The Anchor

27 Purificando a alma com Josh Harvesty.


Notas iniciais
ESTOU DE VOLTAAAAAAAAAA!!!!! Pessoal, senti MUITAS saudades de vocês. Me desculpem, de coração, por ter ficado tanto tempo fora, e obrigada por não terem abandonado The Anchor, nem a mim. Vocês são incríveis. Quero agradecer também pela INCRÍVEL surpresa que as meninas fizeram pra mim lá no grupo, MEU DEEEEEEEEEEEUS, EU AMO VOCÊS!!!! Enfim, é isso. Aproveitem esse capítulo!!! sz

Capítulo 26.

Suspirei profundamente, abaixando um pouco a cabeça, sem saber o que dizer. Eu nunca sabia o que dizer naqueles momentos. Eu apenas ouvia, mas nunca tinha reclamado e nunca reclamaria. Eu gostava de ouvir a voz dele, e ele nunca intensificava o tom comigo.

— O que eu acho? — Cam repetiu minha pergunta, fazendo-me assentir um pouco e erguer a cabeça para fitá-lo. Eu não sabia onde estávamos. Talvez simplesmente no meio do nada, mas eu não me importava. Usávamos agasalhos e estávamos bem protegidos contra o frio. Ao redor não era possível ver muita coisa, estava até meio escuro, e eu só via árvores e mais árvores. Então o cenário mudou completamente, e me vi na frente de Blanchaster. O colégio estava completamente deserto, e até um pouco assustador. Tudo mudou mais uma vez, e então eu estava em meu quarto, com Cam ainda ao meu lado. Me senti mais confortável estando ali, mesmo não sendo o quarto em que passei anos da minha vida. — Não desista dele, por mais que futuramente pareça ser a melhor opção. Mude. Estou olhando por você.

Desistir? Desistir de quem? Do que ele estava falando?

— Desistir de quem? E... como assim mudar? — me aproximei dele, ficando em sua frente.

Cam me presenteou com um sorriso suave e sereno, tocando minha bochecha, fazendo o contorno com os dedos de uma das minhas maçãs do rosto.

Era um toque que me fazia relaxar por inteira, o que me fez resistir à vontade de fechar os olhos.

— Você sabe. — foi o que respondeu, olhando profundamente em meus olhos. — Mude. Aceite a ajuda da Lua.

— Eu não estou entendendo. — murmurei, completamente perdida.

Toquei delicadamente na sua mão que estava no meu rosto, buscando explicações com o olhar. Ele simplesmente sorriu mais uma vez. Calmo, como se o tempo estivesse se arrastando para nós dois. Como se aquele momento fosse infinito. Interminável.

— Vai entender. — assentiu para si mesmo, como se quisesse se convencer daquilo. — Eu te amo tanto...

Deslizou a mão por meu rosto, sem parar de me olhar. Eu realmente queria fechar os olhos para aproveitar melhor seu toque, mas não queria deixar de olhar para os seus. Tão verdadeiros. Sinceros. Dele.

— Eu te amo muito, Cam. — quando percebi, meus olhos estavam marejados e minha voz mais fraca que o normal. — Volte pra mim... — sussurrei, apenas para vê-lo rir um pouco e negar com a cabeça, como se não fosse possível.

E não era. Ele estava morto. Era difícil aceitar, mas estava.

— Agora eu sou apenas um corpo debaixo da terra. — ele parecia ter aceitado aquilo, como se fosse a coisa mais simples do mundo.

— Não... — neguei várias vezes com a cabeça, piscando e deixando uma lágrima escorrer por minha bochecha. — Você nunca vai ser apenas isso pra mim, Cam. Nunca.

Naquele momento, eu percebi que não era a única chorando. Apertei a outra mão dele, ao lado de seu corpo, acariciando a que estava no meu rosto, tentando confortá-lo. Ver uma lágrima rolando por seu rosto me fez derramar mais duas. Meu coração apertou, fazendo-me sentir um pouco de dor.

— Se eu ainda estou aqui, é por sua causa. — segurou meu rosto com as duas mãos. Ele parecia estar com pressa, mas não queria ir embora. — Preciso que me deixe ir.

— Não! — neguei novamente várias vezes com a cabeça, como se aquela fosse a pior ideia do mundo. — Eu nunca vou te deixar.

— Você precisa, pequena.

— Eu não quero...

— Precisa. — insistiu, baixo.

Funguei, sentindo mais lágrimas descendo. Pareciam lâminas rasgando minha pele, me dilacerando. Mas era apenas a dor de perder alguém.

— Não consigo. — lamentei.

— Consegue. — ele discordou, então me puxando para um abraço, envolvendo-me com seus braços. — Só não está pronta ainda.

No momento em que minha cabeça encostou em seu peito e eu o abracei, comecei a chorar de verdade. Meu corpo tremia, eu agarrava sua camisa, como se aquilo fosse impedi-lo de me deixar. Aquela coisa no meu peito doía tanto, tanto.

Cam acariciou meus cabelos, afagando-os e sussurrando algo como "shh". Eu estava chorando tanto, meus olhos ardiam e minha garganta queimava, eu estava um pouco sem ar, mas não o soltei.

— Estão me chamando. Eu preciso ir. — ele se afastou delicadamente, soltando-se de meu abraço. Passou os dedos por minhas bochechas, varrendo as lágrimas que estavam ali. — Estou olhando por você. — ao aproximar os lábios da minha testa e depositar um beijo, ele sussurrou: — Deus é a salvação.

Deus é a salvação? Aquilo não fazia sentido.

Cameron não acreditava em Deus.

Abri os olhos lentamente, e soltei um intenso suspiro. Foi apenas um sonho. Eu já estava acostumada a sonhar com Cam (sonhos muito reais, até porque nunca tínhamos nos visto pessoalmente), mas sempre acordava assustada, e às vezes até gritando ou com vontade de chorar. Porém, daquela vez, eu simplesmente abri os olhos, como se antes tivesse dormido nas nuvens.

Aquele sonho foi especialmente mais estranho que os outros.

Todo sonho com ele era como uma longa queda. Eu acordava como se meu corpo tivesse sido jogado na cama com toda força. Mas naquele dia acordei como se ele tivesse sido colocado delicadamente ali, o que me fez até sentir bem. Talvez acordar bem fosse um sinal de que o dia seria bom. Então lembrei que era segunda-feira, fiz uma careta e afundei meu rosto no travesseiro. Provavelmente acordar bem não significava porra nenhuma mesmo.

Fiquei um tempo na cama, decidindo o que fazer sobre o Caso Victor. Eu não sabia se perguntava a ele o que exatamente tinha acontecido entre nós, se explicava que no dia anterior eu recusei seu beijo porque estavámos na porta da minha casa ou se eu simplesmente agia normalmente como se nada tivesse acontecido. Como, aliás, fiz quando cheguei em casa.

Eu não sabia se milagres aconteciam ou se eu finalmente estava com sorte, porque quando cheguei descobri que a desculpa de Juliet foi convincente (ela disse que aconteceu uma festa depois do desfile, e que nós duas dormimos na casa de uma amiga dela, também modelo) e não levei nenhuma bronca, apenas encontrei minha mãe ligeiramente preocupada e Jennifer indiferente (graças a Deus ela não deu uma de Sherlock Holmes). Menti, dizendo que as roupas que eu estava usando eram da tal garota.

Não esperei ou planejei sonhar com Cam, porque fui dormir pensando em Victor, no final de semana com ele, na conversa dele com Booker e no quanto eu queria dormir — mas não conseguia.

Quando levantei da cama, consultei a hora no meu celular e percebi que não estava atrasada, como achei que estaria. Milagre.

Tomei um banho rápido e frio, sem lavar o cabelo, já que eu tinha feito na noite anterior, após ser deixada em casa. Fiz todas as típicas higienes matinais, vesti o uniforme das cheerleaders que minha querida mãe fez o favor de lavar e passei uma maquiagem leve (um pouco diferente do habitual).

Não fiz um rabo de cavalo, como quase sempre, porque eu não queria que alguém visse os chupões no meu pescoço — que tentei esconder com muita base e pó, além do meu próprio cabelo (agradeci mentalmente por ser longo).

Meu pai não sabia que eu tinha passado a noite fora. Minha mãe sempre escondia dele aquelas coisas — como fez com a festa de Booker —, e era até melhor, porque ele era muito protetor. Principalmente comigo, "a garotinha do papai". Bem, papai, sua garotinha passou a tarde se pegando com um cara um pouco mais velho e que não é a melhor influência do mundo.

Eu sabia que toda aquela coisa de omitir algumas coisas talvez não fosse muito saudável numa relação, mas funcionava com meus pais.

Menti para minha mãe, dizendo que as roupas que eu estava usando eram da tal amiga modelo. Foi uma boa desculpa. Ela quis saber sobre o desfile, mas eu disse que estava cansada e fui o mais vaga possível. Eu não lembrava direito o que tinha dito, mas provavelmente foi um "ah, foi legal". Ela também quis saber como foi na casa da garota (que resolvi com Juliet que chamaríamos de Marina), e se me trataram bem. Minha mente pervertida automaticamente lembrou da tarde com Victor e quis dizer um "me trataram muuuuito bem, mamãe!", mas eu apenas mordi o lábio, me reprimindo, e disse que sim.

Antes de dormir, falei com Juliet pelo celular, e ela me contou que não livrou só a minha pele, mas a sua própria também. Após o desfile e todo o resto, ela acabou dormindo na casa do Alex (o que os pais dela nunca deixariam, então claro que não souberam) e eles "fizeram as pazes" definitivamente. Ela falou com direito a tom malicioso e tudo. Obviamente não pedi detalhes.

Cheguei à cozinha, vendo apenas Jennifer fazendo uma torrada — resolvendo ser útil, porque ela não fazia muitas coisas por si só em casa.

Rainha da preguiça.

Encostei-me no balcão, olhando-a com um sorrisinho preso nos lábios e um brilho significativo nos olhos.

— O que é? — perguntou quando notou minha presença, cruzando os braços na frente do peito e me olhando de modo questionador, e até meio desconfiado. — Conheço esse olhar. O que você quer?

Uma ideia estranha passava pela minha cabeça. Eu não tinha esquecido dos acontecimentos do dia anterior, claro que não, mas decidi não esclarecer nada com Victor. No caso, agir normalmente. Porque se ele agisse da mesma forma que agiu quando questionei sobre nosso primeiro beijo, eu sabia que me magoaria — eu também sabia que provavelmente só tinha sido especial e importante pra mim, mas não queria que ele me esnobasse, ou esnobasse o corrido.

Eu nunca soube muito bem o que fazer com a minha vida, como tomar decisões e sei lá mais o quê. Simplesmente porque coisas inesperadas, confusas e interessantes não aconteciam muito comigo, já que eu não estava acostumada a sair da minha zona de conforto. Mas desde que cheguei a Blanchaster as coisas mudaram. E eu não sabia o que fazer, ainda mais se tratando de Victor.

Eu precisava de conselhos, orientação, o que fosse, mas de alguém que não fosse me julgar como as meninas — por não gostarem dele —, alguém que não fosse amigo dele — como Yv —, ou alguém que eu poderia contar tudo sem problemas ou uma provável reação negativa — diferente de Mish.

Não que Jennifer fosse a melhor pessoa para me ajudar com aquilo (porque ela com certeza me julgaria, simplesmente por ter sido Victor), mas quando liguei para Lori (ela não sabia sobre tudo que aconteceu, eu só disse que precisava de conselhos amorosos) ela apenas disse "sua irmã conhece alguém", e então fui parar na cozinha com Jennifer, encarando-a como se ela tivesse algo que eu precisava muito. E tinha.

— Conselhos. — respondi simplesmente.

Eu era ótima em dar conselhos aos meus amigos e amigas, mas quando se tratava da minha vida pessoal, eu era um completo desastre.

— E...? — procurou continuação, o que eu entendi, porque além de curiosa (nem que sobre minha vida fosse minimamente), Jennifer sabia que eu nunca iria atrás dela para pedir conselhos.

— Lori me disse que você conhece alguém. — falei de uma vez.

Ela franziu a testa. Eu não me preocupei em explicar quem era Lori, porque ela já sabia.

— Você falando assim parece que conheço algum traficante barra pesada. — ri um pouco de sua fala, colocando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e dando de ombros. Jennifer suspirou, pegando a torrada e continuando: — Mas, sim. Conheço alguém. É conselhos sobre o quê?

— Na-na-ni-na-não. — falei pausadamente e neguei com o dedo, fazendo-a me dirigir um olhar incrédulo de "sério mesmo?!". — Nem vem. Não vou dizer.

— 'Tá', que seja. — ela não insistiu. — É o Josh. — contou, pegando o celular e movendo os dedos rapidamente, fazendo algo que não entendi o que era. Segundos depois meu celular vibrou, indicando que eu tinha recebido uma nova mensagem. — Te mandei o número dele.

Eu lembrava quem era Josh. Era um garoto legal e, segundo Jennifer, homossexual assumido — menos para a família. Então ele meio que era assumido em todo lugar, menos na própria casa. Deveria ser dificil pra ele — o que eu não sabia, porque não éramos íntimos.

Ele, depois da festa de Booker (onde fomos apresentados) não desgrudou mais de Jennifer, assim como Cohan e Mary. Eu também já tinha percebido um fato curioso sobre Josh; ele não sofria nenhum bullying por sua sexualidade. Pelo contrário, as pessoas pareciam respeitá-lo, até os jogadores de futebol. Mesmo não entendendo muito bem — já que a maioria dos jogadores eram uns idiotas que eu achei que fossem homofóbicos —, eu gostava do fato de que Josh não passava pelo que os gays da tevê passavam no ensino médio.

Eu simplesmente odiava ver pessoas sendo discriminadas, por qualquer motivo que fosse.

— Valeu. — agradeci, erguendo os polegares em sinal de positivo.
Jennifer apenas riu pelo nariz, dando uma mordida na torrada e resolvendo que o assunto não era interessante o suficiente para ela se intrometer.

Naquela manhã de segunda-feira, após conversar com minha irmã na cozinha, decidi não fazer o que eu sempre fazia quando eu estava no ônibus indo para o colégio, ou no carro da minha tia. Naquele dia, a primeira opção era a certa. Ônibus.

Enfim, quando eu normalmente estava em qualquer meio de transporte seguindo para o colégio, colocava meus fones de ouvido, ignorava completamente o universo — principalmente minha irmã, claro — e esperava até chegarmos em Blanchaster.

E como um grande dia (sarcasmo) pós-amasso-com-Victor-Stonem, ali foi diferente. Eu não coloquei meus fones, mas me desliguei do universo sim. Porém, eu estava pensando. Pensei no meu sonho com Cam. Ele falou sobre alguém, mas quem? Desistir? De quem eu desistiria? Ou melhor, de quem eu não deveria desistir?!

Ele também falou algo sobre a Lua. Ajuda da Lua? Aquilo não fazia o menor sentido. E, ah, ele também disse que Deus era a salvação.

Eu sempre lembrava as partes mais importantes dos meus sonhos, o que quase nunca ficava muito tempo na minha cabeça, mas ao menos eu lembrava por um tempo. Aquele sonho foi um pouco diferente. Eu lembrava do que Cam falara — "O que eu acho?" —, lembrava também que ele estava repetindo a pergunta que eu tinha feito a ele, porém eu não lembrava do que eu mesma estava falando quando perguntei o que Cam achava. Se eu soubesse sobre o que eu estava falando, saberia consequentemente de quem ele estava falando — o seu confuso "Não desista dele".

Desistir de quem? Argh!

Não que eu acreditasse que aquele sonho tinha sido um sinal ou sei lá, mas simplesmente era... curioso.

Enquanto eu olhava pela janela do ônibus, vendo toda aquela paisagem que eu já estava quase acostumada, me vi sorrindo ao lembrar do dia anterior. Ao lembrar dele. Sorrir ao lembrar de Victor estava virando um hábito — que eu possuía sérias dúvidas sobre ser algo bom ou não.

Estava um calor dos infernos, meu cabelo estava meio desbotado, eu estava com preguiça e minha irmã cantarolava algo antigo e chato ao meu lado, mas eu estava sorrindo.

Como todas minhas amigas brasileiras ficavam com vários garotos e já tinham experimentado vários beijos, quase sempre elas se reuniam e comentavam sobre os melhores, dizendo o gosto que cada um possuía. Eu já tinha ouvido falar em beijo/boca/talvez-garoto-em-si com gosto de chocolate, bala de hortelã, café e até pasta de dente.

Pensei rapidamente em qual Victor se classificaria. Ri um pouco quando mentalmente achei a resposta, mordendo um pouco meu lábio inferior e concentrando-me em olhar para a janela do ônibus — pois com certeza meu rosto estava meio vermelho. Victor Stonem tinha gosto de paraíso. Mesmo que conseguisse me deixar tão quente quanto o próprio inferno.

— 'Tá' rindo igual a uma retardada por quê? — Jennifer me tirou dos meus devaneios parcialmente bucais, puxando-me de volta ao meu inferno habitual.

— Vai lá cantarolar, vai. — soltei, mas acabei virando para encará-la, e como (quase) sempre, compartilhamos uma risada. — Nada. Não esquenta.

— O que é isso no seu pescoço? — franziu a testa, erguendo a mão para tocar o cabelo que cobria meu pescoço.

Por impulso, dei um tapinha em sua mão, impedindo-a de se aproximar. Respondi a primeira coisa que me veio em mente, que graças a Deus não foi algo exatamente idiota ou inventado:

— Um inseto me picou. Não olha, 'tá' meio feio. — dei um sorrisinho, sem mostrar os dentes.

Jennifer era esperta (na maior parte do tempo), mas ela sabia que não era a primeira vez que eu "era" picada por um inseto (não que eu já tivesse recebido chupões como aqueles antes, mas era que os insetos adoravam me picar mesmo). E provavelmente ela não achou que era algo sério, porque como eu tinha alergia à alguns insetos, era normal minha pele ficar marcada por um tempo. E eu não gostava que as pessoas vissem.

— 'Tá', que seja. Ligou pro Josh? — perguntou, arrumando a franja grande (que na minha opinião estava tão comprida que já não podia ser considerada franja) e coçando os olhos sem nenhuma maquiagem, como sempre.

Olhando rapidamente para o resto dos lugares no ônibus (estávamos bem atrás, então conseguíamos ver tudo), percebi que ele estava bem mais vazio que o normal. Na realidade, não vi ninguém que fosse de Blanchaster. Mas ignorei, eu não conhecia tantas pessoas mesmo.

— Liguei. — assenti, vendo que já estávamos nos aproximando do colégio.

Eu consegui fazer muitas coisas antes de entrar naquele ônibus (depois de esperar ele na parada, claro). Primeiro mandei mensagens para o puto do Mish — puto porque não respondeu nenhuma das vinte mensagens, vale ressaltar.

Depois falei rapidamente com meu pai, que eu sabia que estava acordado naquela hora porque ele praticamente "acordava com as galinhas" — não de verdade, ele não morava em uma fazenda, mas gostava de acordar super cedo para correr.

Totalmente diferente das irmãs sedentárias.

Por último liguei para Josh. Foi uma rápida ligação, não falamos muito, mas ele disse que "estava me esperando". Não entendi muito bem, já que falei com Jennifer sobre aquilo apenas naquela manhã, e Lori não me falou sobre ter dito algo a ele antes de mim. Na realidade, eu nem sabia em que sentido deveria levar o fato de que ele "estava me esperando". Se estivéssemos em um filme de terror, eu definitivamente ficaria aterrorizada.

— Você. Tem. Que. Estar. Zoando. — Jennifer falou pausadamente, olhando para o porteiro alto que estava por ali sempre apenas nos sábados.

— Não estou. — ele respondeu, sem perceber que ela tinha dito aquilo meio que para si mesma, retoricamente.

Suspirei profundamente, colocando-me ao lado de Jennifer. Eu estava bem mais calma que ela, o que era óbvio. Nós estávamos paradas no gramado da entrada de Blanchaster, olhando para aquele homem que tinha dito que não haveria aula naquele dia.

Jennifer era esforçada nos estudos, então fiquei meio surpresa ao saber que ela não sabia que não haveria aula. Também era óbvio que não se tratava de uma brincadeira do porteiro (eu o chamava de porteiro, mas não sabia o que ele era de verdade, apenas sabia que ficava olhando os alunos entrarem e saírem nos finais de semana. Talvez o trabalho dele fosse não deixar nenhum aluno fugir de uma detenção em um sábado de manhã ou manter a grama verde, sei lá), porque o colégio estava praticamente vazio.

No ônibus eu não tinha visto nenhum aluno de Blanchaster. Naquele momento tudo ficou claro. Realmente não haveria aula, e nós éramos talvez as únicas idiotas que não sabiam daquilo.

— Por que não haverá aula? — perguntei, antes que Jennifer resolvesse matar o talvez-porteiro inocente.

No fundo eu estava pulando de alegria, porque não teria que aguentar uma segunda-feira estudando. Eu simplesmente odiava segunda-feira. Algumas pessoas gostavam por ser "uma chance de começar uma semana diferente", "dia de recomeçar" ou sei lá, mas para mim era a mesma merda de sempre.

Além de que naquele dia em especial eu estava com mais olheiras que o normal, e a vontade de viver estava lá no pé. E, claro, no fundo eu estava com meu habitual drama eu-odeio-acordar-cedo-e-odeio-minha-vida-porque-preciso-acordar-cedo.

— Coisas dos alunos mais novos. Sabe como é. — ele respondeu como se fosse algo meio insignificante.

Franzi a testa. Alunos mais novos?

— Os alunos do primeiro ano? — perguntei, enquanto via pelo canto do olho Jennifer se afastar com o celular no ouvido. — Porque eu sou do primeiro ano e não estou sabendo de nada disso.

O homem negou com a cabeça, passando uma das mãos pelos cabelos escuros e em corte militar. Diferente da maioria das pessoas que eu conhecia e que trabalhavam em escolas, ele não parecia estar insatisfeito com seu trabalho. Na realidade, ele era todo sorrisos. Pelo amor de Deus, como ele conseguia sorrir daquele jeito em uma segunda-feira de manhã?!

— Não, os mais novos mesmo. — respondeu.

— Há alunos mais novos aqui?

— Claro! — ele apontou para Blanchaster. — Achou que esse colégio era apenas para o ensino médio?

Sinceramente, sim! eu pensei, mas apenas assenti.

E então o talvez-porteiro — que descobri se chamar Bruce — me contou várias coisas sobre Blanchaster. Ele falou que o colégio não era apenas para os adolescentes do ensino médio, e sim também para os menores (que no Brasil nós chamávamos de "nono ano pra baixo" e "sexto ano pra baixo"), no caso, pra mim, ensino fundamental I e II. Disse que era normal eu, sendo novata, não saber daquilo, já que Blanchaster possuía muitos alunos e os mais novos saíam mais cedo que os outros.

Apenas depois de toda aquela explicação (que foi com certeza mais útil que qualquer panfleto), eu percebi que o colégio era muito grande, como se fossem três prédios em um só. O que realmente era.

Bruce estava me falando sobre como era trabalhar ali, quando Jennifer voltou sabe-se lá de onde e interrompeu a conversa.

— Temos que ir. — ela disse, meio afobada.

— Tchau, Bruce! — sorri e acenei para meu mais novo amigo (que eu apenas veria se pegasse uma detenção ou fosse fazer qualquer outra coisa no colégio aos sábados), sendo puxada por Jennifer pelo gramado.

Quando já estávamos quase na pista, ela parou e colocou os óculos de sol no rosto.

— Seguinte, eu vou pra casa da Cohan. Vamos assistir uma maratona de Grey's Anatomy. Vai ser incrível! Sério. Sabia que a Arizo... — começou, mas parou quando viu meu olhar mortal. — Tudo bem, depois falamos sobre isso. — sussurrei um "não tenho escolha mesmo", que ela fez o favor de ignorar. Tive vontade de rir, porque sempre tínhamos aqueles momentos, mas fiquei em silêncio e deixei que Jen continuasse. — O fato é que mamãe está dormindo, então não tem nada pronto pra gente comer, e eu tenho preguiça até de respirar — verdade. —, então não vamos pra casa.

— Tudo bem. — assenti um pouco. — Vou pra casa da Cohan também?

— Não.

— Vou ficar aqui?

— Não.

— Você vai me largar no meio do mato?

— Tentador, porém não. Falei com o Josh e ele está te esperando na casa dele.

Assenti, batendo continência de brincadeira e fazendo-a rir, pegando meu braço e me levando até o ponto de ônibus.

Ficamos esperando um ônibus que me levasse para perto da casa de Josh — que Jennifer me explicou onde era — aparecer, e quando ele chegou, ela me deu mais dinheiro para as passagens de ida e volta, me esperou entrar no ônibus e se perdeu da minha vista quando o transporte virou na primeira esquina.

Sentei no fundo e comecei a pensar em algumas coisas, enquanto olhava para nada em especial.

Antes de irmos parar nos Estados Unidos, eu e Jennifer obviamente falávamos em português uma com a outra. Depois que chegamos aos EUA, nos falávamos em inglês até mesmo quando estávamos sozinhas.

Cheguei a conclusão de que o que eu achava que era impossível de acontecer, estava acontecendo. Eu estava me acostumando a morar ali.

E eu acho que sorri comigo mesma.

Fiquei olhando atentamente pela janela do ônibus, esperando chegar ao ponto que Jennifer me avisou e descer, mas meu celular apitou — nova mensagem recebida —, e desfiz minha concentração para pegá-lo e ver quem tinha falado comigo.

Franzi um pouco a testa quando vi que a mensagem foi enviada por um número desconhecido, mas desbloqueei a tela e li do mesmo jeito.

Bom dia, farm girl! ;)

Prendi uma gargalhada — sem um motivo aparente —, mesmo que estivesse surpresa. Claro que eu sabia quem era, mas como diabos ele tinha conseguido meu número?!

Ele mandou uma mensagem. Jesus, ele me mandou uma mensagem! Era um bom sinal, certo? Principalmente depois de termos ficado. Certo?

Pensei em não responder tão rápido, para tentar fingir que estava fazendo algo importante ou estava desinteressada, mas me fazer de difícil nunca foi meu forte. Então, a resposta foi digitada e enviada rapidamente:

Como você conseguiu meu número?

Olhei algumas vezes para o lado de fora do ônibus, prestando atenção para não acabar passando do ponto em que desceria. O celular apitou mais uma vez nas minhas mãos, fazendo-me voltar a atenção para o aparelho.

Tenho meus contatos.

Ri um pouco daquele idiota bancando o agente secreto, sem me preocupar em salvar seu número naquele momento. Na realidade, toda minha atenção estava sendo colocada no fato de que eu estava conversando com ele, e um sorriso idiota com certeza estava estampado na minha cara.

Por que acordado tão cedo?

Eu o tinha respondido duas vezes em menos de dez minutos, e as duas respostas na realidade tinham sido perguntas, mas tudo bem. Eu tinha certa fama de responder as pessoas com perguntas. A resposta dele demorou um pouco, mas chegou. Achei que Victor poderia estar ocupado ou sei lá, mas percebi que tinha demorado porque sua resposta foi mais que apenas uma frase:

Acordo cedo quando não tô de ressaca, haha. Deixe-me adivinhar o que você está fazendo acordada. Foi estúpida o suficiente para ir ao colégio, já que não sabia que não ia rolar aula, certo? Que previsível, Rocha!

Idiota! pensei.

Novamente eu ri um pouco, graças ao meu pensamento. Tentei sentir raiva dele, porque talvez ele soubesse que eu não sabia que não haveria aula (trava língua) — logo, ele não tinha me avisado no dia anterior de propósito —, mas não consegui me irritar como normalmente acontecia quando se tratava dele e de suas típicas bobagens.

Eu estava sorrindo na manhã de uma segunda-feira. Histórico.

Claro que não, Stonem. Acordo cedo também!

Menti porque não queria dar o gostinho de vitória pra ele, já que provavelmente gargalharia da minha cara se soubesse que eu realmente tinha ido ao colégio.

Olhei para a janela do ônibus, tocando de leve o pingente de âncora que descansava em meu pescoço. Eu gostava bastante dele.

Passava o dia inteiro com aquele colar, dormia com ele e até tomava banho sem tirá-lo — eu nem percebia na hora. Quando Victor saía da minha cabeça (incontrolavelmente, ele ficava muito tempo nela), o colar fazia com que ele voltasse para os meus pensamentos, assim como nosso domingo juntos — quando o ganhei.

O Victor ou o colar?

Ergui as sobrancelhas, que merda eu estava pensando?

O colar, sua anta. Para de pensar besteira. Você não ganharia um garoto daqueles nem se ele fosse o prêmio no bingo e você tivesse os números certos.

Eu não estava pensando aquilo porque achava que Victor era o cara mais gostoso do mundo, até porque eu não achava (tinha uma longa lista dos meus crushs famosos), mas era só que parecia impossível alguém “ganhá-lo”. Eu não conseguia imaginar.

Bingo? Eu nem jogo bingo! Por que parece que às vezes meu corpo fica fora da minha mente? Argh.

Percebi que já estava me aproximando da casa de Josh, segundo Jennifer e suas instruções. Victor respondeu uns dois minutos depois.

Sei. O inevitável aconteceu! Estou entediado, então decidi encher seu saco e tornar seu dia mais interessante.

Ele estava falando sério? Ri alto, chamando atenção no ônibus que antes estava meio silencioso — com pessoas conversando baixo, tirando uma soneca ou ouvindo música.

Fiquei envergonhada e sorri um pouco para os que me encaravam, já que eu era a idiota que estava rindo sozinha de jeito idiota, com um sorriso idiota na cara e conversando com um perfeito idiota.

Percebi que tinha chegado ao ponto em que deveria descer, então dei um pulo e sai correndo para a saída, sorrindo um pouco para o motorista e saindo do ônibus, vendo-o partir.

Ainda com o celular em mãos, respondi Victor uma última vez:

Seria uma pena se eu desligasse o celular ;) xx

Eu não sabia se corria risco de ser assaltada, porque não tinha a mínima noção se Chordwall era uma cidade perigosa, mas resolvi não arriscar. Eu poderia simplesmente guardar meu celular na mochila, mas talvez Victor realmente ficasse me enchendo o saco (não que eu me importasse muito em tê-lo me enchendo o saco, na verdade algo dentro de mim se alegrava com a possibilidade), e eu não queria que meu celular ficasse apitando no meio da rua — eu não queria chamar atenção de possíveis ladrões, não é mesmo? Se bem que eu achava que os ladrões não iriam estar acordados em uma segunda de manhã, porque até eles talvez tivessem bom senso, mas vai saber!

Entre colocar o celular no silencioso ou desligar eu preferi desligar, porque a bateria acabava rápido e não estava tão longe daquilo acontecer. O guardei no bolso lateral da mochila.

Suspirei um pouco, olhei para aquela enorme bola brilhante e amarela no céu (vulgo sol), resmunguei algo sobre estar muito quente e segui para o meu destino.

No caso, a casa de Josh.

Parei em frente àquela casa verde aparentemente grande e de dois andares, com cerca branca ao redor e tudo. Eu até ficaria admirando e capturando os detalhes da casa, mas estava quase derretendo no asfalto.

Senti uma gota de suor descer por minhas costas, xinguei novamente o caralho do sol quente e finalmente dei alguns passos em direção a porta de madeira escura, apertando duas vezes a campainha que estava ao lado.

Enquanto esperava alguém abrir a porta, arrumei a mochila em meus ombros e prendi de modo mais firme meu cabelo.

Ninguém apareceu, e antes que eu pudesse decidir entre tocar a campainha novamente ou ir embora de vez, ouvi uma voz conhecida.

— PODE ENTRAR! — com certeza era Josh berrando de algum lugar da casa, claramente longe da sala.

— 'TÔ' ENTRANDO! — gritei de volta, para ele saber que era eu, por mais que ele provavelmente já desconfiasse.

Ainda bem que ninguém estava na rua, porque provavelmente me achariam louca. Girei a maçaneta rapidamente, entrando na casa e fechando a porta atrás de mim. A casa era realmente grande, mas nada exagerado.

— PODE SUBIR! — ele gritou novamente, e percebi que sua voz vinha de algum lugar do segundo andar, talvez (bem provável) seu quarto.

Enquanto eu caminhava em direção a uma escada de madeira que estava perto da porta, prestei atenção em alguns detalhes da sala. Os móveis possuíam aparência antiga, mas nada desgastado, e também nada estava bagunçado, então claramente a família de Josh era organizada.

Pude ver apenas um corredor, que era aparentemente longo, ao lado contrário da escada.

Olhei para uma bancada, que estava ao lado de duas mesinhas, e todo aquele local estava repleto de porta-retratos. Reconheci Josh mais novo em várias fotos, quase sempre acompanhado de um homem que eu não conseguia enxergar direito para ver se era parecido com ele.

Não havia uma mulher em nenhuma das fotos. A decoração da casa era bonita, com cores alegres, porém discretas e simples. Eu diria que uma mulher era a responsável, mas a mãe de Josh não estava em nenhuma das fotos, então com certeza ela não tinha decorado. Ou Josh e seu pai tinham contratado uma decoradora, ou... eu não fazia ideia.

A mãe morreu ou foi embora... mas não tem nenhuma foto. Por que não tem nenhuma foto? Se ela morreu, deveria ter. A menos que eles não queiram lembrar dela.

Pensei enquanto subia os degraus lentamente, por estar com preguiça e refletindo na resposta daquela questão. Eu não sabia o que tinha acontecido com a mãe dele, se tinha mesmo morrido ou partido, e eu sabia que a dedução não me responderia aquilo facilmente.

Não que eu estivesse investigando a vida do meu talvez-futuro-conselheiro-amoroso. Eu simplesmente era curiosa naturalmente, e às vezes minha mente fazia o que queria. Além de que eu gostava de observar as coisas.

Meus amigos me consideravam muito esperta por saber deduzir, mas eu nunca entendi o motivo.

Era fácil, qualquer um podia fazer. Mas, claro, dedução nunca era, e nem seria, cem por cento confiável. Nem mesmo para o próprio Sherlock Holmes, meu ídolo.

— Estou subindo. — avisei quando já tinha chegado ao topo da escada, virando um corredor e vendo algumas portas.

Não foi muito difícil achar e seguir até a porta em que Josh estava, pois era a única entreaberta e com a luz acesa — além de ter uns enfeites que me chamaram atenção.

Empurrei um pouco a porta do quarto, esperando ver qualquer coisa, menos o que eu vi.

Sim, Josh estava lá. Mas definitivamente não como eu imaginei estar.

Minha primeira reação foi tossir algumas vezes, já que o quarto estava com alguns incensos, a maioria direcionados para a porta, no caso, para mim.

Minha segunda reação foi tentar entender o que diabos estava acontecendo ali.

O garoto magro e de pele clara estava sentado numa grande cama de casal, com os olhos fechados e vestido completamente de branco. Um turbante — branco, claro — estava em sua cabeça, e Josh estava em uma posição de meditação. Na realidade, ele realmente parecia estar meditando.

Não me preocupei em olhar o quarto dele por curiosidade, pois eu ainda estava tentando entender o que porra estava acontecendo. Josh então abriu os olhos, sorrindo de lado ao me ver, desfazendo aquela posição e pegando o celular ao seu lado na cama. Ele parecia completamente normal, como se não estivesse parecendo um Pai de Santo. Naquele momento, a única coisa em que consegui pensar foi na encrenca que Jennifer e Lori tinham me metido.

— Por que está parada como uma retardada aí? — Josh digitou algumas coisas no celular, colocando-o de lado e olhando-me com a testa franzida.

Resolvi não responder aquilo, então apenas tirei minha mochila e coloquei delicadamente no chão, indo até ele, sussurrando um educado "com licença" e sentando-me na ponta da cama.

— Por que essa educação toda, criatura? — ele riu um pouco. — Não precisa disso. Pode comer farofa aí que eu não vou reclamar. Só não suje o tapete, claro. Por que 'tá' me olhando como se eu tivesse dito que como carne humana no jantar?

Mesmo que a situação fosse completamente estranha, eu ri pelo nariz e neguei algumas vezes com a cabeça.

— É que você está estranho. — respondi sinceramente, afinal, nós não éramos desconhecidos. — Com esse troço na cabeça, a meditação, os incensos e tal.

— Hoje é o dia da purificação da alma. — respondeu, fazendo aquele gesto com as mãos que os chineses faziam. Ou seriam os monges? Talvez japoneses... — E também porque sua situação pareceu crítica por celular. — deu de ombros.

Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas fingi entender e assenti.

— Purificação da alma. Claro.

— Você não faz a mínima ideia do que é isso.

— Exatamente.

Josh riu, e não consegui não acompanhá-lo.

— É basicamente o dia em que eu esqueço todos os meus problemas e mantenho minha mente vazia de conflitos... como se eu coloco gel no meu cabelo ou não. — deu de ombros novamente e eu assenti, entendendo (não muito). — Mas vamos focar em você... — abriu um sorriso malicioso e suspeito.

— Que com certeza tem muitas coisas interessantes para me contar, se espera minha ajuda.

Suspirei profundamente, coçando um pouco a nuca e me aproximando mais dele. O que eu exatamente contaria a ele? Eu gostava de Josh, e sabia que ele era confiável, mas precisava conhecê-lo um pouco melhor antes de sair falando o que quer que fosse.

— Me fala um pouco sobre você antes. — pedi.

— Agradeço o interesse, mas preciso lembrar que não darei meu perfil tão facilmente, pois você pode se apaixonar, e se apaixonar por um gay é pior que ser gorda e usar biquíni fio dental.

Parei, olhando-o com as sobrancelhas erguidas, e no segundo seguinte nós dois estávamos rindo. Eu ria mais que ele, já que parecia que aqueles comentários eram naturais para Josh.

— Quer saber o que pode me dizer, certo? — chutou ele, mas não falei nada, apenas assenti. — Tudo bem, tudo bem! Josh, dezessete anos, obrigado, de nada. Solteiro sim, sozinho nunca. Moro com meu pai, minha mãe fugiu com um dono de bar quando eu era uma criança. Não precisa lamentar, já superei. — fez um gesto de insignificância com a mão. Ela foi embora! Eu sabia! — Sou a melhor pessoa que você vai encontrar na sua vida e curto garotos. Gosto de bundas grandes. Daquelas que dá pra apertar, sabe? E gosto também de chup...

— OKAY! CHEGA! ENTENDI! — cortei antes que ele continuasse, prendendo uma risada. — Não precisa aprofundar nessa parte.

— Bem, é isso. Sou gay, mas não espere me ver usando maquiagem e me vestindo como mulher. Não sei fazer coreografias, não leio revista de fofocas e, por Deus, não uso gola V até o umbigo.

Sorri, assentindo algumas vezes e gostando do resumo de si mesmo que ele fez. Eu não sabia falar sobre mim, na maioria das vezes.

— Você é mais discreto, então. — falei, lembrando que já tinha reparado aquilo.

— E com mais classe, por favor. — disse, empinando o nariz, e novamente rimos juntos. — Agora que você já tem certeza que sou a melhor pessoa que você encontrou na sua vida, e já está se apaixonando por mim, pode começar a falar.

— Posso mesmo confiar em você?

— Sua vida com certeza não é interessante o suficiente para me fazer sair contando pra todo mundo... — por mais que não estivesse rindo, percebi que Josh não estava falando sério. — Então, sim. Manda ver, bitch!

— Você está usando um turbante, Josh. Não tem como te levar a sério.

— Ah, claro. — ele demorou um pouco, mas conseguiu tirar o turbante, deixando seu cabelo bagunçado e castanho exposto. — Pronto. Manda ver, bitch!

— Bom, o Victor é...

— Antes de tudo! — ele me cortou, fazendo-me franzir a testa. — Queria entender o porquê de todos tratarem Victor Stonem como se ele fosse o Ian Somerhalder com olhos escuros e versão colegial!

Ergui a mão, como se estivesse em uma sala de aula.

— Os gays não idolatram o Brad Pitt?

— Não me compare com os outros gays! — levou uma mão ao coração, dramático e pomposo, claramente brincando. Prendi uma risada. — Me ofendeu, mas tudo bem. Você gosta dele, isso você já me contou por celular quando se trancou no guarda-roupa pra Jennifer não ouvir. — fez uma pausa curta. — AGARRA ELE DE UMA VEZ! E NÃO LARGA MAIS!

Levei um susto com o berro que Josh deu, mas consegui não cair da cama.

— Não!

— O que você tem a perder?

— MINHA DIGNIDADE?!

Josh parou, parecendo ponderar.

— Nossa. Imaginei outra coisa também com "dade" no final. — deu de ombros.

Não entendi o que ele quis dizer.

Outra palavra parecida com dignidade?! Honestidade... igualdade... caridade... lealdade... virg... ah, meu Deus!

— Tudo bem. Comece a história sobre o pênis-de-ouro. Quero dizer, Victor Stonem.

Ri um pouco, meio constrangida, para logo após suspirar. Eu não sabia por onde começar, mas resolvi começar do início de tudo. O real início.

Sem esperar mais nada, comecei a contar tudo sobre Victor e eu. Contei sobre como nos conhecemos, sobre a enfermaria, a festa de Booker, o teste para cheerleader, a corrida, o selinho, o dia seguinte ao selinho, o dia em que ele me viu de calcinha e sutiã, o desfile, o sonho, o motel, a briga, o piquenique e todo o resto. Não escondi nada, mas também não falei sobre mais ninguém, apenas Victor e eu. Falei sobre as provocações, e, principalmente, sobre meus sentimentos — que ainda não estavam muito bem definidos. Achei que sentiria vergonha por contar tudo aquilo a Josh, mas não senti. Eu me senti bem, Josh era um ótimo ouvinte, sem julgamentos, e me fazia sentir confortável.

Apenas quando falei tudo que estava guardado em mim, percebi como estava sufocada antes, e gostei do jeito que me senti leve. Mas a cada palavra dita, a cada menção do nome, eu me lembrava dele e meu coração ia se apertando aos poucos. Assim como minha garganta trincou quando citei rapidamente a infeliz confusão no desfile. Josh não gostou de quando falei que perdoei Juliet naquela mesma noite, mas lhe expliquei que eu não conseguia ser rancorosa, e tinha um coração de manteiga. Ele pareceu entender.

Quando falei sobre o beijo senti meus lábios formigarem um pouco, assim como todo meu corpo, apenas por lembrar daqueles lábios macios e do toque das mãos de Victor em mim. Quando falei sobre a semelhança de Cam e Victor — também expliquei brevemente quem era Cam —, sorri.

Quando falei sobre o ataque na corrida, tive certa vontade de chorar. Eu não estava traumatizada ou algo do tipo, mas simplesmente não gostava de lembrar daquilo. Ninguém gostaria.

Acabei até falando sobre o que eu sentia fisicamente, sobre como meu corpo agia quase por si próprio quando se tratava de Victor e como eu tinha pensamentos nada inocentes. No momento em que falei daquela parte me senti envergonhada e acabei me enrolando um pouco, mas Josh entendeu muito bem, e até me incentivou a continuar contando sem medo.

Claro que tinham coisas que eu não soube definir, então o uso do “sei lá” foi constante.

Eu já falava demais naturalmente, então estava quase sentindo pena de Josh por ter que me ouvir.

Talvez as pessoas me considerassem louca por estar falando sobre tudo aquilo para Josh, que eu não conhecia muito bem, mas ele me passava confiança, além de segurança. Eu também sabia que Jennifer nunca seria amiga de alguém que não fosse confiável.

Troquei de posição várias vezes, fiz algumas pausas para Josh verificar rapidamente o celular quando o aparelho bipava e fiquei uns minutos em silêncio enquanto ele falava com o pai por telefone, mas consegui contar toda a (longa) história.

Eu não soube direito quanto tempo passei falando sobre tudo e Josh apenas ouvindo, mas quando finalmente acabei, senti minha garganta praticamente queimando. Quando estava quase acabando, pedi a Josh para não contar nada daquilo a ninguém, principalmente Jennifer, e ele concordou.

Dei um sorrisinho meio sem graça por ter falado tanto, e deixei que ele dissesse algo. Mas não imaginei que seria o que ouvi.

— ESTÁ FÁCIL DEMAIS! — gritou, ficando de pé na cama e encarando meu rosto que estava confuso/surpreso/chocado. — MEU DEUS, ESTÁ TUDO ERRADO!

— O quê?! Do que você está falando? — me afastei um pouco, já que estava meio assustada, mas Josh não pareceu perceber.

— VOCÊ! Você, Geo! Está muito fácil! — suspirou, pulando da cama diretamente para o chão. — Você está praticamente comendo na mão dele. Você o provoca e é petulante com palavras, mas nas atitudes não! Você o deixa no comando sem nem perceber. Na realidade, você percebe, mas acha que não pode mudar isso.

Franzi a testa, tentando seguir o raciocínio de Josh — que me olhava como se tudo fosse extremamente óbvio.

— Como assim?

— Simples. Você se mostra uma garota foda em palavras, que rebate tudo que ele diz, debocha e provoca. Mas nas atitudes, você esquece do próprio poder e ele acaba fazendo o que quer contigo, pois até ele já percebeu a influência que tem em você. Ele sabe que você não consegue resistir! — ele começou a andar de um lado para o outro, mas ainda me olhava. — Eu não te culpo. Você gosta dele, é normal ficar vulnerável quando ele está por perto. Mas o espertinho se aproveita disso! — se aproximou subitamente de mim, me fazendo levar um susto. Josh se ajoelhou no chão, ficando em minha frente e me fitando com um sorriso vitorioso, como se tivesse resolvido o maior mistério do mundo. — Você tem que fazer o mesmo.

Franzi a testa, confusa.

— Mas ele não gosta de mim, Josh. Como eu poderia fazer o que ele faz comigo? Eu nem tenho tanto poder sobre ele!

— Não, Geo, você tem! Não sabemos se ele gosta de você. Ainda. — frisou o "ainda", erguendo um dedo — Mas ele quer você. Ele se sente atraído por você. Pelo amor de Deus, ele flerta contigo, ele provoca, ele te beija! Ele não faria nada disso se não te quisesse. Esse é o problema das garotas que são ao menos um pouco inseguras. — Josh suspirou, olhando-me com atenção. — Sofrem do complexo de "isso nunca vai acontecer comigo", mas esquecem que qualquer coisa pode acontecer, qualquer momento, com qualquer um, então ignoram o que está acontecendo e bem na cara delas. Mas... — sorriu marotamente, tocando a ponta do meu nariz com o indicador. — Uma garota assim sempre precisa de alguém para fazê-la abrir os olhos, por mais que demore. O incrível é que sempre é o gay clichê da história que só apareceu uma vez na vida, mas eu sou mais importante que isso.

Fiquei parada olhando para aqueles olhos castanhos, pensando em tudo que o dono deles tinha (não literalmente) cuspido na minha cara. Não precisei pensar muito para decidir que Josh estava certo quando disse que Victor se aproveitava do poder que tinha sobre mim, e que gostava de me ver vulnerável, assim como a parte da insegurança. Talvez ele estivesse certo também sobre o meu poder sobre Victor.

Meus sentimentos por ele eram maiores que a atração dele por mim, eu sabia, mas para alguém como ele, atração era obviamente algo muito importante. Se ele não se sentisse atraído por mim, não teria feito metade das coisas que fez.

Então lembrei de quando estávamos brigando, que ele disse que eu era — muito — atraente. Lembrei de quando fingi que ia beijá-lo no parque, do modo como ele ficou confuso e meio perdido, como se não acreditasse que eu tinha o provocado de verdade, como ele fazia comigo. Ele ficou do mesmo jeito quando virei o rosto no carro, impedindo-o de me beijar novamente — mesmo que ali as coisas tivessem sido diferentes. Ele também disse a Booker tudo aquilo sobre mim.

Josh estava certo. Puta merda, ele estava completamente certo!

Praticamente pulei da cama, fazendo-o levantar de súbito, me encarando.

Abri talvez o sorriso mais largo do mundo, e comecei a andar de um lado para o outro, como ele fez antes.

— Victor Stonem tem todas as garotas que quer. Ao menos ele acha que tem. Ele provoca, faz jogos, faz de tudo para que as mais difíceis se entreguem e as mais fáceis implorem por mais, ele sabe como fazê-las se entregar! — comecei um discurso e olhei para Josh, finalmente seguindo seu raciocínio.

— Sim, sim!

— Mas as garotas não fazem isso com ele! Elas não provocam como ele faz, porque estão ocupadas demais caidinhas por ele! Bem, como eu, mas vamos esquecer essa parte. — agarrei Josh pelos ombros, vendo-o responder um "okay, esquecemos". — Ele sabe que nenhuma se atreveria a jogar o jogo dele, porque convenhamos que ele é praticamente um deus do sexo irresistível e...

— Deus do sexo?! De onde você tirou isso? — franziu a testa, prendendo uma gargalhada.

— FOCO! — o sacudi um pouco. — Eu te disse que no parque eu quase o beijei, apenas para ver a reação dele, e ele ficou completamente confuso e perdido. E no carro também, quando foi me deixar em casa. E na conversa com Booker no celular. Ele não acreditou que fiz aquilo, Josh! Ele não acreditou porque nenhuma garota fez antes, ou simplesmente porque não acreditou que eu fosse capaz de fazer!

Josh tirou minhas mãos dos seus ombros, agarrando os meus e sorrindo de um jeito quase maníaco. Acho que eu sorria do mesmo jeito.

— EXATAMENTE! — exclamou, dando um pulo. — Isso mesmo, bitch! Você vai mudar tudo isso, Geo! Você pode fazer isso. Você vai jogar o jogo do Victor, vai fazê-lo ver que você não é como as vadiazinhas dele, vai fazê-lo provar do próprio veneno.

Josh me puxou pelo braço, sem força, até um espelho que estava em uma das portas do seu guarda-roupa. Pude ver nós dois ali, de corpo todo, ele atrás de mim.

— Olha pra você, Geovana. — ele disse calmamente, em contraste com a euforia de antes. Levou a mão para o elástico em meus cabelos, puxando-o e soltando-os. — Você é muito bonita, e olha que eu sou gay! — ri um pouco naquele momento, envergonhada e agradecida. — Você gosta mesmo dele, Geo. Eu sei disso. Nós vamos fazer isso, e ele irá ver que você não é como as outras. Esquece os princípios e a história de dignidade, você precisa correr riscos! O que me diz?

Virei, olhando para aquele garoto que se mostrou alguém incrível em apenas poucas horas — em que eu falei mais que ele, vale constar.

— Eu... — o que eu tenho a perder? — Estou dentro. — decidi, fazendo-o sorrir. — Mas e se só piorar tudo?

— Você gosta daquele garoto. Não tem como ficar pior. — ri de sua fala e do modo como frisou o "daquele", e ele me acompanhou. — Lembre-se, não iremos mudar você fisicamente ou na personalidade, até porque não vou gastar meu dinheiro comprando roupas novas pra você... — gargalhamos juntos, até que ele continuou: — Você apenas terá mais atitude e atrevimento. O propósito é fazê-lo ver que você é diferente e que ele não é o único fodão, mas eu realmente acho que ele vai desenvolver sentimentos por você. Isso nós iremos ver.

Assenti um pouco. Josh e Jennifer tinham mesmo que ser amigos, pois parecia que quase sempre estavam certos nas coisas que diziam.

— E se der merda e ele me magoar? — não pude deixar de notar que estava parecendo uma criancinha fazendo aquelas perguntas, mas ele não pareceu se importar.

— Já percebi que você tem amigos... — começou, fazendo-me assentir novamente, meio confusa. — A galera toda se junta e ele será assassinado. Pode me incluir nisso!

Ri pelo nariz, gostando da resposta dele. Não que fossem matar Victor de verdade, claro que não, mas era bom saber que não estava sozinha. Aproveitei o momento, decidida a fazer uma última pergunta:

— E o que vai acontecer, Josh? Vou fazer isso, mas e depois? Mesmo se ele ver que não sou como as outras e desenvolver ou não sentimentos por mim, o que acontece depois?

O sorriso de Josh se tornou mais largo, e ele tocou meus ombros delicadamente, olhando-me de modo terno.

— Você vai desconstruir Victor Stonem de uma forma boa. E tem até o fim do ano pra fazer isso.

Onze da manhã. Eu ainda estava na casa de Josh, porém tinhamos comido algumas coisas e eu tinha me livrado dos meus sapatos, então me sentia em casa jogada naquela cama confortável.

Eu e Josh conversamos muito depois que tivemos a ideia de jogar o jogo de Victor, e até colocamos um nome em nossa "missão". "Operação Desconstruindo Victor", foi ideia do Josh, que eu até gostei. Ele esclareceu novamente que eu não passaria por uma transformação ou algo do tipo, continuaria sendo eu mesma, só mudaria algumas atitudes com Victor, apenas em algumas coisas. Porque eu e ele duvidávamos que eu fosse conseguir tratar Stonem do jeito que Josh queria em tudo, já que eu infelizmente gostava do idiota.

O garoto se sentou na cama, depois de colocar na cômoda os pacotes de biscoitos vazios, que comemos por último. Também me sentei, ficando na frente dele.

— Iremos começar realmente a Operação Desconstruindo Victor essa semana, veremos quando, mas hoje daremos o primeiro passo. Lembre-se, me mantenha atualizado de tudo! — começou ele, pegando minha mochila que estava no chão e jogando-a na cama, sentando-se novamente.

— Certo. E qual é o primeiro passo? — perguntei, curiosa.

— Falaremos com ele por celular. Bem, você falará. Você me disse que trocaram mensagens hoje, certo?

— Sim. — assenti prontamente. Josh procurou meu celular nos bolsos da bolsa, até finalmente achá-lo e ligá-lo. — E ele disse que encheria meu saco. — acrescentei e ele assentiu lentamente, esperando meu celular ligar.

A tela se abriu, mostrando que a senha precisava ser digitada.

— Coloca a senha. — pediu, entregando-me o aparelho.

Digitei rapidamente a sequência de números da minha mais nova senha (tinha mudado porque Jennifer era melhor que o FBI), dando meu celular a Josh novamente.

— Acho que ele estava brincando quando disse que encheria meu s...

— PUTA QUE PARIU! — ele gritou, arregalando os olhos para a tela do celular. Ele ergueu o olhar, vendo minha cara super questionadora, e até meio assustada. — Você tem 40 ligações perdidas.

Arregalei os olhos também, puxando o celular da mão dele, sendo tomada pelo quase-desespero ao pensar que poderia ser minha mãe. Mas, bem, não era.

— É ele. — falei, completamente pasma. — É o número dele.

— É... acho que ele não estava brincando. — Josh disse simplesmente, rindo da minha expressão chocada e pegando o celular da minha mão, colocando-o entre nós dois na cama. Provavelmente prevendo que eu não estava em condições de perguntar algo, ele continuou: — As últimas ligações são recentes, então tenho certeza que ele vai te ligar. Aí poderemos colocar em prática.

— Depois de 40 ligações perdidas, até eu tenho tenho certeza disso! — soltei, fazendo-o cair na gargalhada, provavelmente porque eu estava com uma cara de bunda.

Comecei a rir um pouco, me recuperando do choque, então o acompanhei na gargalhadas. Provavelmente nós dois ficaríamos rindo juntos por horas, se o toque do meu celular não tivesse interrompido. Nós dois olhamos ao mesmo tempo para o celular, confirmando o que já desconfiávamos. Era ele.

Josh pegou o celular, atendendo a ligação e colocando no viva-voz. Me mandou um olhar significativo. Nós já tínhamos falado sobre como eu deveria agir, então eu sabia mais ou menos o que fazer. Mas claro que ele me ajudaria.

— Alô?

— E aí, farm girl.

Olhei para Josh, que fez um sinal calmo para que eu continuasse, olhando para o celular e colocando-o entre nós dois novamente.

— Por que me ligou? — questionei, fingindo tédio na voz, enrolando uma mecha de cabelo no dedo (como se ele pudesse ver).

— Falei que ia te encher o saco. — Victor respondeu simplesmente. — Está em casa? — perguntou, subitamente interessado.

— Não. — respondi. — Eu... estou na... estou na casa do Josh.

Silêncio. Josh prendeu o riso por algum motivo.

— Josh Harvesty? — Victor questionou depois do estranho silêncio, e pude imaginá-lo perfeitamente com a testa franzida.

— Esse mesmo.

— Hum. Não sabia que eram amigos.

— É algo recente — comecei, prendendo uma risada e a vontade de acrescentar "você nem sabe o quanto". —, mas já somos muito próximos.

— Enfim, passei no Kendal's Juice hoje mais cedo e lembrei de você. O que acha de irmos lá daqui a pouco? — pulou de um assunto para o outro.

Sorri largamente, esquecendo de tudo ao redor por alguns segundos. Sair com ele?! Claro que eu aceitaria! Ainda mais se fôssemos acabar como no dia anterior...

— Sério?! Acho que é fantás... — parei quando vi o olhar reprovador de Josh, que foi o que me trouxe para a terra. Pigarreei um pouco, coçando a nuca.

— É, uh, não vai dar. — fiz uma expressão triste com biquinho e tudo, tentando sensibilizá-lo para poder sair com Victor, mas não funcionou.

— Passo na sua casa às... — fez uma pausa. — Espera, o quê?

Josh parecia que ia explodir a qualquer momento, mas eu sabia que era porque ele queria gargalhar. Naquele momento eu soube o que responder.

— Um amigo do Josh está aqui... — Josh ergueu dois dedos da mão. — Digo, dois. — ele ergueu mais um, rindo baixinho. — Três! São três!

— São quantos, afinal? — Victor parecia confuso, mas até eu estava.
— Três. Definitivamente três. Era um, mas chegaram mais dois.

Olhei para Josh, querendo saber como continuar aquilo. Ele estava pronto para responder, mas Victor foi mais rápido:

— Hum. — era impressão ou ele parecia um pouco irritado? — Vão dançar Lady Gaga e fofocar a tarde toda? — riu, parecendo mais relaxado novamente. — Brincadeirinha.

Josh ergueu o dedo do meio, apontando-o para o celular. Ri e estalei um pouco a língua, trocando olhares maldosos com ele. Victor achava que os supostos amigos de Josh eram gays.

— Victor, eles não são gays. — silêncio do outro lado da linha. — E acho que vamos fazer bem mais que dançar Lady Gaga e fofocar a tarde toda...
— Eles não são...?

— Opa. Eles estão me chamando! Hora do strip poker! Tenho que desligar, foi mal. — fiz um beicinho, o que fez Josh erguer os polegares em aprovação. — Estou indo, meninos!

— Espera! Geo...

— Tchau, Stonem.

Olhei para o celular, prestes a desligar a chamada e declarar meu sucesso no início daquela missão que talvez realmente desse certo, mas Josh bateu de leve na minha mão, impedindo-me de encerrar a chamada.

— Nossa, Geo! — ele fingiu uma voz surpresa, levando uma mão ao coração e tudo, antes que eu pudesse questionar sua ação. — Aquele beijo que você deu no Ashton foi fantástico.

Franzi a testa. Beijo? Ashton? Que porra ele estava falando?!

Quando estava prestes a perguntar se ele estava chapado, Josh apontou para o celular. Vi que a chamada ainda estava ali, então Victor ainda estava do outro lado da linha.

Ele ainda nos escutava.

Então entendi tudo. Meu Deus, Josh era um gênio! Desgraçado esperto! Abri um sorriso cúmplice e malicioso, assentindo, deixando claro que tinha entendido.

— Foi tão gostoso! Meu Deus. — me abanei teatralmente, fazendo-o prender o riso pela centésima vez. — Ele é muuuuuito gostoso. — prolonguei o "u".

— Tem camisinha lá no meu quarto, se precisarem... já sabe.

— Você é incrível!

Ligação encerrada.

Eu e Josh olhamos para o celular, então nos olhamos e simplesmente caímos na gargalhada, deitando juntos na cama dele, rindo sem parar. Rimos por longos minutos, até finalmente nos recuperarmos, ainda deitados.

— Nós somos como Sherlock Holmes e John Watson. — falei, fazendo-o rir e concordar com a cabeça.

— Se prepare, Victor Stonem... — fez suspense. — Você está prestes a ser completamente desconstruído. — trocamos um high five e rimos. Éramos completamente loucos. Ou simplesmente retardados. — Sabe, Geo... — começou Josh. — Eu realmente sinto que vou me divertir com isso tudo, e você também. Vai contra meus princípios estar te ajudando, porque não sou o maior fã do Victor. Essas coisas, você sabe.

Suspirei um pouco, sentando na cama e prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo meio folgado. Aparentemente todos os amigos de Jennifer não eram 'maiores fãs' de Victor, o que eu entendia, e apenas me fez perceber que ele realmente não se importava se eles gostavam dele ou não. Mas estranhamente ele parecia se importar com o que eu pensava sobre ele, e sentia que ele se importava também em saber se eu gostava do que via ou não.

— Na realidade, não sei sobre isso. — falei, vendo Josh deitar melhor de costas na cama, arrumando um travesseiro atrás da cabeça e me olhando com atenção. — Não gosta dele por algum motivo especial que pode ser dito, um que é segredo ou simplesmente segue a onda e não gosta dele? Explica!

Josh riu da última parte, parecendo meio pensativo.

— Não tenho paciência pra quem 'tá' começando. — disse dramático. Prendi o riso. — O motivo pode ser dito. — respondeu, fazendo um leve sorriso aparecer em meus lábios.

Minha mente gritava "YEAH! ISSO! FOFOCA!", e eu queria rir de meus próprios pensamentos.

— Conta.

Ele suspirou um pouco, parecendo decidir por onde começar enquanto brincava com os próprios cabelos.

— Victor não costuma se importar com o que pensam dele, mas se importa muito com a popularidade. Mas quem no ensino médio não se importa, não é?! As coisas aqui são como nos filmes mesmo, mas não saímos cantando por aí. Não, 'pera', isso é Glee. Enfim. O fato é que ele é meio que o rei de Blanchaster, por mais idiota que isso pareça ser, é a verdade. Ele e o grupinho dele, os garotos populares, só são populares porque já comeram muita gente de lá. — fez uma pausa. — E são gostosos, fato. — declarou, como se fosse ruim admitir aquilo.

Franzi a testa um pouco.

— Booker, Johnny e tal? — perguntei, mudando de posição e ficando naquela confortável que parecia que eu ia meditar.

— Exato, só que eu acredito que ele e Johnny não são muito amigos. Só aparecem juntos às vezes porque são do time de futebol. Acontece que o Victor e a Cohan se odeiam desde, bem, sempre. — suspirou um pouco. — História antiga. Nós tínhamos um grupo. Eu, Cohan, Mary, Kaya, Taissa, Hector e mais alguns. Mas acontece que desse grupo acabou saindo um trio. Eu, Cohan e Mary. Agora sua irmã está nesse grupo, aliás, e a safada entrou no nosso ex-trio, agora quarteto! — ele riu.

Jennifer nunca foi a pessoa mais sociável do mundo, mas não era difícil imaginá-la com um grupinho, ou melhor, um trio. Quarteto, sei lá. Ri um pouco e fiz sinal para que Josh continuasse.

— Nós nos tornamos tão populares quanto o grupo de Victor, quando a Jen ainda não tinha aparecido. Enquanto Stonem e sua "gangue" — fez aspas no ar — eram populares por serem cafajestes e essas coisas, nós éramos por sermos legais com todos, divertidos e também porque protegíamos os mais fracos, por assim dizer. Impedíamos os idiotas de fazerem merdas com as pessoas que não sabiam se defender. E isso é até hoje. Não discriminamos ninguém. Qualquer um pode falar conosco no corredor. Nós temos poder, mas somos bons, entende? Tipo uma versão branca, adolescente, louca e viva do Nelson Mandela. Não, acho que essa não foi uma comparação muito boa, mas tanto faz. Enfim, nunca se perguntou como eu sou gay e não sofro nenhum preconceito lá?

Sim, eu já tinha me perguntado aquilo.

— Era uma dúvida minha. — confessei, vendo-o assentir, como se já esperasse.

— É por isso. Isso me faz ser respeitado, me fez ter confiança. Toda essa merda parece besteira, mas o ensino médio em Blanchaster é uma cadeia alimentar, Geo. O fato é que os dois grupos não se gostam. Cohan e Victor se odeiam, mas eu não odeio ele, Mary também não. Porém também não gostamos, e precisamos escolher um lado, então ficamos obviamente com a Cohan. E, fala sério, ele é um idiota. — suspirou, como se pensasse em como continuar. — E tem o Yv, que é um amor e está nos dois grupos. O que deixa tudo pior, porque Victor acusa Cohan de ter roubado ele dele e blá blá blá.

— Nossa. — declarei, absorvendo toda aquela informação. Era um pouco complicado e confuso, mas consegui entender bem. — Jennifer falou que era para eu ficar longe do Victor. Na realidade, segundo ela, Cohan que falou. Agora faz sentido. — suspirei um pouco.

— Exatamente.

— Sabe, esse lance todo me parece algo meio imaturo. Essa briga deles dois. — falei sinceramente, percebendo que Josh prestava atenção no que eu dizia. — Mas não posso dizer nada, acabei de cair de paraquedas nisso tudo.

— No geral, nós vivemos num clichê. Como tudo que vemos na tevê. — declarou ele, e riu de leve. — Mas quando você vai conhecendo cada um, vê que não é bem assim.

Assenti um pouco, mordendo de leve a almofada do meu polegar, pensando na pergunta que faria a seguir.

— Por que Cohan e ele se odeiam?

— Isso aí é coisa dela. — ergueu as mãos para o alto. — Não posso falar nada.

Suspirei, entendendo e resolvendo que não insistiria. Ele estava certo. Provavelmente era algo pessoal, e não um motivo bobo como eu imaginava, então não era certo me intrometer.

— Tudo bem...

— Mas eles nunca ficaram, se é o que quer saber.

— Eu não disse nada sobre isso! — defendi-me, talvez rápido demais.

— Nem precisou dizer. — Josh piscou, recebendo um belo travesseiro na cara.

Rimos um pouco. Fiquei um tempo em silêncio, pensando em tudo que tínhamos conversado. Mesmo com tantos esclarecimentos, eu ainda tinha uma dúvida. Talvez Josh já tivesse dito, ou estivesse na cara, mas eu era meio lenta de qualquer forma.

— Tenho uma dúvida. — comecei, pensando em como diria a ele o que estava pensando, já que era um pouco confuso de ser explicado. — Como você disse, Victor é meio que o rei de Blanchaster. Eu já sei que as pessoas comentam sobre a vida dele, algumas falam mal também, mas não sei como ele continua sendo tão popular assim. Eu não o vejo falando normalmente com ninguém que não seja igualmente popular, pelo contrário, ele sai zoando várias pessoas. Por que ele simplesmente não é odiado, e sim o contrário?! — parei um pouco. — As pessoas têm medo dele? É isso? Esse é o segredo de tanta popularidade?

Josh negou algumas vezes com a cabeça, murmurando um "não" e sentando-se na mesma posição que eu, ficando próximo de mim.

— De verdade? — sussurrou, como se fosse me contar um segredo.

— De verdade. — assenti, sem me importar em sussurrar.

— Você sabe, ele é bonito. — Josh começou, então pareceu ponderar. — Muito bonito. Eu não acho que ele é o garoto mais lindo do mundo, mas ele é muito bonito sim. Há pessoas que acham Victor perfeito, assim como existem aquelas que o consideram simplesmente bonito. Algumas não apontariam nenhum defeito nele, outras apontariam alguns, mas ninguém diria que ele é feio, porque isso seria coisa de gente cega. Eu, por exemplo. Não gosto do nariz dele, nem do queixo.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Franzi a testa. Nariz? Queixo? Sinceramente, eu não tinha visto nada de estranho ou feio no rosto de Victor (ou nele completo), e, sim, eu tinha me esforçado para procurar. Mas era verdade, as pessoas possuíam opniões diferentes sobre tudo. Para mim Victor na aparência era o garoto ideal, para outra pessoa poderia não ser. Beleza era relativa.

— Continua. — pedi, sem comentar nada.

— Geo, as pessoas não conseguem odiar ele. Veja bem, ele é o pacote completo para essas loucas desvairadas que usam sutiã e possuem um gnomo entre as pernas. — fez uma careta, como se imaginasse algo nada agradável.

— Mesmo eu não gostando muito dele, admito que ele também tem um puta charme. Ele consegue fazer as garotas se sentirem especiais apenas por estarem com ele, mesmo que por uma noite. Quase toda garota daquele colégio quer ser notada por ele, porque ele é simplesmente...

— Irresistível. — completei mais para eu mesma, e Josh assentiu.

— Ele tem essa pinta de bad boy também. — deu de ombros — Mulheres gostam disso, sabe-se lá o motivo. O fato é que ele faz as garotas se sentirem desejadas, verdadeiramente desejadas. Elas não conseguem odiá-los. Há exceções, claro.

Eu conhecia algumas, e sabia que Josh também. Estar tendo aquela conversa com ele me fez perceber que eu estava tendo a vida que, de certo modo, sempre quis. Eu estava nos Estados Unidos, eu era líder de torcida, eu iria entrar para um coral de verdade, eu gostava de um garoto gostoso pra caralho que realmente existia e era aparentemente o rei da porra toda (ele não gostava de mim, mas era algo que não vinha ao caso). Eu sempre via garotas com vidas como a minha reclamando nos filmes, e eu sempre pensei "parem de reclamar, vocês tem uma vida incrível!".

Mas eu estava vivendo aquela vida, algo que nunca pensei que aconteceria de verdade, e eu estava vendo que não era tão incrível quanto achei que seria.

Morando em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, vivendo qualquer vida, eu ainda era uma adolescente. Nunca nada seria cem por cento incrível, porque eu sempre teria que sofrer meus dramas adolescentes e me importar com eles. Ao menos eu sabia que em qualquer lugar, um pote de sorvete sempre seria um ótimo companheiro nos típicos dias de fossa. Os "dias da bad", segundo Angeline.

— Como Lori, Cohan e tal. — falei, voltando para o planeta terra depois de alguns segundos em silêncio, apenas pensando.

— Exato. Mas são minoria. — deu de ombros.

— E os garotos?

— A maioria deles quer ser como ele ou são tão babacas quanto, então só vão odiá-lo se ele pegar a namorada de algum ou sei lá. — ele riu um pouco e eu o acompanhei.

— Quer saber? — abri um sorriso largo, pulando da cama com a ideia que tive. — Vamos parar de falar disso.

— Por quê? — franziu a testa, meio surpreso.

— Está parecendo que, sei lá, meu mundo gira em torno de homens. Acha que a única coisa que eu faço da vida é falar sobre garotos ou Victor Stonem? — perguntei, ainda sorrindo. — Não responde! — acrescentei.

Josh riu da última parte, e o acompanhei.

— Pode deixar! — também saiu da cama, indo até uma escrivaninha. — Sabe, eu tenho um hobbie estranho. — comentou.

— Qual? — eu estava curiosa, enquanto tentava ver o que ele estava procurando entre as pequenas prateleiras, e nas gavetas.

— Ver o significado dos nomes das pessoas. Tenho um livro com isso, tipo um dicionário, que é o que estou procurando. — resolveu o mistério. — Mas, antes de saber qual o seu, quero saber qual seu signo.

— Libra. — respondi prontamente, e até meio orgulhosa.

Eu não era nenhuma especialista naquilo, mas já tinha lido algumas coisas sobre signos, ascendente, lua e todo o resto, e Lori adorava falar sobre. O fato era que eu gostava muito do meu signo. Aliás, meu ascendente também era em Libra e minha lua em Gêmeos. Rainha da indecisão e da língua solta.

— Gosto dos librianos. — Josh disse, após pensar um pouco. — E combina muito com você. Sou de Áries.

Lori também era. Coincidência.

— Gosta de um barraco? — brinquei.

— Queridinha, eu começo os barracos. — riu, e eu o acompanhei. — Victor é de Leão. Também combina muito com ele, a vaidade dele e a pose de "eu sou o rei da porra toda"... achei!

Concordei com a cabeça. Realmente combinava. Eu já tinha imaginado que ele poderia ser de Leão, ou de Virgem — ironia, já que ele não era nem um pouco.

Josh se aproximou de mim, empurrando-me sentada na cama e sentando ao meu lado.

— Vamos ver... vamos ver... — começou a folhear o pequeno livro marrom claro. — Geovana!

— Oi.

— Não, criatura, eu achei seu nome.

— Ah.

— Hum... Geovana, ou Geovanna, vem do italiano Giovanna. — correu os olhos pela página. — Blá blá blá, ah, segundo o livro, significa “Deus é cheio de graça”, “agraciada por Deus” ou “a graça e misericórdia de Deus”, "presente de Deus" ou “Deus perdoa”. E ao contrário é...

— Anavoeg. — sorri. — Isso eu já sabia.

Quando menor, eu costumava escrever alguns nomes ao contrário, só pra saber como ficavam. Anavoeg, Leinad, Enoel, Refinnej, Enilegna — Geovana, Daniel, Leone, Jennifer, Angeline.

— É. Parece o nome de uma ceita terrorista. Bem, chegamos à conclusão que Deus te ama muito. — riu, passando as páginas, procurando outra coisa.

— Amém. E o seu, qual é?

— Eu sempre esqueço. Ah, achei. Sabia que era isso. Josh e Joshua tem o mesmo significado, mas um é hebraíco/inglês e o outro é hebraíco/bíblico. Ao contrário é Hsoj, e Auhsoj. E o significado é Deus é a salvação. — sorriu — Legal. Acho que ele também me ama muito.

Eu estava pronta para comentar algo, mas percebi algo. Deus é a salvação? Eu já tinha ouvido aquilo em algum lugar...

Então parei completamente, como se tivesse recebido um soco no estômago. Cam. No meu sonho, ele tinha dito aquilo. Mas seria possível? Eu acreditava naquelas coisas sobrenaturais, até porque minha mãe era espírita e me contava inúmeras histórias. Eu também era medium, assim como ela, então via espíritos às vezes — mais sentia que via. Algumas pessoas que eu conhecia não acreditavam em mim, mas eu não ligava — nunca quis mudar a crença de ninguém.

Se eu tinha medo dos mortos? Não. Sempre acreditei que as pessoas deveriam temer mais os vivos.

Tudo não era tão assustador quanto parecia, ou como os outros viam, na realidade eu estava meio que acostumada, mas parecia muito improvável Cam ter se comunicado comigo através do sonho. Não impossível, apenas improvável. Já tinha acontecido com minha mãe, mas não comigo. E não fazia sentido. Como aquilo valeria como um sinal?

Provavelmente era apenas uma coincidência, mesmo Cam não acreditando em Deus — até onde eu sabia.

Ou, por fim, poderia ser apenas eu sonhando o que eu queria sonhar, já que pensava nele todos os dias. Era apenas um sonho. E muitas coisas aconteciam em sonhos. Como um cadeirante andar normalmente, animais falarem e um ateu dizer que Deus é a salvação.

— É. Acredito que sim. — dei um sorrisinho, voltando ao mundo real (como sempre, apenas fiquei fora por alguns segundos) e resolvendo que não contaria sobre meus pensamentos à Josh. — E o sobrenome? — perguntei de súbito, mesmo ele não tendo perguntado o meu.

Ele não olhou no livro, apenas me respondeu:

— Sei que Harvesty é algo envolvendo colheita, sei lá. Não combina comigo, não sou dessas coisas. — deu de ombros. — Mas tenho outro sobrenome. Moon. Que obviamente sabemos o significado.

Moon. Lua...

Lua...

Lua...?

Lua.

Lua!

E novamente lembrei de Cam. E, naquele momento, tive certeza de que não era apenas uma coincidência. Nada daquilo era. E, por mais impossível, improvável e louco que parecesse para os incrédulos, eu sabia que ele tinha se comunicado comigo.

Aceite a ajuda da Lua, ele disse.

E Josh estava me ajudando, e ainda pretendia me ajudar muito mais. As pessoas no mundo todo acreditavam em coisas diferentes, possuíam mentes diferentes, e por mais que para outra pessoa aquilo tudo parecesse uma besteira ou pura coincidência, pra mim não era.

Eu abri provavelmente o sorriso mais largo do mundo, e acabei ganhando um olhar confuso de Josh.

— O que foi? — perguntou, colocando o livro de lado.

— Nada. — eu ainda estava sorrindo, porque simplesmente não conseguia parar. — Podemos ouvir música? — sugeri de repente.

Olhando-me meio desconfiado, não mais confuso, ele deu de ombros e levantou da cama.

— Claro.

Levantou-se, indo até o notebook que estava em uma mesinha, digitando algumas coisas e aumentando o volume de três caixas de som que estavam ligadas ao aparelho, sendo a terceira meio que enorme.

— Sabe, Geo... — se virou para mim. — Acho que você é digna de falar comigo, mesmo eu sabendo que está completamente apaixonada por mim.
Gargalhei, enquanto a música — que eu não sabia qual era — ainda não tinha começado.

— Estou ferrada! — entrei na brincadeira. — Porque gostar de um gay é pior que ser gorda e usar biquíni fio dental. — brinquei repetindo a frase dele, piscando, e a última coisa que pudemos fazer foi gargalhar, antes de Girls Just Wanna Have Fun invadir nossos ouvidos.

Enquanto dançávamos, pulávamos e gritávamos o refrão da música, percebi que não importava por quantos dramas adolescentes eu passasse.

Eu sempre teria alguém para me ajudar, ou simplesmente me ouvir. Ou até cantar loucamente comigo e me fazer esquecer qualquer coisa. Alguém em quem eu podia confiar.

No fim daquele dia, tivemos certeza de três coisas. A primeira, nenhuma segunda-feira foi tão boa pra mim. A segunda, nenhum dia de purificação da alma foi tão bom pra Josh.

E a terceira, Victor Vincent Stonem seria (positivamente) desconstruído. E, sinceramente? Eu mal podia esperar.

E, de bônus, tive certeza de uma quarta e última coisa. Cam sempre estaria comigo — e ele sabia que eu sempre estaria com ele.

Notas finais
ACHO QUE VOCÊS JÁ PERCEBERAM QUE EU AMO SHERLOCK, NÉ???W JIOSDAFOISDAJFUODSFSIOFH. Meus amores, comentem, viu? Não esqueçam de me dizer o que acharam. Amo vocês. Xoxo, Little G.