Charlotte estava cercada no instante em que pisou no estacionamento da escola. Todos estavam lá, a multidão toda que ela não via desde o fim de junho, além de quatro ou cinco parasitas que esperavam ganhar popularidade por associação. Ela aceitou um por um os abraços acolhedores de seu próprio grupo.

Caroline tinha crescido pelo menos dois centímetros e estava mais magra e mais do que nunca como uma modelo da Vogue. Ela cumprimentou Charlotte friamente e recuou novamente com seus olhos verdes estreitados como os de um gato.
Bonnie não tinha crescido nada, e seu cabelo vermelho encaracolado veio até o queixo de Charlotte enquanto ela lançava seus braços ao redor de Charlotte. Espere um minuto – cachos? Pensou Charlotte. Ela empurrou a garota menor para trás.
“Bonnie! O que você fez com o seu cabelo?”
“Você gostou? Eu acho que me faz parecer mais alta.” Bonnie amaciou a já macia franja e sorriu, seus olhos castanhos brilhando com excitação, seu rosto em formato de coração iluminado.
Charlotte prosseguiu. “Meredith. Você não mudou nada.”
Esse abraço era igualmente quentes em ambos os lados. Ela tinha sentido mais falta de Meredith do que de qualquer outro, Charlotte pensou, olhando para a garota alta. Meredith nunca usava maquiagem; mas também, com uma pele azeitonada perfeita e grossos cílios negros, ela não precisava. Nesse momento ela estava com uma elegante sobrancelha levantada enquanto estudava Charlotte.
“Bem, seu cabelo está dois tons mais claros por causa do Sol... Mas aonde está o seu bronzeado? Eu achei que você estivesse aproveitando a Riviera Francesa.”
“Você sabe que eu nunca me bronzeio.” Charlotte ergueu suas mãos para sua própria inspeção. A pele estava impecável, como porcelana, mas quase tão branca e translúcida quanto a de Bonnie.
“Só um minuto; isso me lembra,” Bonnie interrompeu, pegando uma das mãos de Charlotte. “Adivinha o que eu aprendi com a minha prima esse verão?” Antes que qualquer um pudesse falar, ela os informou triunfantemente: “Leitura das mãos!”
Houve lamentações, e algumas risadas.
“Riam enquanto podem,” disse Bonnie, nem um pouco perturbada. “Minha prima me disse que eu sou vidente. Agora, deixe-me ver...” Ela olhou na palma de Charlotte.
“Apresse-se ou vamos chegar atrasados,” disse Elena um tantinho impaciente.
“Certo, certo. Agora, essa é a sua linha da vida – ou é a sua linha do coração?” Na multidão, alguém abafou o riso. “Quieto; Eu estou alcançando o vácuo. Eu vejo... Eu vejo…” De uma só vez, o rosto de Bonnie ficou vazio, como se ela estivesse alarmada. Seus olhos castanhos arregalaram-se, mas ela já não mais parecia estar encarando a mão de Elena. Era como se ela estivesse olhando através dela – para algo assustador.
“Você conhecerá um estranho alto e moreno,” Meredith murmurou atrás dela. Houve um alvoroço de risadinhas.
“Moreno, sim, e um estranho... mas não alto.” A voz de Bonnie estava abafada e distante.
“Apesar,” ela continuou depois de um momento, parecendo confusa, “de que ele foi alto, uma vez.” Seus amplos olhos castanhos se levantaram para Charlotte com perplexidade. “Mas isso é impossível... não é?” Ela largou a mão de Elena, quase arremessando-a para longe. “Eu não quero ver mais.”
“Está bem, o show acabou. Vamos,” Elena disse aos outros, vagamente irritada. Ela sempre achara que truques psíquicos eram justamente aquilo – truques. Então por que ela estava aborrecida? Só porque naquela manhã ela tinha quase ficado fora de si...
As garotas começaram a andar em direção ao prédio da escola, mas o ruído de um motor primorosamente ajustado parou todas em suas trajetórias.
“Ora, ora,” Caroline disse, encarando. “Mas que carro.”
“Mas que Porsche,” Meredith corrigiu secamente.
O reluzente Turbo 911 preto ronronou pelo estacionamento, procurando por um espaço, movendo-se tão preguiçosamente quanto uma pantera perseguindo uma presa.
Quando o carro parou, a porta abriu, e elas vislumbraram o motorista.
“Oh, meu Deus,” Caroline sussurrou.
“Você pode dizer isso novamente,” exalou Bonnie.
De onde ela estava, Elena pode ver que ele tinha um corpo magro e músculos lisos. Jeans desbotados que ele provavelmente teve que remover à noite, camiseta apertada, e uma jaqueta de couro com um corte incomum. Seu cabelo era ondulado – e escuro.
Ele não era alto, porém. Somente uma estatura mediana.
Elena deixou seu fôlego escapar.
“Quem é aquele homem mascarado?” disse Meredith. E a observação era apropriada – óculos de sol escuros cobriam completamente os olhos do garoto, escondendo seu rosto como uma máscara.
“Aquele estranho mascarado,” alguém disse, e um murmúrio de vozes elevou-se.
“Você está vendo a jaqueta? É italiana, tipo de Roma.”
“Como você saberia? Você nunca foi mais longe do que Nova York na sua vida!”
“Oh-ou. Charlotte está com aquele olhar novamente. O olhar de caça.”
“É melhor que o Baixo-Moreno-e-Lindo tenha cuidado.”
“Ele não é baixo; ele é perfeito!”
Através da tagarelice, a voz de Caroline repentinamente soou bem alto. “Oh, vamos lá, Charlotte. Você já tem o Niall. O que mais você quer? O que você pode fazer com dois que não pode com um?”
“A mesma coisa – só que por mais tempo,” Meredith falou lentamente, e o grupo se dissolveu em risadas.
O garoto havia trancado seu carro e estava andando em direção à escola. Casualmente, Elena seguiu atrás dele, as outras garotas logo atrás dela em um grupo intimamente ligado. Por um instante, aborrecimento borbulhou dentro dela. Ela não podia ir à lugar algum sem um desfile em seu calcanhar? Mas Meredith percebeu seu olhar, e ela sorriu apesar de si mesma.
“Obrigações da nobreza,” Meredith disse suavemente.
“O quê?”
“Se você vai ser a rainha da escola, você tem que aturar as conseqüências.”
Charlotte franziu por causa disso enquanto elas entravam no prédio. Um longo corredor se esticava em frente a elas, e uma figura em calça jeans e jaqueta de couro estava desaparecendo pela porta do escritório em frente. Charlotte diminuiu seu ritmo à medida que passava pelo escritório, finalmente parando para olhar ponderadamente para as mensagens no quadro de avisos de cortiça perto da porta. Havia uma ampla janela aqui, através da qual o escritório inteiro ficava visível.
As outras garotas estavam espiando abertamente através da janela, e dando risadinhas. “Bela visão traseira.” “Aquela é definitivamente uma jaqueta Armani.” “Você acha que ele é de fora dos Estados Unidos?”
Charlotte estava esticando suas orelhas pelo nome do garoto. Parecia haver algum tipo de problema lá: A Sra. Clarke, a secretária de admissão, estava olhando para uma lista e balançando sua cabeça. O garoto disse alguma coisa, e a Sra. Clarke levantou suas mãos em um gesto que dizia “O que eu posso fazer?” Ela correu um dedo pela lista e balançou sua cabeça novamente, conclusivamente. O garoto começou a se afastar, então se virou. E quando a Sra. Clarke olhou para ele, sua expressão mudou.
O óculos de sol do garoto estava agora na mão dele. A Sra. Clarke pareceu assustada com algo, Charlotte pôde vê-la piscar diversas vezes. Seus lábios abriram e fecharam como se ela estivesse tentando falar.
Charlotte desejou poder ver mais do que a parte detrás da cabeça do garoto. A Sra. Clarke estava remexendo em pilhas de papéis agora, parecendo estupefata. Enfim ela achou um formulário de algum tipo e escreveu nele, então virou-se e o empurrou em direção ao garoto.
O garoto escreveu brevemente no formulário – assinando-o, provavelmente – e o devolveu. A Sra. Clarke encarou-o por um segundo, então remexeu em uma nova pilha de papéis, finalmente entregando o que parecia com um horário de aulas para ele. Seus olhos nunca deixaram o garoto enquanto ele pegava isso, inclinava sua cabeça em agradecimento, e virava-se para a porta.
Charlotte estava louca de curiosidade agora. O que havia acabado de acontecer ali? E como o rosto do estranho era? Mas à medida que ele emergia do escritório, ele colocava seus óculos de sol no lugar novamente.
Desapontamento fluiu através dela.
Ainda assim, ela pôde ver o resto de seu rosto enquanto ele parava na entrada. O escuro cabelo encaracolado enquadrava traços de rosto tão belos que eles poderiam ter sido tirados de uma velha moeda ou medalha Romana. Maçãs do rosto altas, clássico nariz reto... e uma boca para mantê-la acordada à noite, Charlotte pensou. O lábio superior foi belamente esculpido, um pouco delicado, bastante sensual. A tagarelice das garotas no corredor havia parado como se alguém tivesse mexido no interruptor.
A maioria delas estava se virando para longe do garoto agora, olhando para qualquer lugar menos para ele. Charlotte ficou em seu lugar perto da janela e fez um meneio de cabeça, puxando a fita do cabelo para que ele caísse ao redor de seus ombros.
Sem olhar para nenhum lado, o garoto continuou andando pelo corredor. Um coro de suspiros e sussurros irrompeu no momento que ele estava fora do alcance de voz.
Charlotte não ouviu nada disso.
Ele tinha passado diretamente por ela, ela pensou, estupefata. Diretamente por ela sem olhar.
Vagamente, ela percebeu que o sinal estava tocando. Meredith estava puxando seu braço.
“O quê?”
“Eu disse aqui está seu horário. Nós temos trigonometria no segundo andar agora. Vamos!”
Charlotte permitiu que Meredith a propelisse pelo corredor, por uma escadaria, e para dentro da sala de aula. Ela escorreu em um assento vazio automaticamente e fixou seus olhos na professora à frente sem realmente estar vendo-a. O choque ainda não tinha passado.
Ele tinha passado diretamente por ela. Sem um olhar. Ela não conseguia lembrar-se de quanto tempo fazia desde que um garoto havia feito isso. Todos eles olhavam, ao menos. Alguns assobiavam. Alguns paravam para conversar. Alguns simplesmente encaravam.
E isso nunca foi um problema para Charlotte.
Afinal de contas, o que é mais importante que garotos? Eles eram a marca do quão popular você é, do quão bonita você é. E eles podiam ser úteis para todo o tipo de coisas. Às vezes eles eram excitantes, mas geralmente isso não durava muito. Às vezes eles eram repugnantes desde o começo.
A maioria dos garotos, Charlotte refletiu, era exatamente como filhotinhos. Adoráveis nos seus lugares, mas dispensáveis. Uns pouquíssimos podiam ser mais do que isso, podiam se tornar amigos de verdade. Como Niall.
Oh, Niall. Ano passado ela tivera esperanças de que ele era aquele por quem ela estivera procurando, o garoto que faria ela sentir... bem, algo mais. Mais do que um ataque de triunfo por ter feito uma conquista, o orgulho em mostrar sua nova aquisição para as outras garotas. E ela tinha sentido uma forte afeição por Niall. Mas conforme o verão passava, e ela tivera tempo para pensar, ela tinha percebido que era a afeição de uma prima ou irmã.
A Srta. Halpern estava passando os livros de trigonometria. Charlotte pegou o seu mecanicamente e escreveu seu nome dentro, ainda envolta em pensamentos.
Ela gostava de Niall mais do que qualquer outro garoto que conhecera. E era por isso que ela teria que contar a ele que estava acabado.
Ela não sabia como contar a ele por carta. Ela não sabia como contar a ele agora. Não era por ela ter medo de ele dar um escândalo; ele simplesmente não iria entender. Ela mesma não entendia muito.
Era como se ela estivesse sempre querendo alcançar... alguma coisa. Só que, quando ela achou que havia conseguido, não estava lá. Não com Niall, não com qualquer dos outros garotos com quem esteve.
E então ela teve que começar tudo de novo. Felizmente, havia sempre material novo. Nenhum garoto havia tido sucesso em resistir a ela, e nenhum garoto a havia ignorado. Até agora.
Até agora. Lembrando-se daquele momento no corredor, Charlotte descobriu que seus dedos estavam apertados ao redor da caneta que ela segurava. Ela ainda não podia acreditar que ele havia passado por ela daquela maneira.
O sinal tocou e todo mundo saiu da sala de aula, mas Charlotte parou na entrada. Ela mordeu seu lábio, fazendo uma varredura pelo mar de estudantes que fluía no corredor. Então ela avistou uma das parasitas que estavam no estacionamento.
“Frances! Venha aqui.”
Frances veio avidamente, seu rosto comum iluminando-se.
“Escute, Frances, lembra-se do garoto dessa manhã?”
“Com o Porsche e as – er – posses? Como eu poderia esquecer?”
“Bem, eu quero o horário de aula dele. Pegue-o do escritório se puder, ou copie do dele se tiver que fazê-lo. Mas faça-o!”
Frances pareceu surpresa por um momento, então forçou um sorriso e concordou. “Está bem, Charlotte. Eu vou tentar. Eu te encontrarei no almoço se eu conseguir pegá-lo.”
“Obrigada.”Charlotte observou a garota ir embora.
“Sabe, você realmente é maluca,” a voz de Meredith disse em seu ouvido.
“Qual é a vantagem de ser a rainha da escola se você não pode abusar da sua posição às vezes?” Charlotte retornou calmamente. “Para onde eu vou agora?”
“Negócios Gerais. Aqui, pegue-o você mesma.” Meredith empurrou uma tabela de horário para ela. “Eu tenho que correr para a aula de química. Até depois!”
Negócios Gerais e o resto da manhã passou como um borrão. Charlotte tivera esperança de ver outra vez de relance o novo estudante, mas ele não estava em nenhum de suas aulas. Niall estava em uma, e ela sentiu uma pontada de dor quando os olhos azuis dele encontraram-na com um sorriso.
Com o sinal do almoço, ela fez cumprimentos com a cabeça a torto e a direito a medida que entrava na lanchonete. Caroline estava do lado de fora, repousada casualmente contra uma parede com o queixo levantado, os ombros para trás, o quadril para frente. Os dois garotos com quem ela estivera falando ficaram em silêncio e cutucaram um ao outro quando Charlotte se aproximou.
“Oi,” Charlotte disse brevemente aos garotos; e para Caroline: “Pronta para entrar e comer?”
Os olhos verdes de Caroline mal pestanejaram na direção de Charlotte, e ela empurrou seu brilhoso cabelo castanho para longe do rosto.
“O que, na mesa da realeza?” ela disse.
Charlotte foi pega de surpresa. Ela e Caroline eram amigas desde o jardim-de-infância, e elas sempre competiram uma contra a outra de maneira afável. Mas ultimamente alguma coisa havia acontecido com a Caroline. Ela tinha começado a levar a rivalidade cada vez mais a sério. E agora Charlotte tava surpreendida pela amargura na voz da outra garota.
“Bem, não é como se você fosse uma plebéia,” ela disse levianamente.
“Ah, você está tão certa sobre isso,” disse Caroline, virando-se para encarar Charlotte plenamente. Aqueles olhos verdes de gata estavam abertos por uma pequena brecha e fumegantes, e Charlotte ficou chocada pela hostilidade que viu ali. Os dois garotos sorriram desconfortavelmente e foram para longe.
Caroline não pareceu notar. “Um monte de coisas mudou enquanto você estava fora esse verão, Charlotte,” ela continuou. “E talvez seu tempo no trono esteja acabando.”
Charlotte corou; ela podia sentir isso. Ela lutou para manter sua voz firme. “Talvez,” ela disse. “Mas eu não compraria um cetro tão cedo se fosse você, Caroline.” Ela se virou e foi para a lanchonete.
Foi um alívio ver Meredith e Bonnie, e Frances atrás delas. Charlotter sentiu suas bochechas se esfriarem a medida que selecionava seu almoço e ia se juntar à elas. Ela não deixaria Caroline chateá-la; ela não pensaria em Caroline de modo algum.
“Eu consegui,” disse Frances, agitando um pedaço de papel enquanto Charlotte Elena se sentava.
“E eu tenho coisas boas a contar,” disse Bonnie de modo importante. “Charlotte, escute isso. Ele está na minha aula de biologia, e eu sento bem em frente a ele. E seu nome é Justin, Justin Biber, e ele é da Itália, e ele está hospedado com a velha Sra. Flowers na margem da cidade." Ela suspirou.
“Ele é tão romântico. Caroline derrubou seus livros, e ele os pegou para ela.”
Charlotte fez uma cara de repulsa. “Que desastrada a Caroline é. O que mais aconteceu?”
“Bem, foi isso. Ele não falou com ela na verdade. Ele é mui-i-ito misterioso, veja só. A Sra. Endicott, minha professora de biologia, tentou fazer com que ele tirasse seus óculos, mas ele não tirou. Ele tem um problema médico.”
“Que tipo de problema médico?”
“Eu não sei. Talvez seja terminal e seus dias estejam contados. Isso não seria romântico?”
“Oh, muito,” disse Meredith.
Charlotte estava olhando por sobre a folha de papel de Frances, mordendo seu lábio. “Ele está na minha sétima aula, História da Europa. “Alguém mais tem essa aula?”
“Eu tenho,” disse Bonnie. “E eu acho que Caroline também tem. Oh, e talvez Niall; ele disse uma coisa ontem sobre como ele tinha sorte, ficando com o Sr. Tanner.”
Maravilha, Charlotte pensou, pegando um garfo e apunhalando seu purê de batata. Parecia que a sétima aula iria ser extremamente interessante.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.