The Angels Also Love Forever
3 O Reencontro
Notas iniciais
Como de costume e algo rotineiro do anjo, Gabriel observava seus charas na Terra, sem saber o motivo pelo qual tinha preferencia nos “companheiros” maus. Talvez, pensava, fosse pelo motivo dos anjos desejarem o bem e alguém com o nome de Gabriel sendo mau era algo estranho, porém ele se fascinava tanto quando se desagradava ao ver que alguém era capaz de matar por pouco, tirar uma vida de preço inimaginável.
Na zona oeste de Nova Iorque, encontravam-se parques por todos os lados, inclusive o Central Park e estes eram os lugares preferidos do anjo, quando desejava observar a vida humana em seu perfeito estado de paz, quando encontrou uma figura hostil.
De cabelos negros como a noite, curtos e lisos, de olhos com um tom preto demoníaco e um corpo definido com os tons do pecado – como Gabriel gostava de chamar -, seu nome era Gabriel Sthevan.
Ele percorria o parque, de um canto ao outro, observando as pessoas como um psicopata estuda seu alvo, imaginando quando, onde e como atacar.
Os músculos do anjo se retesaram com a aproximação do homem em uma garotinha, rondando-a alguns momentos antes de sair do parque.
Sthevan estava conversando com alguém pelo celular, nervoso e impaciente, dizendo coisas que Gabriel aceitou como ameaça, atravessando a rua sem, ao menos, olhar para o carro que freou em cima do rapaz, algo que não preocupou o anjo, pois não vira Morte por perto.
Seguindo o humano e prestando atenção no que falava, Sthevan parecia falar com um parente, ou amigo, a respeito de uma festa para receber alguém, aparentemente com quem Sthevan mantinha um caso, que estava saindo do hospital e voltando para casa, porém, ele não pareceu tão animado quanto deveria.
Gabriel o seguiu até o metro, descendo na estação Grand Central, virando a esquina e se deparando com um bairro repleto de casas e não mais prédios, com os quais estava acostumado quando ia para Nova Iorque.
As casas dali possuíam o mesmo estilo arquitetônico das demais da regiao; amarelas com telhados marrons e uma grama razoavelmente bem tratada.
Em seu subconsciente, Gabriel se culpava a cada segundo por ter seguido aquele estranho até ali, imaginando o porque de tudo aquilo enquanto Sthevan estava parado de frente a uma casa azul claro, com janelas brancas e beirais da mesma cor, com trepadeiras por todas as partes e uma porta lateral de vidro, sendo contemplada por um lindo gramado verde vívido.
– Finalmente! – Disse uma mulher de aparentes 40 anos, trajada de um vestido azul marinho de frente única de babados na saida – Entre!
– Claro, Sra. Kellers, nunca deixaria de recebe-la. – Sthevan forçou uma voz animada, deixando seu lado hostil e nervoso de lado.
– Ela sentiu tanto a sua falta! – A mulher, agora conhecida por Gabriel como senhora Kellers, disse com um tom ainda mais doce, porém baixo, como se evitasse que alguém ouvisse aquilo.
–E eu a dela... -Ele disse com um sorriso irônico no rosto ao adentrar a casa.
Gabriel, insistindo em observar o mero mortal, seguiu-o para dentro do recinto.
A casa era toda arejada, em um estilo simples, mas totalmente acolhedora. A porta de entrada dava na sala, onde encontrava-se uma escada de madeira que subia para os quartos e o banheiro. Seguindo o térreo, vinha a copa, a cozinha e um pequeno quintal nos fundos da casa onde existia uma rede e uma mesa italiana.
O anjo respirou fundo, enchendo seus pulmões com aquele ar acolhedor, praticamente, sentindo-se em casa.
Gabriel subiu as escadas e foi para o último quarto do corredor, o que a janela dava no quintal da frente, e entrou encontrando ali o quarto de uma jovem possuindo uma cama de casal com uma colcha de retalhos rosa e lilás, pequenas lampadas de natal espalhas por ali iluminando o local, um criado mudo, ao lado da cama, com um caderno de capa vermelha e de camurça, com uma tranca
Em frente a cama se encontrava uma penteadeira branca e no banquinho estava uma garota arrumando seu cabelo, com o braço engessado e um vestido vermelho sangue de alças e lenço na saia, com um sapato de verniz preto com salto 10cm.
–Oi Anne, como você está? — Sthevan ajoelhou-se ao lado da menina que estava de cabeça baixa, levantando-a logo que ele segurou em sua mão.
–Gabriel... Você veio! Senti tanto a sua falta! – Murmurou baixo acariciando a mão do rapaz — Pensei que você não viria...
–Anne, venha logo, todos estão te esperando! — Neste instante, Anne virou seu rosto e o anjo viu seus olhos azuis cor de céu penetrantes, seus lábios carnudos e vermelhos, suas bochechas coradas, seu cabelo enrolado loiro brilhante e seu rosto angelical que ele tanto remoeu em suas lembranças há dias.
Um aperto tomou conta de seu coração ao recordar ser a garota que ele havia salvo no trem, a mulher tão especial que Deus se submeteu a usar os últimos métodos para salva-la.
Novamente, aquele sentimento estranho de proteção atingiu Gabriel em cheio, desejando agarra-la e, por algum motivo desconhecido, tira-la daquele lugar, pois ali ele sentia morte, sofrimento, e muita raiva, piorando quando Anne levantou e abriu um sorriso, pegando na mão de Gabriel que a levou escada abaixo, em direção ao quintal dos fundos onde algumas pessoas se encontravam esperando Anne.
–Ela chegou, viva! -Todos gritavam alegremente e jogavam confetes nos dois.
A maneira como Sthevan segurava na mão de Anne fez Gabriel sentir uma raiva sem precedentes, fugindo dali antes que perdesse o controle de seus sentimentos e estragasse seu disfarce.
...
Vários dias haviam se passado após aquele “incidente” sem que Gabriel observasse a vida dos seres humanos na terra, concentrando-se apenas em fazer o seu serviço e voltar para o céu o quanto antes.
Rafael e Miguel perceberam seu comportamento estranho, mas não perguntaram o motivo, pois sabiam que se Gabriel quisesse conversar a respeito já teria dito, ao invés de ficar se arrastando pelos cantos, deixando a vida passar.
Ele nunca mais voltou para aquela casa e, mesmo tentando afastar aqueles pensamentos com toda sua força, ele não conseguia apagar a imagem de Anne de sua cabeça, desde sua quase morte até esse novo encontro.
Mesmo não voltando para Terra, Gabriel a observava das nuvens, sentindo-se cada vez mais irritado por fazer isso, porém, não podia evitar e, para piorar, lembrava-se de cada coisa que ela fizera.
Desde um fim de tarde no qual ela balançava no parque com Sthevan, uma noite no bar, sua rotina no colégio, entre outros, não importava onde ela estava, Sthevan sempre estava junto, abraçado a ela, fazendo Gabriel imaginar qual seria a sensação, indagando-se sobre o que estava sentindo.
Após tentar evita-la, mais uma vez, conseguindo-o por um bom tempo, ele se perdeu e voltou a estaca zero quando deparou-se observando Sthevan em sua casa, vizinha da de Anne, deitado na cama, conversando no celular com uma tal de Laura.
–E ai, você vai na casa da Anne hoje?
–Hoje não... Não aguento ver ela mais... – Bufou. — Muito menos aquela paixão ridícula dela por mim...
Ele achava o amor dela ridículo? Gabriel indagou. Eu achei a coisa mais profunda do mundo! Prosseguiu, lembrando da forma que ela olhava para ele, parecendo ver o próprio Deus, como se visse a vida... E ele não valoriza este amor? Gabriel desejou voltar a terra para esgana-lo por iludi-la, fazendo parecer ama-la, desejou mata-lo por faze-la sofrer daquela forma.
–Tem que pegar, não ter essa coisa ridícula de amor!- Laura disse do outro lado da linha.
Ridícula? Gabriel pensava tão alto que, por um momento, teve medo de algum anjo ouvir sua ira. Tudo bem, eu nunca senti amor, mas eu acreditava nele mesmo assim, sonhando que esse sentimento era como um premio...
.–Tá, mas agora vou ter que desliga, vou lá na casa dela, hoje ela vai embora.- Disse aliviado, como se um grande peso saísse de suas costas.
Como assim ela vai embora?! Gabriel sentiu seu coração apertar Para onde?! Era sufocante a nova sensação que tinha.
–Tá bom, depois a gente se fala. Beijos, tchau.
–Tchau.
Sthevan levantou-se e seguiu, arrastando-se, para a casa de Anne, fazendo o mesmo caminho que da ultima vez que Gabriel estivera lá dentro, escondendo o sorriso satisfeito no rosto.
–Oi, Gabriel.
–OI Anne, já fez as malas? – Perguntou impaciente.
–Sim, só estava te esperando para me levar ao terminal.
–Hmmm... – Deu de ombros não dando a mínima, andando até o criado mudo onde pegou o caderno de veludo de Anne. Nele estava escrito em letra artística ,*Anne Kellers*
–O que é isso, Anne? – Seu rosto ostentava um olhar de reprovação.
–Não mexa nisso! — Ela voou em direção a Gabriel que se esquivou facilmente, mantendo o livro acima de sua cabeça. Como Anne era mais baixinha que ele, ficou dando pulinhos para tentar pegar o objeto.
–O que é? – Divertia-se com a cena que a garota fazia.
–É uma coisa particular!
–Seu diário?
–NÃO TE INTERESSA!AGORA ME DEVOLVE! – Gritou em tom de súplica.
–Tá, calma, toma. — Ele lhe devolveu o caderno e ela o guardou em sua bolsa.
–Vamos?
–Vamos.. . -Ela ajeitou sua saia rosa de babados e sua blusa branca de renda, pegou sua jaqueta e sua bolsa enquanto Gabriel pegava sua mala e lhe esperava na porta do quarto. Ela se virou para olhar seu quarto e saiu quase chorando. Pelo jeito ela iria para longe e demoraria a voltar.
Gabriel até estava feliz com a viagem de Anne, apesar de não saber para onde ela iria, porém, ela ficaria longe daquele sacripantas, entretanto, o que lhe preocupava era o caso dela encontrar problemas maiores.
O anjo sabia que morreria de preocupação se não a seguisse para protege-la, usando como desculpa seu trabalho.
Ela entrou no banco da frente com Sthevan e seus pais com seus irmãos a acompanharam até ali. Ana e Felipe eram seus pais e seus irmãos eram Emanuelli, de 8 anos, e Fábio, de 10 anos.
–Vou sentir sua falta. — Disse Anne dentro do carro.
–Eu também, 3 meses é muito tempo.
–Mas sei que vou gostar de lá, me faz feliz.
–Eu sei, vê se escreve tudo bem?
–Pode deixar.
Eles chegaram ao terminal rodoviário e foram para a plataforma 6onde continha o ônibus para a Califórnia – Gabriel indagou-se Quem vai para o outro lado do pais de ônibus?! Dando de ombros em seguida — e era este o futuro dela, 3 meses lá.
Ela se despediu de seus pais e seus irmãos dando-lhes abraços calorosos e beijos intermináveis. Foi a primeira vez que o anjo imaginou como seria os lábios dela em sua pele.
Ela ficou um bom tempo abraçada com Gabriel, tempo o suficiente para fazer o anjo querer voltar a terra apenas para separa-los de tanto ódio, inacreditado com amor que Anne nutria por seu chara.
–Tchau... — Ela beijou sua face e entrou no ônibus, sentando-se no fundo, olhando pela janela com os olhos debulhados em lágrimas e acenando com um sorriso em seu rosto.
Foi a última vez que Gabriel a veria feliz, ele sentia isso, pois sabia que no futuro sua vida seria mergulhada em um mar sem fim de trevas...
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