The Apocalypse
3 I Never Fall In Love Again
Notas iniciais
3
— Minhas mãos estão doendo. – falei, olhando – as que estavam cheias de calos e arranhões. Era hora do almoço e tinha acabado de ajudar a plantar trocentos milhões de vegetais.
— Se eu olhar pra mais uma cenoura, eu vou vomitar. – disse Beth, me fazendo rir. Era hora do almoço e todos estavam animados por Daryl ter trazido um veado. Ele estava começando a virar uma celebridade na prisão.
— Eu só queria deitar e dormir. – falei. Ficar lendo até tarde e mais quatro horas no sol me fizeram ficar com uma baita fadiga.
— O que mais você tem de fazer ? – perguntou Carl, chegando subitamente.
— Eu vou ter que cuidar das crianças com Carol, na hora da história. – falei, bocejando. – E você vai ?
— É coisa de criança.
— Baixa a bola. Nós só temos quatorze anos. – falei, me levantando da mesa. – Tenho que ir.
Sai do refeitório e fui em direção á biblioteca. Sempre ia antes da hora da história, para poder ler antes. Peguei o livro do mesmo lugar de onde o deixei e começei a lê – lo.
Logo começei a ouvir algumas vozes vindo da ala de livros infantis. Andei até lá e vi a sombra de duas crianças. Eram Lizzie e Mika. Lizzie estava sentada em uma cadeira, com o rosto vermelho e chorando. Mika acariciava suas costas, sussurando algo. Quando me viu chegando me olhou de uma forma desesperadora, como se realmente estivesse precisando de ajuda para acalmar Lizzie.
Andei até elas e me abaixei para ficar na altura de Lizzie. Toquei em seu ombro para chamar sua atenção. Ela tirou as mãos do rosto, revelando seus olhos azuis tristes.
— O que aconteceu ? – perguntei.
— Nós duas, Luke e Molly estávamos no portão conversando com Nick e os outros. – ela falou em meio a soluços. Olhei para Mika, perguntando silenciosamente quem era Nick. – Carl chegou e disse que nós não deveríamos dar nomes aos mortos.
— Lizzie, vá lavar seu rosto e volte logo para a hora da história.
Lizzie passou as mãos no rosto para limpar as lágrimas e saiu da biblioteca.
— Mika, quem é Nick ? – perguntei.
— Nick é… — disse ela hesitando. – Ele é um amigo.
— Carl disse que é um morto.
— Ele é.
— Vocês não deveriam dar nomes aos mortos. Eles podiam ser pessoas antes disso mas agora eles são só mortos. O que eles um dia foram não existe. Você entende isso ?
— Sim. – falou rapidamente. – Mas Lizzie não.
— Ela vai entender, com o tempo. – falei. – Quando começou isso tudo eu também era assim.
— Como assim ? – falou.
— Eu também acreditava que essas coisas eram pessoas. Mas perdi pessoas para esses mortos e percebi o que eles faziam. – ouvimos passos e as crianças começaram a entrar na biblioteca, junto de Lizzie. – Promete que vai cuidar dela sempre ? – falei esticando meu mindinho.
— Prometo. – ela disse estendendo seu dedo e o entrelaçando com o meu.
— Agora, vamos. – falei.
Andamos até o círculo que tinha se formado para ouvir a história e Mika sentou – se lá, ao lado de sua irmã. Senti alguém tocando meu ombro e me virei para Carol.
— Pode tirar uma folga hoje. Eu cuido deles. – ela disse, com seu sorriso gentil de sempre.
— Obrigada. – falei, sorrindo também.
(…)
Estava na minha cela quando ouvi um choro baixinho que vinha da cela de Beth. Andei até lá e vi Carl, segurando Judith. Judith chorava e Carl tentava acalmá – la, sem sucesso.
— Me ajude. – ele falou de uma forma tão desesperada que chegou a ser cômica. Segurei Judith e a sacudi levemente. Isso deve ter funcionado pois logo ela começou a parar de chorar.
— Você leva jeito com ela. – falou Carl. – Acho que você, a Beth e a Carol são as únicas que conseguem acalmá – la. E meu pai, de vez em quando.
— Logo você consegue – falei.
— Eu duvido. Não consigo nem me acalmar quando estou chorando.
— O xerifinho chora ? Isso é novidade. – disse, rindo.
— É um segredo. Não conte a ninguém. – disse brincando. – Agora me conte um segredo seu.
— Eu não tenho muitos.
— Todo mundo tem.
— Eu não sou todo mundo. — falei. Carl me olhou curioso, ainda insistindo. Coloquei Judith (que já estava adormecida) em seu berço. – Ok, a coisa que eu mais gosto é música.
— Que tipo de música ?
— Quer ouvir ? – perguntei, ansiosa.
— Como ?
— Pera aí. – falei correndo para minha cela, pegando o Ipod com os fones de ouvidos e trazendo para a cela. Deitei na cama de baixo e coloquei um dos fones. Carl também deitou – se e colocou o outro fone em seu ouvido. Cliquei em uma das músicas e começou a tocar The Only Exception do Paramore.
When I was younger I saw
My daddy cry and curse at the wind
He broke his own heart and I watched
As he tried to reassemble it
And my momma swore that she would
Never let herself forget
And that was the day that I promised
I'd never sing of love if it does not exist
But, darling, you are the only exception
Well, you are the only exception
Well, you are the only exception
Well, you are the only exception
A música continuou tocando e percebi que Carl estava me fitando. Olhei para aqueles olhos azuis e por uns segundos me perdi neles. Carl começou a se aproximar de mim e, por algum motivo, eu não recuei. Parecia que não estava sob controle do meu corpo. Carl estava a alguns centímetros de mim quando percebi que Beth tinha chegado na cela.
Me levantei da cama e o fone saiu do meu ouvido, me fazendo acordar para a realidade. Sai da cela correndo, tentando esconder o rubor em minhas bochechas.
‘Eu não posso fazer isso. Não agora. Não no meio disso tudo’ pensei.
Eu tinha feito uma promessa para mim mesma. Isso não podia acontecer.
Eu não podia me apaixonar.
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