Notas iniciais
Oh, o que é esse sentimento que me domina?
Ah, sim. É o espírito festivo dos últimos dias do ano.
Ocupada nos demais dias, espero que esse capítulo seja um presente a cada um de vcs.
Bjks!

“Olhe em meus olhos e desvende os segredos de meu coração. Mas, cuidado: uma vez compartilhando meus segredos, não sairá imune. Por que quem muito procura, pode acabar encontrando mais do que espera encontrar.”

Bella sentia vontade de chorar. Seu peito, apertado, parecia querer explodir tamanha sua agonia. A dor era tanta que poderia enlouquecer a qualquer momento. E isso tinha que acabar.

Precisava por um fim nisso tudo. Precisava, sim, precisava. Por que uma coisa que ela não contara a ninguém, que não contara nem a si mesma ao se recusar a pensar sobre isso, era que havia mais do que a simples vontade de curar a dor de Emmett.

Por que, de uma forma absurda, ela se tornara sua própria dor.

Absurdo. Loucura. Mas real. Desde que... desde que sonhara um dia depois da festa na casa de Caleb, a certeza de que ela precisava fazer alguma coisa a tomara.

Por que era doído demais. Todas às vezes nas quais se aproximara de Emmett, ela sofrera o que ele sofria, sentira o que ele sentia. E fora no coração dele que ela vira o desejo de justiça.

Não vingança, apenas justiça. Então ela soubera que cabia a ela encontrar um meio de fazer tal coisa.

O tempo passara, mais coisas tinham tomado sua mente naquele meio tempo e ela acabara por empurrar tudo pra um canto qualquer de sua mente. Mas à noite ela sonhava... e em seus sonhos ela sabia.

Aqueles sonhos não eram seus. E isso tinha que acabar.

Mas se havia uma coisa que aprendera com o tempo era ter paciência. Por isso esperara o momento certo. E ele era exatamente agora.

Ali estava a razão de suas constantes brigas com Edward. Ali estava a razão de seu mau humor matinal que a fizera por vezes se estranhar com Alice. Ali, ali estava a causa de seu estresse e cansaço excessivo.

Por que, além de todas as coisas novas com as quais ela tinha que lidar, ainda tinha que partilhar dos sentimentos de outra pessoa.

Claro que já passara por tal experiência. Fora assim que soubera antes de todo mundo que Rosalie iria se matar e a impedira a tempo. Fora através disso que soubera o quanto seu pai e irmã tinham sofrido. Fora por causa disso que sempre se recluíra, oculta atrás de seus fones de ouvido.

Por que com a música alta e os olhos baixos, eram apenas os sentimentos dela. Enquanto que, se estivesse aberta ao mundo exterior como agora estava, então estava sujeita às emoções das demais pessoas.

Talvez essa fosse uma das diferenças entre Naturais e Cientistas. Talvez... essa sua habilidade natural de ler as pessoas fosse tão forte que transformasse as expressões em sentimentos. E esses sentimentos eram dela, não deles.

Tinha que ser assim. Ou então não teria explicação alguma. Mas os sonhos...

- Damon, chegamos. – ela disse pra espantar os pensamentos que lhe enchiam a mente, o sorriso no rosto e o vazio em seus olhos mascarando a dor que a consumia. A mesma dor que a invadira naquele pequeno espaço que era o elevador. Emmett estava mais triste e ferido do que nunca, lembrando-se então de todos os detalhes daquela macabra noite. Mas por mais que esse sofrer também a consumisse e ela sentisse pena por vê-lo sofrer tanto, Bella precisava saber. Precisava saber se seus sonhos eram reais. – Creio que não foram devidamente apresentados. – ela disse ainda na representação da profissional competente. Mais uma máscara pra sua vasta coleção. – Damon, esse é Emmett MacCarty. Emmett, esse é Damon Salvatore. – ela fez as devidas apresentações, vendo ambos os homens trocarem um forte aperto de mãos.

- Um prazer conhecê-lo, Emmett. Sem sirenes de ambulâncias e carros se incendiando, é claro. – Damon gracejou querendo descontrair o ambiente tenso. Pesado.

- Digo o mesmo. – Emmett sorriu de leve, mas seus olhos fugiram do contato visual com Damon. Ele queria esconder a tristeza de seu olhar, Bella logo percebeu. Mas como esconder a tristeza já que ela também a sentia com tanta intensidade?

- Bem, comecemos então. – Bella disse sem rodeios, sentando-se em uma das cadeiras em frente à mesa de Damon e apontando a outra a Emmett, numa bizarra imitação a sua visita da noite anterior quando eles haviam se sentado em frente a TV. “A vida é bizarra, cheia de estranhas coincidências...”, ela pensou de forma enigmática enquanto lançava um rápido olhar a Damon que entendeu o recado, começando então a falar.

- Então, Emmett, eu sou o agente designado pra trabalhar em seu caso. Foi Bella quem deu esse palpite ao nosso chefe, Caleb Langdon, que viu nesse caso uma grande oportunidade. Pro crescimento e amadurecimento de Bella e pra você, que busca justiça e que, na opinião tanto de Bella quanto do próprio Caleb, deve ser um excelente profissional.

- Apenas por isso? – ele perguntou desconfiado. – Profissionais como eu tem por aí aos montes.

- Da mesma área que a sua, mas não como você. – Bella discordou fazendo o homem se voltar pra encará-la. – Não seja modesto, Emmett. Competência não é algo que se possa esconder, por mais que se queira.

- E é essa competência que não queremos que seja perdida. É um bom caso, merece uma oportunidade de ser solucionado. – Damon concordou fazendo Emmett pensar sobre o que estavam lhes dizendo.

- Então essa... proposta de emprego estará de pé se conseguirem resolver esse caso? – ele quis saber, sua fala lenta querendo demonstrar desinteresse. Mas Bella sabia que se sentia tentado: era a adrenalina dos velhos tempos atiçando seus instintos de caçador. Como um ex-viciado que se vê frente a frente com a fonte de seus antigos vícios.

- Não, claro que não. Estamos te oferecendo trabalho desde já, só que também estamos pedindo sua colaboração como nossa fonte de informações. – Bella esclareceu. – Eu queria um caso grande, uma coisa que me desafiasse. E o seu caso é assim. Unimos então uma coisa à outra e matamos um coelho com uma só cajadada.

- Hum. – Emmett resmungou, ainda pensativo.

- Entenda bem, Emmett. Caleb sempre está... um passo a frente, por isso sabia que eu pediria pra te ajudar com seus problemas. Por que ele sabe sobre você, na verdade ele sabe sobre todos que de alguma forma estiveram envolvidos no caso do assassinato de Vanessa. – Bella deu de ombros. – Ele sempre está de olho em tudo. Mas fato é que Caleb, com sua sagacidade, percebeu que você é um bom profissional. Provavelmente já deve ter puxado sua ficha e sabido então tudo sobre você. Eu poderia ter feito a mesma coisa, mas... quero saber de tudo através de você, só de você. Pela sua privacidade e também pelo fato de que coisas importantes e valiosas só você saberá me dizer. Então ele te quer trabalhando aqui, mas sabe que pra isso você precisa se desprender de seu passado. – os olhos castanhos tão intensos estavam fixos mais uma vez nos olhos ainda inseguros do rapaz que também não piscava ao encará-los. – O que quero lhe dizer é que todos, de certa forma, temos algo a ganhar com isso tudo. E perder... no máximo será nosso tempo.

- Pensa mesmo assim? – Emmett se surpreendeu, um sorriso de deboche se desenhando em seus lábios. Estava sim surpreso com o discurso de Bella, tudo o que ela disse tinha lógica. Mas eles não faziam idéia de onde estavam se metendo... – Pensa mesmo que não correrá riscos ao tentar mexer nessas coisas tão podres?

- Estamos cientes de que os riscos são possíveis. – Damon esclareceu chamando a atenção de Emmett pra si. – Eles sempre existem, ainda mais nesse tipo de trabalho.

- A pergunta é, Emmett. – Bella disse de uma vez. Não eram mais necessários rodeios: Emmett estava fisgado. – Com o que estamos lidando?

O rapaz suspirou. Não podia simplesmente virar suas costas e voltar pra toca que chamava de casa, enfurnando-se em sua própria dor e tormento, deixando que o mundo desmoronasse lá fora. Por mais que essa fosse sua maior vontade, simplesmente não poderia fazê-lo.

Tinha que acabar com isso de uma vez por todas.

Era arriscado, ele sabia disso mais do que ninguém. Mas se eles diziam saber dos riscos... todos eram adultos ali. Bella, a mais jovem dos três, já passara por coisas muito piores... então que começasse o espetáculo.

- Tráfico de Entorpecentes. – ele disse de uma só vez, vendo o olhar de compreensão em Damon. Mas em Bella... nada, como sempre. Ela apenas prestava o máximo de atenção nele, nada mais. Nenhuma sombra do que ela estava pensando sobre aquela revelação. – Barra pesada, muito pesada. Envolve vários dos maiores traficantes do estado de Nova Iorque, que é de onde eu venho.

- Então você não é daqui. – Damon comentou enquanto rabiscava em um bloco de papéis. – E como foi que você se envolveu com esses traficantes, Emmett?

- Eu era um agente do FBI, mais precisamente do departamento de Narcóticos. – Emmett engoliu em seco. – Servi durante oito anos como agente.

- Um dos melhores... – Bella sussurrou mais pra si mesma do que pra qualquer um dos dois. Emmett tinha os olhos baixos, fixos em suas mãos que se retorciam nervosamente em seu colo. Ele iria mesmo falar sobre isso. – Você estava em um caso grande, não estava?

- Praticamente desde quando entrei no FBI. – ele declarou, Damon riscando furiosamente em seu bloco de anotações. – Não vou entrar em detalhes técnicos quanto ao assunto, mas a verdade é que todos os casos de tráfico de entorpecentes estavam ligados a um único grupo de pessoas. E era a esse grupo que queríamos incriminar, capturar, fazer qualquer coisa pra por fim a toda aquela pouca vergonha.

- Mas vocês sempre prendiam os peixes pequenos. – Damon comentou, solidário. – É sempre assim.

- Existiam outras fontes de distribuição de drogas, claro. Mas eu e meus colegas de trabalho sempre estivemos de olho na maior delas... e esse talvez tenha sido meu erro. – a voz dele era um simples sussurro naquele momento.

- Era seu trabalho, Emmett. – Bella encorajou-o, sua mão indo apertar o ombro do rapaz como se pra dar-lhe força. Apoio. – Seu trabalho era combater o tráfico e prender os verdadeiros responsáveis. Você não tem culpa por tudo o que aconteceu.

- Tenho sim. – o rosto do rapaz era a máscara do sofrimento, as lágrimas a tanto presas pra que ninguém as pudesse ver enfim deslizando por seus olhos ao se lembrar mais uma vez. Se lembrar de seu maior pesadelo. – Se eu não tivesse mexido com as pessoas erradas... eles ainda estariam vivos.

E escondeu o rosto por detrás de suas mãos, os soluços incontroláveis saindo em ofegos secos de seu peito torturado. Enfim Emmett MacCarty deixara ruir sua máscara tão bem feita de um controle que não possuía.

Enfim se deixou dominar por sua própria dor.

Não soube bem quando percebeu que Bella puxara a própria cadeira pra perto dele, afastando então as mãos de seu rosto e puxando-o pra um abraço apertado. Permitiu-se ser abraçado, o calor humano ao qual se recusara a se entregar naqueles longos anos solitários aconchegando-o em seu sofrimento.

- Eles jamais te culpariam por isso. – ouviu a voz abafada da garota que apertava suas costas com um braço enquanto o outro subira até sua cabeça, acarinhando os cabelos de sua nuca com uma dedicação quase maternal. E Emmett jamais tivera uma mãe. A única mulher que lhe cuidara daquela forma... morrera por sua causa. – Eles eram felizes ao seu lado, Emmett. Você os fez felizes.

- Eu não deveria ter me casado. – ele sussurrou em uma voz estrangulada, seu rosto afundado na dobra do pescoço da garota. Sabia que estavam apenas os dois ali, sabia que Damon saíra da sala quando ele começara a chorar. Mas mesmo que o homem ali estivesse, Emmett não se envergonharia de chorar daquela forma desesperada. Já fingira demais que estava bem. Não agüentaria fingir mais nenhum minuto. – Eu deveria tê-la deixado livre.

- E então ela jamais seria realmente feliz. – Bella interrompeu-o com firmeza, ainda segurando-o junto a si. E isso era tão estranho. Em outro momento, Emmett logo se recomporia e se afastaria, afinal nem mesmo era amigo daquela garota. Mas Bella... tinha algo. Algo que o aquecia de uma forma tão doce e especial que desde o momento em que sentiu seus braços a sua volta não pôde nem sequer pensar em se afastar. Era como se... como se ela irradiasse calor. Mas não um calor que aquecia o corpo. Era um calor que aquecia a alma, como um bálsamo que tratava de suas gangrenadas feridas. Não curava, mas o fazia sentir-se tão bem... – Ela sabia, Emmett, sabia dos riscos e mesmo assim se recusou a se afastar. Sabia dos perigos que cercavam sua profissão, ouviu todos os seus avisos e mesmo assim quis estar com você. Por que ela te amava. E ao seu lado era o único lugar onde seria realmente feliz.

- Mas Bella... meu filho. – ele gemeu ao se lembrar dos gritos. Mas a estranheza da situação aumentou quando a mão que estava em seus cabelos o apertou com mais força e então as imagens que sua mente produzira ao longo dos anos baseando-se nos gritos agoniados que ele ouvira foram se dissipando... era como uma TV com má sintonia, as imagens indo e vindo como se ele estivesse se esquecendo delas. Era como se, de alguma forma, alguém a estivesse tirando de sua mente. Elas ainda estavam lá, claro, mas pensar nelas já não era inevitável. Por que parecia que alguém estava arrancando aquele imã que sempre o levava aos lamentos, ao choro, ao sofrimento.

- Seu filho está bem. Eles feriram sim seu corpo, mas o que mais importa permanece puro, intacto. – Bella acalentou-o, um longo suspiro saindo por seus lábios enquanto o choro de Emmett se ia acalmando. Sua dor... estava diminuindo. Aquele aperto terrível em seu peito já não era tão sufocante. Sua agonia já não parecia tão profunda. O que estava acontecendo? Quem era Bella Swan? – A alma de Antony está num lugar melhor, e ele te ama ainda com o mesmo ardor de sempre.

- Como... como você sabe? O nome dele, como você sabe? – Emmett se afastou quando o nome de seu filho assassinado saiu da boca de Bella, seus olhos indo imediatamente se fixar nos olhos castanhos. E ele arfou com o que viu lá.

- Eu... eu preciso de ar. – ela disse de uma vez, se levantando antes que ele a pudesse impedir. – Damon lhe fará companhia por alguns minutos.

- Mas Bella... – ele ainda tentou, só que a garota já saíra do escritório.

O que acontecera ali? Em um momento ele estava naquela dor absurda de sempre, a persistência da garota enfim o fazendo se abrir e finalmente contar a alguém um pouco da tragédia que se abatera sobre sua família, e em outro... ele estava chorando, extravasando toda dor que lhe dilacerava por dentro.

Emmett levou uma mão ao peito sentindo estranhamente... leve. Era como... como se, de alguma forma, Bella tivesse sugado as coisas ruins que tanto lhe atormentavam. As lembranças ainda estavam lá, claro, a dor ainda existia. Mas seja o que fosse que ela fizera era como se fosse um remédio... alguma coisa que você toma quando está com dor e que a faz passar por um momento.

Mas isso era impossível... não era?

Só que a imagem dos olhos da garota não lhe saíam da mente. O que era Bella Swan?

xxx

Bella arfou em busca de ar, suas mãos apertando a borda da meia parede de vidro que cercava a varanda com excessiva força. Por que estava ficando louca, só podia.

Deixara Emmett no escritório de Damon por que não podia mais. Não podia mais permanecer na mesma sala que o rapaz depois de... depois de toda aquela loucura.

Por que estava enlouquecendo, essa era a única explicação.

Encontrara Damon no corredor e pedira apressadamente que ele fizesse companhia a Emmett enquanto ela tomava um ar, sem dar maiores explicações. Mesmo sem encarar seu rosto devido o medo de que ele visse algo em seus olhos que delatassem seus medos e receios, Bella soube que Damon estava intrigado com tudo aquilo. Ele não era bobo. Apesar de todas as traquinagens e brincadeiras idiotas, Damon Salvatore era uma das pessoas mais inteligentes que ela já conhecera.

Mas o que estava acontecendo com ela?

Ali, sozinha na varanda da Sala de Reuniões Nº 03, Bella permitiu-se entregar às dúvidas. Primeiro a dor que ela compartilhara ao olhar nos olhos de Emmett pela primeira vez. Em segundo vieram os sonhos e agora... isso. Não, não era possível.

Não era normal.

- Quanto mais você pensar sobre isso, mais confusa ficará. – uma voz conhecida a fez se sobressaltar, seus olhos indo se encontrar com os olhos muito claros quando seu corpo instintivamente se virou na direção do barulho repentino.

- Caleb... – ela disse ao reconhecer o homem que atravessava a sala de reuniões e se aproximava. – Você me viu passar?

- Não, não vi. Eu estava em meu escritório. – pela primeira vez desde que o conhecera, Bella viu Caleb sério. E então em seu rosto era visível toda a maturidade e experiência que seus bem vividos 37 anos lhe tinham dado, mesmo que não aparentasse ter vivido assim tanto tempo. Ele irradiava... poder, Bella logo sentiu antes mesmo que ele estivesse a dois passos de seu corpo, ocupando o lugar vago junto a meia parede de vidro, seus olhos ainda encarando diretamente os dela. – Mas eu te senti.

- Me sentiu? – ela estranhou. – Como assim me sentiu?

- Bella... você está evoluindo ainda mais depressa do que eu supunha. Mas se continuar fugindo de quem é, tudo se tornará mais difícil. – ele esclareceu fazendo-a desviar seus olhos pra cidade que se estendia a frente deles nos prédios cinzentos que os cercavam. – Você sabe muito bem como eu te senti.

- Sim, eu sei. – ela confessou com a cabeça baixa. Pra que mentir? Não podia mais esconder aquilo tudo de Caleb, se é que o fizera algum dia. Até ali suas negações tinham sido apenas um meio de fugir de tudo o que lhe acontecia. Mas ele sempre soubera de tudo. Simplesmente tudo. Podia mentir pra qualquer um, menos pra Caleb. – Desde quando você sabe? – perguntou num fio de voz ainda sem encará-lo.

- Desde sempre. – ele esclareceu ganhando assim um olhar surpreso da garota. Caleb então sorriu de leve. – Não menti quando te disse que armei tudo o que armei pra te trazer até mim por motivos fortes. Sei que considera erradas as coisas que fiz pra que isso acontecesse, mas eu também te disse que um dia você compreenderia... e esse dia é hoje.

- Caleb, eu... – ela tentou argumentar, mas os olhos tão azuis a impediram de prosseguir. Por que era como se ele pudesse ler sua alma.

- Agora você entende por que era necessário que você passasse pelas provações que passou. Eu poderia sim tê-la privado de muito sofrimento depois que seus pais e irmã morreram, sendo eu desde sempre o seu mentor. Mas esse não era o caminho, eu logo senti. Se eu tivesse interferido, hoje você não estaria assim, tão evoluída.

- O que é isso, Caleb? – ela quis saber, sua confusão a corroendo por dentro. – O que é isso?

- Primeiro me diga: até onde você pôde ir? – Caleb quis saber, o cenho de Bella se franzindo numa tentativa de entender o que ele queria saber.

- Como assim? – ela verbalizou suas dúvidas.

- Nos sonhos. – a voz de Caleb era um sussurro enquanto seu rosto era uma máscara de concentração. Era como se ele quisesse tirar toda a verdade do fundo de seus olhos. – Até onde você foi?

- Eu... eu compartilho os sonhos das demais pessoas. – Bella admitiu pela primeira vez aquela loucura em voz alta, seus olhos mais uma vez fugindo do olhar que a analisava atentamente. – Desde sempre eu sonho o que as outras pessoas sonham. Quanto mais forte a ligação, mais freqüentes e vívidos são os sonhos. – ela suspirou, concentrando-se em pôr em palavras tudo o que passara até ali. – Sempre imaginei que eu lesse o rosto das pessoas, suas expressões, e então transformasse isso em sentimentos. E que isso, de alguma forma, ficasse em minha mente, sendo processado, logo então me fazendo sonhar com tudo o que eu deduzia inconscientemente. – ela mordeu os lábios. – Foi assim que eu descobri que Susy e você tinham um caso há algum tempo atrás.

- Você nos viu? No sonho, eu digo. – o interesse de Caleb era intenso, ele nem mesmo parecia querer disfarçar pois se aproximou mais de Bella, sua mão indo pegar o queixo da garota pra que seus olhos mais uma vez pudessem se encontrar. – Você nos viu juntos?

- Não, eu não te vi no sonho. Não com ela, pelo menos. – ela engoliu em seco ao sentir-se tão... exposta diante daquele olhar fixo. Mas ele era a única pessoa que podia ajudá-la a entender... a única que podia ajudá-la a enfrentar tudo aquilo. – Ela nutria sentimentos por você, por isso sonhava contigo. E nesses sonhos, mesmo que tudo fosse estranhamente borrado, eu sabia que ela gostava muito de você e que isso estava atrapalhando todos os sentimentos que ela nutria por John. Depois que eu pude distinguir seu rosto em um dos sonhos e então vi o mesmo rosto na recepção de sua agência... – ela deu de ombros mais uma vez tentando fugir de seu olhar, mas o aperto firme em seu queixo não permitiu. – Eu consegui juntar tudo e descobrir que você estava por trás de tudo o que acontecia comigo, de certa forma.

- E esses sonhos... é mais intenso agora? – Caleb quis saber, seu cenho franzido demonstrando que analisava e processava cada informação que ela lhe dava.

- Sim, é. – Bella mordeu o lábio e respirou fundo, a mão de Caleb abandonando seu rosto quando percebeu que ela não mais fugiria de seu olhar. – Foi por isso que eu quis... que eu quis entrar nesse caso. Por que os pesadelos de Emmett acabariam por me enlouquecer.

- Eu entendo. – Caleb sussurrou ao se debruçar novamente na meia parede de vidro, seu olhar perdido nas paredes dos prédios em frente a eles enquanto pensava. – Admito que o rapaz me intrigou quando vi sua ficha junto à das demais pessoas interrogadas pela polícia no caso da morte de Vanessa. Eu já estava no exterior, longe de tudo pra quando você chegasse por aqui, fiquei sabendo do assassinato através da Lia. E, sem querer parecer cruel, veio a calhar em sua “iniciação”.

- É verdade. – ela concordou, nem de longe o julgando cruel por aquele comentário. Por que depois de muito tempo desde quando ela descobrira que Caleb manipulara tudo e todos por anos pra que ela enfim o conhecesse, Bella não o via agora com os mesmos olhos de reprovação. Por que agora ela o entendia.

- Quero sim alguém competente como Emmett trabalhando conosco. São poucos os seguranças que trabalham por aqui, não necessitamos de muitos deles. Só os coloco em casos quando estes pedem, apenas quando as situações se mostram de extremo risco. Ainda mais por que meus empregados passam por um pequeno treinamento antes de pegar um caso realmente arriscado.

- Parece que eu pulei algumas etapas então. – Bella comentou com um riso fraco. Caleb a encarou por um momento em completo silêncio antes de prosseguir.

- Mas não é por ele que eu aceitei que você o ajudasse. Sei que estou sendo até mesmo inconseqüente ao te colocar em uma coisa tão grande quando ainda não está pronta fisicamente pra lidar com isso, mas... sinto que tem que ser assim. – ele suspirou ao se adiantar e pegar a mão da garota entre as suas, fazendo-a se afastar da meia parede de vidro e se achegar mais a ele que a olhava dentro dos olhos. – Tome cuidado, Bella. Eu sei que você sabe muita coisa sobre esse caso. Sei também que você sabe que existe o que ser feito pelo Emmett, não faz seu gênero se lançar de cabeça sobre um caso perdido. Mas tome cuidado. Emmett é competente e estará o tempo todo com você assim como Damon, mas você já provou ser um imã pra problemas, então... apenas tome cuidado. – os lábios se apertaram antes que ele encerrasse seu pequeno discurso. – Você é valiosa demais pra que possamos nos dar ao luxo de te perder.

- Obrigada, Caleb. – ela foi sincera ao retribuir o aperto de suas mãos, a mão livre indo cobrir as mãos dele que apertavam a dela com carinho. – Estou realmente agradecida.

- Sei que está assim como sei que tem muito mais coisas as quais precisa me contar... mas não agora. – ele se inclinou e depositou um leve beijo na testa da garota que sentiu sua garganta se apertar pelo choro diante daquele gesto de carinho vindo de uma pessoa a qual ela tanto julgara. Por que quando se não conhece, quando não se pode ler o outro... ela só podia supor, deduzir. E cometera muitos erros ao julgar Caleb Langdon. – Agora Emmett ainda te espera na sala de Damon. Ele tem muita coisa pra contar.

- E o que eu digo pra ele? – ela sussurrou insegura. – O que eu digo sobre o que ele me viu fazer? – por mais que eles não tivessem falado sobre aquilo especificamente, ela sabia que Caleb saberia sobre o que estava falando.

- Minta. – ele respondeu simplesmente fazendo as sobrancelhas de Bella se erguerem pela surpresa. – Ora, minha cara. Não me olhe como se isso não fosse uma coisa que você fizesse com freqüência.

- Mas mentir não é errado? – ela perguntou antes mesmo que pudesse refletir sobre se deveria mesmo verbalizar essa sua dúvida. Mas Caleb riu, compreensivo, e ergueu a mão até colocar uma mecha solta de seus cabelos atrás de sua orelha.

- Certo? Errado? – ele deu de ombros, seu tão característico sorriso charmoso e enigmático estirando mais uma vez seus lábios. – Não sei e acredito que jamais saberei. Por hora eu julgo apenas... necessário.

- Necessário. – Bella repetiu enquanto sua testa franzida e seu olhar levemente desfocado mostravam que estava pensando sobre isso.

- Sim, necessário. – ele confirmou. – Por que as coisas não são apenas pretas e brancas: há sempre uma escala de cinza. Nem sempre o que se deve fazer é o correto, mas é apenas necessário. Por que os fins justificam os meios, não?

- Acho que você tem razão. – ela concordou com um leve sorriso e apertou mais uma vez as mãos que seguravam as suas. – Mais uma vez, obrigada, Caleb. Eu te julguei mal.

- É falta de hábito. – agora ele parecia estar se divertindo. – Quando os demais são tão absurdamente transparentes aos seus olhos, fica difícil saber o que pensar sobre quem não se pode ler.

- Você tem razão, mas mesmo assim te devo desculpas. – ela sussurrou ao soltar as mãos que prendiam as suas, Caleb não demorando muito até levas as mãos aos bolsos de sua calça na postura tão galanteadora e ao mesmo tempo despojada que lhe era característica. – Deixe-me ir. Os rapazes devem acreditar que fiquei louca.

- E isso é ruim? – ele perguntou ao inclinar a cabeça pra um lado, seus olhos se estreitando. — Por que a loucura é apenas um ponto de vista diferente sobre a realidade. Jamais se esqueça disso.

- Não esquecerei. – Bella estava cada vez mais admirada com a sabedoria daquele homem, relutando até mesmo em lhe dar as costas e voltar pra sala de reuniões, andando de volta pro escritório de Damon.

Queria muito ficar ali e conversar mais com Caleb. Por que naqueles poucos minutos, ela entendera mais sobre si mesma do que nos muitos anos nos quais tentara entender tudo o que acontecia sozinha.

Por que Caleb era tão parecido com ela... e com ele Bella podia ser ela mesma, sem necessidade de fingimentos. E isso era absolutamente fantástico.

Mas devia dar tempo ao tempo, disso ela sabia. E com o tempo e mais conversas com Caleb, ela acabaria por entender realmente quem ela era.

Ou o que ela era, na verdade.

Notas finais
Nesse capítulo, muitas novidades estão. Estou errada?
Muita coisa sobre Emmett, muita coisa sobre Bella, muita coisa sobre a relação entre Bella e Caleb, ambos naturais (aqui as gurias que quase me apedrejaram ao pensarem que haveria romance BellaxCaleb perceberam que essa... química é algo diferente da paixão/luxúria, não?).
Muita coisa oculta nas meias palavras, frases inacabados, pensamentos soltos...
Coloquem a cabeça pra funcionar e me respondam: teorias? Dúvidas? Desabafos?
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk'
Boas Festas a todos! Amo todos vcs (ê, espírito de festividades... ¬¬)