The Anchor
25 Só eu e ele. Nós.
Notas iniciais
Como se tivesse voltado à realidade, Victor piscou algumas vezes e pigarreou, sacudindo um pouco a cabeça. Parecia que estava tentando afastar alguns pensamentos de sua mente. Senti meu rosto mais quente ainda ao imaginar que tipo de pensamentos.
Ele olhou para baixo e pareceu lembrar que meu pé ainda estava machucado. Eu não sabia se ele tinha percebido a vermelhidão do meu rosto, provavelmente sim, mas agradeci por não ter dito nada. Na realidade, ele pareceu tão desconcertado quanto eu. Agradeci mentalmente por ter um tom de pele mais escuro, pois se fosse como o dele, eu estaria como um tomate. Foquei em regular minha respiração — depois de soltá-la com força do modo mais discreto que consegui — e retomar minha cor natural.
— É o tornozelo. Darei um jeito. — falou depois de uns minutos em silêncio. Sua voz pareceu normal, como se nada tivesse acontecido antes. Como se ele não tivesse me comido com os olhos. — Vamos ver...
Ele deslizou os dedos por meu tornozelo e acariciou um pouco, fazendo uma careta nascer em meu rosto. Retirei a sandália do meu outro pé sem esforço e sem precisar usar as mãos, já que ela era um pouco grande.
— Cuidado. — falei, conseguindo soar um pouco aflita.
Abaixei um pouco o olhar e sabia que deveria estar parecendo uma criancinha com medo. Victor acariciou mais um pouco e olhou para meu rosto, vendo uma intensa careta de dor. Afastou-se um pouco dos meus pés, erguendo-se e batendo de leve na calça, limpando-a e tirando a grama.
— O problema é o tornozelo, como eu já disse. Só não sei como solucionar... — murmurou um pouco, então deu de ombros e se aproximou de mim. — Vem. Vamos voltar para o carro e te levarei para um hospital ou sei lá. Problema solucionado.
Aquela era a minha chance. Sem pensar muito, me levantei em um pulo. Não senti nenhum incômodo ou dor, a não ser em meus braços, mas eu sabia que era porque eu tinha os feito erguerem meu corpo por tempo demais. Afastei o cabelo bagunçado do meu rosto, sabendo que atrás ele provavelmente estaria cheio de grama.
— Que problema? — perguntei meio sorridente, sabendo que ele iria querer me matar.
Victor ficou estático, olhando-me fixamente. Sua expressão era indecifrável, o que me fez ficar um pouco nervosa. Mas continuei sorrindo. Ele não precisava saber que eu estava daquele jeito. Ele assumiu uma expressão incrédula e negou algumas vezes com a cabeça, olhando-me furioso.
— Eu não acredito que você mentiu! Caralho! — soltou, completamente puto da vida, colocando as mãos na cabeça e puxando um pouco os cabelos. Depois suspirou profundamente, como se tentasse se acalmar, mas apenas me olhou com mais raiva ainda. — Eu vou embora. Já chega. Cansei disso. — pareceu estar com raiva por algo mais, mas não tive tempo para tentar descobrir o que era, já que Victor se afastou de mim e começou a andar até o carro em passos firmes.
Naquele momento percebi que inicialmente o objetivo do plano era agradá-lo um pouco naquele parque e fazê-lo deixar a raiva de lado. Mas não se tratava mais daquilo. Eu queria que ele ficasse ali comigo, eu precisava que ele ficasse, porque eu queria descobrir o que aconteceria. Eu queria que ele me deixasse conhecê-lo, mesmo se falássemos sobre coisas bobas como cor favorita e animal predileto. Eu queria ao menos uma vez saber como era estar com ele de verdade. Eu tinha a oportunidade, não a deixaria passar. Minha mente era uma confusão, mas eu sabia que queria aquilo. Eu não poderia deixá-lo ir embora.
Corri até Victor, conseguindo passar dele e parando em sua frente, impedindo-o de andar. Por um momento achei que ele iria me empurrar para o lado e continuar andando, mas ele simplesmente parou. Olhou-me de modo frio, como se soubesse que aquilo me afetaria. Mas daquela vez não me importei. Ele não iria embora. Não antes de eu ao menos tentar fazê-lo ficar.
Respirei fundo e o fitei com determinação. Não iria ser como foi no quarto daquele motel, em que ele não quis me ouvir e pensou coisas erradas. Ali ele iria me ouvir, nem que eu precisasse implorar.
— Olha, me desculpa! — soltei rapidamente, fazendo-o revirar os olhos. — Eu só fiz isso porque queria que você saísse do carro. É sério, Victor. Eu sei que está com raiva de mim, eu não deveria ter dito aquilo lá no banheiro, mas me deixe explicar...
— Eu não quero ouvir explicação nenhuma. — cortou, erguendo a mão, como se aquilo fosse o suficiente para me fazer calar.
Victor passou por mim e voltou a andar em direção ao seu carro, em passos raivosos e rápidos. Senti a raiva me invadir de repente, e eu sabia exatamente o motivo. Ele estava sendo injusto. Eu sabia que não deveria ter dito aquelas coisas no banheiro ou muito menos mentido para ele, mas eu merecia ao menos ser ouvida.
Meu corpo tremeu um pouco, involuntariamente. Ele iria me ouvir por bem ou por mal. Antes que pudesse ao menos entender o que estava fazendo, gritei. Gritei com toda a força que consegui, sentindo minha garganta queimar quando me calei:
— VOCÊ VAI ME OUVIR!
Victor praticamente congelou no lugar. Minha respiração estava ofegante e meus punhos estavam cerrados, enquanto o via ainda de costas, mas sem andar. Ele estava surpreso, eu sabia daquilo. Com certeza não esperava que eu explodisse daquele jeito. Na realidade, nem eu esperava, até porque respirei fundo algumas vezes e normalizei minha respiração ofegante. Meu corpo parou de tremer e meus punhos voltaram ao normal.
Fui até Victor rapidamente, em passos firmes. Não estava mais com toda aquela raiva repentina, mas ainda estava determinada. Ele tinha parado. Ele tinha aceitado me ouvir.
Quando parei atrás dele, ele se virou e me olhou de modo impaciente. Não esperei que ele dissesse nada. Senti meu coração das algumas cambalhotas por estar tão perto dele, mas me concentrei em minhas palavras.
— Presta bem atenção. Eu não falei aquilo lá no banheiro porque acho que você me levou para o motel para transar comigo ou sei lá o quê. Eu falei porque estava no celular, e a outra pessoa estava insistindo em saber. Eu agi por impulso, e me arrependo. Eu falei daquele jeito, com aquelas palavras, porque é uma pessoa que espera o pior vindo de você. E ela achou que algo tinha acontecido entre nós, porque eu contei onde eu estava e com quem estava. — não era totalmente verdade, mas ele não precisava saber sobre o sonho.
Suspirei um pouco, vendo-o franzir a testa. Ótimo, ele estava prestando atenção. Eu sabia que estava um pouco confuso e curioso em saber quem era a pessoa. Eu responderia, caso ele perguntasse.
— Quem? — perguntou como esperei que fizesse.
— Lori Prior. — respondi sem hesitar, vendo-o suspirar profundamente e massagear as têmporas. Eu sabia que ele a odiava, assim como ela o odiava. — Sim, ela é minha amiga. Eu... não espero o pior de você como ela faz. E os outros também fazem. — falei, olhando profundamente em seus olhos. Meu coração começou a bater forte no meu peito, de modo quase dolorido, e senti minhas mãos suarem. Eu estava extremamente nervosa, e sabia o motivo. Minhas pernas pareciam geléia. — Você foi meio que um herói pra mim, Victor. Duas vezes. Podemos ter nossas diferenças, eu sei, mas eu nunca desconfiaria de você daquele jeito. Você já me deu motivos e sabe disso, mas eu não desconfiaria. — pigarreei um pouco, vendo-o me olhar atentamente. — Eu não sei o porquê de você ter ficado daquele jeito comigo. E sinceramente não quero saber. Apenas quero que me desculpe. Acredite em mim. — toquei de leve o pingente de âncora que estava pendurado em meu pescoço, fazendo-o olhar rapidamente para ele, voltando a me fitar.
— Por que... por que mentiu? — perguntou, surpreendendo-me com seu tom calmo.
Ele estava acreditando em mim! Não consegui me conter e sorri um pouco, me esforçando para não dar um sorriso largo. Eu estava indo bem.
— Eu queria te trazer aqui porque te preparei uma surpresa, e isso envolve todas aquelas sacolas no carro. — ele franziu a testa, um pouco surpreso. Sorri um pouco mais. — Queria que... você sabe...
Por um segundo pareceu que ele estava prendendo um sorriso, mas provavelmente era coisa da minha cabeça, já que sua expressão ainda era séria.
— Não. Não sei. — disse cruzando os braços, parecendo me desafiar um pouco.
Suspirei profundamente, mas ainda estava sorrindo. Ele queria que eu dissesse, tudo bem, eu diria. Eu sabia que ele estava me provocando, mas nem aquilo conseguiu tirar o sorriso do meu rosto.
— Queria que você voltasse ao normal, Stonem. Sabe, sem estar com raiva. — dei de ombros, um pouco envergonhada. Admitir aquilo foi meio estranho. Era como se eu estivesse deixando claro que sentia algo por ele, mas como era possível? Era tão estranho eu ter preparado todo um plano apenas para fazê-lo me perdoar? Eu não sabia, mas já tinha dito. Victor não pareceu convencido. Ergueu uma sobrancelha, e eu sabia o que ele queria que eu dissesse. Revirei os olhos, mas falei: — Queria que me perdoasse, é isso. Eu fui idiota o suficiente e me joguei no chão só para te fazer sair daquele carro. — e ficar aqui sozinho comigo. — Desculpe se te deixei preocupado comigo a toa, eu só precisava que você ficasse aqui. — sorri de modo doce, mas pigarreei um pouco e desfiz o sorriso. — Por causa da surpresa, é claro.
— Não me deixou preocupado. — falou firmemente, mas eu sabia que não estava mais com raiva, ao menos não como antes. Ah, claro, conta outra! — Apenas... hoje é meu dia de fazer caridade.
Tive vontade de gargalhar, que espécie de desculpa era aquela?! Mas não ri, apenas assenti e dei de ombros, tentando parecer indiferente e o tipo de pessoa que não estava prendendo uma risada. Meu coração estava mais leve que antes, e minhas mãos não suavam mais.
Victor respirou profundamente, descruzando os braços e coçando um pouco o queixo. Parecia estar ponderando algo, o que me fez ficar em silêncio, esperando que ele dissesse qualquer coisa.
— Por que fez tudo isso, afinal? — finalmente perguntou, olhando-me fixamente e afastando a mão do queixo.
Senti meu rosto esquentar um pouco. Ótimo. Ele com certeza estava insinuando alguma coisa, mas eu não poderia deixar que ele pensasse estar certo. Pigarreei um pouco, implorando mentalmente para não gaguejar.
— Eu não gosto que as pessoas fiquem com raiva de mim. — dei de ombros, tentando parecer completamente indiferente.
Victor fez um biquinho pensativo, assentindo lentamente. Eu sabia que ele queria me provocar. Tentei não olhar para sua boca, mas estava meio impossível, então comecei a olhar para minhas unhas, vendo aquele esmalte descascado e fingindo interesse nele.
— Só isso? — perguntou ele, a voz um pouco rouca.
Ergui o olhar e vi o quanto ele estava próximo. Antes ele já estava próximo, mas ali tinha ficado ainda mais, então eu quase podia sentir seu corpo no meu. Tive vontade de suspirar ao senti-lo tão perto, mas me segurei e fiquei quieta. Eu sabia que ele estava me analisando. Qualquer gesto me entregaria naquele momento.
Revirei os olhos de modo teatral e me afastei dele normalmente, assentindo.
— É, o que mais seria? — foi minha vez de provocar um pouco, mas achei melhor não continuar com aquele jogo. Provavelmente não acabaria muito bem. — Deveria ficar feliz por eu ter planejado uma surpresa.
— Não gosto de surpresas. — respondeu prontamente, aproximando-se de mim. Mas me afastei discretamente. Claro que ele não gostava de surpresas, porque ele gostava de ter o controle e ser o imprevisível. — Mas essa sua pode ser interessante.
Parei um pouco, encarando-o atentamente. Sorri, tentando não parecer tão esperançosa. Era meio estúpido eu estar me importando tanto e parecendo uma menina pequena que esperava a aceitação do pai ou algo do tipo, mas eu realmente queria ficar de bem com Victor.
— Então... acredita em mim? — perguntei.
Victor suspirou um pouco, como se dissesse “e eu tenho escolha?”. Mas me pegou de surpresa e sorriu de lado, assentindo.
— Tudo bem, farm girl. Sem tanta humilhação. Acredito em você.
A felicidade me invadiu como a raiva tinha feito momentos antes, quando gritei com Victor. Eu sentia que meu peito poderia explodir de animação, e eu não faria nada para impedir. Eu tinha um pressentimento bom. Eu sentia que as coisas iriam melhoras para nós, e eu não sabia o que “nós” significava, ou se ao menos significava algo, mas eu já tinha consciência das coisas que eu sentia. Era assustador, às vezes eu desejava não sentir, mas fugir não adiantaria. Não mais.
Por impulso, soltei um gritinho infantil e pulei nos braços dele. Não parei para pensar em qual seria a reação de Victor, eu só queria abraçá-lo. E foi o que fiz. Passei meus braços por seu pescoço e sorri largamente. Por alguns segundos ele ficou sem nenhuma reação, estático ali. Eu então percebi que provavelmente estava fazendo besteira, já que ele nem estava retribuindo. Eu e minha mania de fazer as coisas sem pensar. Mordi o lábio, meio arrependida, mas quando estava pronta para me afastar, senti braços firmes envolverem minha cintura, colando-me a ele.
Não consegui esconder minha surpresa, pois arregalei os olhos por alguns segundos, mas voltei ao normal e sorri levemente. Anteriormente estava tão animada que não consegui desfrutar da sensação boa de sentir seu corpo no meu, mas ali eu estava sentindo. E estava sentindo algo mais, porque eu estava em seus braços. Fechei meus olhos ao sentir o nariz dele na curva do meu pescoço, sentindo meu cheiro. Todas as preocupações se esvaíram da minha mente, dando lugar apenas a Victor.
Eu não sabia o que estávamos fazendo, mas pouco me importava. Senti-me segura em seu abraço, senti que meu coração nunca esteve batendo tão forte, mas ao mesmo tempo em que se enchia de felicidade. Eu não sabia se Victor sentia as marteladas no meu peito, provavelmente sim, mas não me importei. Suspirei profundamente ao sentir aquele cheiro que apenas ele possuía. Eu não conseguia definir, mas era a melhor coisa que eu já tinha sentido. Era o cheiro único dele, que invadiu minhas narinas e me fez apertar mais meus braços ao redor de seu pescoço, querendo senti-lo mais próximo a mim. Como se fosse possível.
Eu estava feliz. Naquele momento eu estava feliz de verdade. Eu passaria aquela tarde com ele, só eu e ele, e eu não poderia estar mais feliz. Aquele abraço foi um gesto puro e carinhoso. Fiquei surpresa quando ele correspondeu, e eu não queria me soltar nunca mais. Não queria sair de seus braços, pois sentia que estranhamente era ali que eu pertencia. Eu não era a única que estava tão entorpecida, pois Victor apertava minha cintura cada vez mais, mas aquilo não me incomodava. Pelo contrário.
— Obrigada. — sussurrei contra seu pescoço, sorrindo um pouco ao ver sua nuca se arrepiar. Fiquei um pouco surpresa ao saber que tinha algum efeito sobre ele, mas continuei falando: — Por todas as coisas que não precisava ter feito por mim, mas fez.
Victor ficou em completo silêncio, mas eu sabia que ele tinha me ouvido claramente. Não me importei com seu silêncio. Eu só precisava dizer aquilo, ao menos uma vez, e aquele era a hora perfeita. Eu não sabia o que ele estava pensando, mas eu não me importava naquele momento, eu só queria aproveitar o calor de seus braços.
Então nos afastamos, delicadamente. Não porque queríamos, mas porque estávamos daquele modo há tempo demais. Sorri para Victor e meu estômago se revirou ao vê-lo sorrir de volta, mesmo que fraco.
— Nem um beijinho? — perguntou, fazendo-me franzir a testa e prender uma risada, por mais que meu rosto tenha esquentado um pouco. — Pra completar essa bela cena romântica?
Gargalhei, dando-lhe um tapa no braço e fazendo-o rir junto, olhando-me ofendido de brincadeira e recolhendo o braço. Revirei os olhos, como se dissesse “você não existe”, mas depois sorri de leve, lembrando-me de algo. Uma idéia, na realidade. Era algo que eu queria experimentar, apenas para saber como era e se eu conseguiria.
Parei de sorrir. Aproximei-me perigosamente dele, vendo-o me fitar um pouco confuso. Abri um sorriso um pouco provocante, parando exatamente em sua frente. Victor estava um pouco estático, meio que sem acreditar no que eu estava fazendo. Nem eu acreditava. Mordi meu lábio inferior lentamente, fazendo-o olhar diretamente para minha boca. Meu coração bateu um pouco mais forte ao vê-lo erguer o olhar e fixá-lo em meus olhos, espelhando a malícia que eu sabia que estava estampada neles. Eu não estava envergonhada. O sangue corria intensamente por minhas veias, e eu sentia o calor do seu corpo tão próximo do meu. Sua mão deslizou para minha cintura e eu enlacei meus braços ao redor de seu pescoço.
Victor aproximou o rosto do meu, e imediatamente senti seu delicioso cheiro. O garoto fechou os olhos lentamente quando seus lábios estavam quase roçando nos meus, e eu senti todo meu corpo pedir por aquele beijo. Separei meus lábios, e Victor entendeu o recado, mesmo sem me ver. Mas antes que ele pudesse fazer algo, eu interrompi.
— Eu não sou o tipo de garota que você nunca beijaria, Stonem? — sussurrei, fazendo-o abrir os olhos e me fitar com confusão. Ele estava muito próximo, extremamente, eu sentia claramente sua respiração batendo contra meu rosto. Abri um largo sorriso maldoso, e sinceramente eu nem me reconheci naquele momento. Mas gostei. Victor tinha me dito que eu não era o tipo de garota que ele beijaria. Ele me disse aquilo um dia depois de me beijar no carro. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, me afastei. Ele estava tão surpreso que sua mão deslizou para fora do meu corpo. Dei uma piscadela, vendo-o me fitar com incredulidade. Ri um pouco. — Vou buscar a surpresa. Senta aí, como um bom garoto, que eu já venho. — me virei, indo até o carro que não estava longe como antes.
— Fala sério! — Victor soltou, completamente frustrado.
Sem precisar me virar para vê-lo, eu sabia que ele estava se sentando meio emburrado. Tive vontade de gargalhar. Meu Deus, o que eu tinha feito?! Eu não tinha idéia! Mas gostei da sensação de poder, e definitivamente gostei de saber que conseguia provocá-lo tanto quanto ele fazia comigo. Sim, eu tinha algum efeito sobre ele, mesmo que eu soubesse que não era intenso como o efeito que ele tinha sobre mim.
Geovana Rocha enganou um garoto, quase o beijando e o deixando na vontade! Mesmo que parecesse muito não-eu, eu precisava fazer aquilo novamente. Ao menos uma vez, quando tivesse a oportunidade, porque eu precisava me sentir daquele jeito direito. Foi como quando comi pizza pela primeira vez, quando era bem menor. Minha mãe me disse que, naquela época, eu faria de tudo para comer novamente e sentir o que senti.
Daniel estaria com orgulho de mim se soubesse disso.
Ri com o pensamento. Abri a porta do passageiro e peguei a mochila que estava debaixo do banco. Olhei rapidamente para o carro, jogando a mochila por cima de um dos ombros, mordendo meu lábio inferior um pouco. Eu não sabia bem como sabia daquilo, mas senti que as coisas iriam mudar dali em diante entre nós. Mesmo que “nós” fosse bem incerto, mas eu sabia que existia. E eu estava certa.
— Finalmente, ein? Achei que tinha morrido lá no carro. — debochou Victor, vendo-me largar a mochila e todas aquelas sacolas brancas no chão.
Respirei fundo, finalmente sem nenhum peso em minhas costas ou meus braços. Victor estava sentado debaixo de uma árvore, na sombra, que era um ótimo lugar para ficar. Suas costas estavam no tronco da árvore, suas pernas encolhidas e os braços nos joelhos, olhando-me divertido.
Bufei, acariciando meus pulsos levemente marcados e doloridos, graças às sacolas que tive que carregar.
— Se você tivesse ajudado, eu teria vindo mais rápido. Mas, claro. Eu não poderia esperar isso de você. Nunca ajudaria uma dama. — fiz careta, colocando as mãos na cintura e encarando-o emburrada.
— Certo. Quando você vir a dama, me avise que eu a ajudo. — respondeu cínico.
Cerrei os olhos, retirando as mãos da cintura e as erguendo em sinal de rendição, como se dissesse “tudo bem, você venceu, fim da discussão”. Ele riu um pouco, mostrando aqueles dentes perfeitos e brancos, o que me fez sorrir de lado. Provavelmente a maioria das garotas se incomodaria por seu comentário, mas eu não era uma dama mesmo e sabia que ele estava brincando comigo.
Abri a mochila, inclinando-me ao fazê-lo. Puxei de lá o lençol branco que roubei do motel.
— Sabe, daqui dá pra ver seus peitos bem direitinho, farm girl. Eu amo essa blusa. — sorriu safado, fazendo-me olhá-lo de modo ameaçador, porém revirei os olhos e arrumei um pouco a postura. Infelizmente, senti minhas bochechas vermelhas. — Você fica muito bonitinha vermelha.
— Argh! Cala a boca. — soltei irritada e envergonhada, fazendo-o prender uma gargalhada.
Ajoelhei-me na grama, determinada em fazer dar certo. Nunca tinha feito algo como aquilo antes, mas havia uma primeira vez para tudo.
— Onde você... espera, esse é o lençol que dormimos?! — então ele arregalou os olhos, apontando para o lençol em minhas mãos. Estiquei o lençol, jogando-o na grama e arrumando-o ali, abrindo-o completamente. Ele era grande, era perfeito para meu plano. Não era o que eu deveria usar, mas dava pro gasto. Comecei a sentir um leve incômodo nos joelhos, graças à grama, então fiquei de joelhos em cima do lençol. Eu sabia que Victor iria querer saber o que eu estava fazendo, mas não precisava mais manter mistério, então eu responderia. — VOCÊ ROUBOU UM LENÇOL?
Olhei para ele, vendo-o me encarar meio perplexo. Tive vontade de gargalhar, mas me segurei. Apenas sorri de modo divertido, e respondi:
— Nossa. Saindo da sua boca não parece tão legal. — brinquei, dando de ombros e fazendo-o deixar aquela expressão perplexa de lado, negando com a cabeça várias vezes e estalando a língua.
— Você é doida. — declarou, vendo-me abrir as sacolas e começar a retirar a comida. Não precisei olhá-lo para saber que me fitava. — Talvez eu goste das doidas. Sacolas de comida, um lençol no chão, parque silencioso. Srta. Geovana Rocha, você está tentando fazer um piquenique? — perguntou quase rindo, como se a idéia lhe parecesse engraçada.
Sorri com a presença do “Talvez eu goste das doidas” e o “Srta. Geovana Rocha”. Assenti algumas vezes, divertida. Abri todas as sacolas e coloquei tudo que estava ali em cima do lençol. Chocolates e doces, dois pedaços de torta de chocolate, refrigerantes, salgadinhos, algumas frutas e mais algumas coisas. Não eram muitas coisas, mas com certeza dava pro gasto. Sentei-me na frente de Victor, porém com todas aquelas comidas entre nós.
— Eu não vou à piqueniques, senhorita. — insistiu no “senhorita”, fazendo-me rir e dar de ombros.
— Mas, como sempre, eu sou uma exceção na sua vida. — falei dando uma piscadela, mas por algum motivo Victor se calou depois que disse isso, e pareceu um pouco pensativo e distante.
— Claro que é. — respondeu irônico por fim, o que me fez sorrir. — Eu deveria levantar e sair nesse momento, eu odeio piqueniques e coisas assim. — olhei para ele com uma expressão tristonha, meus olhos brilhando de jeito pidão. Victor cerrou os olhos e ergueu uma sobrancelha, como se dissesse “é sério que está fazendo isso?”. Assenti lentamente, respondendo sua pergunta mental, e um beicinho se formou em meu lábio inferior. Victor bufou alto. — Tudo bem. Sou um merda e estou me odiando agora por ser tão fraco, mas vamos fazer isso.
Prendi uma gargalhada vitoriosa, apenas soltando um risinho e voltando com minha expressão normal. Ele se deitou no lençol, já que era grande e toda daquela comida não pegava nem metade. Mas virou de lado, apoiado em um dos cotovelos. Eu não conseguia ficar muito tempo naquela posição, achava desconfortável, mas ele não pareceu ver problema. Inclinei-me um pouco e peguei um chocolate, voltando à posição normal e abrindo-o. Eu estava olhando para baixo, e parei um pouco ao ver o pingente de âncora.
— Obrigada pelo colar. — agradeci meio baixo, erguendo o olhar e vendo que Victor já me olhava desde antes.
Você olha pra pessoa e vê que ela já está te olhando. Constrangedor.
— Que nada. — respondeu normalmente, fazendo-me sorrir de lado e voltar a abrir o chocolate, jogando a embalagem no lençol.
Quando eu ia levá-lo para a boca, Victor se inclinou e o pegou da minha mão. Não sei como ele fez aquilo, sendo que nem estávamos muito próximos um do outro, apenas sei que fez. Ao ver minha expressão incrédula, ele riu alto e voltou para sua posição inicial. Mesmo fingindo estar irritada, sorri ao ouvir aquela risada. Caramba, eu nunca me cansava de ouvi-lo rir. Percebi que acabei ficando ali por alguns segundos, parada igual uma porta, com um sorriso idiota na cara. Victor já me olhava com uma sobrancelha erguida, esperando alguma reação minha e estranhando eu estar daquele jeito. Sacudi um pouco a cabeça, afastando aqueles pensamentos e assumindo uma falsa expressão irritada.
— Isso é meu! — bufei teatralmente, cruzando os braços e olhando-o feio.
— Tem mais aí. — apontou para todas as comidas, sorrindo divertido e pronto para comer o chocolate.
— Deveria ter pensado nisso antes de pegar o meu! — soltei, então desistindo daquela pose e rindo.
Eu já ia me inclinar para pegar outro chocolate, mas Victor ficou de joelhos e se aproximou de mim, engatinhando. Fiquei calada, curiosa para saber o que ele ia fazer. Ele parou perto de mim, erguendo a mão que estava o chocolate, já sujando um pouco seus dedos. Estava derretendo. Ergui minhas duas sobrancelhas, mas não questionei. Ele ia fazer o que eu achava que faria?
— Toma. — falou baixo, aproximando o chocolate da minha boca. Automaticamente abri a boca um pouco, olhando para seu rosto e vendo que ele sorria de lado, minimamente. Victor colocou o chocolate na minha boca, fazendo-me fechá-la e mastigar o doce. Mas, sinceramente, eu não estava nem sentindo o gosto. Eu oão estava nem prestando atenção. Meus olhos estavam vidrados em Victor, que sorria daquele jeito meio malicioso e travesso, lambendo os próprios dedos e limpando-os, me olhando do jeito que eu o olhava. Era impressão minha ou ele estava me provocando?! Puta que pariu, se era aquilo que ele queria fazer, estava conseguindo. — Prontinho, farm girl.
Pigarreei um pouco, forçando-me a parar com aquilo. Estava mais que óbvio que ele estava fazendo de propósito, mas eu não queria que ele soubesse do tamanho do poder que tinha sobre mim. Desviei o olhar, vendo-o demorar um pouco para se afastar e voltar para sua posição, mas o fez. Engoli o chocolate com certo esforço, estava parecendo concreto na minha boca, já que eu ainda estava muito tensa.
Peguei um pacote de salgadinhos e uma latinha de refrigerante, abrindo os dois e vendo Victor pegar um pedaço de torta, pegando outro refrigerante. O clima entre nós estava mais normal, mas eu estava atenta a qualquer movimento que ele fazia. Comi quase todo o salgadinho, quando ele resolver se pronunciar:
— Engraçado. — comentou ele, quando eu estava olhando para o pacote em minhas mãos. Ele prosseguiu sem que eu precisasse pedir: — Nos conhecemos graças a uma dessas. — ergueu um pouco a torta na mão, fazendo-me rir de leve.
Lembrei de quando bati de frente com ele, no refeitório, fazendo-o me sujar com bolo de chocolate. Torta, tanto faz. Naquela época eu não fazia ideia do quanto aquele garoto bagunçaria minha vida, mesmo sem nem ter noção que o fazia. Sorri um pouco, feliz por saber que eu não era a única que lembrava como nos conhecemos. Mas infelizmente eu era a única que sentiu o coração acelerar com a lembrança.
Larguei o pacote de salgadinhos quase vazio, deixando o refrigerante no lençol e pegando o outro pedaço da torta. Victor me fitava curiosamente, ainda sem comer sua torta.
— Vamos comer juntos. — sorri de lado.
Esperei que ele protestasse ou falasse alguma besteira, mas apenas assentiu em silêncio e levou a torta aos lábios, no momento em que o fiz.
Sorrimos de leve um para o outro, mas não falamos mais nada, apenas fomos comendo tudo que estava ali. Eu gostava de estar com ele. Sentir sua presença, trocar sorrisos e olhares. Falar não era preciso, parecia que nossos gestos e aquela paisagem belíssima falavam por si mesmos. Eu poderia acreditar que o destino estava tentando nos fazer virar um casal, já que Victor deixou a raiva de lado e topou fazer o piquenique, o lugar estava realmente vazio e tranquilo. Mas eu sabia que era besteira.
— Me fala um pouco sobre você. — pedi depois de longos minutos em silêncio, fechando um pacote de biscoitos, deixando-o num canto.
Victor me olhou, franzindo a testa. Ele me enviou um olhar questionador, querendo saber o que eu queria com aquilo, mas eu apenas o sustentei. Qual é, já estava na hora de nos conhecermos de verdade. Do jeito clássico.
— Victor Stonem. — começou com um suspiro, como se estivesse fazendo aquilo por obrigação, mas não me importei. O encarei, prestando bastante atenção no que ele falava. — Dezessete anos... — ele parecia ter aquela idade mesmo. Retirando a mentalidade de cinco anos, combinava. Victor fez uma careta. — Ah, porra. Não sei falar sobre mim. É... eu falo muito palavrão, pois é, sou solteiro, mas disso você já sabe... Pessoas falam coisas de mim. Algumas coisas são verdadeiras — eu percebi que com “algumas coisas” ele quis dizer “a maioria das coisas”, mas permaneci calada. —, mas se for inventar de acreditar em alguma dessas coisas, fale comigo primeiro. Eu falo pra você se é verdade ou não.
Eu sabia que ele queria acrescentar algo como “porque você acredita em muita merda”, para me alfinetar em relação ao acontecimento no banheiro, mas Victor preferiu não dizer nada. Apenas assenti com a cabeça, deixando-o saber que eu tinha entendido.
— Gosto de preto. Pelo meu sotaque acho que você percebeu que não sou daqui. — assenti novamente, ele também assentiu, como se dissesse “isso aí” — Eu sou o quarterback do time de futebol... meus melhores amigos são Booker e Yv. Você agora.
Torci o nariz, pensando no que eu diria. Resolvi falar como ele, apenas com respostas diferentes.
— Geovana Rocha. — comecei. — Quinze anos...
— Você definitivamente não parece ter quinze. — me cortou.
Ele não pareceu surpreso, apenas fez um comentário. Eu sabia o motivo. Ele sabia que eu era do primeiro ano, e no primeiro ano estavam os alunos que os mais velhos consideravam “pirralhos”. As pessoas diziam que eu não parecia ter quinze anos, e eu levava como um elogio. Por mais que Jennifer às vezes ficasse me zoando.
— Dizem isso. — sorri de leve, continuando: — Falo mais palavrão mentalmente, você sabe. Solteira. Não sei se falam de mim, mas acho que não. Só no começo, graças a tudo aquilo lá com o bolo no refeitório. — olhei feio para ele, claramente o culpando, mas Victor apenas ergueu as mãos em sinal de rendição. — Gosto de roxo. Sou do Brasil. Aqui sou muito amiga da Sophia, Lori e Lizzie. No Brasil minha melhor amiga é a Angeline.
Victor não pareceu surpreso quando falei sobre minha cor favorita, o Brasil e as meninas. Provavelmente ele já tinha percebido que eu gostava de roxo, graças à cor do meu cabelo. Eu não sabia se ele já tinha me visto com as garotas, talvez sim. Em relação ao Brasil, eu já tinha consciência de que ele sabia que eu não era dali. Ele apenas assentiu.
— Algo que gosta em mim? — perguntou, fitando-me de modo quase desafiador.
Tudo! Vale? Brincadeira. Ou não.
— Gosto do seu cabelo. — falei, notando que o peguei de surpresa. — É tipo “acabei de dar um amasso”.
— Acabei de dar um amasso? — ele riu, meio incrédulo e sem entender.
— É! — assenti firmemente. — Do tipo bagunçado, mas... bonito. — me senti meio envergonhada ao dizer aquilo, então quis mudar logo o rumo da conversa antes que eu dissesse algo como “não é apenas seu cabelo que é bonito”. — E você, algo que gosta em mim? — perguntei, tentando não parecer curiosa demais.
Mas eu não podia deixar aquela chance passar, então perguntei logo. Eu estava sendo cara de pau mesmo. Victor correu os olhos por meu corpo, mas foi tão rápido que não consegui nem ficar envergonhada. Naquele momento me arrependi de ter perguntado, o que diabos ele responderia?!
— Acho que não vai querer saber a resposta. — deu um sorriso malicioso, que foi o suficiente para fazer meu rosto esquentar.
Soltei um “uhum” e pigarreei um pouco, fingindo olhar uma folha que caiu da árvore, que acabou por parar ao meu lado. Era melhor eu não saber a resposta mesmo. Querendo mudar de assunto logo, ergui a cabeça e o fitei.
— Fruta favorita? — perguntei, fazendo-o parar, pensando.
Ele com certeza percebeu que eu estava ansiosa para mudar de assunto. Como antes estávamos em uma espécie de jogo de perguntas, ele sabia que era normal perguntar coisas de repente. Mesmo depois de ficar um puta silêncio constrangedor.
— Ah, sei lá. Banana? Não sei. — suspirou pesadamente, coçando a nuca. — É, banana. Talvez morango. Sei lá.
Parei, olhando-o. Ergui minhas sobrancelhas, fazendo a melhor expressão maliciosa que consegui. Victor passou uns segundos olhando para o céu, então me fitou e viu minha cara. Ele ergueu uma sobrancelha, vendo que claramente eu estava prendendo o riso. Mas ele pareceu não entender.
— Então você curte uma banana, Stonem. — soltei debochada, explicando em poucas palavras o motivo de eu estar daquele jeito e aproveitando para debochar dele.
Victor abriu a boca algumas vezes para rebater, mas não conseguia dizer nada. Opa, eu o deixei sem fala! Então começou a rir, rir de verdade, e foi impossível não acompanhá-lo depois de alguns segundos. Nós estávamos parecendo dois idiotas rindo de algo totalmente aleatório, mas não estávamos nos importando.
— Deus, como você é idiota. — ele disse, depois de longos minutos rindo.
Estava um pouco ofegante, assim como eu. Soltei uma risadinha, dando de ombros.
— Você riu. — lembrei. — É tão idiota quanto eu. — Victor deu de ombros, como se não se importasse. Sorri divertida, então pensei um pouco. — Por último, me diz algo que fez e que ninguém sabe. Ou poucas pessoas.
Pensei que Victor se recusaria a responder aquela pergunta, respondendo algo como “e por que eu diria para você?”, mas não foi o que fez. Ele realmente pareceu pensar, vasculhando sua mente atrás de algo. Sorri de leve, esperando sua resposta.
— Eu ia ganhar o Grêmio Estudantil, não o Yv. — contou, fazendo-me franzir a testa de modo surpreso. — Estávamos competindo um contra o outro, claro que não brigamos por isso e nem nada. Mas eu não queria, fui forçado a participar. E eu sabia que ganharia. Percebi que o Yv queria muito aquilo, e ele levava jeito! Ou melhor, leva. Então eu roubei. Na hora de votar, falsifiquei mais votos para ele, fazendo-o ganhar.
Fiquei olhando para Victor com cara de tacho. Então sorri. Certo, aquilo foi bem legal! Então eu estava certa, ele não era tão ruim como todos diziam. Será que se soubessem do que ele fez, mudariam suas opiniões sobre ele? Eu não sabia, mas naquele momento percebi que a minha já tinha mudado há tempos. Não importava se eu estava indo contra a maioria ou não, eu já tinha uma opinião formada sobre Victor, e mesmo não sendo perfeita, era positiva.
— Isso foi realmente legal. — comentei, fazendo-o dar de ombros, como se não tivesse sido nada.
— Um fato sobre você. — disse ele, apontando para mim — Que ninguém sabe, claro.
Sorri de modo divertido. Fiquei de joelhos no lençol, engatinhando até ele. Victor ficou me observando atentamente, querendo saber o que eu estava pensando em fazer. Parei na frente dele, ainda sorrindo.
— Eu pinto meu cabelo. — sussurrei como se realmente fosse um segredo, vendo-o cerrar os olhos. Sorri mais, segurando minha vontade de rir. — Fascinante, não?
Depois de um bom tempo, Victor já estava deitado no lençol de barriga para cima, olhando pro céu. Eu estava sentada, mas tinha mudado de posição dez vezes. A maioria da comida que antes estava entre nós já tinha sumido, e ambos estávamos satisfeitos. Nós comemos, conversamos besteiras e eu poderia dizer que, sim, nos divertimos bastante. Era meio difícil acreditar que eu realmente tinha feito um piquenique com Victor Stonem e que tudo tinha dado certo. Bem, ao menos até aquele momento.
Fiquei olhando para Victor, que ainda estava olhando para o céu. O sol não estava tão forte como antes — quando chegamos —, e mesmo levando em conta o fato de que estávamos na sombra feita pela árvore, a luz solar iluminava um pouco o rosto de Victor, deixando-o mais bonito ainda. Mesmo ele não sendo o completo cretino que as pessoas o acusavam de ser, Victor realmente parecia o típico popular cafajeste dos filmes e séries americanas. Perguntei-me mentalmente se muitos daqueles boatos que diziam sobre ele eram verdadeiros. Eu sabia que ele estava longe de ser um santo, mas tinha mesmo transado com três garotas no banheiro de um restaurante?! Pois é, aquele era um dos boatos que corriam, na semana anterior ouvi uma garota comentando.
Lembrei-me que Victor disse para mim que antes de pensar em acreditar em algo que as pessoas diziam sobre ele, era para eu perguntá-lo primeiro, que então ele me diria se era verdade ou não. Eu não sabia se ele estava falando sério, mas me senti um pouco feliz com a idéia de que ele poderia ser realmente sincero comigo.
Suspirei um pouco, abraçando minhas próprias pernas e mantendo minhas costas firmes — assim como meus pés estavam no lençol —, para permanecer sentada, já que não havia nada atrás de mim e eu poderia cair de costas na grama. Resolvi perguntar logo uma das questões que rodeavam minha mente. Eu sabia qual seria a reposta, e era até idiota perguntar, mas eu só queria conversar mesmo. Era bom ouvir a voz dele. E mesmo que eu nunca fosse admitir, eu aprendi a gostar quando ele me chamava de farm girl.
— Você pega todo mundo, não é? — foi o que soltei, e pude perceber que ele estava tão perdido em pensamentos quanto eu estava antes, pois virou a cabeça e me olhou meio confuso.
Victor ergueu-se um pouco, apoiado nos cotovelos, ainda de barriga pra cima. Inconscientemente, acabei olhando para seu corpo e vi que quando ele puxou os braços, para apoiar-se neles, sua camisa subiu um pouco. E era daquele jeito que estava. Perdi o ar por alguns segundos, mas abaixei rapidamente a cabeça e fingi que nada tinha acontecido, olhando-o depois e agradecendo mentalmente ao perceber que ele não tinha reparado.
— O quê? — foi o que eu precisava para ter certeza que ele estava completamente disperso antes.
Eu só queria saber o que ele estava pensando antes de eu fazê-lo voltar para a terra. Porque por mais que soubesse que era a única, no meu momento disperso eu estava pensando nele.
— Você. Pega. Todo. Mundo? — perguntei pausadamente, como se ele fosse uma criancinha que precisava de uma explicação paciente.
Não fui a única a comparar minha fala com a de alguém explicando algo a uma criança, pois um leve sorriso pintou os lábios de Victor por alguns segundos.
— Como assim, farm girl? — perguntou, parecendo mais interessado no que eu estava falando.
Suspirei um pouco, sabendo que precisaria ser mais direta, além de que eu queria uma resposta mais específica, e talvez detalhada. Não que eu quisesse saber sobre as garotas que ele já tinha ficado, por Deus! Eu apenas não queria receber um “sim, já peguei todo mundo” ou um “não, não peguei todo mundo”. Era óbvio que Victor não ficado com todo mundo, mas dava para entender onde eu queria chegar. Todo mundo servia para muitas pessoas.
— Posso fazer uma pergunta íntima? — questionei, vendo-o erguer uma sobrancelha. — E até meio indecente?
Victor parecer ponderar, decidindo se iria se permitir responder ou não. Eu não sabia se ele tinha noção do que eu queria perguntar.
— Adoro coisas indecentes. — foi o que respondeu com um sorriso significativo, o que fiz questão de ignorar, para o bem da humanidade.
— Com... com quantas garotas você já fez amor? — no começo hesitei um pouco, mas no fim perguntei na lata.
Eu não me sentia muito a vontade dizendo algo como “com quantas garotas você já transou?” ou “quantas garotas você já fodeu?” para ele. Como dizia Jennifer, “fazer amor” era um termo mais bonitinho. Naquele momento pareceu o mais adequado para se usar, não que eu fosse usar outro com qualquer outra pessoa (não frequentemente). Só se eu estivesse bem descontraída, o que eu definitivamente não estava ali, não muito. Eu não podia ignorar que aquela ainda era uma pergunta íntima.
— Nenhuma. — Victor me respondeu na lata, aparentemente sem notar minha hesitação no começo da pergunta.
Se ele notou, ignorou. Mas não me importei com aquilo, pois estava ocupada demais ficando surpresa e franzindo a testa. Certo, próxima piada. Ele estava brincando, só podia estar. Mas não vi nenhum resquício de diversão no rosto dele, ele estava normal. Como se não se importasse de responder aquilo. Soltei um risinho incrédulo.
— Nem ferrando que você é...
— Não. — me cortou, o que me fez franzir mais ainda a testa. — Eu não sou virgem. E nem gay.
Pronto. Eu não achava que conseguiria ficar mais confusa, mas consegui. Se ele não era virgem e nem gay, então do que porra estava falando?! Mas fiz minha expressão voltar ao normal, sabendo que ele explicaria.
— Então...? — o pressionei de leve, curiosa.
— Eu nunca fiz amor com uma garota, farm girl. — repetiu normalmente, mas frisou o “fiz amor”. Então percebi que o problema estava naquelas duas palavras. O termo. — Eu não faço amor com as pessoas. Não, eu não sou o Christian Grey, não vou te dizer que fodo duro. — senti vontade de rir, o que aconteceu graças ao fato que ele citou Christian Grey, personagem do livro/filme Cinquenta Tons de Cinza. — Eu transo, faço sexo, durmo, como, fodo, use o termo que quiser. Mas fazer amor, não. — senti meu rosto esquentar um pouco, diante de tantas formas de se ter relações com alguém, além do fato de que ele dizia tudo aquilo como se fosse super normal, mas mantinha os olhos cravados em mim.
— Você me parece o tipo de garoto que é perigoso ficar perto. — falei de modo sincero e meio baixo, sem pensar.
Ele tinha consciência de que tipo de perigo eu estava falando. Victor soltou uma risada curta, sem achar muita graça na minha fala, mas sim na situação. Provavelmente ele tinha me visto com o rosto meio avermelhado, o que não me deixou lá muito feliz.
— Então por que insistiu em ficar perto de mim? — questionou, o que definitivamente fez eu me calar. Eu sabia o motivo de ter insistido em ficar perto dele. Porque eu simplesmente queria ficar perto dele, sendo perigoso ou não. Mas claro que eu não diria aquilo a ele, então preferi ficar calada. — Não acredite em tudo que as pessoas dizem sobre mim, farm girl.
Senti-me realmente envergonhada, então olhei para baixo. Era estranho me sentir daquele jeito, por mais que eu já devesse ter me acostumado. Eu ficava sem jeito facilmente quando estava com Victor, o que eu definitivamente não gostava. Nenhum dos garotos que conheci conseguiu me deixar naquele jeito com tanta frequência, nunca imaginei que pudesse acontecer tanto.
— Presta atenção, eu não sou um ninfomaníaco. — ergui a cabeça, vendo que ele iria continuar. Graças a Deus eu sabia que meu rosto tinha voltado à tonalidade normal, mesmo eu ainda me sentindo meio desconfortável. — Não é tão perigoso assim ficar perto de mim. Olha, vem aqui.
Naquele momento o encarei de verdade, tentando entender o que ele queria por trás daquele “vem aqui”. Mas não consegui chegar a nenhuma conclusão olhando para seus olhos. Como sempre, eu não conseguia lê-los. Acho que estava óbvio o quanto eu estava incerta sobre ir ou não, pois Victor bufou longamente.
— Caralho, vem logo.
Revirei os olhos e resolvi ir. Que mal teria? Ele estava certo, eu não poderia ficar agindo como se ele fosse me estuprar a qualquer segundo, até porque ele mesmo já tinha me salvado de duas tentativas de outros caras. Sentei-me ao lado de Victor, em cima das minhas pernas, vendo-o recolher os braços e se levantar. Ele se arrastou um pouco e encostou as costas no tronco da árvore, com as pernas esticadas.
— O que quer? — perguntei, observando-o.
— Senta em cima de mim.
— O QUÊ?
Eu não queria ter gritado, mas simplesmente saiu. Victor não gostou muito de ouvir aquilo, pois fez uma careta. Eu estava pouco me ferrando para se tinha prejudicado a audição dele ou não, só queria entender que porra ele estava tentando ou querendo fazer. Sentar em cima dele? O quê? Ele estava chapado ou enlouqueceu de vez mesmo?
Foi a vez de Victor revirar os olhos, como se eu estivesse sendo patética. Okay, talvez ele estivesse certo, mas eu simplesmente ma assustei com a merda daquele pedido.
— Você me entendeu. — respondeu como se fosse óbvio, olhando-me com tédio e até um pouco de impaciência. Eu estava com cara de cu mesmo. — Fala sério, não farei nada com você.
Mesmo suas palavras parecendo meio sinceras, ainda mais diante da aparente irritação, não me convenci muito. Tudo que Victor fazia era com mais de uma intenção, como eu saberia que aquilo não fazia parte da lista, também? Uma parte de mim — a parte tarada que graças a Deus poucos conheciam — queria fazer o que ele estava pedindo, mesmo que (por algum motivo) ele tivesse intenções inocentes e no fim não desse em nada. Outra parte de mim não queria que eu fizesse o que ele pedia. A parte lúcida, provavelmente.
— Victor... — tentei, completamente incerta.
— Eu só quero te mostrar uma coisa. Vem.
Lembrei-me de nossa briga que ocorreu horas antes. Lembrei do que falei no banheiro, do modo como Victor ficou magoado por ter achado que eu pensava as piores coisas dele (por mais que ele não ajudasse muito a crescer a lista de “coisas boas que o Victor faz para manter uma boa imagem”). Lembrei-me de todo o esforço que foi para convencê-lo a participar daquele piquenique comigo. Simplesmente não parecia certo recusar o pedido dele, sem ao menos saber o que ele planejava. Eu sabia que ele não faria nada que eu não quisesse, mas sinceramente eu tinha certo medo de que ele fizesse o que exatamente meu lado tarado — e boa parte de mim ao todo — queria.
Suspirei por fim, assentindo de leve e mal conseguindo acreditar no que eu estava prestes a fazer. Obviamente eu não sentaria no seu amigo, então as coxas era uma boa opção. Victor percebeu o que eu queria, mas não disse nada contra ou a favor do lugar que escolhi para sentar — até porque ele não tinha especificado —, então simplesmente me levantei, passei as pernas por seu quadril e sentei em suas coxas.
— Agora me responda sinceramente. — disse ele, erguendo-se novamente nos cotovelos e aproximando o rosto do meu. Não me movi. — Estou tentando fazer algo com você?
Mesmo Victor estando próximo, ainda era uma distância um pouco confiável. Mas, realmente, ele não me pediu para sentar em nenhum lugar mais sensível e nem tocou em meu corpo.
— Acho que não... — respondi baixo.
Não estava totalmente certa da minha resposta, mas respondi do mesmo jeito.
— Está vendo? Nenhum perigo. — ele deu um lindo sorriso de lado.
Aquele sorriso aqueceu algo dentro de mim. Uma sensação boa percorreu meu corpo, fazendo-me espelhar seu sorriso automaticamente. Porém, quando estava pronta para sair do colo dele (mesmo não querendo), Victor segurou em minha cintura com firmeza. Tentei ignorar a sensação boa de tê-lo me tocando, mesmo por cima da blusa, e o olhei de modo questionador.
— O quê...?
— Mas se eu fizer isso... — Victor ignorou o que eu tentei falar, fazendo algo que eu não esperava. Ele puxou minha cintura, erguendo as pernas na mesma hora, fazendo-as ficarem dobradas. Meu corpo foi de encontro ao dele, e eu simplesmente arregalei os olhos quando senti que estava diretamente entre suas pernas, com o rosto a centímetros do dele. Eu não podia levantar, pois suas mãos seguravam minha cintura, suas pernas em minhas costas impedindo-me de me mover. — Agora, talvez, temos um problema. Ou melhor, você tem um.
Eu estava paralisada. O que queria dizer que eu mal respirava. Eu não sabia como outras pessoas reagiriam em uma situação como aquela, mas eu simplesmente fiquei ali, estática, sem saber como agir. Por um lado, eu queria que ele se aproximasse ainda mais. Por outro, eu queria que ele me largasse. Mas, independente de tudo, meu corpo estava faiscando internamente. Por Deus, eu precisava da merda da minha sanidade. Ela estava ali, eu sabia que sim. Não podia e não iria ignorá-la.
Parecia que tudo em Victor era muito bem calculado, diferente de mim, que era a rainha do impulso, ao mesmo tempo em que era da indecisão e incerteza. Calculado para me deixar maluca, na realidade. Os toques dele, a respiração, o jeito, o cheiro, tudo. Era como se ele soubesse todas as minhas fraquezas e as usasse contra mim, cada uma e todas de uma só vez. Era tudo calculado para me enlouquecer em todos os sentidos, era tudo calculado para ele sempre ter o controle.
E o pior era que eu o deixava no controle.
Ele parecia ser o protagonista de algum livro, que sempre encurralava a protagonista com ações imprevisíveis, que mexiam com ela. E eu era a garota que se ferrava sendo encurralada por ele de todas as formas possíveis, claro.
— Victor, me solta e para com isso... — comecei, usando minha sanidade e tentando me soltar dele.
Não, eu não queria me afastar de verdade. E talvez ele também soubesse daquilo. Por que eu queria tanto me aproximar dele, ao mesmo tempo em que sentia que seria machucada?
Victor riu, como se estivéssemos apenas brincando e ele não tivesse nenhuma intenção em me tirar do sério. Claro que ele tinha. Ele sempre tinha.
— Relaxa. — pediu, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Eu não conseguia relaxar nem quando esperava ansiosamente para sair uma música nova de um dos meus cantores favoritos ou quando iam anunciar a vencedora (ou o vencedor) do America’s Next Top Model, quem dirá naquela situação!
— Relaxar?! Você realmente disse isso? — perguntei retoricamente, incrédula.
— Por que está tão nervosa, então? — com aquela pergunta, eu me calei. Eu não podia dizer a ele que ele tinha todo aquele poder sobre mim, então simplesmente não falei nada. Victor deu um sorrisinho convencido e até meio vitorioso, claramente adorando me deixar sem resposta. — Não vejo motivos. Pessoas sentam no colo das outras toda hora, acredito que até você, e você praticamente está no meu. Certo? Sabe que sim.
As pessoas que eu sento no colo não me olham como se fossem me agarrar a qualquer momento. Foi o que pensei, mas não falei.
— Você tem um modo peculiar de pensar. — respondi, franzindo um pouco a testa. Era verdade. Às vezes era difícil entendê-lo (quase sempre). — Quer dizer... intimidador. Estranho. Tanto faz, mas me solta.
Eu sabia que ele não me soltaria tão cedo, mas não custava nada tentar. Talvez ele tivesse ao menos um pouco de piedade de mim. Não, eu estava me iludindo. Com certeza ele não teria.
— Qual a graça de pensar como todos os outros caras que você já esteve? — deu um pequeno sorriso torto, acariciando minha cintura com os dedos.
— Não estive com tantos assim. — respondi de modo automático, sem saber se me arrependeria de dizer aquilo ou não.
“Não estive com tantos assim” era igual a “não estive com quase nenhum”, mas Victor não precisava saber daquilo. Olhei pra baixo.
— Assim nessa posição, assim no caso de estar ou assim quase se beijando?
Silêncio. Novamente fiquei sem palavras. Eu ainda estava olhando para baixo, e quando ergui a cabeça, vi o quanto estávamos próximos. Muito. Ele ficou olhando diretamente para meus olhos, e não tive escolha a não ser olhar para os dele. Olhos absurdamente lindos.
Droga, por que eu estava pensando no quanto os olhos dele eram bonitos? Por que meu corpo estava se arrepiando? Por que Victor estava se aproximando mais? Por que eu estava quase fechando os olhos? Por que eu não estava pensando em mais nada?
Então, como se eu tivesse tomado um choque, simplesmente virei o rosto, impedindo-o de fazer. Eu não sabia como, mas tinha resistido. Ele não podia fazer aquilo comigo. Eu sabia que queria, mas sabia também que precisava me controlar. Qualquer pessoa vendo nossa situação de fora pensaria que eu estava sendo estúpida por tentar fugir dele, mas eu não queria me machucar. Eu não queria me apaixonar por ele, e eu tinha quase certeza que aquilo poderia acontecer se nos beijássemos de verdade, diferente do beijo na noite da corrida.
Mesmo com o rosto virado e o olhar preso na grama ao meu lado, eu sabia que ele estava me olhando atentamente. Eu sentia seu olhar como se algo estivesse me furando, tentando chamar minha atenção, indicando que queria que eu virasse naquela direção e o olhasse de volta. Não olhei.
— Me solta. — murmurei, com certa firmeza.
— Responde que eu solto. — seu tom de voz deixava claro que ele não tinha se abalado nem um pouco por eu ter recusado seu beijo.
— Nos três, Victor. — respondi. Eu não sabia se acreditava ou não na palavra dele, mas resolvi responder. — Não estive com tantos garotos assim nessa posição, assim estando mesmo e assim quase se beijando. — mesmo que não estejamos mais.
— Mas e assim?
Antes que eu pudesse entender direito o que ele queria dizer, Victor colocou a mão entre minha nuca e meu maxilar, virando meu rosto e puxando-o para si com determinação e certa força.
E ele simplesmente me beijou.
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