foi consumado e Catarina obteve uma licença papal para casar de novo.
— Um tratado militar com a Inglaterra? Mas, ganhamos a guerra na colina...
— Com o apoio dos espanhóis, mas foi bem difícil levando em consideração que os hessenianos são muito chegados com franceses e deles tem todo o apoio. Os ingleses não suportam a França, talvez seja por isso que eles estão fazendo questão de firmar esse tratado militar.
— Militarismo. Apenas essa palavra me traz pesadelos.
— Você quer dizer, guerra. Intrigas, ódio... Rancor. Nada é pior que isso.
Marwin sentiu a tristeza na voz do colega e pena em seu coração. Ele devia ser bem solitário, assim como ele foi.
— Sim, guerras — disse Marwin. — Ela surge com a ambição, a loucura e os inocentes pagam com isso. — Arnold sorriu, pensou que todos os rapazes daquela competição fossem atrás apenas de ser rei, como Alfons, porém Marwin parecia ser diferente.
— O que trás você aqui? Creio que não tenha sido apenas fazer uma desfeita, perante a competição da princesa.
— Ela me traz aqui. Não exatamente ela, mas o que a princesa pode me trazer. Tenho esperanças de sair do lugar onde eu vivo, Bramberg, e simplesmente seguir meus sonhos. Adoraria ir para a Itália. Florença, quem sabe? Ingressar na universidade e aprender artes. É minha paixão, mas dizem que isso não é coisa de homem. Pouco me importa! Sabem a fortuna que pagam para fazerem quadros? Já pensou se o Papa algum dia me chamar para esculpir uma obra como as de Michelangelo ou simplesmente fazer um quadro religioso — o rapaz falava com a empolgação e o ar sonhador de um jovem da sua idade. — Se eu conseguir amizade com a princesa, ela pode me ajudar. Quem sabe?
— Nossa, e eu simplesmente quero que ela me odeie e me mande sair logo! — Arnold riu. — Bem, eu desejo boa sorte. Ela é praticamente intocável, mas ainda lhe desejo boa sorte. É bom saber que existem sonhadores puros nesse mundo.
— Obrigado — Marwin sentiu-se lisonjeado, nunca recebera tanta atenção. — É bom ter alguém para confiar em uma competição como esta.
Os dois colegas de competição continuaram a conversar por alguns minutos a mais, Arnold descobriu que Marwin tinha uma coleção de quadros e quando chegou ao palácio já havia produzido dois. Marwin descobriu que Arnold sabia tocar flauta e possuía várias composições próprias. Eles não tinham visto, contudo sentiram que uma pura e boa amizade havia se formado em tão pouco tempo.

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