The Anchor
22 Lembranças de uma noite mal dormida.
Notas iniciais
Capítulo 21.
Uma música calma e relaxante tocava no rádio, na realidade estava quase me fazendo dormir. A música era cantada por uma mulher de voz suave e relaxante, que ficava repetindo “não me deixe ir, sem você eu morrerei”, que obviamente fazia parte do refrão. Se é que aquele não era o refrão.
Eu estava cansada e aquilo não estava ajudando nem um pouco na tarefa de me manter acordada. Era uma música bonita, mas um pouco depressiva. “Sem você eu morrerei”, um pouco dramático, mas eu não podia julgar ninguém. Amor não era uma das coisas que eu entendia direito. Eu achava que estava longe de ser.
Cocei meu nariz de leve, torcendo-o um pouco, já que o ar-condicionado do carro estava batendo diretamente em meu rosto. Olhei para o vidro do carro, abraçando as minhas pernas — tomando o cuidado para não aparecer mais do que eu queria, já que estava de vestido — e vendo a completa escuridão no céu. Victor tinha dito que eram 02:00 da madrugada, mas já fazia tempo, então ali deveria ser algo próximo de 02:40. Eu não sabia para onde estávamos indo, mas gostava de estar em movimento sem precisar pôr os pés no chão. Quando o movimento do carro não me enjoava, claro.
Arrumei o blazer de Victor em meus ombros e virei a cabeça, olhando para o rádio e fazendo uma careta. Inclinei-me e mudei de estação, ouvindo uma música aparentemente antiga e de rock. Completamente diferente da anterior.
“Estávamos naquele carro quando você me olhou e...”
No mesmo momento eu mudei novamente de estação, um pouco desesperada. Não deixei nem o vocalista de voz rouca cantar mais. Eu não sabia muito bem o motivo, minha mão pareceu ter mudado sozinha, mas eu já tinha feito. Pigarreei um pouco e pude ouvir Victor rir baixo, parecendo entender aquilo, então meio que automaticamente eu também entendi. Claro que ele entenderia, eu não fui muito sutil em quase atacar o rádio. Desisti de procurar uma música boa, então desliguei o rádio e me sentei novamente no banco, como estava antes de tudo.
— Para onde estamos indo mesmo? — perguntei, finalmente olhando-o.
Victor mantinha a atenção na estrada meio sombria. Eu provavelmente deveria estar com medo de estar ali com ele, já que estava de noite, a estrada estava completamente escura e Victor às vezes (lê-se quase sempre) parecia ter um parafuso a menos. E, bem, ele era Victor Stonem. Mas ele sabia dirigir, graças a Deus.
— Você quer ir pra casa? — perguntou ele, olhando-me rapidamente antes de voltar a prestar atenção na estrada.
Parei um pouco e olhei para minhas pernas. Eu queria ir pra casa? Não. Eu não queria ir, não naquele momento. Eu estava cansada e tudo mais, mas queria sair um pouco. Eu gostava da minha casa, mas às vezes me sentia sufocada. E naquele momento vi uma oportunidade de ir para outro lugar, por mais que no fim de tudo eu fosse dormir em casa. Quer dizer, onde mais eu iria dormir?
— Não.
— Bom, porque você não quer ir pra sua e eu não posso ir pra minha. — comentou ele, fazendo-me olhá-lo.
Não podia ir pra casa dele? O que ele queria dizer com aquilo?
— Por que não pode ir pra sua? — perguntei curiosa, olhando-o atentamente.
Victor riu pelo nariz, mas não pareceu estar achando muita graça. Também não foi uma risada ácida ou sarcástica, na realidade pareceu uma tentativa de descontrair um pouco, ao mesmo tempo que ele parecia dizer “você não sabe de nada”.
— Porque meus pais têm certas regras, — começou, passando uma das mãos rapidamente pelo cabelo e dirigindo com a outra. Eu não o conhecia tão bem quanto seus melhores amigos, claro, mas eu convivia com ele, então o conhecia melhor que as garotas aleatórias que ele dormia. Não que eu dormisse com ele! Enfim, deu pra entender. E eu sabia que quando ele passava uma mão no cabelo daquela forma era porque, na maioria das vezes, estava nervoso ou um assunto delicado estava prestes a começar. Não que eu observasse cada detalhe dele, claro que não... — se eu chegar tarde em casa, eu não entro mais. Eu poderia ligar para os caras e ir dormir na casa deles, como sempre faço, mas o Booker brigou com os pais dele e os pais do Yv não gostam muito de receber visitas de madrugada, sabe?
Ri um pouco da parte do Yv, acrescentando mentalmente um “Sei. E todos os pais normais.” e vendo Victor me olhar, sorrindo divertido. Eu gostava de quando ele sorria daquele jeito. Sem malícia ou deboche, apenas um sorriso que poderia virar um riso. Um sorriso divertido, um sorriso bobo. Eu nunca iria dizer em voz alta, mas aquele sorriso me fazia sorrir e me encantava. Mais do que eu gostaria que fizesse, na verdade. Certo, então ele não tinha onde dormir. Com certeza ele não poderia dormir na minha casa, por mais que provavelmente ele nem estivesse cogitando aquela possibilidade. Minha mãe não gostaria nada, muito menos minha tia (se bem que não era sempre que ela dormia lá). E com certeza ele tinha muitas outras casas para ir. Fala sério, ele conhecia todo mundo.
— E agora? — arrisquei, levando meu dedo à boca e mordendo a almofada do dedão.
Victor deu de ombros, e em seguida fez uma pausa. Eu queria muito saber o que ele estava pensando, porque naquele momento ele pareceu sorrir um pouco. Foi um sorriso do tipo “tive uma idéia!”, e, sério, me deu medo. Só Deus sabia o tipo de idéia que aquele menino tinha. Victor olhou pro meu rosto, então desceu o olhar pra minha boca, onde eu mordia de leve e encostava meu dedão nos meus lábios. Ele ficou fitando meus lábios por alguns segundos, então pareceu voltar ao normal e olhou para a estrada, parecendo até um pouco vermelho. Senti minhas bochechas esquentarem um pouco. O que diabos foi aquilo?! Victor pigarreou um pouco.
— Você pode dormir fora? — perguntou meio travesso.
Foi minha vez de parar, não mais envergonhada (ou vermelha). O que diabos ele estava planejando? Olhei para baixo rapidamente, vendo que eu mordia insistentemente a almofada do meu dedo, mas eu mal estava sentindo. E nem percebi que ainda estava fazendo aquilo.
— Sim. — respondi cautelosamente, fazendo aquilo soar mais como uma pergunta, olhando-o atentamente e afastando o dedo dos meus lábios, limpando-o discretamente no meu vestido — Se eu avisar antes, sim.
Victor assentiu algumas vezes, acelerando um pouco e abrindo um sorriso mais largo — que me deixou mais confusa ainda.
— Ótimo. Ligue e avise pra quem quer que seja. — falou simplesmente, como se aquilo bastasse de alguma coisa.
— Por que, exatamente? — franzi a testa, tentando entender.
Ele soltou o próprio cinto de segurança, por mais que ainda estivesse dirigindo. Fiquei esperando uma resposta, olhando-o como se ele estivesse maluco. Não soltei meu cinto, apenas para deixá-lo saber que eu não estava entendendo porra nenhuma.
— Porque nós vamos dormir fora. — respondeu, dando o assunto por encerrado.
Ele estava brincando, certo? Ele só podia estar brincando.
— Victor, nós não vamos encontrar uma loja aberta uma hora dessas! — insisti, fazendo-o revirar os olhos.
Bufei. Já era a quinta vez que eu dizia aquilo, e ele continuava insistindo que iríamos achar uma loja aberta às 03:00 da madrugada! Eu sabia que era praticamente impossível. Certo? Okay, eu não conhecia muito as coisas nos EUA, então ele poderia sim estar certo. Mas não importava, ainda parecia loucura toda aquela coisa de “vamos dormir fora!”. Eu já tinha ligado para Juliet e pedido a ela (quando chegasse em casa, já que estava numa festa com Alex) dizer para minha mãe que eu estava na casa de alguma amiga dela ou sei lá. Eu não gostava muito de mentir para minha mãe, mas não era a primeira vez que eu contava uma mentira, e nem seria a última. Juliet era boa com mentiras. Mentira, ela era péssima, mas confiei do mesmo jeito. E eu tinha escolha?!
— Fala sério! Em qualquer lugar vende escova de dente, sandálias pra você porque é lerda e não sabe andar de salto, comida porque você é uma esfomeada e...
— Eu não sou lerda e nem esfomeada! — interrompi e fechei a cara, recolhendo minhas pernas e sentando em cima delas, finalmente soltando o cinto de segurança que estava me incomodando.
Victor me ignorou, olhando várias vezes para o vidro ao seu lado, procurando alguma loja que estivesse aberta. Como ele podia ser tão teimoso? Eu já tinha aceitado dormir fora, mas o universo parecia estar conspirando contra aquela idéia. Por algum motivo deveria ser, certo? Quando eu estava pronta para dizer que estava desistindo e queria ir pra casa (o que não era verdade, mas eu estava realmente exausta!), Victor estacionou o carro em frente a uma lojinha que estava com a luz acesa, obviamente aberta.
Merda! Ele estava certo, tínhamos achado uma maldita loja. Victor me olhou, desligando o carro e abrindo um largo sorriso vitorioso. Fechei a cara ainda mais, completamente emburrada. Eu não era o tipo de pessoa que não aceitava quando estava errada, eu achava que até lidava bem com a situação, mas com Victor era diferente.
— Vamos fazer compras! — anunciou ele, com falsa animação, apenas querendo me irritar.
Suspirei pesadamente, arrumando o blazer de Victor em meu colo. Olhei rapidamente para o lado de fora do carro, vendo a mesma coisa que vi nas últimas quinze vezes que olhei. Nada de interessante, ou melhor, ali eu vi o que eu via quando fechava os olhos. Mais ou menos, já que alguns carros passavam e postes iluminavam algumas ruas. Suspirei novamente, porém de modo teatral e exagerado. Olhei para Victor, vendo-o revirar os olhos e continuar dirigindo. Eu estava o irritando com meus sinais nada discretos de tédio e impaciência, mas o silêncio dele era um saco e eu precisava saber ao menos o que iríamos fazer, já que já tínhamos comprado as coisas (escovas de dentes e pasta de dente pros dois, escova de cabelo pra mim, sandálias pra mim, desodorantes pros dois, roupas leves pros dois, roupas íntimas pros dois, toalhas pros dois, alguns sanduíches naturais, refrigerantes, etc) e ele ainda não tinha me dito o que faríamos, ou para onde iríamos. Olhei diretamente para Victor, resolvendo perguntar logo.
— Então, Sr. Vamos Passar a Noite Fora... — comecei com aquela conversa, já que eu sabia que ele não iria fazê-lo. Bocejei duas vezes seguidas, mas não foi proposital, eu estava com sono mesmo. Victor bocejou logo depois de mim, quase que automaticamente. Eu sempre segui e acreditei na teoria de que se alguém bocejar perto de você ou algo do tipo, você também boceja. — Para onde estamos indo?
Victor começou a brincar com o volante do carro, tamborilando os dedos com ritmo e movendo a cabeça na mesma sincronia. Parecia que estava ouvindo uma música que gostava, mas o rádio do carro não estava nem ligado. Provavelmente ele estava apenas pensando na música ou fazendo aquilo para passar o tempo.
— Já estamos chegando. — falou, não respondendo minha pergunta.
Não resisti e, sem nem disfarçar, revirei os olhos.
— Não foi isso que perguntei. — cortei, um pouco irritada. Eu estava irritada por estar impaciente, o que talvez não fizesse muito sentido. Ou sim. Confuso. — Se eu quisesse saber se já estamos chegando, eu teria perguntado se já estamos chegando. Mas eu quero saber para onde estamos indo.
Victor parou de tamborilar os dedos, olhando-me com o canto do olho, meio surpreso com a minha reação. Virei-me um pouco no banco, ficando exatamente de frente para ele, que alternava entre me olhar e olhar para a estrada.
— Que estressada. — foi o que declarou, fazendo-me bufar de completa impaciência.
— Eu não sou estressada! — me defendi após bufar, fazendo-o voltar a olhar apenas para a estrada.
— Eu não falei que você é estressada. Eu só falei "que estressada". No caso, você pode estar estressada, ser estressada, ou qualquer outra coisa. — eu poderia jurar que a sombra de um sorriso passou por seus lábios — Não tem como saber.
Eu era lenta (lerda). Bastante, até. Mas não foi difícil perceber que ele estava, de certa forma, imitando minha fala anterior. E com certeza estava caçoando de mim. O que ele falou tinha até certa lógica, mas era óbvio que ele estava querendo me irritar. Bufei longamente, retomando minha posição inicial no banco e encostando minhas costas nele com certa força, apenas para fazer uma cena e deixar claro que eu estava irritada. Virei a cabeça na direção do vidro do carro, apenas para não olhar para Victor.
— Argh. — soltei — Que... porra.
O palavrão saiu de modo meio... desajeitado?! Eu não sabia qual a palavra certa para definir, mas foi como se eu não tivesse palavra melhor e tivesse usado aquela, que soou como se eu não gostasse de usá-la.
— Você não fala muito palavrão, 'né' não? — comentou ele, e não precisei olhá-lo para saber que ele estava tentando regular o ar-condicionado do carro enquanto dirigia.
— Meus pais não gostam, eles acham que eu não falo. — respondi, olhando para as unhas da minha mão que descansava no vidro, a palma encostada diretamente nele. Fiz uma leve careta ao ver o esmalte vermelho descascado. — Eu falo bastante, mas tento não falar muito, o que não adianta, porque posso acabar soltando um sem querer lá em casa.
— E o que fariam com você se dissesse um? — perguntou, parecendo curioso.
Olhei para seu rosto.
— Eles apenas não gostam. — respondi simplesmente.
Não dei o assunto por encerrado e nem fui arrogante, mas nenhum de nós falou mais nada. Silêncio completo. Voltei a olhar pra fora, contando mentalmente quantas árvores passavam pelo lado de fora do vidro do carro. Entre a décima e a décima primeira, Victor resolveu falar:
— Vamos para um motel. Tem um aqui perto.
Assenti um pouco, sem olhá-lo. No Brasil aquilo soaria no mínimo estranho, já que lá a palavra "motel" tinha outro significado. Mas eu sabia que ali se tratava de um lugar mais simples que um hotel, apenas para passar a noite quando se está na estrada. E, bem, nós estávamos. Porém, para algumas pessoas o significado de “motel” no Brasil também se aplicava aos EUA. Mas afastei aqueles pensamentos da minha mente.
Saí do banheiro mais cansada do que eu estava quando entrei nele. Eu era super preguiçosa, fato, mas não era a maior fã de bagunça e nojeira. E, quando entrei naquele banheiro, a minha vontade foi de vomitar. O motel que Victor arranjou era simples e claramente para passar apenas uma noite — até porque ninguém em santa consciência passaria mais tempo ali —, mas era de longe o lugar mais repugnante que eu já tinha estado. Na realidade, o banheiro era. O quarto era até arrumado, por mais que tivesse um cheiro meio estranho e tivesse muita poeira, que me fez espirrar no momento em que entrei. O banheiro não era muito grande, e era sujo. Demorei lá dentro porque tive que arrumar, ou ao menos tentar, para aquele lugar ficar ao menos usável. Victor, o Sr. Limpeza (pra não dizer o contrário), aparentemente tomou banho normalmente. Talvez ele estivesse muito cansado para se preocupar com a sujeira, não ligasse mesmo ou eu estivesse sendo exagerada. Mas dane-se. Eu estava cansada por ter ficado uma hora limpando aquele lugar.
Respirei fundo ao sair, sentindo-me exausta, mas ao menos o trabalho estava feito. Graças a Deus eu não estava com fome (porque quase sempre quando estava cansada, ficava com fome), já que tinha comido um sanduíche e tomado refrigerante. Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo folgado e meio bagunçado. Eu vestia uma blusa branca e básica (que Victor comprou) e um short jeans curtíssimo (eu não deveria tê-lo deixado escolher). Tinha tirado a minha maquiagem com água mesmo e só queria me deitar e dormir por várias horas.
— Nossa, você demorou um tempão lá dentro. — comentou Victor, fazendo-me olhá-lo.
Ele vestia apenas uma bermuda azul e branca. Quando entrei no banheiro ele estava completamente vestido, mas ali estava sem camisa. Prendi a respiração um pouco, não conseguindo me conter e correndo os olhos por seu corpo. Puta merda, ele era muito gostoso. Garotos como ele eu só via na televisão e em livros. Seus braços não eram lotados de músculos ou sei lá, eles eram musculosos, mas nada exagerado. Algo mais jovem e natural. Seu peitoral era liso e largo, e seu abdômen… era de longe a melhor parte. Eu nem sabia que quadradinhos bem definidos como aqueles eram reais.
Então percebi que estava fitando seu corpo e, provavelmente, quase babando. Mas Victor não notou, graças a Deus. Ele estava guardando sua camisa na mochila que também compramos, para guardar todas as coisas. Mentira, ele que comprou tudo sozinho mesmo. Eu simplesmente amava aquela mochila, porque tudo cabia dentro dela. Pigarreei, desviando o olhar do seu corpo e olhando para a cama.
— Estava limpando o banheiro, tentando fazer aquele lugar ficar ao menos usável. — respondi normalmente, como se não estivesse babando por ele segundos antes.
Victor riu um pouco arrastado. Pigarreei novamente, olhando para ele mais uma vez e tentando manter o foco. O que era impossível. Mas daquela vez Victor percebeu.
— Fascinada com a minha sensualidade? — debochou, fazendo-me olhar para seu rosto e revirar os olhos teatralmente, como se ele estivesse sendo retardado.
— Só queria perguntar se você não quer, sei lá, vestir uma camisa. — dei de ombros, cruzando os braços.
— Agradeça por eu estar de bermuda, farm girl. — soltou ele, fazendo-me franzir a testa. Ele fechou a mochila e a jogou no chão, vindo até mim. Normalmente eu me sentia completamente… não sei definir, mas eu ficava fora de mim quando ele se aproximava daquele jeito. E eu achava que ele sabia o efeito que causava em mim, porque ele parecia fazer de propósito. Cada aproximação, cada sussurro, cada insinuação. Mas ali ele estava sem camisa, o que era mil vezes pior. Meu corpo reagia de uma forma incontrolável quando se tratava de Victor, forma que minha mente não julgava certa. Justa. Não era justo eu me sentir daquele jeito quando ele se aproximava. Não era justo eu pensar em mil coisas quando ele estava perto, mil coisas o envolvendo. Não era justo eu amar o seu cheiro, e me sentir deliciosamente embriagada quando o sentia. Não era justo eu perceber todos os detalhes do seu rosto e ficar fascinada por eles. Não era justo eu ficar tão abalada quando ele parecia tão firme, eu pensar que era errado quando parecia tão certo. Não era justo eu me pegar o observando no colégio, perder o ar quando topava com ele no corredor ou me sentir incomodada ao vê-lo com outras garotas. Não era justo eu pensar nele do nada e querer me socar por fazê-lo. Não era justo. Victor parou na minha frente, extremamente perto, e tocou delicadamente no meu queixo, dando um sorriso petulante. Mantive-me séria, minha expressão dura, mas eu estava tremendo por dentro e com o coração acelerado. — Eu costumo dormir sem nada.
— Isso é nojento. — respondi, virando o rosto e me afastando dele.
Eu não sabia como tinha conseguido forças para me afastar, mas consegui. Eu não queria que ele soubesse sobre o que fazia comigo, eu temia aquilo. Eu temia o que eu sentia, eu temia a forma que meu corpo reagia, eu temia pensar que ele sabia o que fazia comigo, eu apenas temia. E eu poderia ser uma covarde por temer, mas eu tinha consciência que se eu me entregasse àquilo, seria uma viagem sem volta. Por que ele não podia simplesmente ser um garoto insuportável? Não. Ele era. Eu que era idiota demais e já tinha me acostumado. Já tinha aceitado. Já tinha gostado o suficiente para, sim, ser uma viagem sem volta.
— Minha cama nunca reclamou! — ergueu as mãos em sinal de rendição, indo em direção a cama.
A cama do quarto era de casal e só Deus sabia o que já tinha acontecido naquele colchão. Não tive tempo de perguntar a Victor o que ele pensava que estava fazendo, pois ele simplesmente afastou o lençol da cama e se deitou, pegando um travesseiro e colocando atrás da cabeça, soltando por fim um suspiro relaxado.
— O que você pensa que está fazendo? — soltei, indo até a cama e descruzando os braços.
— Estou deitado, ué. — respondeu como se fosse óbvio.
— Não, não, não, não! — repeti, negando várias vezes com a cabeça. Ele estava ficando maluco?! — Você não vai dormir aí. Eu vou dormir aí!
Victor pareceu prender um sorriso, o que me fez começar a ficar irritada.
— É uma pena, porque eu já estou deitado aqui, farm girl. — seus olhos faiscaram um pouco e ele colocou as mãos atrás da cabeça, soltando novamente um suspiro relaxado — Daqui eu não saio e daqui ninguém me tira. É o que dizem.
Bufei longamente, murmurando um “Meu Deus, tenha piedade de mim” que fez Victor rir de leve. Cerrei os punhos e bati o pé no chão, parecendo uma garotinha birrenta. Victor não fez nada, só ficou me olhando como se eu fosse patética. Ele não iria sair. Talvez eu conseguisse tirá-lo dali, talvez não, mas eu não iria dormir no chão! Poxa, ele não sabia ser cavalheiro?! Claro que não. Ele era Victor Stonem.
— Beleza. Isso nós vamos ver.
Ele não pôde ao menos absorver minha fala, pois no segundo seguinte eu estava enchendo seus braços e peitoral de socos e murros. Eu sabia que não estava fazendo aquilo com muita força (eu também não queria machucá-lo de verdade, além de não ser lá muito forte), mas com certeza estava incomodando e o irritando. Victor foi pego de surpresa, tentando proteger o rosto e o peitoral com as mãos.
— Para, garota! Para, sua maluca! — gritou, tentando se proteger e me fazer parar.
— Sai da minha cama! Sai! Sai! — continuei atacando-o, ignorando seu pedido.
Então ele fez algo que eu definitivamente não esperava. Victor conseguiu agarrar as minhas mãos, puxando-me com força em direção a cama. Quando caí ao seu lado, ele rolou e ficou por cima de mim, prendendo as pernas ao redor do meu quadril. Aconteceu tão rápido que mal pude entender, mas meu coração estava acelerado, minha respiração ofegante e meus olhos arregalados. Victor estava por cima de mim na cama, o rosto próximo e o corpo completamente colado no meu. Meu Deus. Ele estava muito próximo.
Eu não conseguia pensar em nada, eu não conseguia desviar os olhos dos seus. Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Eu sabia que estava repetindo “meu Deus” mentalmente mais de dez vezes, mas simplesmente não conseguia entender nada. Minha mente estava completamente branca, como as pessoas diziam, e provavelmente apenas Deus conseguiria me fazer sair daquele transe, que claramente era coisa que me faria arrepender depois. Eu não tinha forças para empurrar Victor, e nem sabia se queria.
Nós estávamos tão perto um do outro, ambos ofegantes, que pude sentir sua respiração quente batendo contra meu rosto, mesclando-se com a minha. Minha boca estava um pouco entreaberta, como se um grito tivesse ficado preso nela. Victor desceu o olhar que estava fixo nos meus olhos, parando em minha boca. Todo meu corpo formigou inexplicavelmente diante daquilo. Minhas mãos foram para seu peito, como se eu quisesse pará-lo. Mas eu não queria. Victor novamente olhou para meus olhos. Eu estava um pouco mais calma, mas meu coração insistia em bater rapidamente e minha respiração não tinha se normalizado.
— Parou? — sussurrou ele, tão baixo que mal pude ouvir. Assenti lentamente, como se estivesse enfeitiçada. Eu não tinha ideia do que ele estava pensando, mas eu sabia o que ele queria fazer. Eu queria gritar de uma vez “faça logo!”. — Ótimo.
Ele afastou o rosto do meu, saindo de cima de mim e sentando ao meu lado, de costas pra mim. E então tudo voltou ao normal. O meu encantamento se foi, mas eu estava me sentindo completamente confusa. Por que ele tinha se afastado? O que tinha acontecido?
Em questão de segundos eu já estava um pouco aflita. Aquilo não deveria nem ter acontecido, mas aconteceu, e mexeu completamente comigo. O problema era eu, afinal? Ele tinha se afastado por... minha causa? Maldita insegurança. Era idiota, mas eu não conseguia afastá-la naqueles momentos.
Respirei fundo, finalmente conseguindo normalizar minha respiração e retomando minha consciência. Eu não deveria tê-lo deixado se aproximar tanto, então por que deixei?! Aquele garoto possuía um efeito sobre mim, e aquilo me assustava demais. Resolvi não pensar naquilo, porque só me daria dor de cabeça.
— Eu não vou dormir no chão. — falei, me sentindo normal novamente e lembrando da discussão anterior.
Ainda precisávamos resolver aquilo. Victor soltou uma risada debochada, também voltando ao normal, e deitou-se ao meu lado. Talvez ele não tivesse saído de seu estado normal. Talvez eu fosse a única fraca daquele jeito.
— Eu também não. Adoraria ficar discutindo isso contigo, mas eu realmente estou cansado. — ele bocejou um pouco, olhando para o teto escuro do quarto, assim como eu. — Eu não me incomodo de dormir com você, mas você aparentemente sim. Então, os incomodados que se mudem. — falou simplesmente, fazendo-me suspirar derrotada.
Victor não iria sair da cama. Ele não iria dormir no chão só porque eu estava querendo e pedindo, eu tinha certeza daquilo. Eu não iria dormir no chão, também. Então a única saída era aquela. O quarto possuía apenas uma cama, que era de casal. Nós não precisávamos dormir um perto do outro, certo? Certo! Não que eu fosse uma tarada ou sei lá, mas eu tinha… hum, sentimentos por ele. Dormir na mesma cama que ele, e ele sem camisa, poderia não dar muito certo. Caramba, eu não queria ter meu autocontrole testado. Mas eu não pensaria naquilo. Eu já estava no inferno, então só me restava abraçar o capeta mesmo. Apenas uma noite. Era apenas uma noite.
— Está bem! Que seja! — o empurrei com certa força, fazendo-o rolar e ir parar na ponta da cama.
Fiquei na ponta em que eu estava, vendo-o rir pelo nariz e se ajeitar, deitando de barriga pra cima e arrumando um travesseiro atrás da cabeça. Victor pegou um lençol que estava em cima da cama, dobrado, e se enrolou. Olhei ao redor, procurando mais um lençol, mas não encontrei. Merda!
Arrumei o travesseiro não muito macio atrás da minha cabeça, dando alguns socos nele para descontar minha raiva. Bufei um pouco e fiquei de barriga pra cima mesmo.
— Quer dividir o lençol? — perguntou ele, sem parecer malicioso ou debochado.
Foi apenas uma pergunta. Uma pergunta normal. Ele não iria abrir mão do lençol, mas também não queria que eu ficasse sem. Aquela frase normalmente estaria carregada de mil e uma intenções (ainda mais vindo dele), mas ele realmente apenas perguntou, na realidade pareceu até um pouco atencioso. Não olhei para seu rosto. Eu estava com raiva. Estava com raiva porque estava em um motel de beira de estrada e estava com raiva porque estava ali com ele.
Estava com raiva porque antes o banheiro estava uma bagunça, e naquele momento minha cabeça estava uma bagunça. Estava com raiva por não poder chorar de saudades de Cam e do meu pai, como eu fazia todas as noites, porque ali eu não estava sozinha. Estupidamente senti vontade de chorar, mas não pelo motivo de sempre. Não chorar de tristeza, e sim de raiva. De frustração. Eu estava com vontade de chorar por ter brigado com minha prima, e mesmo que já estivéssemos resolvidas, a dor que as palavras dela me causaram não tinha ido totalmente embora. Eu estava com vontade de chorar porque um cara tentou me levar pra casa dele, com intenções nada puras, e eu tinha caído na lábia dele.
Eu queria chorar porque me sentia idiota, tola, burra, ingênua. Eu não ligava de estar parecendo uma criancinha, se querer chorar me fazia uma, então eu era a porra de uma criança! Como todos me acusavam de ser. Eu estava com vontade de chorar por ter tido um dia desgraçado. Eu estava com vontade de chorar por estar com frio e não ter a merda do meu lençol favorito pra me cobrir, na realidade eu não tinha lençol nenhum. Eu estava com vontade de chorar por estar com raiva. Eu estava com vontade de chorar por estar frustrada. Eu estava com vontade de chorar por estar sozinha. Eu estava com vontade de chorar por querer abraçar Victor e não poder abraçá-lo. Por querer desabafar com ele e não poder fazê-lo. Eu estava com vontade de chorar por querer contar como eu estava me sentindo, gritar de uma vez que ele me fazia sentir coisas que eu não queria sentir! Eu não podia.
Eu estava com vontade de chorar por não ter conseguido segurar uma lágrima que escapou.
Virei-me rapidamente de costas para Victor quando a senti rolando por meu rosto, tentando fazê-lo não vê-la. Engoli o choro, o que eu considerava uma das piores sensações do mundo. Era como eu mesma estivesse queimando lentamente por dentro, meu corpo, enquanto eu me forçava a fingir que estava bem e tentava conseguir me fazer não reagir como estava acostumada. Era terrível.
— Não. Estou bem. — eu não estava bem, mas me esforcei para conseguir falar aquilo sem soluçar ou cair no choro de vez.
Engoli em seco, fechando os olhos um pouco e sentindo-os úmidos. Não. Eu não iria chorar ali. Abri os olhos, mordendo meu lábio inferior com força e me esforçando para não chorar. Quase pude sentir o maldito e enferrujado gosto de sangue.
Uma parte de mim queria que Victor fosse dormir e simplesmente me ignorasse. Que não se atrevesse a tocar em mim a partir daquele momento, porque quando eu estava perto de chorar e as pessoas me tocavam ou me abraçavam, eu não conseguia mais segurar. Eu simplesmente me sentia segura e não tinha mais controle das minhas lágrimas.
Mas outra parte de mim queria que ele percebesse que eu estava mal. Que ele me abraçasse e me deixasse chorar, gritar, que ele me ouvisse e me entendesse. Que ele demonstrasse que se importava.
Victor seguiu o que a primeira parte de mim queria e se calou — que era o que eu esperava que ele fizesse. Pude ouvi-lo suspirar pesadamente e depois mais nada. Silêncio. Encolhi-me de frio, abraçando meu próprio corpo e fungando de leve. Aquilo era difícil, porque eu estava acostumada a chorar alto. Meu nariz estava doendo um pouco, já que eu estava prendendo um choro intenso. Aquilo nunca me fazia bem, mas não era a primeira vez que eu era forçada a fazer. Eu estava parecendo um feto naquela posição, e ri baixo com meu próprio pensamento. Rindo com os olhos marejados, irônico.
Suspirei um pouco, tentando relaxar. Mas não estava funcionando. Suspirei novamente e aos poucos a vontade de chorar passou, mas o frio apenas se intensificou. O tempo não estava extremamente frio ou algo do tipo, era só que estava chovendo um pouco e eu era o tipo de pessoa que facilmente sentia frio, além de não conseguir dormir sem a droga de um cobertor.
Então Victor se remexeu um pouco na cama, e naquele momento pude perceber que ele não estava dormindo. Porque ele não apenas se moveu, eu pude sentir ele se aproximar de mim. Será que ele tinha percebido que antes eu estava quase chorando?
— Geo. — chamou ele, baixo.
Ele pronunciava meu nome de uma forma um pouco engraçada — porém adorável. Não que Geovana fosse um nome brasileiro (talvez fosse italiano, eu nunca soube direito), mas eu sabia que ele não estava acostumado com o nome. E ter um pouco de sotaque britânico não ajudava, mas a forma como dizia era muito bonitinha.
— Uh? — tentei parecer o mais sonolenta possível, porque eu não queria que ele soubesse que a falta do lençol estava me impedindo de dormir. Eu não sabia se aquilo me fazia ser orgulhosa. — Oi.
Então ele fez algo que eu definitivamente não esperava. Victor tocou delicadamente no meu braço, e me perguntei se seus dedos sempre eram gélidos. Seu toque fez todo meu corpo se arrepiar, até porque eu não estava esperando. A temperatura de seu corpo era quase sempre diferente da minha, ou apenas seus dedos. Eu era quente (mesmo que naquele momento provavelmente estivesse fria), e ele era completamente frio.
Tremi um pouco, mas fiquei calada. Até mesmo aquele toque me fazia arrepiar e ter vontade de fechar os olhos, querendo apenas aproveitar. Mas não o fiz. Victor deslizou os dedos com delicadeza por meu braço, descendo até a minha mão — que descansava ao lado do meu corpo. Ele soltou um suspiro baixo, e não pude me controlar e suspirei também, porém de modo relaxado. Um suspiro que mostrava o quanto eu estava gostando daquilo, o quanto me agradava. Eu sabia que provavelmente aquilo estava me entregando, mas ser tocada por ele era incrível. Seu toque era simplesmente maravilhoso. Ele estava atrás de mim e eu podia sentir seu corpo próximo ao meu. Victor então tocou na minha mão, apertando-a um pouco e me fazendo morder meu lábio inferior com força.
— Geo, você está congelando. — murmurou, próximo ao extremo. Pude sentir sua respiração em meus cabelos, na direção da minha nuca, já que ele era mais alto que eu. Aquilo me arrepiou ao extremo. Meu Deus, eu estava quase desmaiando. — Está me fazendo sentir quase culpado. — ele afastou sua mão da minha, subindo novamente os dedos e apertando de leve meu ombro. Então parou de vez, recolhendo a mão e pegando na ponta do lençol, jogando-o por cima de mim. — Pega logo esse lençol e para de frescura.
Suspirei profundamente, agradecendo por ele ter se afastado, porque se não o fizesse eu teria morrido ali mesmo. Tive vontade de rir, porque as vezes meus pensamentos eram tão protagonista-de-filme/livro/série-adolescente.
Olhei para baixo, vendo uma parte do lençol por cima de mim. Ele era realmente grande, por sorte. Assenti um pouco, sentindo-me confortável ao subir o lençol até meu pescoço,
— Tudo bem. Valeu. — falei — Agora se afasta. — Victor soltou uma risada debochada, murmurando um “como quiser”. Se afastou de mim, voltando para a outra ponta da cama. — E não se atreva a se aproximar de mim.
Então ele gargalhou, o que me fez rir baixinho, apenas para mim, porque eu não queria que ele soubesse que eu estava rindo. Eu estava tentando manter uma postura séria.
— Não prometo nada. — quase pude vê-lo dar de ombros.
Ri um pouco, mas parei no momento em que me lembrei do que eu costumava fazer quando estava dormindo. Eu não era sonâmbula nem nada, mas tinha o costume de abraçar quem estivesse dormindo comigo. Quando menor, eu dormia abraçada com meu pai. Quando ele não estava, era com minha mãe. Quando eu dormia com Jennifer, eu a abraçava também. Jennifer sempre reclamava porque odiava “muito calor corporal”, mas eu não conseguia controlar. Era automático. Eu simplesmente dormia normal e acordava parecendo um bicho pendurado em uma árvore. A árvore, no caso, era a pessoa que estava comigo. Mas aquilo não podia acontecer com Victor. Pelo amor de Deus, o que eu iria fazer?
— É sério isso, Geovana? — Victor resmungou, olhando para a barreira que fiz na cama.
Era uma linha de almofadas e travesseiros (que por sorte naquele quarto tinham muitos), no meio da cama. Logo, separava eu e Victor. Eu tinha dito a ele que fiz a barreira para ele não tentar nada comigo de noite, mas a verdade era que eu estava com medo de sem querer agarrá-lo e fazer ele ser a minha árvore. A barreira não era alta, era apenas uma listra no meio da cama, mas precisava funcionar. Não havia outra opção. Minha tia Milleny, antigamente, fazia uma barreira como aquela ao redor de Juliet (quando Julie era ainda um bebê), para impedir que ela caísse da cama ou algo do tipo. Minha mãe que me contou. Eu não sabia se funcionava antes ou funcionaria ali, já que eu definitivamente não era um bebê.
— Vai saber o que a sua alma de estuprador pode te levar a fazer! — brinquei, deitando-me na minha ponta e enrolando-me com o lençol.
Victor fez o mesmo, de costas para mim e eu de costas para ele. Ele puxou um pouco o lençol e eu puxei de volta, iniciando uma briga, algo semelhante àquela brincadeira (que eu não sabia o nome) de antigamente, quando tal número de crianças puxava uma ponta de uma corda e tal número puxava a outra, enfim. Fizemos aquilo mais algumas vezes até eu desistir, por perceber que ele estava determinado demais e eu cansada demais. Suspirei um pouco, enrolando-me até o busto, passando um dos braços por cima do lençol branco (que só Deus sabia quem tinha usado antes).
— Irônico, porque hoje eu te salvei de um. — ele riu de forma debochada.
Também ri, porém sem muita vontade.
— Cedo demais para piadinhas, Stonem. — falei, lembrando-me de uma coisa e me sentando na cama.
— Foi mal. — desculpou-se ele. Algumas pessoas diziam que “foi mal” não era desculpa, mas pra mim bastava. Victor virou-se, olhando-me com curiosidade. — O que foi?
— É que as vezes antes de dormir eu faço uma coisa. Eu chamo de “ritual de relaxamento”. — expliquei, olhando-o e vendo-o abrir um sorriso.
Franzi a testa. Por que diabos ele estava sorrindo?
— Legal. Eu também tenho um ritual de relaxamento. Mas eu faço sempre que dá. — contou.
Ergui as sobrancelhas, cruzando as minhas pernas na típica posição borboleta. Eu estava sentada e Victor deitado, mas nos olhávamos. Soltei meus cabelos que ainda estavam presos (por mais que estivessem quase se soltando) e coloquei o elástico no pulso. Victor então me olhou atentamente, abrindo um sorriso de aprovação. Lembrei-me que ele gostava do meu cabelo solto. Olhei pra baixo, um pouco envergonhada.
— Como ele é? — perguntei, querendo fazer com que ele parasse de me olhar daquele jeito.
Ele me olhava como se meu cabelo estivesse pegando fogo ou algo do tipo. De um jeito intenso que fazia minhas bochechas pegarem fogo, e não meu cabelo. Era como se eu merecesse toda a atenção do mundo, como se eu fosse o tipo de garota que parava o trânsito e fazia os motoristas buzinarem. Como se eu fosse incrível. Mas eu não era.
Victor então riu um pouco, ficando completamente de lado e apoiando a cabeça em uma das mãos, o cotovelo na cama. Como se fosse para me olhar melhor.
— É assim… tem que fazer em dupla. E com uma garota. Eu tiro minhas roupas e ela também, a gente se beija bastante e o ritual começa. Eu chamo de ritual de relaxamento, ou de sexo mesmo. — deu de ombros.
Eu ri como se ele fosse um babaca, pegando um dos travesseiros da barreira e jogando nele, acertando seu rosto. Ele riu de forma abafada, com o travesseiro no rosto, e o jogou no chão, voltando a me olhar.
— O meu é assim… — comecei, ficando mais séria e fechando os olhos lentamente. Não precisei nem iniciar direito para sentir a paz e o relaxamento começarem a me invadir. Eu não sabia que aquilo relaxava qualquer pessoa, mas com certeza funcionava comigo. — Dedos das mãos… — comecei a estalar meus dedos, um por um. Algumas pessoas — principalmente Leo, um dos meus melhores amigos do Brasil — diziam que estalar os dedos não era bom, mas eu não ligava. Meus dedos estalaram facilmente, como sempre acontecia. — Dedos dos pés… — levei minhas mãos para meus pés, puxando sem força cada dedo, um por um. Como de costume, todos foram bem estalados. — Tronco… — minha voz já estava soando fraca, já que o ritual estava funcionando bem. Respirei fundo, inclinando então todo meu corpo para um lado com flexibilidade, sentindo-o estalar. Voltei à posição normal e fiz para o outro lado. A mesma coisa. — Pescoço. — finalizei rodando lentamente minha cabeça, estalando meu pescoço.
Sorri um pouco, completamente relaxada. Abri os olhos e vi que Victor me fitava um pouco surpreso.
— Nossa. Agora eu vi o quanto você estava tensa e o quanto é flexível. — ele terminou a frase com um sorriso maldoso nos lábios, fazendo-me revirar os olhos e dar um tapa em sua cabeça, saindo da minha posição.
Victor riu e eu me deitei novamente em meu lugar, finalmente pronta para dormir. Enrolei-me, virando de costas para o garoto. Senti que ele voltou também para sua posição inicial, puxando de leve o lençol. Meus olhos lentamente foram ficando mais pesados, então os fechei e suspirei baixinho, finalmente sentindo o sono se aproximar.
— Victor, você ronca? — perguntei baixinho, meio sonolenta.
— Não… eu acho. — ele respondeu, um pouco mais firme que eu. — ou melhor, mais acordado. — E você?
— Não. — foi a última coisa que falei, antes de pegar no sono.
Eu até que estava dormindo bem, até o momento em que despertei graças ao meu celular que provocava barulhos irritantes de mensagens recebidas. Demorei alguns segundos para despertar de verdade, já que antes os sons que vinham do celular pareciam extremamente distantes. Como se fossem parte de algum sonho meu. Afundei um pouco minha cabeça no travesseiro. Suspirei profundamente, querendo jogar o aparelho na parede. Permaneci com os olhos fechados por um tempo após despertar, tentando achar disposição para me levantar e pegar o celular, vendo quem tanto me incomodava. Eu sabia que tinha sonhado algo antes de ser forçada a acordar, mas não me lembrava o que. Acontecia às vezes. Meus músculos estavam um pouco doloridos, já que eu estava na mesma posição em que estava quando fui dormir e a cama não era muito confortável.
Eu não sabia que horas eram, mas parecia que eu não tinha dormido muito. E eu costumava me mexer bastante depois de horas dormindo e ali estava do mesmo jeito que antes, então provavelmente não tinha dormido muito mesmo. Mas, pelo amor de Deus, quem me mandava mensagens de madrugada? Ou quase de manhã, sei lá.
Suspirei novamente, finalmente abrindo os olhos com certo esforço. Quando eu tinha conseguido descansar, era obrigada a acordar! Que inferno viu. Bufei um pouco, tentando fazer silêncio para não acordar Victor. Sentei-me delicadamente na cama, livrando-me um pouco do lençol e coçando meus olhos. Bocejei e olhei para uma mesinha que estava ao lado da cama, vendo meu celular branco. A tela estava acesa, então alguém realmente tinha me mandado mensagens DE MADRUGADA! Inacreditável.
Estiquei-me um pouco, recusando-me a levantar. Eu poderia simplesmente ignorar e ver pela manhã/tarde/não importava a hora que eu iria acordar, mas as mensagens apareciam diretamente na tela do meu celular, então não seria muito legal se Victor visse. Não importava quem tinha mandado, e, afinal, poderia ser importante. Importante o suficiente para me mandarem mensagens DE MADRUGADA. Fala sério, eu não tinha um namorado, então não tinha motivos para receber mensagens de madrugada.
Ri um pouco com aquele pensamento, me esticando mais e finalmente conseguindo pegar o aparelho, quase o deixando cair. Segurei um grito por deixar meu celular quase cometer suicídio, ficando em posição borboleta na cama e olhando para a tela. Meus olhos arderam um pouco e praguejei baixo, olhando rapidamente para o lado. Voltei a olhar para a tela, vendo primeiramente a hora. Certo. Cinco da manhã. Alguém estava me mandando mensagem às CINCO DA MANHÃ! Puta que pariu.
Não me importei em ver as mensagens logo de cara, já que eu sabia que precisava desbloquear o celular para poder respondê-las. Então desbloqueei meu celular rapidamente, digitando uma sequência de números de modo quase robótico. Meus olhos já estavam se acostumando com a claridade da tela do celular.
Então as mensagens apareceram na tela. Franzi minha testa ao ver quem tinha as mandado. Lea. Certo, aquilo era no mínimo estranho. Provavelmente ela estava bêbada ou tinha errado o número. Explicando melhor, eu gostava de Lea, mas não estávamos tão próximas quanto antes. A gente se via bem pouco. E quando acontecia, nos cumprimentávamos e saíamos. Eu nunca soube quem era o "príncipe" que ela tanto falava, antes de acabar namorando com Kelton. Resolvi ver logo as mensagens.
"Não se sinta culpada por gostar dele."
O quê? Ela com certeza estava bêbada. Eu não fazia idéia de quem ela estava falando. Minha mente clareou um pouco e pensei em certa pessoa, mas era impossível. Lea não lia mentes, e Victor e eu nem andávamos juntos no colégio. Além de que ela nem conhecia ele! Certo, Victor conhecia todo mundo, então não seria difícil eles se conhecerem. Porém, não eram amigos. Mas como ela sabia que eu estava... tendo sentimentos por ele? E como sabia que eu me sentia culpada por senti-los? Aquilo não fazia sentido. Franzi mais a testa, completamente confusa, e passei para a próxima mensagem.
"Qualquer uma gostaria. Ele é gostosoooooooo! E, se quer saber, ele é um deussssss na cama. E nao to falando isso porque to meio tonta, hahah!!1 Kd meu sapato porra"
Bêbada. Não me controlei e soltei uma longa e baixa risada (não queria despertar Victor e ter que explicar tudo aquilo), gente bêbada era algo cômico. Mas parei de rir aos poucos, lendo novamente a mensagem dela e mordendo meu lábio inferior com certa força. É, eles se conheciam. E muito bem. Eles tinham dormido juntos. Ele. Com ela.
Eu me senti incomodada, e fiquei com um pouco de raiva por estar incomodada. Suspirei um pouco, apertando meus olhos com certa força e me forçando a manter a sanidade. Aquilo não iria me abalar. Ele dormia com todas, eu sabia daquilo. Então por que eu estava tão incomodada? Que merda!
Olhei ao redor lentamente, voltando a olhar para a tela do celular. Eu estava sozinha. Quer dizer, mais ou menos, mas Victor estava dormindo. Eu poderia admitir... ninguém iria ver. Sim. Eu estava com ciúmes de Victor Stonem, e era extremamente patético. Victor era o típico garoto que era de todas as garotas. Eu era tão idiota, meu Deus. Tão, tão, tão idiota! Eu estava com raiva por estar com ciúmes, porque eu sabia que era realmente patético. Eu estava com ciúmes de algo que nem me pertencia, e que nunca pertenceria. Victor Stonem nunca me pertenceria, nem uma partezinha dele, fim de história.
Sacudi um pouco a cabeça, tentando não me abalar tanto e esquecer aquilo. Eu estava forçando minha cabeça a esquecer tantas coisas que ela futuramente poderia explodir. Passei para a próxima mensagem.
"Vi vcs numa loja de madrugada qndo eu tava chegando numa festa num galpão. Cara, vcs tavam no meio do nada praticamente. Não me diga q rolou sexo no mato. Caralho kd a porra do meu sapato, kelton ta mandando um oi"
Então eu ri. Eu ri de verdade, porque com raiva/ciúmes ou não, a situação era engraçada. Não ri alto por motivos óbvios, mas ri. Eu poderia imaginar muitas coisas absurdas, mas nunca me imaginaria em uma cama de um motel, rindo ao ler mensagens de uma amiga bêbada, e aparentemente vidente, que já tinha transado com o garoto que estava dormindo ao meu lado. Absurdo demais para eu imaginar, mas estava acontecendo. Quando parei de rir, passei para a outra mensagem. Que era a última.
"Geovana, não perca a chance de tê-lo. Afinal, ele é um príncipe. xx"
Tive vontade de gargalhar. Victor? Príncipe? Conta outra! Ele era o cara mais não-cavalheiro/príncipe que eu conhecia. Ele conseguia ser simplesmente insuportável, e eu até me parabenizava por aguentá-lo. Lea estava muito bêbada, porque Victor não...
Espera. Arregalei os olhos para a tela do celular, levando minha mão a boca e desligando o aparelho, deixando-o cair na cama. Eu não iria respondê-la, eu nem sabia o que responder. Mas aquilo não importava. Príncipe. Príncipe! Príncipe...
Puta merda. Ele era o tal príncipe! Meu Deus, ele era o príncipe de Lea! Ex-príncipe, sei lá. Mas era ele. Não era uma revelação que mudaria em alguma coisa na minha vida, mas pareceu coincidência demais. O destino tinha que estar de brincadeira. Fiquei por uns minutos absorvendo aquela informação, tempo suficiente para voltar ao normal, deixando de parecer chocada. Mas eu estava um pouco atordoada.
Enquanto estava calada e pensativa, percebi que eu não deveria estar tão surpresa. Encaixei algumas peças do quebra-cabeça e cheguei a conclusão de que Victor ser o príncipe não era uma revelação tão "oh meu Deus!". Lea já tinha me falado um pouco do tal príncipe, e a descrição combinava totalmente com Victor. Tudo. Era óbvio que era ele! Caralho, como eu conseguia ser tão lerda? Que coisa viu.
Relaxei meus ombros e senti novamente o cansaço, já que tinha acordado repentinamente e dormido praticamente nada. Olhei para a outra pessoa que estava na cama, que era o protagonista de tudo aquilo. Automaticamente um leve sorriso brotou em meus lábios quando meus olhos pousaram em seu rosto.
Victor estava deitado de barriga para baixo, o lençol cobrindo-o apenas até o quadril, deixando suas costas a mostra. Eu consegui ver seu rosto, já que estava ao seu lado. Sereno. Ele dormia serenamente, como se estivesse tendo sonhos bons e despreocupados. Seus olhos estavam calmamente fechados, seus lábios entreabertos. Eu não conseguia ver se ele babava ou não, mas mesmo se o fizesse... aquilo definitivamente não o deixaria menos bonito. Seu rosto estava fora do travesseiro, ao lado do mesmo. Ele estava próximo da barreira que fiz com almofadas e travesseiros, e ela era a única coisa que de certa forma nos separava.
Soltei o ar lentamente pela boca, observando aquela cena. Ele parecia um anjo. Victor era a prova de que perfeição não existia, já que sua personalidade não era nem de longe perfeita, mas naquele momento pareceu que a perfeição em pessoa estava dormindo ali, naquela cama. Sem deboches, sem máscaras, sem provocações, sem as besteiras que ele dizia, sem nada. Ele estava apenas dormindo, e não poderia estar mais... eu não sabia definir.
O cabelo negro estava bagunçado ao extremo, rebelde, e algumas mechas negras enfeitavam sua testa. Ri um pouco ao pensar em como ele arrumaria aquele cabelo quando acordasse. Mas era lindo. Tudo nele era lindo. Cada detalhe, cada parte do seu corpo, tudo. A pequena e delicada pinta que tinha no pescoço, assim como uma extremamente sexy no maxilar e várias outras que se destacavam na pele clara. Os olhos que em um momento pareciam claros e castanhos, transmitindo tantas coisas. Mas em outro momento estavam escuros e pareciam esconder o interior de Victor.
O sorriso que brilhava independente da situação ou de qualquer outra coisa, mas era o sorriso capaz de fazer muitas garotas suspirarem. O corpo. Meu Deus, aquele corpo! O cabelo sempre charmosamente bagunçado, a pose de “acabei-de-sair-de-um-filme-adolescente”, o riso encantador, o modo gracioso que conseguia erguer uma sobrancelha ou dar uma piscadela. Todo o rosto — e suas feições bem desenhadas — que ao mesmo tempo conseguia ser duro e parecia ser inflexível, mas angelical. Másculo, podem delicado. A voz rouca, porém suave e envolvente, acompanhada de um leve sotaque apaixonante. A mesma voz que me fazia sorrir verdadeiramente quando cantava.
O modo como sua testa franzia quando ele não entendia uma piada qualquer e deixava transparecer que era meio lento às vezes. A pele clara, mas que não chegava à palidez. As bochechas que raramente assumiam a tonalidade vermelha, mas o deixava uma graça quando o mesmo ficava com vergonha. O modo como dançava tão bem, sentindo a música em cada parte do seu corpo. Os lábios claros e finos, que sempre estavam dispostos a se curvar em um sorriso quando seu dono queria. E mais tantos outros detalhes encantadores e coisas que eu definitivamente não tinha deixado passar.
Victor parecia ter sido esculpido, simplesmente. Eu poderia estar exagerando, mas era daquele jeito que eu o via. Não me importava como as pessoas o viam. Era daquele jeito que eu o via. Tudo parecia perfeito. Até mesmo sua respiração.
Eu sabia que a perfeição não era a mesma para todas as pessoas, cada um sabe o que sente e querendo ou não, já acabou pensando em encontrar alguém perfeito. Não perfeito para o mundo — já que as pessoas imaginam a perfeição de diferentes modos —, mas perfeito para si mesmo. Todos já tinham imaginado uma pessoa perfeita para si. Alguém que provavelmente quem imaginava nunca conheceria, e nem sabia se existia, mas gostava de imaginar. De sonhar. A famosa “pessoa dos sonhos”. Sendo alguém perfeito por fora, por dentro, ou os dois. Uma pessoa ideal, que encantaria tanto a ponto de ser considerada a própria perfeição aos olhos de quem via. A minha pessoa dos sonhos era ele. Ele era o meu garoto dos sonhos. Alguém que eu nunca imaginei que fosse conhecer um dia, mas ali estávamos nós. Ele era o símbolo da perfeição pra mim, ao menos na parte exterior. Mas eu também já gostava de seu interior, mesmo sendo tão diferente de mim. Será que era verdade toda aquela coisa de os opostos se atraem? Eu não sabia, mas obviamente eu já estava atraída por ele. O meu completo oposto.
Eu estava fascinada por ele, completamente fascinada.
Eu não sabia o que estava fazendo, mas não me controlei e aproximei meus dedos de suas costas, tocando-a delicadamente e prendendo um pouco a respiração ao fazê-lo. Victor remexeu-se um pouco ao meu toque, mas não recuei. Não consegui. Simplesmente congelei. Então ele soltou um suspiro sonolento e relaxado, um sorriso inconsciente brotando nos lábios. Abri um largo sorriso bobo. Sua pele era macia e um pouco quente, já que estava dormindo. Finalmente pude senti-lo quente, o oposto a o que eu sempre sentia. Suas costas eram largas e algumas pintas estavam por ali, pequenos detalhes que me fascinavam cada vez mais. Além de que eu achava extremamente sexy.
Deslizei meus dedos com toda a delicadeza do mundo por suas costas, sentindo sua pele contra a ponta gélida do meu indicador, que era o dedo que mais o tocava. Soltei um suspiro profundo, como se eu estivesse sendo tocada, e não ele. Naquele momento eu soube do quanto eu queria tocá-lo, senti-lo, ao menos um pouco. Eu queria uma prova de que ele era real, de que ele estava ali, de que ele realmente existia.
Desci um pouco mais, levando meu olhar junto ao passear por suas costas. Meus dedos tocaram na parte onde o lençol começava, que era onde a barra de sua bermuda estava. Soltei o ar lentamente pela boca, olhando rapidamente para seu rosto para ver se ele estava acordando. Nada. Voltei a olhar para seu corpo. Eu estava completamente entorpecida, simplesmente não conseguia parar meus dedos ou controlá-los. Peguei no lençol delicadamente, erguendo-o e afastando-o do corpo de Victor, pronta para tirá-lo totalmente do corpo do garoto, então parei.
No mesmo momento soltei o lençol, fazendo-o cair novamente. Eu despertei. Por mais estranho que poderia soar, eu literalmente despertei. Fiquei por poucos segundos completamente confusa, olhando diversas vezes para minha mão e para o rosto adormecido de Victor, depois para sua bermuda. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus!
O que eu estava fazendo? Que porra eu estava fazendo?! E se ele estivesse de barriga para cima, e não para baixo?!
Encolhi minha mão, levando as duas para meu rosto e o escondendo nelas, sentindo minhas bochechas esquentarem, mesmo sem eu nem saber o motivo. Eu estava ficando maluca. Eu estava completamente fora de mim. Sem qualquer explicação, ouvi a voz de Dan na minha cabeça. Ele era meu outro melhor amigo brasileiro, fora Leo. Ele dizia “você precisa ir para um psicólogo urgente”, mas também ouvi outra voz. Angeline. “Isso é tesão, pelo amor de Deus, você sabe que estou certa!”.
Pronto. Eu estava louca de verdade. Daniel e Angeline substituíram a típica dupla anjinho e diabinho, que deveriam estar falando em minha mente — ou aparecendo como miniaturas em meus ombros —, não eles! Suas vozes soaram tão nítidas e presentes que até me assustei. Mesmo sabendo que era coisa da minha cabeça, eu sabia que provavelmente era algo do tipo que eles diriam se soubessem daquela situação.
Afastei minhas mãos e peguei meu celular. O enfiei debaixo do travesseiro, deitando-me com certa força na cama de costas para Victor, afundando minha cabeça no travesseiro e forçando-me a esquecer algumas imagens de Victor que passeavam por minha mente. Imagens nada inocentes. Suas mãos passeando por meu corpo... seu sorriso quente e um pouco malicioso... os lábios contra meus pescoço... sua voz sussurrando, dizendo que queria... Não. Não. Não! NÃO!
Eu precisava dormir. Eu precisava esquecer aquilo. Mordi meu lábio inferior com força, e estava vendo a hora eu acabar machucando por tanto mordê-lo. Mas eu não estava ligando naquele instante. Então, ignorei o gosto de sangue na minha boca e a leve dor. Fechei meus olhos intensamente e tentei clarear minha mente, puxando o lençol para mim. Sem sorriso de Victor. Sem mãos de Victor. Sem voz dele, sem olhos dele, sem lábios dele, sem ele!
Não sei por quanto tempo fiquei daquele jeito, naquela situação desesperada, apenas soube que era o suficiente quando todo meu corpo relaxou e finalmente adormeci. E a sensação de dormir daquele modo foi pior que ir dormir chorando. Principalmente por sentir que, antes de finalmente adormecer, meu corpo estava queimando de desejo. Um desejo que possuía nome, sobrenome, e infelizmente estava na outra ponta da cama.
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