The Apocalypse
22 Dog Days Are Over
Notas iniciais
22
POV Carl
3 semanas depois…
Nós só tínhamos uns aos outros, a floresta e uma longa estrada. Andávamos há tanto tempo que ás vezes esquecia o nosso destino. A capital, Washington, que parecia cada vez mais longe a medida que mais problemas apareciam.
A dificuldade em achar alimentos, que nos deixava cada vez mais fracos, a dor da morte de tantos á nossa volta. Principalmente as mortes.
Bob tinha morrido uns dias antes na igreja por causa da mordida, Beth há uns dois dias com um tiro na cabeça e Tyreese ainda ontem, pela mordida de um dos irmãos zumbificados de Noah.
Mas nós não podíamos desistir, tinhamos que continuar tentando achar comida, abrigo, alguém que nos ajudasse. Pelas nossas perdas, sabendo que a melhor coisa que podíamos fazer para vingá – las era continuar vivendo. Pelos mortos, que mesmo que caminhássem sobre a terra e tentassem nos matar, sabíamos que foram pessoas um dia. Todos tinham as suas razões para continuar.
Para mim, a Judith. Eu não conseguiria desistir sabendo que Judith estaria sozinha.
— Ei, Carl, você vem ? – perguntou a voz do meu pai, vindo detrás de mim. Não percebi que pensava tanto até alguém me trazer de volta á realidade.
Tinha achado uma caixinha de música quebrada, no meio da floresta. Ela estava um pouco suja de terra e algo que parecia sangue, mas continuava bonita. Tentei fazê – la funcionar, mas eu não sabia como. Mesmo assim, resolvi dá – la para Maggie. Ela ainda estava triste por causa da morte de Beth e acho que isso ia alegrá – la. Fazia muito tempo que nenhum de nós via alguma coisa bonita.
Me virei para meu pai, a sua barba maior do que nunca e a garrafa de água vazia, tal como a minha.
— Achou alguma coisa ? – perguntou ele, mesmo que soubesse que não tinha achado nada. Neguei com a cabeça e coloquei a caixinha de música na mochila de ombro.
Continuei andando ao lado de meu pai, enquanto voltávamos para o lugar onde tinhamos parado para descansar.
— Carl. – falou ele, parando de repente. – Faz um tempo que eu queria conversar com você. Sobre a Emily.
A menção do nome dela me fez estremecer ao longo da minha espinha.
— Por que ? – perguntei em um tom um pouco mais alto e bravo do que queria.
— Eu sei que não foi certo deixá – la.
— Mas nós deixamos ela e agora ela morreu. – falei com frieza e evitando olhar diretamente para meu pai.
Eu tinha tentado aceitar que ela morreu há muito tempo, assim seria mais fácil. Talvez eu até conseguiria esquecê – la, mesmo que fosse pouco provável. Eu sabia que aqueles olhos escuros e cabelos longos me assombrariam para sempre.
— Você não sabe se ela morreu. Ela é uma garota muito forte, Carl. Mesmo antes de termos achado – a, ela sobreviveu muito tempo sozinha.
Um tempo em silêncio, que logo se transformaram em minutos. Ouvia os sons da floresta, o farfalhar das folhas e o barulho dos nossos passos.
— Eu sinto saudade delas. – falei de repente, por impulso. – Da Emily e da mamãe. Acho que uma teria gostado de conhecer a outra.
Meu pai hesitou ao ouvir a menção da mamãe, do exato jeito que tinha feito uns minutos atrás ao ouvir o nome de Emily. Não me impressiona que as pessoas me achassem parecido com ele, na aparência e no jeito de pensar.
— Eu tenho certeza. – falou ele.
(…)
Continuamos andando. Meu pai segurava Judith e conversava com Daryl, mas a maioria das pessoas não conversava. O ronco de nossos estômagos era muito forte.
No meu, parecia que havia um monstro dentro, me engolindo de dentro pra fora. Eu insistia em tentar ignorá – lo, mas ele sempre voltava a me lembrar que desse jeito não teria muito tempo. Adicionando isso ao suor que sentia escorrer de todas as partes do corpo e se acumular na minha camiseta molhada, a situação era quase insuportável.
Também havia o sono que sentia, que não se dava somente pela necessidade de ficarmos pouco tempo nos lugares para escapar dos mortos. Toda vez que eu fechava os olhos, via a imagem dela. Na prisão, ajudando a cuidar da horta ou na igreja, rindo enquanto pegava feijão de um pote. Mas na maioria das vezes era pior como de quando achamos ela na prisão, desacordada com a perna jorrando sangue ou gritando enquanto o homem sujo e ensebado tentava tirar a sua camiseta. Ás vezes também jurava que tinha visto seus cabelos por trás de uma árvore, que no próximo segundo desapareciam.
Paramos de repente, mas depois continuamos andando. Daryl tinha se afastado de todos e ido até a floresta, para ver se achava algo e para ficar um pouco sozinho também, eu acho. A morte da Beth tinha o deixado muito triste também, mesmo sem ele admitir. Mesmo assim, Carol o seguiu, desaparecendo na floresta logo atrás dele.
Quando paramos, aproveitei para tirar a caixa de música da mochila e dá – la para Maggie que estava ao meu lado, com os olhos azuis frios.
— Achei isto quando procurávamos água. – estendi a caixinha e ela segurou, examinando – a com seus olhos azuis. Eles foram tão felizes há um tempo, mas agora estavam gélidos.
— O que é isso ? – ela falou abrindo e revelando uma bailarina pequena e frágil.
— Acho que tocava música. Tá quebrada.
— Obrigada, Carl. – ela disse sorrindo um pouco. Acenei com a cabeça e sorri também.
— Achei que iria gostar.
Continuamos a caminhar em silêncio, até que começei a ouvir os usuais gemidos dos mortos ao longe. Quando me virei para ver o que acontecia, vi alguns deles andando na estrada atrás de nós e mais se juntando aos outros, sedentos por carne. Tentei ignorar o barulho horrível e seguir em frente.
(…)
Aposto que todos já tinham percebido a proximidade deles e sabiam que não poderiamos parar. Todos sabíamos que os problemas se arrastavam atrás de nós, literalmente e que, logo nos alcançariam.
Quando todos perceberam a gravidade do problema, meu pai resolveu arquitetar um plano, observando uma parte da estrada que tinha barreiras demarcando a floresta do cimento.
Perto do começo da ponte, de um lado, estavam Sasha, Maggie e Abraham .Do outro, Michonne, Glenn e meu pai, que mesmo de longe conseguia ver seu olhar perdido na direção do último grupo, o nosso. Eu, Judith, Padre Gabriel, Noah, Eugene, Rosita e estavam no outro lado da ponte, só assistindo eles começarem.
Os primeiros começaram a chegar no começo da ponte, rangendo os dentes e espirrando no solo sangue de cortes no corpo ou na podridão restante deles. Um homem tentando agarrar o seu pescoço fez meu pai tropeçar e quase cair no barranco, mas logo se recompôs e conseguiu desviar do errante que caiu no barranco logo depois.
Abraham empurrou dois e Glenn fez o mesmo. Logo todos seguiam o exemplo de meu pai e jogavam os zumbis no barranco, se livrando da maioria. Menos uma pessoa. Sasha andava com os olhos vidrados na direção de um zumbi e antes que ele pudesse agarrá – la, ela segurou a cola da sua camisa. Com os dentes cerrados e um olhar de fúria, ela enfiou a faca na cabeça do morto fazendo espirrar sangue em suas roupas, um segundo depois de Michonne chamá — la. Mais zumbis se aproximavam de Sasha.
— Fiquem em fila. Ao lado dela. Mantenham o controle. – gritou meu pai, alertando todos a tomar cuidado com Sasha e enfiando seu facão na cabeça de outro morto.
Vi Abraham murmurar algo para Maggie e os dois começaram a se aproximar de Sasha, esperando contê – la mas ela já avançava para outro errante. Michonne segurou seu braço e falou algo para ela. Conseguia ver a raiva no rosto da Sasha e ela intervir não ajudou, pois ela soltou seu braço com força e continuou matando mais zumbis.
Não conseguia mais ver direito o que acontecia, sangue espirrava para todos os lados. Eram muitos mortos e logo o número começou a diminuir. Quando o último morto tocou o chão, consegui ver as duas no canto se encarando, Sasha com um olhar furioso e Michonne, impassível. As duas forama andando para a outra ponta da ponte, com os outros atrás dela se entreolhando.
(…)
Vários carros parados na estrada, formando uma barreira. Na hora tive um flashback, de alguns anos atrás, quando estávamos na mesma situação daquele momento. Foi naquele dia que perdemos Sophia e nunca mais a vimos viva. Não iríamos cometer o mesmo erro desta vez.
— Eu vou pelo mato, dar a volta. – falou Daryl, diretamente para meu pai, que assentiu.
— Posso ir ? – perguntou Carol.
— Não. Só eu. – falou Daryl rispidamente, fazendo Carol se retrair e se afastar.
Começamos a vasculhar os carros, mas quando terminamos de fazer a limpa só tinhamos achado bebida, que Abraham tomou conta ( com o maior prazer ). Sentamos no asfalto para descansar, eu e meu pai com as costas apoiadas segurando a Judith que estava enrolada em um pano roxo, dormindo. Eu observava Abraham entornar a garrafa numa tentativa falha de acabar com a sede.
Eu estava com a cabeça abaixada, com o queixo apoiado na Judith quando começamos a ouvir passos, mas não pareciam pesados contra o asfalto como os nossos, mas leves e em sintonia. Todos nos viramos para ver uma matilha cães sujos de terra e sangue, com baba escorrendo da boca e orelhas para cima.
Por puro instinto, agarrei Judith para mais perto de mim a fim de esconder sua estatura pequena de bebê atrás de mim. Ela soltou um pequeno ganido de bebê, mas parecia que sabia o que estava acontecendo e ficou quieta logo em seguida. Os sentidos de bebê dela eram muito aguçados, mesmo sem saber o que estava acontecendo, encostada no meu peito.
Eles começaram a latir, com raiva e meu pai já começava a se levantar, quando ouvimos tiros e os cães, um a um, caíram no chão mortos. Todos olharam para Sasha, que tinha sua arma na mão apontada para os cães e seu olhar de ferocidade tinha voltado.
Não me orgulho do que fiz nas próximas horas, mas estávamos todos famintos. Logo, todos estávamos comendo a carne dos cachorros, que logo descobrimos ser macia mas sem gosto. A única coisa que havia sobrado era a coleira ensanguentada de um dos cachorros. E todos nós comendo a sua carne, por puro desespero.
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