The Amazing Spider-Man

5 Capitulo 5 - Junte os Ossos


Peter Parker se revirava na cama com apenas um pensamento ecoando em sua mente. Ele não conseguia ouvir o som das sirenes, dos helicópteros ou dos fantasmas. Nem mesmo o som das explosões, dos desabamentos, ou o badalar de seu Sentido de Aranha quando tudo começou. Ele não conseguia ouvir Tina dizendo para ele dormir um pouco, ou a tia May pedindo que não se arriscasse.

"Eu tenho que voltar para lá!"

Tinha passado horas ao lado do Demolidor e Vampira, auxiliando as equipes de resgate e os outros heróis. A Dra. Kafka tinha morrido. Superboy e o Gigante tinham sido soterrados pelos desabamentos. E seu corpo, fraco e combalido, ainda precisava de muito sono e alimentação para se recompor. Foi incapaz de ouvir a voz de sua própria razão dizendo para ficar longe de encrencas até que estivesse totalmente recuperado, pois, naquele estado, não ia poder ajudar muito.

"Eu tenho que voltar para lá!"

Vestiu o uniforme e saiu.

Nas ruínas do WTC, as equipes de resgate ainda não tinham começado a se revezar. Eram horas a fio entre o entulho do que outrora fora um símbolo do orgulho nacional. As possibilidades de se encontrarem sobreviventes eram pequenas, mas isso não era o suficiente para fazê-los parar.

Exceto um deles.

Um dos bombeiros retirava lentamente o corpo de um rapaz dos destroços. Devia ter a sua idade. O corpo horrivelmente desfigurado. Ficou imaginando o desespero do jovem em meio ao fogo, às explosões e ao desabamento. Os segundos intermináveis que precederam sua morte. Tinha que evitar aquela tragédia, de qualquer jeito! Começou a descer a rua, correndo como um louco. Ele não disse uma palavra até chegar a uma grande loja de departamentos. Olhou fixamente para a vidraça e, num salto, a atravessou. Não sentiu o vidro se estilhaçando de encontro ao corpo. Rapidamente, o bombeiro começou a empilhar manequins e prateleiras sobre um balcão. Subiu ao topo da pilha e começou a escorar o teto. Finalmente, sua voz foi ouvida:

– Não pode cair! Não pode cair! Eu não vou deixar...

Um visitante ouviu o alarme e entrou na loja. Ativou as lentes de visão noturna em sua máscara, ainda que os gritos dos bombeiros fossem suficientes para determinar sua posição. O pobre homem parecia realmente acreditar que podia sustentar o prédio da loja:

– Ei, amigo! Está tudo bem, essa área está fora de perigo. Me dê a mão, vamos...

Tudo que o bombeiro viu foi um gigantesco avião vindo em sua direção. Tinha que detê-lo! Pulou sobre o "avião" e começou a apertar sua garganta. Talvez, se sufocasse o avião — e esse pensamento lhe pareceu a coisa mais sensata a fazer — pudesse impedir outra tragédia.

Ainda tentando entender a reação do bombeiro, o visitante tentou afastá-lo com um golpe no rosto, que arrancou seu capacete. O bombeiro era jovem, talvez tivesse a sua idade. Mas ele conhecia aquele olhar. Já tinha visto aquelas pupilas contraídas muitas vezes, anos atrás.

Em Gotham City.

Antes que pudesse se livrar das mãos em sua garganta, o bombeiro foi envolvido por uma massa viscosa que o jogou no chão, prendendo-o como num casulo.

– Precisa de ajuda, forasteiro?

– Homem-Aranha! O que você está fazendo aqui?

– ...

– Ah, é... Você mora aqui. Asa Noturna, muito prazer.

– O prazer é meu. O que aconteceu?

– Bom... O sujeito estava fora de si, Aranha. Ele estava tentando segurar o prédio e, quando me viu, pulouem cima de mim. Foi quando você chegou...

– Estranho. Um bombeiro com síndrome do pânico?

– Não mesmo! Eu tenho um palpite sobre o que aconteceu com ele. E não é nada bom...

– O que você acha que é, Asa? Algum inimigo dos Titãs?

– Já ouviu falar do professor Crane, Aranha?

O barulho de sirenes em frente à loja os distraiu.

– Vem comigo, Asa. Vamos conversar com a polícia sobre esse professor Crane.

A polícia não sabia nada sobre Jonathan Crane, o criminoso conhecido como Espantalho, estar em Nova York. Asa Noturna ficou quieto num canto, apenas observando, enquanto o Aracnídeo levantava informações junto à polícia. O que descobrira é que o nome do bombeiro era Ronald Padavona. Os policiais sugeriram que a dupla investigasse o quartel dos bombeiros, quase deserto àquela hora, pois todo o corpo havia sido convocado. Quando estavam terminando, um homem alto, usando um sobretudo preto, chamou o Aracnídeo:

– Homem-Aranha? Chefe de policia Semeghini. Podemos conversar?

– Claro, policial. Já ouvi falar em você.

– Então, sabe porquê estou aqui?

– Hã... Bom, eu... Este é meu... hã... sidekick! Asa Noturna...

– Seu o quê?

– Esquece.

– Bom, Aranha, direto ao assunto: estou tentando falar com você já tem algum tempo. A polícia anda intrigada e a imprensa já está em cima, mas, com esses atentados terroristas, parece que a história vai ser abafada por algum tempo. Porém, quando a bomba explodir, vão te crucificar. É sobre os corpos na cidade com o seu uniforme.

As palavras de Semeghini golpearam o Aranha como um murro. Do Hulk. O Aranha sabia, através de seus amigos no Clarim, que a polícia tinha encontrado o corpo de alguém vestido como o Homem-Aranha e o detetive Semeghini estava investigando o caso. Mas falar sobre o assunto, realmente o incomodara.

– Quando encontramos o primeiro, achamos que fosse realmente você. Mas, logo em seguida, você foi visto em ação. O problema é que já encontramos cinco corpos vestidos com sua roupa e, de alguma forma, a notícia vazou para a imprensa. Eu estou tentando segurar sua barra, mas parece que o assassino de homens-aranha não está a fim de parar.

Ao lado do Aracnídeo, Asa Noturna ouvia, tenso, as palavras de Semeghini. O caso parecia perturbar o Aranha ainda mais. Semeghini continuou:

– Talvez seja coisa de um de seus antigos inimigos. Mas eu só posso te ajudar se você me ajudar. De qualquer forma, vai ser difícil manter a imprensa longe dessa loucura.

– Eu... entendo. OK, Semeghini, eu apareço para conversarmos. Obrigado pela dica e...

– Aranha! Isso é sério! Eu não quero mais mortes e, sem sua ajuda...

– Não se preocupe, Semeghini — cortou Asa Noturna. — Ninguém quer mais mortes.

Semeghini exitou. Sem dúvida, considerava o Aranha um herói, ou não o estaria ajudando. Mas, por que o Aracnídeo parecia tão apático quanto aos assassinatos? Semeghini era um detetive treinado, mas levou ainda alguns segundos para perceber que as mãos do Homem-Aranha tremiam. Ele estava abalado. Era inocente. E ia cooperar.

Antes de sair com Asa, o Aranha se virou:

– Semeghini?

– Pois não, Aranha?

– Seis corpos.

– Como é?

– A Vampira e o Demolidor encontraram no WTC. Antes da Torre Sul desabar.

– Então, você sabia?

– As coisas têm andado tumultuadas. Eu não sei por onde começar, mas vou cooperar.

– OK, Aranha.

Enquanto se balançavam entre os prédios em direção à base dos bombeiros, Asa Noturna procurava acalmar o Aracnídeo:

– Aranha, se você precisar de ajuda com essa história...

– Ih, meu! Nem esquenta. Isso deve ser vingança de ex-namorada... Ou talvez algum fã esteja fazendo isso por causa daquela história de "lançadores de teia orgânicos"...

Asa Noturna riu. Mas conhecia bem a natureza humana. O Aranha estava angustiado. Pararam no topo do prédio que servia de sede para os bombeiros.

– Chegamos, Asa. Alguma idéia?

– Bom, vamos investigar o alojamento. Talvez a gente ache alguma coisa no quarto daquele coitado.

– Beleza, vamos lá!

– E... Aranha?

– Fala.

– Só mais uma coisa e eu prometo que não toco mais nesse assunto, ok? Sobre esses assassinatos. Fica frio, cara. O Batman tem você na mais alta consideração.

– Como é???

– O Batman. Eu já trabalhei com ele. Ele não é muito de elogiar, mas eu tenho certeza que, se ele souber de alguma coisa, ele vai ajudar a provar sua inocência.

– Diz pra ele que eu não preciso de parceiro. Hehehe...

Entraram no prédio, enquanto Asa Noturna se perguntava como o Aranha conseguia se manter acima da loucura que o envolvia. Acusações, perseguições, todo tipo de encrenca com a polícia. Agora, que a polícia parecia acreditar em sua inocência, esses assassinatos. Passou rapidamente ao Aranha o que sabia sobre o Espantalho — na verdade, o psiquiatra Jonathan Crane, que se especializara em fobias e criou a toxina do medo: um composto químico que revelava à pessoa seus maiores temores. Procuraram no meio das coisas do bombeiro Padavona por alguma pista. Em meio a uma pilha de papéis, um chamou a atenção de Asa Noturna em particular: "Qual o meu papel no mundo"?

– O que é isso, Asa?

– Parece um anúncio de auto-ajuda. Coisa do tipo: "você é um inútil? Um fracassado? Junte-se a nós, que somos gente como você, e se a gente não sair dessa juntos, pelo menos vamos saber que não somos os únicos". O que você acha?

– Gente assim devia assistir Simpsons. Sempre dá certo comigo.

– Também é o tipo de anúncio que um cara medroso ia prestar atenção. Imagine um bombeiro covarde, lutando noite e dia para que ninguém descubra que ele tem medo até da própria sombra. Ele vê um negócio desses e, de repente, se sente corajoso o suficiente até para...

– Segurar um prédio prestes a cair.

– Vamos nessa, Aranha. Aqui tem o endereço dessa tal "Instituição da superação".

– Ei, você é bom nesse negócio de investigação!

– Fiz curso com o Batman.

– Quanto pagou?

– Paguei? Ainda estou pagando. Suaves prestações.

No telhado do prédio onde funcionava a infame "Instituição da superação", Homem-Aranha e Asa Noturna traçavam a estratégia. Entrariam sorrateiramente e procurariam evidências do envolvimento do Espantalho, então sairiam e entregariam o caso a polícia.

– Mas, Asa, se a gente estiver com a faca e o queijo na mão, por que não pegar o Espantalho de uma vez? — perguntou o Aranha enquanto erguia a máscara para colocar filtros nasais, que impediriam a intoxicação pelo gás do medo do Espantalho.

– Olha, Aranha... É complicado, mas o Espantalho é um dos psicopatas. — Asa Noturna ajustou seus filtros — Está um degrau acima dos vilões que geralmente enfrentamos. Ele pode nos matar sem hesitar e tem aquela toxina do medo, que é capaz de nos deixar à sua mercê...

– Tudo bem, mas se a gente sair, ele vai ter chance de matar de novo antes da polícia chegar!

– É por isso que seremos sorrateiros. Ele não vai saber que estamos de olho, que a polícia está vindo para cá. Vamos apenas nos certificar que ele não vai ter chance de fazer seus experimentos de novo.

– Tá legal, tá legal. Você conhece o maluco melhor do que eu. Vamos fazer do seu jeito.

– Assim é que se fala. Vamos, menino-prodígio!

– Como é que é? — gritou o Aranha, enquanto entravam no prédio.

– Sempre quis dizer isso...

Antes de entrarem, o Sentido de Aranha tentou avisar ao Aracnídeo que alguma coisa estava errada:

– Espera, Asa!

– O que foi?

– Armadilha! Tem alguma coisa errada, deixa eu ir na frente.

Dentro do prédio onde funcionava a "instituição", havia um grande salão, provavelmente usado para palestras, um escritório e uma sala trancada. No salão, encontraram um projetor de cinema com vários rolos de filmes com cenas chocantes, como assassinatos e atropelamentos, um verdadeiro "faces da morte". Em um quadro, várias anotações com estatísticas sobre crimes violentos. O Sentido de Aranha continuava tilintando. No escritório, encontraram alguns números de contas bancárias de Gotham City, levantamento sobre todos os que freqüentavam as palestras — o que lhes daria tempo para verificar se não estavam infectados — e uma nota de compra de produtos químicos de um laboratório de Nova York em nome de... Jonathan Crane.

– Aqui está, Aranha. Pegamos!

– Legal. Agora é só entregar para a polícia?

– É, vamos deixar que eles procurem as pessoas que andaram freqüentando essas palestras e verifiquem se não inalaram a toxina. Assim...

– Asa, tudo bem?

– Tudo, claro. Foi só uma vertigem. Estranho...

– Se quiser, a gente sai pra você respirar um pouco...

– Não, está tudo bem. Eu...

Foi quando ouviram um rugido de animais vindo do salão. O Sentido de Aranha badalava cada vez mais forte. Correram para lá e viram que alguém tinha ligado o projetor. Na tela, um leão corria para apanhar sua presa: uma zebra. Asa Noturna começou a transpirar. Estava sentido falta de ar. Ia pedir para o Aranha levá-lo para fora, quando alguém sentado numa das primeiras filas do salão começou a gritar:

– Ora, ora, ora... A que devo a honra de suas ilustres visitas?

O Espantalho se levantou, encarando os dois. O Homem-Aranha jamais o vira antes, mas sem dúvida era uma presença intimidante.

– Espantalho! — gritou o Aracnídeo. — É melhor se entregar! Temos provas de seu envolvimento nisso e logo a polícia estará aqui!

– Herói, heróizinho... Eu soube de sua intromissão no momento em que colocaram os pés aqui. Por algum motivo, vocês acharam que seria fácil me pegar, não é? Mas não será. Eu tenho um plano para esta cidade de mortos e seus heróis. Os ataques terroristas revelaram um espírito altruísta de sacrifício entre as pessoas, perfeito para meu plano...

"Vai falando, otário!" — pensou o Aranha. "Enquanto isso, eu e o Asa vamos... Asa?" Asa Noturna estava cambaleando. Alguma coisa estava errada, mas como? Ele ainda estava com os filtros nasais! O Homem-Aranha o apoiou enquanto o Espantalho continuava falando:

– Eu desenvolvi uma nova toxina do medo, Aracnídeo. Dessa vez, ela não revela os maiores medos de uma pessoa. Ela deixa a pessoa sugestionável, vulnerável ao medo que eu escolher! E dentro daquela sala trancada tem uma bomba, que vai espalhar minha toxina por toda Nova York! A cidade está apavorada por causa dos ataques terroristas, mas imagine só quando cada policial, bombeiro e herói desta cidade for infectado! Bastará verem um avião no céu para se encolherem de terror, ou se jogarem do alto dos prédios na tentativa desesperada de superar seus medos! Como qualquer herói faria...

– Não vai dar certo, Espantalho! Nós vamos te pegar antes que você possa espalhar seu gás para a cidade inalar...

– Inalar? INALAR???? Quem falou em inalar, seu idiota? Minha nova toxina é absorvida pela pele. Como a máscara de seu amigo não cobre todo o rosto...

O Aranha olhou para Asa Noturna. Ele estava tremendo, em choque, mas olhando fixamente para a tela, onde um leão continuava caçando pequenos animais. Sentia-se intimidado pelas feras, mas tinha que salvar os animais. Tinha que salvar todos! Foi quando notou uma fera gigantesca o agarrando. Sem hesitar, lançou-se contra ela...

– Asa, não! Sou eu!

– Hahahahaha! Tarde demais, Homem-Aranha! Ele já foi infectado. Espero que vocês dois se divirtam enquanto eu coloco esta maldita cidade de joelhos!

O Aranha não entendia por quê, mas Asa Noturna se lançou contra ele com as mãos abertas, como se estivesse tentando rasgá-lo. Só então se deu conta: as imagens de animais selvagens na tela. Asa tinha sido sugestionado e estava agindo como um. Provavelmente pensava que estava lutando contra um animal selvagem. O Homem-Aranha ainda tentou prendê-lo com uma teia, mas o Asa finalmente conseguira rasgar seu uniforme. Com um golpe na cabeça, Asa caiu ao lado do Aracnídeo. O Aranha precisava fazer alguma coisa para impedir que o Espantalho infectasse toda a cidade, mas o ataque de Asa Noturna o deixara atordoado. Suas mãos o golpeando... Começou a sentir milhares de mãos o golpeando simultaneamente. Debatia-se freneticamente no chão tentando se livrar dos golpes. Ao longe, a risada do Espantalho, triunfante.