The Anchor

23 Você me deixa tão indiscutivelmente quente.


Notas iniciais
* Meninas, tá rolando uma brincadeira no ask fm! Entrem lá, façam qualquer pergunta e coloquem no final o nome do personagem que querem que responda. Irie responder como se fosse o personagem! Pode até rolar spoiler. http://ask.fm/imlittleg * CÁ ESTOU EU! Leiam as notas finais, suas lindas. Quero dizer "olá!" para as leitoras fantasmas que comentaram no último capítulo! Obrigada a todas que comentaram/comentam. QUERO AGRADECER ESPECIALMENTE A Deusa das Sombras, OBRIGADA PELA LINDA RECOMENDAÇÃO! Muito obrigada por todo o carinho! Sério. Acho que é só isso. sz Boa leitura!

Capítulo 22.

Suspirei profundamente, finalmente me lembrando de todos os acontecimentos da noite anterior. Eu não sabia se estava agradecida por nada ter acontecido, ou decepcionada. Certo, eu precisava parar de pensar daquele jeito, porque eu simplesmente me contradizia em todas as vezes que resolvia pensar. Eu queria Victor, mas quando ele tentava algo, eu quase sempre me afastava. Algumas pessoas queriam algo que não podiam ter, e quando tinham, não queriam mais. Eu já tinha sido daquele jeito, mas com Victor era diferente. Poderia parecer besteira, mas eu sabia que tinha medo. Eu poderia tê-lo, mas simplesmente tinha medo. Medo de não saber o que fazer, medo do que aconteceria depois. Medo. Medo de tudo.

E, principalmente, eu tinha medo de deixá-lo me tocar e ele depois nem olhar na minha cara. Victor era do tipo que só queria uma coisa com as garotas, e quando tinha... pronto, não precisava mais delas. Não queria mais. Mas se minha mente sabia daquilo, por que a mesma insistia em projetar a imagem dele na minha cabeça toda hora? Eu estava ficando louca.

Eu não estava com sono, estava mais para anestesiada. Eu não tinha bebido na noite anterior, então não sabia o motivo de ter esquecido os acontecimentos e apenas ter lembrado naquele momento. Provavelmente era a exaustão ou o que eu sentia sempre que acordava em um susto — a típica sensação de "o que eu estou fazendo aqui?" e o branco na mente.

Pisquei os olhos algumas vezes, bocejando um pouco. Cocei-os um pouco, varrendo o sono para fora deles. Olhei para baixo rapidamente, percebendo que estava tão perdida em pensamentos que não tinha lembrado que certa mão estava por baixo da minha blusa, ainda. Alguém me abraçando por trás, e eu sabia exatamente quem era. Eu não sabia em que momento da noite (ou do dia) ele tinha me abraçado, mas não era ruim. Eu sentia uma boa sensação por meu corpo, como se eu estivesse segura. Eu só não queria que ele acordasse naquele momento e acabasse com tudo.

Eu sabia que Victor estava extremamente próximo de mim, o que me deixava um pouco apavorada. Todo meu corpo parou quando o senti se mover atrás de mim, mas apenas fez um baixo barulho com a boca e apertou um pouco mais a minha barriga, descendo para meu quadril. Ofeguei um pouco, surpresa, mas nada fiz.

Por favor, que ele não acorde agora.

Ele parou de se mover, e agradeci mentalmente. Mordi meu lábio inferior um pouco, finalmente tomando coragem e me virando na cama. E foi naquele momento que meus olhos pararam em seu rosto e eu congelei.

Algumas pessoas diziam que a beleza exterior não importava, e sim a interior. E, e caso a exterior importasse, não era tanto. Eu ficava no meio termo, já que achava que as duas importavam. Pense só, se você estiver em uma festa ou qualquer outro lugar do gênero, e perguntarem com quem do lugar você ficaria, sem você conhecer nenhum deles, certamente responderia a pessoa que se encaixa no que te atrai. Você não irá querer uma pessoa que não seja atraente para você, ou não possua nada que você goste. Você depois poderá descobrir que a pessoa que não te atraiu tem gostos parecidos com os seus e/ou é extremamente gente boa. Mas você só saberia se tivesse conversado com ela. Então você irá se arrepender, se queria algo mais sério. Mas não irá, se não queria. A beleza exterior dela te afastou, mas a interior tinha poder para te aproximar.

Ninguém vai beijar por uma noite o cérebro de alguém, ou a personalidade, para apenas uma coisa de momento as pessoas procuram o que as atrai fisicamente.

Agora imagine que em um dia acabou ficando com uma pessoa extremamente atraente, porém que se mostrou ser alguém terrível. A beleza exterior dessa pessoa te atraiu, mas você não conhecia a interior dela. O que é importante. Mas o exterior também é, porque, querendo ou não, ele que te fez olhar para a pessoa. E se ela não fosse alguém terrível? Então tudo teria dado certo.

Era estranho como eu conseguia pensar em todas aquelas coisas ao mesmo tempo, principalmente na situação que eu me encontrava, mas aquilo simplesmente veio em mente.

Os olhos de Victor estavam fechados de modo angelical, passando uma imagem que eu sabia que ele não possuía. Talvez ele conseguisse enganar algumas pessoas, mas não me enganava. Ele estava longe de ser um anjo, mesmo possuindo a beleza de um. Seus lábios estavam um pouco molhados e entreabertos, fazendo-me descobrir que o barulho que ele tinha feito com a boca um minuto antes na realidade era sua língua umedecendo os lábios. Eu sabia que ele estava dormindo um sono leve, e o medo de fazê-lo acordar fez meu coração acelerar quase que dolorosamente, mas eu não consegui desviar o olhar ou me afastar. A ponta de seu nariz estava adoravelmente rosada, provavelmente graças ao frio que sentiu enquanto dormia, frio que eu também senti. Mas minha pele era morena, e a dele não.

E, novamente, me vi encantada. Completamente encantada por aquele garoto, o mesmo garoto que um dia eu jurei que não iria me permitir encantar. Mas era impossível.

A beleza exterior é o que aproxima, e a interior é o que encanta. Eu ficava realmente em cima do muro em questão de opinião, mas ao ver Victor daquele modo, achei o exemplo perfeito de tudo.

Victor — na maioria do tempo — não demonstrava ser uma pessoa muito boa em seu interior. Certo, ele falava muitas besteiras, fazia muita idiotice e sempre estava disposto a provar que era o cretino que todos acusavam de ser. Mas aquele era o problema. Tudo para Victor era questão de provocação, desafio.

As pessoas achavam que ele era um cretino, ele queria provar que conseguia ser um sem esforço. Ele queria fazer as pessoas acharem que ele era um. Porque ele sabia que iriam comentar sobre qualquer garota que ele tenha dormido ou algum jogo de futebol que não tenha ganhado, mas ele também sabia que ninguém iria se intrometer na sua vida. Ninguém se atreveria a fazê-lo, porque outra coisa que sua imagem fazia era manter as pessoas em modo de alerta, ele era respeitado. Do jeito errado, mas era. Victor simplesmente criou um disfarce, uma máscara, um tipo de muralha que separava quem ele era de quem as pessoas achavam que ele era.

Não, ele não era um garoto bonzinho e cavalheiro, mas também não era um mimado sem caráter. Ele era ele, metade a parte que todos viam, metade a parte que ele escondia. Ele não era apenas a estrela do time de futebol, ele não era apenas o maior cafajeste do colégio, ele não era apenas um dos garotos mais desejados, ele não era apenas nada aquilo. Ele simplesmente era Victor Vincent Stonem.

Enquanto todos estavam preocupados demais comentando sobre sua vida, ele estava rindo. Ele ria da cara de todos, porque ele simplesmente não se importava que falassem, ele sabia que sua vida era importante para os outros que não tinham nada pra fazer, por que aquilo o deixaria mal? Só aumentava seu ego e sua fama. Por isso tanta ironia, tanto sarcasmo, por trás de tudo ele sempre se divertia. Ele não se importava. Victor tinha tudo que queria, as fofocas das pessoas não lhe trariam nada.

Eu acreditava que ele era corajoso e esperto por encarar o ensino médio do seu próprio jeito, ter respeito e fazer as pessoas pensarem dele o que ele queria que pensassem. Mas também o achava um covarde e burro, por esconder um lado seu que importava, e por não perceber que ele não precisava fingir, não precisava mostrar apenas um lado de si mesmo.

Ao menos não pra mim. Eu o aceitaria de qualquer jeito...

Ninguém tinha nada a ver com a vida dele, ele poderia ser ele mesmo, mas por que ele não queria?! Por que ele tinha que ser tão fechado para tudo, para todos?! Querendo ou não, eu sabia o motivo.

Victor tinha tudo do jeito que queria. Ninguém se metia com ele, praticamente todas as garotas o queriam, ele tinha melhores amigos incríveis, tinha muito dinheiro (eu nunca tinha conversado com ele sobre aquilo, mas era óbvio que ele tinha), fazia o que queria e estava no topo da cadeia alimentar do ensino médio. Por que ele iria querer mudar aquilo? Ele era o mesmo babaca com tudo e com todos. Porém... para algumas pessoas era um pouco diferente.

Eu podia ter muitos pensamentos idiotas e alguns até iludidos — como antes de tudo aquilo, quando eu secretamente esperava ele se revelar um amor de pessoa (o que eu certamente não esperava mais, já que já estava acostumada e... sinceramente, o preferia daquele jeito) —, mas eu estava certa de uma coisa. Victor era completamente irritante, arrogante, babaca, metido, cafajeste, egoísta e possuía mais defeitos que qualidades. Mas ele era o garoto que me fazia sorrir e rir, que demonstrava que se importava mesmo quando fingia que não, que me fazia sentir como a garota mais sortuda do mundo apenas por poder ver seu sorriso (estúpido, eu sei) e mais mil coisas que eu iria descobrir com o tempo. Coisas que eu queria descobrir com o tempo. Ele era o garoto que fazia meu coração bater mais rápido. Eu já tinha aceitado aquilo.

Sorri um pouco para ele, voltando à realidade quando vi um leve sorriso brotar em seus lábios. Ele não sorria muito, mas quando o fazia... meu Deus, era lindo! Lindo. Ainda mais um sorriso como aquele, inconsciente e puro. Eu tinha consciência que estava se tornando repetitivo pensar no quanto aquele garoto era bonito, mas eu não conseguia evitar.

Geovana, você está parecendo o tipo de garota irritante que detesta.

Ri um pouco com meu pensamento, baixo. Eu queria saber o que ele estava sonhando, porque parecia estar tendo um sono tranquilo que eu quase nunca conseguia ter, graças à minha nova e exaustiva rotina.

Fiquei mais confortável na cama, arrumando delicadamente o lençol e me cobrindo novamente, já que ele ameaçava escapar. O braço dele ainda estava na minha cintura. Dobrei meu braço e o coloquei por baixo da minha cabeça, que estava de lado, fazendo meu cotovelo ficar perto da minha orelha e suspirando um pouco, finalmente me sentindo confortável naquela posição. Eu podia vê-lo bem próximo, já que estávamos um de frente para o outro.

O braço dele não estava por baixo do meu pescoço, como deveria estar, ele estava debaixo do próprio corpo de Victor. Agradeci mentalmente por aquilo, já que sentia difícil me movimentar se seu braço estivesse ali.

Fiquei daquele jeito por um bom tempo, e eu não estava tentando pegar no sono novamente. Eu apenas estava o observando, aproveitando que ele não podia ver. ­Sua respiração tocava fracamente meu rosto, e eu podia claramente sentir seu hálito. Ele não sofria de mau hálito matinal, como a maioria das pessoas que eu conhecia. Comigo era um pouco relativo, já que às vezes eu acordava com ou sem mau hálito, mas ali não senti nenhum gosto ruim na boca. Graças a Deus.

Victor estava com os músculos contraídos, por mais que sua respiração estivesse relaxada, e sua expressão também. Provavelmente era por causa da posição. Meus olhos vagaram por seu rosto uma, duas, três e mais vezes. Muito mais. Eu conferia todos seus detalhes e novamente, e novamente, e novamente. Eu queria guardar tudo aquilo na memória, cada parte do seu rosto, porque eu sabia que provavelmente nunca mais teria a chance de vê-lo tão perto e vulnerável.

Ergui a mão que descansava ao lado do meu corpo, e meu braço — que estava servindo de travesseiro (mesmo que eu já estivesse com um) — estava um pouco dolorido, mas ignorei. Minha mão foi lentamente na direção de seu rosto, e eu sabia exatamente o que estava fazendo. Mas não tentei me parar. Toquei delicadamente em seus cabelos bagunçados, sentindo a incrível maciez. Sorri automaticamente, esquecendo completamente que poderia acordá-lo. Deslizei minha mão por seus cabelos, indo para frente e parando em sua testa. Meus dedos tocaram delicadamente naquela área, descendo e fazendo o contorno de seus olhos, superficialmente. Eu estava me sentindo extremamente leve, por mais que meu coração estivesse pesado e minha respiração mal existisse. Meus dedos pareceram tão delicados quanto uma pena, e eu simplesmente não soube como aquilo estava acontecendo.

Meus olhos acompanhavam o caminho dos meus dedos ao tocar em todo seu rosto, sentindo a maciez e o calor da sua pele. Um sorriso bobo brotou em meus lábios quando senti sua respiração fraca e lenta na ponta dos meus dedos, quando os passei perto de seu nariz. Meus olhos ainda acompanhavam todos os movimentos dos meus dedos, seguindo-os. Respirei profundamente algumas vezes, tentando ao máximo não fazer barulho e normalizar minha respiração.

Então parei um pouco. Parei de tocar seu rosto, mas minha mão se manteve perto do mesmo. Ergui minha cabeça, recolhendo meu braço levemente dolorido e me aproximando mais de Victor. Nós já estávamos próximos, mas naquele momento eu quebrei qualquer barreira imaginária que pudesse existir. Arrastei-me um pouco pra cima, para ficar com o rosto exatamente na frente do seu, porque ele era mais alto que eu. Na realidade, nós não éramos algo como garota super baixa e garoto super alto. Tínhamos certa diferença de altura sim, graças as nossas idades, mas só era possível perceber de verdade quando estávamos daquele jeito. Deitados, com os pés próximos. O que era fato, porque eu mal tinha percebido antes. Não era como se normalmente eu precisasse olhar pra cima para ver seu rosto.

O mais impressionante era que seu braço ainda estava em minha cintura, provocando uma sensação boa em mim. Sua mão parecia firme, mesmo que ele estivesse dormindo.

Enrolei-me com o lençol novamente, já que ele estava quase fora do meu corpo, tomando extremo cuidado de não acordar Victor. Meu Deus, e se ele acordasse? Ele me veria daquele jeito... ele saberia o que eu estava fazendo, ou tentando fazer. Eu estaria ferrada. Eu não era a pessoa que era mais cuidadosa, bem, eu não era cuidadosa com nada, mas eu realmente estava me esforçando em ser cautelosa ali.

Depois de finalmente conseguir me arrumar direito, olhei para ele. O rosto de Victor estava extremamente próximo ao meu, de modo que nossos narizes se roçariam, caso eu me mexesse. Sorri um pouco. Era perigoso, mas era bom ficar próxima dele daquele jeito. Fiquei olhando por um tempo para suas pálpebras fechadas, imaginando qual a reação dele se acordasse e me visse ali. Eu estava acostumada a rir da minha própria desgraça, e tive vontade de rir, mas segurei.

O corpo de Victor não estava tão próximo do meu quanto nossos rostos, e eu não sabia se agradecia ou lamentava. Aproximei novamente minha mão do seu rosto, a que antes estava descansando ao meu lado, mas meus dedos tocaram delicadamente seu queixo e eu abaixei o olhar, pousando-o em sua boca, deslizando minha mão e fazendo-a parar na cama. Lábios finos, rosados, um pouco entreabertos. Meu Deus. Meu coração pareceu dar cambalhotas, e eu simplesmente não conseguia desviar o olhar de sua boca. Tão próxima da minha, se eu apenas me mexesse um pouco e...

Era estranho. Eu nunca tinha ficado tão próxima de um garoto. Certo, eu já tinha beijado algumas vezes, mas nunca tinha ficado próxima daquele jeito. Com aquelas intenções. Apenas meus parentes, mas com certeza não era a mesma coisa. Eu nunca tinha ficado com tantas coisas passando na minha cabeça, tantas sensações passeando pelo meu corpo. Corpo que parecia agir por si só.

Então todo tal corpo congelou no momento em que meu quadril se colou ao seu, em uma reação automática graças a... bem, a vontade que eu estava sentindo. Era constrangedor pensar naquilo, mas era verdade. Eu senti algo... diferente. E quando senti aquilo, senti também que na área do meu quadril eu estava formigando um pouco, mas era de uma forma agradável. Eu estava excitada. Estava excitada apenas por sentir seu corpo próximo ao meu, seu toque ainda em minha pele e o calor que ele mesmo emanava. Meus pensamentos nada inocentes também tinham culpa.

Corei, prendendo um pouco o ar e soltando-o com força. Depois senti algo quente passar por meu corpo, o que foi assustador, mas bom. Eu sabia o que estava acontecendo comigo mesma, mesmo sendo uma sensação que eu não estava muito acostumada.

Sai da minha espécie de transe, piscando algumas vezes e parando de secar a boca de Victor. Nunca imaginei que pudesse fazer aquilo, já que eu mal conseguia encarar os olhos de alguém, imagine a boca! Mas foi idiota pensar daquele jeito, porque eu e Victor já tínhamos feito aquilo várias vezes. Mesmo ele quase (ou sempre, não era como se eu tivesse contado às vezes em que nos aproximávamos de jeito perigoso. Certo, talvez eu contasse, mas não vem ao caso) sempre tomando a iniciativa.

Quis soltar com força o ar que estava preso em meus pulmões, para tentar aliviar a tensão, mas não pude. Olhei para baixo lentamente, tentando decifrar que diabos estava acontecendo. Eu estava sentindo algo, sim, mas não vinha de mim. Franzi a testa, tentando ver alguma coisa, mas o lençol estava atrapalhando completamente. Mordi o lábio inferior sem força, um pouco apreensiva e confusa. Movi o quadril um pouco, sentindo novamente tudo aquilo, mas de forma mais clara. Outro formigamento agradável passou por meu corpo, vindo diretamente da área entre minhas coxas, o que me fez arfar. Então eu parei e minha mente clareou. Eu sabia o que estava acontecendo e o que era aquilo que estava sentindo, só que antes estava entorpecida demais para perceber.

E tudo que aconteceu em seguida foi rápido demais.

Eu soltei um grito. Eu já tinha sentido aquilo antes de gritar, sim, mas eu não tinha ligado os pontos. Eu estava tão perdida em pensamentos e sensações que não tinha percebido o que era. Mas no momento em que tudo ficou claro, eu gritei. Puta merda. Gritei de susto por finalmente cair na realidade e perceber o quanto estava próxima dele e o que eu estava fazendo. Gritei porque estava assustada com o que estava sentindo no momento, tanto o que estava vindo do corpo dele como o que estava vindo do meu. Aquilo estava mesmo acontecendo?

Na enfermaria (no dia em que conheci Victor) eu tinha sentido... aquilo. Mas ali era diferente. Era uma ocasião e situação diferente. Não estávamos praticamente colados e na mesma cama. Eu sabia que foi uma atitude completamente idiota ter gritado, mas não pude evitar. Eu fui pega completamente de surpresa. Por mais que soubesse que os homens tinham a tal chamada "ereção matinal", eu não sabia que ia acabar sentindo uma ou algo do tipo.

No momento em que gritei, me afastei completamente de Victor. Foi um movimento rápido e bruto, que, além do grito, fez com que ele acordasse alerta e assustado. Ah, filho da mãe! Eu acordava parecendo que estava protagonizando um filme de terror (como um dos monstros, e não uma garota indefesa) e ele acordava de forma adorável, por mais que tivesse sido acordado com um susto! Certo, hora errada para pensar sobre aquilo.

Ele estava claramente perdido, fitando-me como se eu fosse de outra espécie, não a humana. Ninguém merecia acordar daquele jeito, eu sabia, mas não foi culpa minha! Meu coração estava acelerado e meu rosto completamente vermelho, eu sabia que estava, além de minha respiração extremamente ofegante. Eu estava do outro lado da cama, onde estava quando fui dormir. O lençol não cobria mais nenhum dos dois, já que eu tinha feito o favor de puxá-lo quando surtei. As sobrancelhas de Victor estavam arqueadas, em uma típica expressão de confusão. Ele estava sentado na cama, olhando-me. Por mais que ele estivesse perdido, não achei nenhum vestígio de sono em seu rosto, ou nada do tipo "acabei de acordar com um susto, porra!". Ele só estava surpreso. Estranho.

Victor coçou os olhos um pouco.

— O que foi que... — começou ele, inclinando-se em minha direção e tocando no meu braço.

E, novamente, eu gritei. Eu estava ainda absorvendo toda a situação, então o susto de tê-lo tocando em mim me fez gritar e dar um pulo, quase caindo, mas conseguindo ficar de pé no chão. Eu sabia que nada justificava o fato de que estava agindo como louca e deixando o garoto mais confuso ainda, mas minha cabeça estava martelando e eu não tinha controle sobre meu corpo. Na realidade, minha voz estava bem envolvida também, claro. O que estava acontecendo comigo?

Victor levantou rapidamente, caminhando em minha direção, mas ergui a mão e o fiz parar. Trinquei o maxilar e tentei não olhar pra sua bermuda, mas era impossível. Suspirei profundamente e procurei me acalmar, olhando para os lados. Ali estava a resposta para aqueles gritos. Eu não estava acostumada a ter aquele tipo de intimidade e, pelo amor de Deus, eu estava morrendo de vergonha. Além de que eu não sabia se sentia nojo ou não.

Bem, na cama eu não tive nojo.

Depois daquele pensamento, tive vontade de me matar.

— Não se aproxima. — falei, olhando para seu rosto e vendo-o erguer as sobrancelhas. Abaixei a mão, mas sabia que ele não iria se aproximar. Ele ainda queria continuar vivo, e sabia que eu não era muito delicada. — Meu Deus... — eu murmurei a última parte.

Victor começou a rir. Eu até riria com ele, mas estava passando por um sério conflito interno ali. Olhei pra cima, tentando forçar meus olhos a não olharem o claro volume em sua bermuda. Eu já estava mais calma, mas estava muito vermelha. Não que eu conseguisse me ver, mas podia sentir o calor em meu rosto. Abanei-me um pouco, o que só favoreceu na imagem de garota fresca que Victor provavelmente tinha de mim. Ou ele achou que eu estava sentindo outro tipo de calor. Que ótimo.

Olhei rapidamente para seu rosto e o vi olhar para baixo, depois olhando para mim. Então riu mais. Meu Deus, ele não estava nem com vergonha?! Como se respondesse minha pergunta, ele pegou um dos travesseiros que só então percebi estar no chão (eu não sabia se era graças à ex-barreira que foi desfeita ou meu surto) e o colocou na frente da bermuda, fazendo-me suspirar aliviada e parar de me abanar com a mão, olhando-o e rezando mentalmente para a cor do meu rosto voltar ao normal. Minha pele era morena, então eu não ficava tão vermelha quanto alguém que tinha pele mais clara, mas ainda sim ficava. Gostaria de não ficar.

— Quem mandou você ser gostosa? — perguntou como quem não queria nada, abrindo um sorriso sacana.

Arregalei os olhos, não acreditando que estava realmente ouvindo aquilo. Peguei um travesseiro que estava em cima da cama, jogando-o em sua direção, mas ele desviou e riu. Eu precisava fazer terapia ou qualquer outra coisa que me fizesse controlar meu gênio quando estava perto de Victor, porque em questão de segundos eu já estava estapeando seu rosto. Não só porque ele era um idiota, mas também porque ele não conseguia ter um pingo de respeito por ninguém. Eu queria esganar aquele babaca. Eu também estava batendo nele para aliviar a tensão e a raiva, claro. Ele largou o travesseiro e começou a rir desesperadamente, tentando se defender das minhas mãos que insistiam em tentar acertá-lo.

— Seu pervertido! Nojento! — gritei, tentando acertá-lo. Ele obviamente não estava me batendo, apenas tentava se defender. Victor continuou rindo, por mais que tenha gemido duas ou três vezes, quando consegui acertá-lo. O fato de que ele estava rindo apenas conseguia me irritar mais. Como ele conseguia ser tão idiota?! — Safado! Pervertido!

"Pervertido" o definia bem até demais. Victor de repente agarrou meus pulsos com certa força, forçando-me a parar e encará-lo. Arregalei um pouco os olhos, surpresa com sua atitude e vendo-o cerrar os olhos, fitando-me. Eu sabia que apesar de tudo ele não queria me machucar, apenas queria me parar, e provavelmente já estava irritado. Meus cabelos estavam completamente bagunçados e várias mechas bloqueavam um pouco minha visão, cobrindo meu rosto. Eu estava um pouco suada e meu coração estava completamente acelerado. Provavelmente eu estava parecendo uma selvagem.

— Estou brincando com você, garota! — me sacudiu um pouco, olhando-me como se eu fosse retardada. Eu me sentia retardada, mas era um sentimento normal pra mim — É normal! Isso acontece com qualquer homem de manhã!

Eu não olhei pra baixo para ver se ele ainda estava daquele jeito ou não. Tentei me soltar uma, duas, três vezes. Mas ele me segurava com firmeza. Eu sabia que estava sendo ridícula e parecendo uma criancinha, mas ele me irritava demais. Cada comentário dele me irritava, qualquer coisa que ele fazia me irritava. Bufei, cerrando os olhos e declarando:

— Isso é nojento.

— Aposto que não acha nojento em outras ocasiões. — rebateu.

Aquilo foi o suficiente para me fazer achar forças e conseguir me soltar, empurrando-o no peito e fazendo-o vacilar um pouco, surpreso. Cretino! Eu queria matá-lo de verdade. Eu era lerda, mas obviamente tinha entendido o que ele estava insinuando. Peguei um travesseiro e comecei a acertá-lo, gritando vários "cretino!", "babaca!", "pervertido!" e várias ofensas diversas. Mas não era apenas eu que estava gritando, ele também gritava comigo. Ele tentava me fazer parar, mas eu estava determinada a acertá-lo de verdade ao menos uma vez. Eu não sabia se os outros podiam ouvir nossos gritos, na realidade eu nem sabia se tinham outras pessoas naquele lugar.

Eu estava furiosa, e não conseguia ver o rosto de Victor para saber se ele também estava, já que eu estava determinada a olhar para o travesseiro. Como se olhar para ele aumentasse as chances de acertar Victor, ou sei lá. Teríamos continuado com aquilo, mas fomos interrompidos.

Entre um "seu imbecil!" e um "sua maluca!", ouvimos batidas na porta do quarto e eu parei imediatamente de bater nele. Não sei como ouvi as leves batidas, mas ouvi. Se estivéssemos na minha casa (ou algum lugar do tipo), eu não teria parado. Mas estávamos em um quarto de motel, então precisei parar.

— Uh... olá? — ouvimos uma voz masculina, que reconheci como o recepcionista baixinho e jovem que nos atendeu na noite anterior. — Sou eu, o recepcionista. Está tudo bem aí dentro?

Preparei-me para gritar um "NÃO! EU VOU COMETER UM CRIME AQUI, MAS NÃO CHAME A POLÍCIA!", mas Victor fez algo que me surpreendeu totalmente. Ele não podia ser uma pessoa normal e previsível? Porque facilitaria muita coisa na minha vida. Ele, em questão de segundos, puxou o travesseiro da minha mão e me virou brutalmente, colocando a mão na minha boca com força, por trás.

Arregalei os olhos pela terceira vez dentro de vinte minutos, tentando gritar, mas a mão de Victor abafava meus gritos. Porém, eles ainda eram ouvidos, mas soavam como "hmmmmm hmmmmm" ou sei lá o que. Na realidade, pareciam gemidos desesperados sendo abafados. Victor me arrastou rapidamente até mais perto da cama, me fazendo sacudir violentamente e tentar me soltar dele, ainda tentando gritar. Então o garoto deu um forte chute na cama. O que ele estava fazendo?!

Ele chutou a cama mais duas vezes, fazendo-a ranger duas vezes seguidas. Não eram rangidos altos ou estrondosos, mas eram audíveis. Victor não machucou o pé, o que me deixou um pouco surpresa. Se fosse eu já teria quebrado o pé. Tentei gritar novamente, várias vezes, mas então minha mente clareou e parei automaticamente de gemer. Merda. Merda! Eu estava tão desesperada que não tinha percebido que estava ajudando Victor! Sim, eu estava ajudando-o. Mas quando a ficha caiu... já era tarde demais. A cama tinha rangido debilmente, meus gritos abafados pareciam gemidos e Victor deu um toque final à sua encenação:

— T-tudo... tudo bem! Estamos... muito... bem! — respondeu, como se estivesse extremamente ofegante e sentindo prazer. Ele era um babaca, mas, sim, era esperto. E um bom ator. Ao mesmo tempo em que pareceu que ele estava com falta de ar, pareceu que estava gemendo. Desisti de tentar gritar e dei uma mordida forte em sua mão, ouvindo-o prender um grito, mas não afastou a mão da minha boca. Ele aproximou os lábios do meu ouvido, parando-os um pouco perto do meu pescoço. Mesmo não querendo, me arrepiei completamente, o que também foi graças ao fato de que eu não podia vê-lo, então eu não sabia o que ele poderia fazer. Claramente senti sua respiração forte no meu pescoço, ele estava com raiva. Victor rosnou: — Faça isso novamente e eu vou te dar motivos pra gritar.

Eu me calei. Realmente preferi não arriscar, então simplesmente suspirei derrotada e deixei que ele seguisse com seu plano. Em outras ocasiões eu teria continuado e até soltado uma provocação, mas, sério, eu não sabia o que aquele doente mental podia fazer comigo. E sua mão estava em minha boca. Eu era curiosa e atrevida, mas não louca. Ficar sozinha com ele já era perigoso, eu não queria nem pensar na possibilidade de estar sozinha com ele depois de ter recebido um aviso daqueles. E, ah, esqueci de mencionar que ele não tinha limites e estava puto. Não que ele fosse me estuprar, até porque eu sabia que ele era bem mais “criativo”. Na forma pervertida.

— Ah... sim, sim! — o recepcionista falou, completamente desconcertado. Fiquei com pena dele. Coitado, deveria estar mais vermelho que um pimentão, já que estava achando que tinha atrapalhado alguma coisa — Até mais.

E então ouvi passos, que rapidamente foram se distanciando. Passamos longos segundos em completo silêncio, e eu apenas podia ouvir sua respiração lenta atrás de mim. Levei minhas mãos para a mão de Victor, tocando-a de leve. Minhas mãos eram menores que as dele, o que me fez sentir pequena por alguns segundos. Menor. Era uma sensação que eu não gostava de sentir. Não que eu estivesse me sentindo inferior, mas era algo como se eu estivesse... desprotegida.

Eu sabia que estava desprotegida quando ficava perto dele, quando o sentia, quando o olhava. Eu sabia que nada me impedia de acabar gostando mais dele, fazendo aqueles sentimentos já existentes se tornarem mais intensos. Eu sabia que nada me impedia de me perder olhando para aqueles olhos que às vezes estavam extremamente claros, e em outras vezes tão, tão escuros. Eu sabia que nada me impedia de me encantar por aquele sorriso. Princípios? Sim, eu os tinha, mas eles não eram fortes o suficiente para me impedirem. Protegerem-me. Então, era fato, eu estava extremamente desprotegida. Eu sempre estava quando se tratava dele.

Eu tinha medo de que ele soubesse que eu me sentia daquele modo. Tinha medo que ele soubesse da minha vulnerabilidade. Dos meus sentimentos. Lá dentro do peito. Ele não sabia do poder que tinha sobre mim. A influência.

Victor entendeu o recado e afastou a mão dos meus lábios, me fazendo suspirar aliviada e passar a mão na boca, finalmente conseguindo senti-la. Virei-me para encará-lo, com uma expressão irritada. Victor olhou para sua mão, que eu tinha mordido, fez uma careta e a limpou no lençol. Tive vontade de rir, mas tentei me segurar. O que não funcionou muito. Ele me olhou e franziu a testa, me vendo prender o riso.

Antes que eu pudesse ao menos respirar, Victor me puxou com força pela cintura e me colou a si. Soltei o ar com força pela boca, olhando-o um pouco assustada. Eu já deveria ter me acostumado, já que ele fazia aquilo quase sempre. Eu queria odiar aquilo, realmente queria, mas não conseguia. E a sensação era sempre a mesma, mas ela era definitivamente boa. Eu me arrepiava, sentia um pouco de calor em meu corpo e meu coração dava umas cambalhotas. Além da expectativa (assim como certo medo) do que ele faria a seguir. E ele sem camisa? Era mil vezes melhor. Ele sempre fazia aquilo quando eu não esperava, o que obviamente era de propósito.

— Agora você pode me dizer o motivo de ter gritado como uma maluca. — sorriu meio debochado.

Apenas o puxão foi forte, assim como o impacto de nossos corpos quando se chocaram. Mas ele não me imprensava a si com força, como se estivesse deixando em minhas mãos a decisão de me afastar ou não. Bem, eu obviamente iria me afastar, mesmo meu corpo querendo o contrário.

Facilmente afastei suas mãos de mim, de modo até calmo. Eu olhava fixamente para seus olhos, como se estivesse o desafiando a colocá-las na minha cintura novamente. Ele não disse ou fez nada, então finalmente larguei suas mãos, me afastando dele e cerrando os olhos ameaçadoramente.

— Idiota. — declarei.

Eu não era nem louca de explicar a ele os motivos de ter gritado.

Motivo número um: Era tudo bem confuso e eu sabia que os motivos faziam mais sentido na minha cabeça, já que ele acabaria me considerando a garota mais dramática, exagerada e retardada do mundo. Não que eu me importasse com o que ele pensava de mim. Claro que não.

Motivo número 2: Ele saberia que eu nunca tinha visto um pênis adulto (falar pênis adulto = sinônimo de escrotisse, mas é que bebês sem roupa a gente vê toda hora e em qualquer lugar. Mas, pensando bem, isso foi sem lógica), a não ser em filme pornô. Sim, eu já tinha visto pornô. Várias vezes (eu não era a maior fã de pornô, porque tudo parecia mecânico demais, mas via sem problemas). Não, eu não era aquele tipo de virgem que não sabia nem o que era sexo oral. Em resumo, eu era curiosa o suficiente para pesquisar coisas no Google (ainda bem que eu excluía o histórico do meu notebook, porque vai saber...), ler contos/histórias/qualquer coisa (excluía o histórico também) e tinha amigas e amigos bem mais experientes que eu e com histórias interessantes para contar. As mais legais eram as que envolviam fetiches loucos, mas não vem ao caso. Enfim, o fato era que eu não queria que Victor soubesse que eu nunca tinha visto um pênis adulto na vida. Certo, chega de falar isso. Eu deveria ter usado órgão sexual masculino, aliás. Mesmo sendo um pouco “aula de ciências” demais.

Motivo número 3: Fim dos motivos.

— Bem, ao menos meu plano deu certo! — Victor ergueu as mãos para o alto, em sinal de rendição. Revirei os olhos, como se dissesse algo como "eu mereço isso". — Eu sei que sou um ótimo ator.

Olhei rapidamente para seu corpo, tentando ser discreta ao máximo, então finalmente olhei para sua bermuda e vi que ali não estava mais o exagerado volume de antes. Graças a Deus! Eu não sabia se agradecia pelo fato de Victor não ter vergonha, ou não. Porque se ele tivesse vergonha, nós seríamos dois constrangidos, o que não seria lá muito bom. No momento em que o olhei, também percebi que sua pele clara estava um pouco avermelhada em alguns pontos, e eu sabia que aquilo era graças a mim, a meus golpes e minhas unhas. Senti um pouco de culpa, mas foi algo que durou poucos segundos. Afinal, ele mereceu ser atacado. Quem mandou ser um babaca?! Eu que não!

— Você é um pervertido, isso sim. — dei um sorriso brilhante e irônico, passando os dedos por meus cabelos e tentando improvisadamente pentear ou ao menos arrumar aquela bagunça.

Victor riu pelo nariz, indo em direção a uma mesinha e pegando uma toalha branca que estava em cima dela, que ele mesmo tinha comprado. A jogou por cima do ombro, olhando para mim. Meu Deus. Ele tinha consciência do quanto ficava sexy daquele jeito? Eu tinha quase certeza que sim, ele sabia, metido do jeito que era...

Desviei os olhos rapidamente, eu não podia ficar olhando-o por muito tempo. Sanidade era algo que eu gostava de ter, obrigada. Continuei mexendo nos meus cabelos, fingindo que estava ocupada, mas na verdade eu só não queria olhá-lo mesmo.

— Eu já entendi. Seria impossível não entender, já que você falou isso umas cinco vezes. — olhei para seu rosto, vendo-o dar de ombros — Posso até ser um. Mas foi você quem me agarrou de madrugada, farm girl. — O QUÊ?! Não. Ele estava brincando. Aquele idiota tinha que estar brincando. Eu sabia que não fazia sentido ele brincar com aquilo sem saber que eu tinha um ponto fraco na hora de dormir (que era não conseguir ficar dormindo por muito tempo sem abraçar alguém). E se ele sabia daquilo, era porque tinha sido vítima dos meus abraços. Mas, não! Aquilo não podia ser verdade. — E ainda ficou sussurrando um monte de coisas. Poderia jurar até que gemeu! Andou tendo sonhos interessantes? Aposto que sim. — então ele me deu uma piscadela e seguiu para o banheiro, afastando a porta e entrando, fechando-a em seguir.

Meu Deus. Puta merda. Meu Deus. Puta merda. M-e-u D-e-u-s! PUTA MERDA! Eu sabia que não deveria estar soltando um "puta merda" mental após um "meu Deus" (desculpe Deus), mas eu simplesmente estava fora de mim. O sonho. A merda do sonho. Eu sabia muito bem o que Victor quis dizer com interessantes. E não teria ficado tão incomodada se, bem, não fosse verdade.

Victor não estava brincando, eu realmente tinha feito aquilo! Senti todo meu rosto esquentar furiosamente, fazendo-me levar as mãos para minhas bochechas, sentindo-as pegando fogo. Fiquei um pouco tonta e me sentei na ponta da cama, e se ela não estivesse ali eu teria caído de bunda no chão mesmo. Agradeci mentalmente por Victor não estar ali, porque sinceramente eu não sei como faria para disfarçar o meu choque. Minha boca estava aberta, formando um perfeito "o", o que me fez levar as mãos para lá, escondendo-a. Eu era a perfeita imagem da protagonista de um filme depois de descobrir algo muito inesperado. A expressão chocada; As mãos na boca; O corpo paralisado; Os olhos um pouco arregalados. E, claro, a cara de tacho.

Eu não sabia o que exatamente tinha feito de madrugada, e aquilo era o que me assustava. Eu podia ter feito qualquer coisa! E eu sabia que mesmo se perguntasse o que tinha feito, Victor não iria dizer de propósito, para me fazer sofrer ainda mais. Ou aumentaria os fatos para, novamente, me fazer sofrer. Além de que perceberia que eu tinha motivos para fazer algo. Espera, eu estava cogitando a opção de perguntar a ele?! Claro que não! Eu ainda não tinha ficado louca de vez! Ele não podia saber que aquilo tinha me afetado ou que eu tinha motivos para acreditar nele. Por que tive que ter aquele maldito sonho?! Que merda!

Ouvi o barulho do chuveiro sendo ligado, obviamente vindo do banheiro. E então o barulho de água caindo com força no chão. Afundei meu rosto nas mãos, respirando fundo e tentando clarear minha mente. Eu queria encontrar a luz no fim do túnel ou sei lá, mas só via a porra da escuridão mesmo. Tentei me acalmar um pouco, ficando em silêncio e respirando fundo, soltando o ar pelo nariz com calma.

Calma... calma... COMO EU POSSO FICAR CALMA?! Calma. Para de dar chilique. CHILIQUE?! EU NÃO ESTOU DANDO CHILIQUE! Calma. Calma, caralho! NÃO ME MANDA FICAR CALMA!

Ótimo. Eu estava falando sozinha. Quero dizer, em pensamentos. Enfim. Era coisa de gente louca do mesmo jeito. Ri sem humor, recolhendo minhas mãos e olhando para frente, suspirando profundamente. Por que aquelas merdas só aconteciam comigo?!

Essas coisas não acontecem com Spears ou Beyoncé!

Ri do meu próprio pensamento, levantando da cama, ainda ouvindo o barulho do chuveiro. Então parou, e eu sabia que Victor já tinha acabado o banho. Foi rápido, mas eu também sabia que ele tinha tomado um antes de dormir.

Diziam que era bom rir da própria desgraça, e era aquilo que eu sempre fazia. Comparar minha vida com a de Britney Spears e Beyoncé não ajudou muito, na realidade me fez perceber o quanto eu queria ser uma das duas, mas ao menos me fez rir. Eu sabia que minha vida não iria acabar, claro que não, mas ter Victor sabendo do sonho era uma merda do mesmo jeito. Eu precisava falar com alguém. Precisava desabafar. Precisava gritar, também.

Como se lesse meus pensamentos, Victor abriu a porta e apareceu. Eu não sabia se estava extremamente feliz por ele estar completamente vestido, ou extremamente decepcionada.

Geovana, para com isso. Extremamente feliz. Feliz! Fim.

Eu estando decepcionada ou feliz, uma coisa era certa. Victor estava extremamente bonito, como sempre, o que me deixava com certa raiva. Caramba, o garoto não fazia esforço nenhum e era bonito pra cacete! Irritantemente bonito. Argh.

Ele vestia uma camiseta de manga longa branca e preta, daquele tipo que era quase totalmente branca, mas preta nas mangas. E as mangas estavam dobradas até os cotovelos. Estilo jogador de baseball. Victor era igual a mim, gostava de dobrar camisas longas até os cotovelos.

Usava também a calça jeans escura que tinha usado no desfile, e os tênis pretos que também tinha usado no desfile (tal par que quase brilhava de tão limpo. Meus All Stars imundos se sentiram ofendidos, mesmo não estando ali). Seus cabelos estavam extremamente escuros e molhados, algumas mechas grudando em sua testa. Ele estava tentando arrumá-los com a mão. A toalha branca estava em sua outra mão. Eu sabia que Victor tinha deixado aquelas roupas dentro do banheiro no dia anterior, coisa que eu não tinha feito. E se ele resolvesse ver minhas calcinhas?! No mundo tinha maníaco pra tudo.

— Vai tomar banho agora? — perguntou, vindo em minha direção.

Mordi um pouco o lábio e assenti, pegando o elástico que estava em meu pulso e prendendo meu cabelo em um coque firme, mas não muito bem feito. Eu não daria certo para ser bailarina. Peguei a toalha da mão de Victor, jogando-a por cima do meu ombro. Nós estávamos dividindo a mesma toalha, o que não era lá muito higiênico, mas fazer o que.

Rapidamente fui até a mesinha que estava perto da cama, pegando meu celular e partindo rumo ao banheiro. Parei na frente da porta e olhei para Victor, vendo que ele estava abrindo a mochila em que nossas coisas estavam, guardando a escova de dentes, que eu sabia que antes estava guardada no banheiro. Não me preocupei em pegar a minha, já que também estava no banheiro. Quando ele acabou de guardar a escova, jogou a mochila pra mim, que consegui pegar facilmente. Sorri em agradecimento.

Fechei a porta do banheiro e fiquei de costas para a mesma, encostando-me e soltando o ar com força, que antes estava preso em meus pulmões. Eu não sabia que estava prendendo o ar daquele jeito, não até soltá-lo de modo tão aliviado. É, finalmente eu estava sozinha e não tinha que me preocupar com a minha sanidade que parecia sempre estar em jogo quando eu estava com Victor. Meu autocontrole era testado.

Larguei a mochila no chão e coloquei a toalha um pouco úmida em cima de uma pequena bancada, ao lado da pia. Coloquei meu celular junto. Em cima da bancada também estava a roupa que Victor vestia antes, dobrada. Aproximei-me da pia, erguendo o olhar e finalmente me olhando no espelho.

Só de olhar meu reflexo naquele espelho um pouco antigo, eu paralisei. Fiquei uns cinco minutos em silêncio, talvez por não ter nenhuma reação ou por estar em luto, já que aparentemente a garota bem arrumada do desfile tinha ido embora. Partido. Morrido. Enfim, deu pra entender.

Eu não estava péssima, mas também não estava muito bem. Eu não sabia como Victor conseguia ficar tão bonito ao acordar, mas sabia que eu definitivamente não possuía o mesmo talento. Meus cabelos estavam presos naquele coque que eu tinha feito, e definitivamente coques não combinavam comigo. Sério. Eu ficava terrível. Rabo de cavalo até ia, mas coque?! Eu sempre colocava todo o cabelo para trás, já que só usava coque quando ia tomar banho ou estava com muito calor e sozinha, então parecia que eu não tinha cabelo nenhum. E digamos que meu cabelo era uma das coisas que eu mais gostava em mim, então, definitivamente não.

Eu estava de cara lavada. Sabe, sem maquiagem nenhuma. Eu não era o tipo de garota que se produzia toda por qualquer coisa, mas também não gostava de sair para lugares importantes sem maquiagem. Eu não era como algumas garotas que ficavam bonitonas sem nada no rosto, ao menos era o que eu achava. Mesmo que algumas pessoas me dissessem o contrário, era o que eu achava. Eu não passava horas na frente do espelho, mas pra mim um rímel e um batom faziam a diferença sim. E ali eu estava sem nada, mas ao menos eu não acordei com meus cílios grudados uns nos outros.

Ri um pouco com o pensamento, ainda me olhando. Eu estava com leves olheiras, mas nada muito exagerado. Eu não costumava ter muitas, só quando passava noites em claro e chorava toda hora. O que aconteceu muito na época em que eu estava extremamente mal pela perda de Cam. Pensar nele me fez sorrir um pouco. Sentia sua falta. Naquele momento provavelmente eu estaria trocando mensagens com ele. Fora o coque que não combinava comigo, as leves olheiras, os lábios levemente ressecados (também machucados pelas mordidas) e a expressão um pouco cansada, nada estava fora do normal. Era deprimente pensar que Victor tinha me visto daquele jeito. Mas era bom saber que ele não tinha saído correndo.

Suspirei um pouco, saindo da frente do espelho. Eu iria tomar banho, claro, mas precisava fazer algo antes. Eu precisava ligar para alguém. Precisava contar sobre aquele maldito sonho, sobre onde eu estava, qualquer coisa. Simplesmente precisava falar com qualquer um que não fosse Victor, porque eu não podia falar daquilo com ele. Pensei em Angeline. Ela era uma das minhas melhores amigas, mas ela não conhecia Victor. Ela não poderia me ajudar muito, apenas me distrair. Eu precisava de alguém que eu confiasse, e que também o conhecia.

Sophia era minha amiga, assim como Lizzie, mas eu sabia que se contasse para uma, a outra automaticamente saberia. Éramos três amigas, mas elas eram indiscutivelmente uma dupla inseparável. Eu não estava pronta para deixar duas pessoas saberem ao mesmo tempo, ainda mais tendo noção que Sophia — louca do jeito que era — me diria algo como “agarra ele logo!”, que definitivamente era o que eu não precisava ouvir para me manter sã. E Lizzie estava um pouco estranha, desde o dia do anúncio do baile.

Lori. Era para Lori que eu iria ligar. Ela odiava Victor mais que tudo, eu sabia, e era daquilo que eu precisava. Alguém que o odiasse, para me fazer odiá-lo também. Certo, eu sabia que não iria acabar odiando-o só porque Lori odiava, mas ao menos ajudaria em alguma coisa. Nós duas estávamos muito próximas, e eu ainda não tinha falado sobre o que sentia por Victor, mas desconfiava que ela soubesse. Eu conseguia ser bem óbvia às vezes. Ela me ouviria, e me diria o quanto era patético e absurdo toda aquela vontade que eu sentia. Vontade... dele. Também o xingaria bastante, claro. Normal.

Peguei meu celular e o desbloqueei rapidamente, discando um número que eu já sabia de cor. Antes de ligar, verifiquei se não tinha nenhuma chamada perdida da minha mãe. Nada. Provavelmente Juliet tinha inventado uma desculpa muito boa para meu sumiço. Também vi que não era manhã, e sim tarde. 14:00. Levei o aparelho ao ouvido, olhando para o espelho e vendo minha expressão meio aflita. Esperei um pouco, mas apenas estava chamando, ninguém do outro lado atendia. Por algum motivo, eu já estava me arrependendo. Quando estava a ponto de desistir e deixar pra lá, ouvi uma voz.

— Geo? — Lori atendeu, fazendo-me tomar um susto.

Pronto. Ela tinha atendido. Era só falar. Ela iria me escutar e me faria cair na realidade. Victor Stonem não era pra mim, nunca seria. Eu precisava manter distância dele. Distância máxima.

— Oi. — respondi, meio baixo. Eu não queria que ele ouvisse a conversa. Minha voz saiu um pouco solitária naquele banheiro. — Sou eu sim. Preciso falar com você.

— Tudo bem, pode falar. — respondeu ela, não escondendo a confusão.

Eu quase podia ver sua testa se franzindo.

Suspirei profundamente, tomando coragem e finalmente abrindo a boca para dizer, começando a falar.

E então eu contei. Eu contei tudo. Contei que tinha ido ao desfile da minha prima, e o encontrei lá. Contei que uma confusão envolvendo um pedófilo aconteceu, e Victor acabou me levando para um motel e passamos a noite lá. Eu não expliquei muita coisa ou me prendi a detalhes, porque não tinha tempo, e estranhamente a cada segundo que passava eu sentia que não deveria estar falando nada daquilo. Mas eu confiava em Lori, ela era a melhor amiga que eu tinha em Blanchaster. Por que eu estava sentindo aquilo, então?

Ela ouviu tudo em silêncio, e eu apenas sabia que estava ouvindo porque podia ouvir sua respiração. Fiz algumas pausas para ela comentar, mas ela só soltava um "continua". Com um pouco de vergonha, contei sobre o sonho. Não falei os detalhes nem nada, apenas disse algo como "e eu sonhei que a gente estava se pegando, nesse mesmo quarto de motel". Mas apenas aquilo foi o necessário para me fazer corar. Eu estava pronta para continuar, mas quando disse que acordei com Victor me abraçando por trás, Lori me interrompeu:

— Me diz uma coisa. — ela cortou, fazendo-me franzir a testa.

Seu tom era um pouco... duro? Talvez. Ela suspirou um pouco. Eu sabia que ela não o suportava, e naquele momento ligar para ela me pareceu uma idéia não muito boa. Eu não queria que ela pensasse coisas erradas sobre mim, mas aquele suspiro pareceu que ela já esperava aquilo. Ela esperava que eu acordasse em um quarto de motel com Victor?! Ou... esperava que eu sonhasse com ele? Ou qualquer outra coisa? Sei lá, mas nenhuma das opções me deixou muito feliz. Lori não era a pessoa mais delicada do mundo, então não me incomodei com o seu "me diz uma coisa" meio arrogante.

— Eu ainda não acabei. — lembrei, como quem não queria nada.

— Não importa. — um doce de pessoa, não é mesmo? — Me diz que não transou com ele.

Pronto. Aquilo foi o suficiente para me fazer engasgar. Eu sabia que ela provavelmente pensaria algo daquele tipo, qualquer um pensaria, mas apenas Lori era direta daquele jeito. Tossi um pouco, tentando limpar a garganta e voltar ao normal.

— O quê?! — soltei, forçando-me para manter meu tom baixo.

Durante toda a conversa (em que só eu falei, vale ressaltar) eu falei baixo, porque sabia que Victor poderia me ouvir se eu não o fizesse. Foi meio que um esforço, porque em alguns momentos tive vontade de gritar. Contar toda a história para alguém era diferente de mantê-la apenas para minha pessoa, com certeza.

— Pelo amor de Deus, Geovana. — eu sabia que ela estava revirando os olhos — Se você tiver feito isso, eu vou te matar. Se tiver perdido sua virgindade com Victor Filho da Puta Stonem, eu vou te esganar. Me fala que não transou com ele!

— Lori... — comecei, rindo um pouco incrédula.

Ela estava sendo completamente idiota. Tudo bem, a situação era meio estranha e sexo parecia ser a resposta óbvia, mas ela me conhecia. Ela sabia que eu era virgem e não iria perder tão cedo. Eu não estava com raiva dela por pensar daquele jeito, eu sabia que na cabeça dela era apenas uma opção. Que, de certo modo, era tão viável quanto qualquer outra.

— Responde! — insistiu, impaciente.

Também pude perceber que ela estava aflita. Ela provavelmente estava achando que eu tinha feito aquilo. Que maravilha. Eu sabia que ela estava rezando mentalmente para sua melhor amiga não ter se infectado com o “vírus Stonem”. Pois é, Lori era absurda quando se tratava de Victor.

— Eu não transei com Victor. — respondi baixinho, em um muxoxo.

Abaixei um pouco a cabeça, sentindo minhas bochechas esquentarem no momento em que falei. Eu não sabia o motivo, mas dizer aquilo não foi muito bom. Talvez porque imaginar a situação em si já não era muito fácil. O que eu estava dizendo?! Tinha sonhado com aquilo! Cocei um pouco a nuca, desconcertada.

— O quê? Não ouvi nada. — ela respondeu, fazendo-me suspirar profundamente.

Eu não sabia se ela não tinha ouvido mesmo ou estava fazendo de propósito. Mas acreditei que a primeira opção era a certa, já que eu realmente tinha falado baixo.

— Eu não transei com Victor. — repeti, um pouco mais alto.

Era o suficiente para ela ouvir.

— Ainda não consigo ouvir. — disse Lori.

Era óbvio que ela estava brincando comigo. Eu não sabia o que ela planejava, mas sabia que ela queria que eu admitisse aquilo. Bufei. Lori me conhecia bem, ela sabia que talvez eu não conseguisse mentir se dissesse em alto e bom som. Mas, caramba, eu não estava mentindo!

— Eu não...

— Mais alto.

— Mas eu...

— Não ouço nada.

— EU NÃO TRANSEI COM VICTOR STONEM! EU SEI QUE É ESTRANHO, MAS ELE NÃO TENTOU OU ME FORÇOU A NADA! — berrei, e levei uma das mãos à boca no momento em que o fiz.

Merda. Merda. Merda! Por que eu fui inventar de gritar?! Será que ele tinha ouvido? Eu não sabia. Mas já era tarde demais. Eu estava rezando para que Victor não tivesse ouvido, mas... se bem que ele não ligaria muito por eu estar falando sobre aquilo no celular. Ele não ligava pra nada, muito menos vindo de mim. Suspirei profundamente, afastando a mão da minha boca e forçando-me a pensar positivo. Tudo bem. Ele não tinha ouvido (o que seria meio impossível, mas, hey, pensamento positivo!). E, caso tivesse, não ligava. Ele provavelmente estava satisfeito (e seu ego estava maior que nunca) por saber que eu estava meio desesperada e estava contando aquilo para alguém. E por que eu estava me importando tanto? Não era como se ele fosse ficar com raiva ou sei lá.

— Ótimo. Graças a Deus! — declarou Lori, claramente aliviada — Olha, eu tenho que desligar agora. Meu pai está gritando aqui, mas depois você me liga, está bem? Quando estiver sozinha novamente. E, lembre-se, não faça nenhuma merda!

E então ela desligou. Bufei um pouco, jogando o celular em cima da bancada do banheiro. Ligar pra ela não adiantou muita coisa, afinal, só me fez admitir que era uma safada que tinha sonhos pervertidos, e gritar para o mundo inteiro que não tinha transado com Victor Stonem.

Então lembrei que estava no banheiro, e ainda precisava tomar banho.

Fechei o zíper da mochila, pegando-a e me olhando no espelho uma última vez. Eu estava bem melhor. Um banho quente (graças a Deus o chuveiro era elétrico) me fez um bem danado, além de me deixar relaxada. Eu não demorava muito no banho, mas ali tinha demorado, o que também era graças a minha conversa com Lori. E, claro, o fato de que eu escovei os dentes e fiz mais algumas coisinhas. Além de guardar a roupa suja de Victor, já que eu era uma ótima pessoa.

Meus cabelos estavam soltos e bem penteados, caindo por meus ombros, a parte roxa parecendo brilhar um pouco. Eu vestia uma blusa um pouco colada e preta, com "You make me so hot!" escrito no tecido, em um vermelho vivo. Ri um pouco com a frase. Você me deixa tão quente! Sugestivo.

Também usava o short curto que tinha usado para dormir, já que mesmo sendo jeans, era confortável. Eu preferia usar uma blusa um pouco menos justa e maior, já que aquela favorecia demais meus seios. Não que eu saísse de burca por aí, eu usava todos os tipos de roupas, mas sabia que Victor não perderia a oportunidade de olhar, o que me deixaria incomodada. Então, perto dele, eu preferia estar de burca. Para evitar também que eu o matasse. Ri um pouco com o pensamento. Por que fui deixá-lo escolher as roupas, mesmo?

Eu não estava mais com aquela cara de sono de antes, e, mesmo estando sem maquiagem, não me senti como nas outras vezes em que me via no espelho quando não estava toda arrumada. Eu estava bem. Eu me sentia bem.

Sorri uma última vez para meu reflexo, abrindo a porta do banheiro e saindo, indo em direção a cama. Larguei a mochila em cima dela, me perguntando como tantas coisas cabiam ali dentro. Abri o zíper e recolhi minha meia-calça que estava jogada no chão, assim como o blazer de Victor e mais algumas coisas. Guardei tudo dentro da mochila, finalmente fechando-a e suspirando, afastando-me um pouco da cama.

Victor estava do outro lado do quarto, sentado na poltrona perto da porta e arrumando novamente os tênis. Ele estava surpreendentemente calado, o que me fez franzir a testa. Pigarreei um pouco. Estranhamente senti que algo estava acontecendo.

— A água estava uma delícia. — comentei, sorrindo.

"A água estava uma delícia". Meu Deus do céu, eu realmente tinha algum sério problema mental. Victor levantou da poltrona, erguendo a cabeça e vendo que eu o olhava, sorrindo. Mas ele não sorriu, apenas assentiu e foi até a mochila, parecendo verificar alguma coisa. Certo. Eu fui ignorada. Ele nem fez um comentário depravado sobre a minha roupa — que ele mesmo tinha escolhido — ou caçoou da minha frase. Franzi mais a testa. Victor falava muitas besteiras, mas naquele momento percebi que o silêncio dele me incomodava mais que as coisas idiotas que ele falava. E algo estava acontecendo ali.

— Então... nós vamos agora? — perguntei, coçando um pouco a nuca e olhando-o. E, novamente, ele assentiu. Nada. Ele não disse nada. Tive vontade de gritar "O GATO COMEU SUA LÍNGUA, GAROTO?", mas apenas suspirei profundamente. Resolvi ser direta. — Victor, o que foi?

Então ele largou a mochila e se virou pra mim, olhando-me como se eu estivesse bêbada ou sei lá. Mas continuei encarando-o firmemente, esperando uma resposta. Algo dentro de mim já sabia a resposta, por mais bizarro que pudesse parecer.

— Nada. — respondeu, mas eu preferia que não tivesse o feito.

Sua voz estava fria. Dura. Cortante. Meu olhar vacilou um pouco quando ouvi aquele tom na sua voz, mas ainda continuei olhando-o. Eu não estava esperando aquilo, e de algum jeito pareceu me machucar. Ele passou por mim, voltando para a poltrona, mas pareceu que apenas estava fazendo aquilo para não me olhar. Fugindo de mim.

— Fala. — me surpreendi ao ver que eu mesma estava insistindo, e que minha voz soou calma. Tranquila. Como se seu tom não tivesse me abalado nem um pouco, o que não era verdade. — Você está todo estranho.

Victor não me olhava, e aquilo estava me incomodando demais. Eu sabia que poderia simplesmente ignorar, mas eu não conseguia. Naquele momento percebi como era ruim tê-lo com raiva de mim, o que obviamente estava. Eu não sabia o motivo, mas aquilo me faria sentir mal. De certo modo, eu já estava acostumada a brigar com ele, trocar provocações e tudo aquilo que fazíamos.

No começo eu não gostava, pois realmente não o suportava, mas depois tudo foi mudando e percebi que eu gostava daquilo. Gostava das provocações, do deboche, das brincadeiras e o sarcasmo. Infelizmente, gostava dele. Ele estava me ignorando, e mesmo que eu não admitisse aquilo me machucava. Porque sempre era eu quem estava com raiva, sempre eu que me irritava a ponto de ficar um tempo calada ou o ignorando de verdade. Estar do outro lado da situação não era bom.

E o feitiço virou contra o feiticeiro.

— Não é nada. — respondeu com aquele tom novamente, o que me fez suspirar um pouco e sentir meu coração se apertar.

Não é nada?! Claro que era alguma coisa! Sem pensar muito, fui até ele. Victor estava de costas pra mim, claramente fingindo mexer em algo na poltrona. Parei atrás do garoto, e delicadamente toquei em seu ombro. Eu estava com raiva por ele estar daquele jeito, insistindo em dizer que estava normal, sendo que era óbvio que não estava. Por que ele simplesmente não falava?! Ele estava agindo como se eu já soubesse do que se tratava. Não demonstrei minha irritação graças a sua atitude, apenas encostei meus dedos no tecido de sua camisa, na parte do ombro, vendo-o parar.

— Victor. — chamei um pouco baixo, com cautela. Eu poderia gritar com ele e exigir saber o que estava acontecendo, mas sabia que só iria gerar uma briga. E se ele não estivesse com raiva de mim? E se fosse outra coisa? Se fosse algo sério? Eu precisava saber. Era uma merda, mas eu sabia que me importava com ele. — O que está acontecendo?

Victor então se virou, o que me fez ter vontade de sorrir. Finalmente ele iria dizer algo! Recolhi a mão de seu ombro, vendo-o me fitar intensamente. Poderia ser coisa da minha cabeça, mas vi algo em seus olhos. Parecia... dor. Mágoa, talvez. Mas por que ele estava daquele jeito?! Também vi raiva. Porém a dor e a mágoa pareciam maiores, o que me deixou mais curiosa e confusa ainda. Ele estava muito próximo de mim, o que me fez forçar meu corpo a não fazer nada estúpido, como olhar para a boca dele. Victor estava com a postura firme e dura, diferente da minha. Eu não queria demonstrar, mas sabia que estava óbvio o quanto eu estava preocupada. Poderia ser algo que não me envolvesse e sério.

— Você deveria saber, Geovana. — prendi um pouco a respiração ao ouvir aquela voz incrivelmente fria e direta. Novamente preferi que ele tivesse ficado calado, qualquer coisa era melhor que receber aquele tratamento. — Já que não transou comigo e eu, o cafajeste Victor Stonem, surpreendentemente não te forcei a nada.

E sem que eu mesmo percebesse, ou pudesse evitar, meu mundo em questão de segundos pareceu desmoronar.

Notas finais
EITAAAAAAAAAAA! E então, o que acham que vai rolar? NÃO ESQUEÇAM meu review/comentário, okay?! Adoro conversar com vocês! Quem está gostando de verdade da história, eu adoraria uma recomendação u_u Se acharem qualquer erro no capítulo, me avisem, okay? Eu corrijo sempre de madrugada e com sono, então já viram né! Aguardo vocês nos comentários, e até o próximo capítulo! * Meninas, tá rolando uma brincadeira no ask fm! Entrem lá, façam qualquer pergunta e coloquem no final o nome do personagem que querem que responda. Irie responder como se fosse o personagem! Pode até rolar spoiler. http://ask.fm/imlittleg * Obs: Entrem no grupo do facebook! Xoxo, Little G.