The Amazing Spider-Man

45 Capitulo 45 - O Poder da Palavra


Notas iniciais
Começam as investigações! Criminosos fortemente armados começam a espalhar o terror pela cidade e a única pista do Homem-Aranha é um nome... Keyser Söze! Porém, a busca pela verdade vai levar o Amigão da Vizinhança a descobrir que um de seus colegas de trabalho é mais do que aparenta...

Todos que trabalham em grandes centros urbanos sabem a dificuldade que é chegar a tempo no trabalho. Peter Parker teve muito tempo para pensar a respeito, enquanto se espremia dentro do metrô com milhões de outros nova-iorquinos naquela manhã. Teve a impressão que, se não fosse sua força proporcional à de uma aranha, já teria sido esmagado.

Seu Sentido de Aranha disparou rapidamente duas vezes. Sequer chegou a descobrir se era por estar no mesmo vagão que o Coringa ou se algum trombadinha estava tentando roubar sua carteira. De qualquer forma, dentro de um vagão tão lotado, tinha muito pouca coisa que poderia fazer.

Considerando o conteúdo de sua carteira, tinha muito pouca coisa que poderia ser roubada.

Mas uma, em particular, o deixaria chateado. Tinha saído com Mari Potter na noite anterior, e tiraram uma foto juntos na Times Square. Ele a imprimiu e guardou assim que chegou em casa. Não ia querer que um meliante qualquer colocasse as mãos nela.

É só uma foto, pensou consigo. Tomara que ninguém roube. Porque, se tentarem, não vou conseguir nem virar pra ver quem foi!.

A viagem continuou não muito agradável por alguns minutos, em que ele pensava no quanto as coisas estavam legais entre ele e Mari. Já tinha estragado alguns relacionamentos antes, já viu muita coisa boa em sua vida ser destruída. Dessa vez, não estava disposto a deixar que nada o separasse de amava.

Amava..., repetiu baixinho, saboreando as palavras. Estava bem. Estava feliz.

Considerando a vida que levava, tudo isso era muito estranho!

Bobagem, pensou consigo. Tanto tempo enfrentando vilões, acabei esquecendo como é ser feliz. Minha vida parece que está mergulhada no caos a maior parte do tempo. Gente perigosa, gente ruim, eu comprando briga com vilões... As coisas que fiz, os lugares em que estive... Tenho a sensação de que já vivi tanto... Tanta coisa ruim que já vi, tanto sofrimento... Mas sempre tive os exemplos de pessoas que continuaram lutando quando ninguém mais conseguiria, quando parecia impossível ter forças. O Superman, provavelmente o cara mais íntegro do mundo. Bruce, que acabou se tornando meu amigo e me ensinando muito sobre porque fazemos isso. Gwen, com sua pureza de coração. Tia May e o tio Ben, que se esforçaram para cuidar de mim quando meus pais morreram... Meus tios não têm poderes, mas são os maiores heróis que já conheci. Se consegui fazer algo de bom nessa vida, foi graças a eles. Se nunca desisti, foi graças a eles. E eles conseguiram tudo isso sem super-poderes, sem uniforme. Ninguém precisa abrir mão de seus princípios e valores, ninguém precisa fazer um pacto com o demônio pra ser feliz. Eu lutei a minha vida inteira pra ser feliz. Nem sempre eu acertei, mas eles me ensinaram a ter fé. Me ensinaram que vale a pena lutar. Por eles.

Quando finalmente chegou na estação próxima ao laboratório da polícia, Peter desceu num vagalhão humano, com várias outras pessoas se acotovelando apressadamente. Foi quando ouviu um ei, Peter!

Era Marianne Potter.

Mari!? O que você está fazendo aqui?
Resolvi deixar o carro na garagem hoje. E olha quem eu encontro! Estávamos no mesmo vagão! Não vai me dar um beijo?

Ou aquela cidade era pequena demais, ou os vagões do metrô são grandes demais. Para Peter, não havia maneira melhor de começar o dia. Amava seu trabalho e, a cada dia que passava, sentia que seu amor por Mari aumentava.

Já tinha ido ao espaço, conhecia outros planetas, outros países, povos, civilizações, culturas, mas não trocaria aquilo por nada.

Amava Nova York, amava o metrô lotado, sua tia, a vida que levava e a vida que escolhera para si.

Amava ser o maldito Homem-Aranha.

Do que você está rindo, Pete?
Nada, nada... Pensei numa coisa agora, mas soou tão ridículo...

O trabalho de um perito não é tão glamouroso quanto pode parecer num primeiro momento. Boa parte do trabalho se resume pesquisas, cursos de treinamento, reciclagem e capacitação, palestras e relatórios e mais relatórios.

Tudo que é feito dentro de um laboratório precisa ser justificado. Todo material que é usado, todo tempo gasto, cada coisa deve ser contabilizada para a prestação de contas da prefeitura. O contribuinte tem o direito de saber não apenas que pode contar com sua polícia, mas que os serviços públicos não estão sendo usados em benefício de particulares.

Isso podia ser um grande problema para alguém com uma identidade secreta. Como Homem-Aranha, Peter arrancou uma informação de um meliante. Um bando de ladrõezinhos comum com tecnologia avançada demais para a rua, avançada demais até mesmo para o exército.

Precisa investigar, precisava ir fundo nisso para descobrir quem era o homem misterioso o tal Keyser Söze a quem os marginais se referiram. Mas como fazer isso sem chamar atenção? Como levar esse assunto até o chefe do laboratório sem entregar sua identidade dupla?

Os criminosos que prendera foram encontrados pela polícia, interrogados e liberados em seguida. Para todos os efeitos, era um grupo num beco, presos numa teia de aranha gigante e com armas perto. Isso está longe de ser suficiente para um flagrante. Tudo que disseram na delegacia foi desmaiei e acordei assim.

A polícia ficou com as armas e a reputação do Homem-Aranha era suficiente pra saber que era melhor ficar de olho naqueles marginais. Felizmente, para Peter, as armas foram enviadas para a perícia, onde ele fez questão de examiná-las.

Por que, Parker? perguntou o Dr Eisner, o chefe do laboratório.
Bom... Lembro de ter visto coisas assim quando tirava fotos de vigilantes. Coisas que a Hidra ou a IMA faziam. Fiquei curioso.
Entendo. Tudo bem, então, mas vou querer mais gente trabalhando nisso com você.
Que tal a...
Moran, tem um minuto? Ajude Peter com isso, sim?
... Potter?

Não era o que Peter tinha em mente, mas pelo menos não ia levantar suspeitas. Tinha liberdade para usar o computador e verificar arquivos da polícia, mas quanto mais atenção atraísse para a rotina do trabalho, melhor.

Micky Moran era um quarentão quieto, mas muito competente. Estava sempre reclamando do estômago e parecia ser um sujeito muito distraído. Mas se mostrou um excelente colega de trabalho.

Vamos ver... Digitais, resíduos... Alguma sugestão, Parker?
Verificar nos arquivos se algo assim já apareceu antes?
Boa idéia... Mas isso vai dar trabalho.
Eu tenho uma idéia de por onde começar.
Ok, vai fundo. Eu cuido do resto. Se precisar, estou no laboratório quatro.

Melhor que isso, impossível.

Peter se lançou aos arquivos e começou a procurar armas catalogadas como não identificadas. Era o Arquivos X das armas no departamento de polícia. Alienígenas, futuristas ou simplesmente esquisitas, todo tipo de arma e projétil cujo fabricante não podia ser identificado.

Nada.

Começou então a pesquisar armamento militar.

Nada.

Organizações terroristas. Armamento fabricado em casa. Contrabandistas.

Nada.

Quem tivesse criado e repassado aquelas pistolas, devia ser não apenas muito bom no que fazia, mas também invisível. Keyser Sözer era uma incógnita, o nome dele não apareceu em nenhum tipo de arquivo ou relatório que Peter pesquisou. Procurou os dados da Interpol e da Polícia Federal, mas ele não era mencionado.

Um grande beco sem saída.

Durante o almoço, conversou pouco com Mari. Ela percebeu que ele parecia distante, preocupado.

O que foi, Peter?
Hã? Ah, nada. É só uma pesquisa que estou fazendo. E não vai pra frente.
Aquelas armas que você e o Moran estão investigando?
É, sim. Achei que ia encontrar algum registro delas, mas...
Bom, o Moran é competente. O que ele descobriu?
Ainda não falei com ele.
Então não se preocupe. Logo ele aparece com alguma novidade.
É legal trabalhar com ele, eu acho. Quase não conversamos. Mas ele ouviu o que eu tinha a dizer e me incentivou.
Sim, ele é muito organizado. Tem medo de esquecer as coisas. Ele faz anotações detalhadas de tudo, tem um arquivo particular muito detalhado e não deixa passar nada.
Putz, queria ser assim...
Se esquecer meu aniversário, tudo acabado entre nós.
Vou pedir pro Moran me lembrar...

Logo que voltaram do almoço, contudo, uma notícia alterou radicalmente o rumo daquela investigação.

E das vidas de todos os envolvidos.

Senhores, recebemos um chamado. Alguém roubou o laboratório da Lakesmere, uma indústria de tecnologia que trabalha para os militares. O acesso é restrito e parece que a especialidade deles é... equipamento bélico.
Armas?
Exato, Moran. Quem quer que tenha invadido o laboratório, desapareceu. Como você e o Parker estão trabalhando em algo parecido, quero que vão pra lá.

A princípio, Peter não gostou muito da idéia. Mas talvez realmente pudesse encontrar alguma relação entre esse roubo de armas e sua investigação. Ou, pelo menos, ter alguma idéia nova.

Moran demorou um pouco para sair. Queria ter certeza que não tinha esquecido nada.

Tudo certo, agora?
Sim, Parker. Desculpe. Eu só não queria ter de voltar aqui depois por ter esquecido alguma coisa. A gente pode perder alguma pista importante se não se organiza.
Você é bem organizado, pelo que sei...
Na verdade, é medo de esquecer as coisas. Tenho um... trauma. Odeio esquecer, a gente nunca sabe quando vai precisar de alguma coisa importante, mas saber que vai precisar e ter deixado pra trás por desleixo... Eu queria lembrar...
...
...
Lembrar o que, Moran?
Oh, nada. Pensando alto. Chegamos.

A segurança do laboratório Lakesmere era muito rígida. Vários homens de terno preto e óculos escuros andavam pelo lugar, conversando por rádio. A menos que todos os cientistas tivessem deixado o local, terno preto era o uniforme de todos os funcionários, pois foi só o que os dois viram.

Senhores? perguntou um sujeito enorme.
Somos da perícia disse Moran, mostrando as credenciais. Eu sou Moran, Michael Moran. Este é Peter Parker.
Lamento, mas vocês não vão poder entrar agora.
Como assim? Somos da polícia!
Eu entendo, senhor. Não é esse o problema. É que nossos sistemas captaram um intruso dentro de nossas instalações. Suspeitamos que o criminoso ainda esteja aqui. Os cientistas estão presos dentro do laboratório, pelo menos até conseguirmos rastrear o intruso e prendê-lo.
Mas... Vocês nem chamaram a polícia?
Chamamos, um pouco antes dos senhores chegarem. Acredito que estejam a caminho.
Claro. Bom, onde podemos esperar?
Venham comigo.

O segurança os guiou por um extenso corredor que os levava... para fora do complexo.

Tentem não atrapalhar.

Deu as costas aos dois e retornou para o trabalho.

Esse cara tá de brincadeira, né!?
Infelizmente, ele tem razão, Parker. A polícia já foi chamada e nós não vamos entrar de arma em punho, dando voz de prisão. Precisamos esperar isso acabar.
Você não parece muito convicto disso...
Bom, eu recolhi digitais e resíduos daquelas armas. Eu podia descobrir mais alguma coisa aqui, mas agora estou com receio de perdermos alguma coisa se houver confusão.
A gente bem que podia entrar...

Os dois ficaram olhando para o prédio, sem dizer nada. Por alguns instantes. Moran levava seu trabalho e responsabilidades a sério, e Peter não podia descuidar de sua identidade secreta.

Antes que a polícia chegasse, contudo, uma grande confusão começou dentro do laboratório.

Ouviram tiros, seguranças armados correram para dentro de uma sala e começaram a ser atingidos por projéteis semelhantes aos que o Homem-Aranha encontrara antes. Podiam ver tudo pelas portas de vidro do laboratório.

Moran, é a mesma arma!
Nós não podemos...
Ah, droga! E se o cara fugir?
Não vai fugir, ele...

Novamente, o som de tiros. Nenhuma arma que os dois conheciam fazia um barulho daqueles. Os projéteis eram mais parecidos com pequenos foguetes do que com balas. Os seguranças usavam coletes protetores por baixo do terno, mas isso não era suficiente. Corpos se despedaçavam e sangue espirrava até o teto.

...taqueopariu...
O filho da puta vai fugir!
Foi o que eu disse!
Peter, a gente tem que entrar lá!
Mas como...

Antes que tivesse tempo de terminar a frase, Peter saiu correndo atrás de Moran. Subitamente, seu colega de trabalho mudou de idéia e resolveu que não poderiam deixar um criminoso fugir com uma arma daquelas.

A questão é o que poderiam fazer.

Viram mais dois seguranças de um total de oito, até o momento serem atingidos. O criminoso estava encurralado em uma sala no térreo. Mais tarde, saberiam que ele ficou escondido lá a maior parte do dia, esperando que a situação ficasse tranqüila o suficiente para deixar o local. As horas passaram e, quando notou a movimentação, resolveu abrir o caminho à força.

Peter e Micky Moran se encostaram numa parede enquanto o misterioso atirador continuava tentando escapar. Os seguranças passaram direto por eles, sem tempo para se importar com o fato de eles estarem onde não deveriam, e se posicionaram dos dois lados da porta do laboratório de onde vinham os tiros. Eram bem treinados, mas isso não foi suficiente para impedir que ficassem abalados ao verem colegas com os corpos despedaçados. A situação era crítica, e estava piorando.

Moran se aproximou da porta.

É a polícia! gritou. Largue a arma e entregue-se. Você está cercado!

Como resposta, o atirador disparou contra a parede em que Moran estava encostado. O impacto derrubou boa parte da parede em cima dele, em meio a poeira, pedaços de tijolos e aço retorcido. A arma era realmente devastadora. Os dois seguranças tentaram se posicionar num lugar mais seguro, mas não houve tempo: o primeiro foi atingido no braço (todo seu corpo desapareceu dos cotovelos para cima). Quando o segundo estava prestes a ser atingido nas costas, um fio de teia desarmou o criminoso.

Moran estava caído debaixo de escombros, mas teve tempo de ver Peter saltando para dentro da sala, direto onde o atirador estava! Não conseguia se mexer e não tinha ângulo para enxergar mais nada. Se pudesse levantar a cabeça, teria visto que Peter desarmou o agressor com o fino fio de teia que saía de seus antebraços mas, antes que pudesse chegar até ele, foi atingido pelo brutal impacto de um rifle de concussão.

Não o mataria, mas fez um belo estrago, arremessando-o de encontro a uma estante.

O criminoso caminhou lentamente na direção dele, sacando outra arma. Era uma espécie de besta, toda metalizada e com luzes.

Ora, ora... disse o ladrão. Vou acabar podendo testar todos esses brinquedos.

Antes que pudesse se aproximar de Peter, contudo, ele entrou novamente no ângulo de visão de Moran. Ao perceber que ele ia executar Peter, tentou com todas as forças erguer o pedaço de viga que estava sobre seu peito.

Não se moveu um milímetro.

O atirador, contudo, o ouvir. E se aproximou dele.

Ora, você ainda está vivo... Teve sorte. Essa arma faz muito estrago. Mas essa aqui comigo... Essa é uma maravilha disse, enquanto apontava a besta para a cabeça de Moran.

Moran tentou virar o rosto e viu um metal espelhado, provavelmente parte do laboratório onde estavam. Uma placa no chão indicava Fissão Atômica, mas ele não entendeu. Pelo vidro no chão, tudo que conseguia ler era acimôtA oãssiF.

Lembrou-se de sua esposa, que deveria estar em casa naquele instante, assistindo TV ou vendo um livro, completamente alheia ao terror que ele vivenciava.

Lembrou-se de Peter e de seus outros colegas de trabalho, uma profissão aparentemente tranqüila, mas sentia dor demais para entender essa tranqüilidade.

Lembrou-se dos sonhos que tinha, sonhos em que era capaz de voar pelo espaço, até tocar o sol e se maravilhar com o fato de que ele não o queimava. Em seus sonhos, era mais forte que o sol. Lembrou-se de ser forte o bastante para mergulhar nas chamas e sair ileso, não precisando respirar no espaço. Lembrou-se da sensação incômoda de não se lembrar de seus sonhos pela manhã. Era como se tivesse perdido algo muito importante, como se algo que precisasse lembrar tivesse escapado por entre seus dedos.

Lembrou-se de que havia uma palavra.

O criminoso continuava dizendo bravatas.

Uma palavra simples, curta, que poderia mudar tudo.

Estava prestes a ser executado.

Sentiu o gosto de sangue na boca e, quando olhou novamente para o metal espelhado. Sabia que ia morrer. Tinha medo, queria poder fazer alguma coisa. Em seus sonhos, era capaz de qualquer coisa.

Era só dizer a palavra.

O metal no chão brilhava.

acimôtA

Kimota.

Uma grande explosão arremessou o criminoso para o outro lado da sala. Peter recuperava lentamente os sentidos, a tempo de ouvi-lo gritando:

Meus olhos! Meus olhos! O que aconteceu com meus olhos!? Eu estou cego! Socorro, eu preciso de ajuda!
Deixe-me ajudá-lo.

Aquele era... Moran!?

Oh, meu Deus... Oh, meu Deus... Eu não posso ver... Quem é você? Quem está aí!?
Miracleman.

Tendo dito isto, Moran partiu a cabeça do agressor e saiu voando pelo teto, destruindo-o. Peter mal teve tempo de vê-lo, usando um traje azul. Moran parecia brilhar.

Aliás, não era Moran.

Era o Miracleman!

Eu sou Miracleman.

Foi a última coisa que Peter ouviu antes de Moran sair voando pelo teto. Miracleman. Então, seu colega de trabalho era um super-herói (do qual nunca tinha ouvido falar antes), parecia bastante poderoso e tinha acabado de matar um homem. Peter tinha que detê-lo. A qualquer preço.

A questão era como. Não podia voar, e o tal Miracleman já devia estar longe. Mesmo assim, tinha que tentar. Após se certificar de que as câmeras de segurança tinham sido destruídas, pulou para o telhado, através do rombo que o Miracleman fizera ao levantar vôo. Era seguro trocar de roupa ali. Sob plena luz do dia, o uniforme do Homem-Aranha surgiu em cores vivas.

O Sentido de Aranha disparou. À sua direita, não muito longe dali, um furgão disparava em alta velocidade, os pneus cantando em desespero. Um risco dourado cortou o céu em direção ao furgão. Era o Miracleman, voando em alta velocidade. Certamente, o invasor do laboratório tinha cúmplices. Estavam esperando por ele e, como ele não voltou nem respondeu ao rádio, resolveram se mandar ao ouvir o som de sirenes.

E isso atraiu a atenção do novo herói de Nova York.

Sem hesitar, o Homem-Aranha o seguiu, balançando com suas teias entre os prédios, o mais rápido que podia. Era rápido o suficiente pra alcançar o furgão em poucos minutos, mas Miracleman voava a uma velocidade impressionante. Conseguiu alcançar os fugitivos em poucos segundos!

Valendo-se de sua força, ergueu o furgão e o rasgou ao meio, derrubando quatro assustados criminosos no asfalto. Arremessou longe os pedaços do furgão e, sem dizer uma só palavra, desceu em direção a um deles, os punhos cerrados, pronto para estmagá-lo.

Por uma fração de segundos, o Homem-Aranha conseguiu salvar o infeliz, puxando-o com sua teia. Miracleman se chocou com o asfalto, abrindo uma enorme cratera. O Homem-Aranha prendeu o criminoso com sua teia em um poste, enquanto prendia os outros três no chão.

Miracleman apenas o encarava.

Er... Oi?
Esses homens são criminosos!
Olha, concordo. Mas não precisa matar os caras, ok? A polícia vai investigar o que esses caras fizeram continuou o Aracnídeo, pendurado num poste. Daqui pra frente é com eles, você se saiu bem. Que tal se a gente deixasse de lado os clichês e conversasse um pouco, só pra variar?
Eu adoro um bom clichê respondeu Miracleman, com um sorriso demoníaco. E investiu contra o Homem-Aranha furiosamente.

A Balística pode ser qualquer coisa, menos uma ciência linear. Desde que Galileu e Newton demonstraram que, sob a ação da gravidade, a trajetória de qualquer corpo deixa de ser retilínea para ser parabólica, muitos estudos, fórmulas e equações foram criados para a interpretação dos movimentos.

Mas não é só isso.

A Balística se divide em três categorias. Quando o projétil é disparado, até o momento em que deixa o cano da arma, é chamada de Balística Interior. Baseia-se na temperatura, volume e pressão dos gases dentro da arma, bem como no formato da arma e do projétil. Já a Balística Exterior estuda o que acontece entre o momento em que o projétil deixa a arma até o instante em que atinge o alvo. O estudo aerodinâmico tenta encontrar a relação entre o movimento do projeto e o ar que o envolve, considerando calibre, formato, massa, velocidade inicial e rotação.

Finalmente, a Balística Terminal estuda a interação entre os projéteis e seus alvos. Ou o que quer que tenham atingido.

A Balística Terminal envolve muitas formas empíricas, porém estudos teóricos também são considerados para tentar descobrir quem atirou de onde e utilizando o quê.

Já os alvos dividem-se em duas categorias: os duros e os moles.

Alvos duros podem ser armaduras, tanques e até coletes a prova de balas.

Alvos moles podem ser animais ou seres humanos.

Marianne Potter odiava esse último tipo.

Sempre que transcrevia as equações, estudos de movimento, fórmulas e teorias de Balística, perguntava-se quanta dor a vítima sentiu e por que nenhuma fórmula levava isso em consideração. A energia, o calor, o impacto... E o crânio em cima de sua mesa continuava morto, impassível, indiferente, com um buraco de quase trinta milímetros na sua têmpora.

Queria poder perguntar como foi, qual a sensação...

Quem atirou.

Mas sabia que ficaria traumatizada se ele pudesse responder. Tomou o crânio em suas mãos, mas não conseguia examinar o furo da bala. Ao invés disso, olhou atentamente para as órbitas vazias, pensando o que aqueles olhos teriam visto antes de se fecharem para sempre.

Um chute na porta a fez pular de susto, quase derrubando o crânio.

Stacy! Você ficou doido?! Isso é jeito de...
Potter, é o Parker! Teve um tiroteio lá no laboratório da Lakesmere!
O que!? Ele...?
A gente não sabe, tem um carro indo pra lá. Você vem, ou...?

Desnecessário perguntar.

Correram acompanhando as viaturas da polícia. Mari sabia que Peter era o Homem-Aranha... mas também sabia que seu namorado não era à prova de balas. Se tivesse mesmo ocorrido um tiroteio com ele envolvido, as coisas podiam ficar feias.

Não demorou muito para chegarem ao laboratório. Contudo, tiveram que manter distância a perícia só entraria no prédio depois que os policiais se certificassem de que não havia ameaça.

Quando vamos poder entrar, Stacy?
Você sabe como essas coisas podem ser demoradas, Stacy. Tente se acalmar.
Mas e se...

Antes que pudesse terminar a frase, um policial se aproximou deles:

Tudo limpo lá dentro. Podem entrar.
Corpos? perguntou Mari, apreensiva e com medo da resposta.
Sim, de alguns seguranças e do invasor.
Dois peritos tinham vindo pra cá mais cedo.
Não sei quem são, mas não estão aqui. Nem vivos, nem mortos.

Mari quase teve tempo de se sentir aliviada. Foi quando o carro da viatura em que estava deu o alerta:

Tumulto entre dois super-seres no centro! Homem-Aranha e super-ser não identificado! Todas as unidades...

A gente tem que ir pra lá!
Potter, a gente é da perícia. A gente fica na cena onde o crime ocorreu, não onde está ocorrendo. O Parker sabe disso, ele não iria pra lá.
Hmmm. É. Tá.

Tudo que Marianne teve a fazer foi esperar Stacy dar as costas e entrar no laboratório. Pegou o carro e saiu em disparada para o centro.

Miracleman investiu furiosamente contra o Homem-Aranha. Mesmo com o Sentido de Aranha e sua agilidade, foi por muito pouco que conseguiu se esquivar do ataque, deixando seu super-poderoso antagonista destruir o poste em que estava.

Moran! Pense! Você não é assim, cara! Não precisa fazer isso!

A resposta veio na forma de uma nova série de ataques, forçando o Aracnídeo a dar uma série de saltos mortais para trás. A cada ataque que terminava no asfalto, Miracleman atacava novamente e continuava golpeando, tentar atingir o herói.

O Homem-Aranha sabia que, assim que ele acertasse um único golpe, a luta estaria encerrada.

Tentou todas as suas táticas: teia nos olhos, bater e correr, arremessar objetos... Tudo. Qualquer coisa. Estava enfrentando alguém que parecia ser páreo até pro Superman. O que o Superman faria numa situação dessas?

O que o Batman faria?

Queria que o Bruce estivesse aqui, pensou. Ele sempre sabe o que fazer.

Infelizmente, isso estava fora de cogitação. Precisava se virar sozinho. Precisava conter Moran antes que fosse morto, antes que ele destruísse a cidade inteira.

Mas espere...

Moran não estava interessado em destruir a cidade!

Ao se dar conta disso, se viu preso pelo mortífero abraço do Miracleman.

Estou farto de você, Homem-Aranha!
Moran... Peraí... Vamos conversar...
Farto, ouviu bem?
Eu tou do seu lado...
Você nunca mais vai ficar no meu caminho...

Sentiu uma costela se partir. Teve medo de que ela perfurasse o pulmão e engasgasse com o sangue. Em uma fração de segundo, se deu conta de que não precisava se preocupar com isso.

Ia morrer esmagado pelo Miracleman, não engasgado.

Num último e desesperado esforço, usou suas teias para puxar o poste que Miracleman derrubara logo no início da luta. Felizmente, a própria elasticidade da teia ampliou sua força ao puxar. A ponta do poste metálico atingiu em cheio a nuca de Moran.

Se fosse um homem comum, teria a cabeça destruída pelo impacto.

O poste caiu, já totalmente destruído, ao lado de Miracleman. Foi apenas o suficiente para que ele afrouxasse o mortífero abraço, dando ao Homem-Aranha tempo pouco mais que suficiente para escapar.

Moran... Pense! Eu não sei o que está acontecendo com você, mas você não é assim! Resista, cara! Você é um policial, um bom homem! Sua esposa...
Eu...
Você é casado! Seu nome é Michael Moran, é perito da polícia! Você mora...
Como sabe?
É você quem tem de se lembrar disso!
Eu... aquele homem... ele ia me matar...

Está dando certo, pensou o Homem-Aranha.

Ele ia matar o... Parker?
Puta merda...
O Parker...?
Ele está bem! Ele está bem!
Bom... Bom, eu... Eu não queria que... ele...
Tá tudo bem, Moran... Tá tudo bem...
O que foi que eu fiz?

Antes que tivesse a resposta para essa pergunta, Miracleman foi atingido por um potente disparo de fuzil. Nada do que o Homem-Aranha tentou surtiu efeito. Não seria um fuzil da polícia de Nova York que se sairia melhor.

Seu... verme... traiçoeiro!
Eu vou matar esse guarda...

Mas Miracleman não ouviu o chiste. Apenas investiu contra o Homem-Aranha, culpando-o pelo ataque. Achou que fosse uma armadilha. Estava cego pelo ódio, e seus recém descobertos poderes pareciam afastá-lo do Mick Moran que Peter Parker conhecera meses atrás, ao entrar para a polícia.

Ainda com a mão na costela partida, Peter se perguntou quantas vezes não vira essa cena se repetir com o Hulk. Quando ele estava quase se acalmando, alguém cometia um erro e enfurecia ainda mais o monstro. Ele só parava de destruir quando se acalmava, o que podia levar horas.

Dias.

Não tinha tanto tempo assim.

Começou a revisar o que sabia sobre o Miracleman: era rápido, forte, invulnerável, podia voar e não tinha nenhum respeito pela vida humana. A propósito, era bom dar ênfase no rápido. Estava avançando como um raio e, na fração de segundo que Peter tinha para se afastar, ficou cansado daquele jogo. Resolveu bater com tudo que tivesse. Ia descer a porrada num cara capaz de rasgar um furgão ao meio. Ia enfiar a mão na cara dele, nem que pra isso quebrasse todos os dedos.

Ia resolver aquilo no braço.

Quando ele estava perto o bastante, quando o ângulo era o ideal, ouviu um grito que mudaria tudo:

Não!

Era Mari Potter, sua namorada.

Aquilo quebrou sua concentração e desmontou o soco que tinha preparado. Para sua sorte, foi o suficiente para distrair Moran também. Ele conhecia Mari. Atingiu Peter com o ombro ao reconhecer a voz dela. Se fosse com o punho, teria pulverizado seu crânio. Mas mesmo o impacto com o ombro foi suficiente para arremessá-lo a vários metros de distância, de encontro a uma parede. Peter sentiu mais ossos se partindo.

Costelas, um braço.

Dor.

Preciso... Preciso tirar Mari daqui!

Dor nenhuma neste mundo o impediria de colocá-la a salvo. Monstro super-poderoso nenhum. Não ia desistir enquanto fosse capaz de lutar.

E só ia parar de lutar morrendo!

Moran se esqueceu de Mari Potter ao ver Peter atingir o muro. Riu-se daquele esforço débil para se levantar e lutar. Achou graça ao ver que, mesmo sendo bem mais forte do que um homem comum, seus ossos se partiam com facilidade.

Riu do Homem-Aranha, riu de sua convicção, de sua vontade de dar a vida pela mulher que amava. Ia rir de sua morte ridícula e sem propósito.

Segurou-o pelo pescoço e derrubou o muro contra o qual ele se chocara anteriormente, com violência. Peter perdeu o fôlego e achou que fosse desmaiar. Não estava enxergando. Mas, pelo barulho, percebeu que Moran estava derrubando o muro em cima dele.

A dor veio em ondas furiosas.

Miracleman saiu voando, ainda queria encontrar os criminosos responsáveis pelo ataque ao laboratório. Marianne correu em direção à pilha de escombros que servia de túmulo para o Aracnídeo, tentando tirá-lo de lá desesperadamente.

Precisava dizer a Peter que o amava.

Precisava dizer que sabia que ele era o Homem-Aranha, mas não se importava.

Ia amá-lo de qualquer jeito.

Mas precisava dele vivo.

Precisava tirá-lo dali.

Subitamente, um forte clarão a jogou para trás. Não houve explosão, nem calor, apenas uma luz muito intensa. Quando conseguiu abrir os olhos, o Homem-Aranha estava livre do entulho, conversando com um estranho ser.

Mal pôde ouvir o que diziam.

Quem... diabos... é você? perguntou um combalido Homem-Aranha.
Meu nome, humano, é Aza Chorn. Eu sou um Warpsmith. Um dos guardiões dos poderes de Miracleman.
Você... pode detê-lo?
Infelizmente, eu detenho o conhecimento de seus poderes, mas não como enfrentá-lo. Contudo, também detenho o conhecimento de poderes que lhe são familiares e que você pode por bem utilizar contra Miracleman.
Eu?! Do que você...?
Anos atrás, Homem-Aranha. Anos atrás, você fez jus aos poderes que manipulo. Hoje, você fará uso deles novamente.

Mari percebeu que o brilho intenso vinha dos olhos do alienígena, que começaram a brilhar ainda mais. Luz sem calor.

Envolvendo a tudo.

Quando a luz se dissipou, o Homem-Aranha parecia bem. Recuperado. Não estava mais curvado pelo dor, nem com o uniforme destruído.

Aliás, envergava um uniforme que Peter conhecia muito bem.

Mas foi Aza Chorn quem quebrou o silêncio, decretando:

O Homem-Aranha Cósmico é o único que pode deter Miracleman!

Quando criança, Peter Parker não era muito afeito a esportes.

Estava muito longe do biotipo atlético que pudesse lhe permitir disputar uma vaga nos times da escola. Míope demais para o baseball, franzino demais para o futebol americano, baixinho demais para o basquete e não tinha muita coordenação motora.

A combinação ideal para ser alvo de zombaria dos colegas.

Mesmo assim, aos finais de semana, tirava algumas horas para brincar com o tio Ben. Eram fãs dos Knicks, dos Giants, dos Yankees, acompanhavam os jogos, os resultados e, naqueles momentos de desprendimento — longe dos livros, das provas e das chacotas — imaginava-se jogando ao lado de Patrick Ewing, Lawrence Taylor ou Don Mattingly. Ouvia os gritos da multidão que lotava o Madison Square Garden, pedindo para que ele entrasse em quadra, marcasse mais um ponto, ganhasse mais um jogo. E todas essas vozes eram a voz do tio Ben, incentivando o jovem Peter.

Ao final do dia, sentia-se esgotado. Cansava com facilidade, não tinha preparo físico nem uma alimentação adequada. Seus tios, contudo, sempre frisaram o quanto era importante praticar esportes, manter-se em forma. "Mente sã em corpo são". Peter não via dessa forma. Para ele, era apenas a oportunidade de se desligar um pouco dos estudos e viver a fantasia de seus grandes ídolos do esporte, os atletas que levavam multidões aos estádios e retribuíam essa devoção com sangue e suor.

Ia dormir sonhando com a sensação de ser campeão mundial, de conquistar uma medalha de ouro olímpica e subir no pódio para recebê-la, ao som do hino e dos aplausos da multidão. O calor da platéia, a sensação de dever cumprido, o suor lavado pela glória que se banha sobre os campeões, as lágrimas de quem ousou desafiar os próprios limites para vencer.

Estava sentindo a mesma coisa, anos depois.

O corpo forçado a limites que, até então, desconhecia — mesmo com todos os seus poderes. Os músculos tensos, buscando o equilíbrio entre uma força recém-descoberta e os limites que acreditava ter. A visão embaçada por lágrimas, após a surra que levara do Miracleman, lentamente retomava o foco. E os gritos, os gritos de uma multidão entusiasmada...

Não, não era uma multidão. Não era o tio Ben.

Era Marianne.

Diga alguma coisa! — ela gritava. — Qualquer coisa, por favor!

Mas o Homem-Aranha ainda estava estudando seus novos limites, flexionando lentamente os dedos enluvados por um novo traje, o alcance de sua audição ampliados até níveis imensuráveis e os nervos lentamente se adaptando às novas capacidades. Não sentia mais dor, escoriações, ossos quebrados... Nada. Sentia-se maior, mais rápido, mais forte.

Já tinha sido o portador dos poderes cósmicos antes. Sabia o que fazer com eles. A força, invulnerabilidade, rajadas, capacidade de moldar sua teia, os sentidos ampliados... Porém, nunca encontrara aquele alienígena, o warpsmith Aza Chorn. Da outra vez que fora detentor do póder cósmico, julgou ter sido um bizarro acidente de laboratório que lhe colocou em contato com a Uni-Força, um aspecto extradimensional do Microverso que o associou ao super-ser Capitão Universo. Seus novos poderes foram suficientes para derrotar Magneto, Graviton e o Hulk.

Antes que pudesse obter respostas, sabia que tinha uma missão a cumprir.

Precisava deter o Miracleman.

Lançou um olhar para Mari, tentando dizer "obrigado" ou "me desculpe". Queria dizer alguma coisa que a confortasse. Algo para ela não se preocupar.

Você tem talento para se meter em encrenca.

Ela não sorriu. Estava estática. Tanto a dizer... Tinha corrido tanto...

Vai.

A consciência de Mick Moran estava perdida, imersa em um oceano de fúria e selvageria. Tudo que queria era liberar essa raiva, descarregar violentamente sua força em tudo que cruzasse seu caminho. Não podia ser detido. Ouvia gritos de pânico, sirenes e choro. Golpeava prédios, postes e carros. Reduzia tudo a entulho. Ficava impressionado com o estrago que seus golpes faziam. Nunca ia parar.

Nada iria detê-lo.

Enterrado sob a cólera, Mick Moran pensava em sua esposa.

Foi quando um clarão o engolfou e, subitamente, perdeu o controle de seus poderosos braços. Percebeu que estava sentindo dor. Quando sua visão voltou ao normal, viu o Homem-Aranha, num estranho uniforme azule branco, prestes a deferir outro golpe. Novamente, o clarão seguido de dor. Como ele tinha ficado tão forte?

Resolveu devolver os golpes. O Aracnídeo conseguia agüentar os socos. Estavam emparelhados. Porém, tudo que Miracleman sabia fazer era esmurrar. O Homem-Aranha saltava, disparava rajadas, usava sua teia como um aríete para desorientá-lo. Os golpes vinham de toda parte, parecia ser atingido várias vezes ao mesmo tempo, tamanha a velocidade do herói.

Aquilo apenas o enfurecia ainda mais.

Começou a golpear o espaço ao seu redor. Não tardaria até atingí-lo e, de fato, na terceira tentativa conseguiu acertar um soco que arremessou o Aranha longe. O herói se levantou, encarando Miracleman de maneira decidida.

Moran, isso tem que parar.

Não me diga o que fazer!

Eu não sou seu inimigo! Pense, Moran! Você é um policial!

E você deve ser um criminoso. Estou farto de você tentando me derrubar!

Eu preciso deter você! Olhe ao seu redor! Olhe o que você fez!

Longe dali, Aza Chorn explicava a Mari Potter a verdadeira natureza dos poderes concedidos ao Homem-Aranha:

Os warpsmiths têm observado a humanidade por milênios. Nossos experimentos levaram à criação de aprimoramentos genéticos capazes de impulsionar a espécie humana à plena realização de suas potencialidades. O que você viu é um dos nossos experimentos.

O Homem-Aranha?

Sim. Concedemos a ele os poderes da Uni-Força, da qual ele já foi o portador anteriormente, após um acidente em que as vibrações entre nossos universos entraram em colapso. Porém, Miracleman é um experimento anterior.

Anterior? O... O Homem-Aranha pode detê-lo?

Apenas se a loucura do Miracleman não for profunda a ponto de fazê-lo arrancar o planeta de órbita.

"Arrancar o..." Peraí, isso só pode ser...

Um estrondo desequilibrou Mari. Aza Chorn falava sério.

Os golpes trocados entre os dois super-seres tinham o impacto de explosões. Vidraças estouravam, carros voavam, pessoas eram arremessadas. Aquilo estava ficando arriscado demais e o Homem-Aranha precisava garantir que ninguém se ferisse.

Só tinha um jeito de fazer isso.

Da última vez que recebera os poderes cósmicos, foi capaz de enfrentar o Hulk, sem dificuldades. Quando Miracleman o acertou, contudo, sentiu seus dentes se estilhaçarem.

Ele não podia ser mais forte que o Hulk, simplesmente não podia!

Ou podia?

Antes que descobrisse da pior maneira, o Aracnídeo levantou vôo, arrastando o Miracleman consigo. A velocidade causou um estrondo sônico que desorientou o super-ser enlouquecido por alguns instantes, tempo suficiente para que o Aranha o arremessasse de encontro a uma rocha.

Em questão de segundos, tinham chegado às Montanhas Rochosas, no Colorado, do outro lado do país!

Ali, longe de civis inocentes, o Homem-Aranha acreditou que poderia devolver à razão seu colega de trabalho. A paisagem era impressionante. O ar morno e seco era limpo, puro, diferente de Nova York. A formação do solo, riquíssima. Minerais achados nas Montanhas Rochosas incluem depósitos de cobre, outro, chumbo, molibdênio, prata, tungstênio e zinco. Várias áreas contêm reservas significantes de carvão, gás natural, xisto de óleo e petróleo. Por milhões de anos, a água e sucessivas eras glaciais deu forma a vales e picos de uma beleza sem igual.

A erosão, por sua vez, esculpiu rochas gigantescas, pesando várias toneladas.

Uma, em particular, alcançava a impressionante marca de 16 toneladas.

Mas Moran não estava interessado em detalhes. Apenas arrancou a enorme rocha do chão e a ergueu, esperando que o Aranha chegasse perto. Mas aquela luta já tinha ido longe demais. O herói se aproximou planando lentamente, tentando enxergar o rosto de seu colega debaixo daquela sombra.

Sou eu, Moran! Já pode parar com essa loucura!

Eu vou esmagar você!

Eu disse CHEGA! Eu não vou lutar com você, entendeu!?

Seu desgraçado...

OLHA PRA MIM, PORRA!

Morra.

O Homem-Aranha Cósmico impediu que Miracleman arremessasse a rocha, segurando-a em suas mãos. Cada um dos poderosos oponentes exerceu pressão, frente a frente, até toneladas de pedra viraram poeira. Os dois se chocaram, dedos entrelaçados, músculos poderosos o suficiente para arremessar uma cidade no espaço, tentando dobrar a vontade do seu adversário. Miracleman era poderoso e estava cego pelo súbito frenesi de poder. O Homem-Aranha tinha experiência. Sabia o momento de pressionar e o momento de ceder.

Rapidamente, desvencilhou-se de Moran e desferiu uma série de poderosos socos.

Mexia-se cada vez mais rápido, nunca acertando dois golpes seguidos da mesma maneira, saltando, correndo e se abaixando. Ágil demais para ser visto, determinado demais para desistir.

Resolveu explorar seus novos poderes, disparando rajadas cada vez mais violentas.

Miracleman sorria.

O Homem-Aranha receava não poder mais contê-lo. Ele não cedia, não se cansava. Como o Homem-Aranha Cósmico, fora capaz de derrotar o Hulk com facilidade. Mas qual seria o limite do poder de Miracleman?

Peter Parker rezou para que a resposta estivesse em seu coração.

Arrancou a máscara e parou de lutar.

Já chega, Moran. Vamos pra casa.

Atordoado, Miracleman focalizou o olhar e finalmente entendeu. Peter Parker estava vivo. Estava tentando avisá-lo que precisava parar com aquilo. Podiam prender os criminosos, ajudar as pessoas, salvar vidas... Mas não desse jeito.

Sei corpo esmoreceu e sentou-se no chão.

Peter, eu... Meu Deus do céu, o que foi que eu fiz?

Está tudo bem agora, Moran. Acabou.

O que... Peter... No que eu me transformei? O que foi que eu fiz?

Você cresceu — interrompeu Aza Chorn, fazendo-se visível em meio a um clarão.

Aza Chorn tinha uma voz profunda, grave. Seus olhos brilhavam em contraste com a pele azulada e seus gestos davam a impressão de que ele operava máquinas invisíveis ao seu redor.

Quem... Quem é você?

Eu sou um warpsmith, Michael Moran da Terra. Nós somos os responsáveis por diversos experimentos que culminaram no desabrochar de habilidades latentes na espécie humana.

É isso que eu sou? Uma cobaia?

Não nos entenda mal. Nós temos tentado aprimorar o processo em diversos mundos, em diversas dimensões. O experimento que deu origem ao Miracleman foi realizado com você, mas em uma Terra paralela. Você é o Miracleman de um mundo não muito diferente deste. Ao dizer a chave harmônica, seu corpo é substituído por uma versão renderizada celularmente. Um Michael Moran otimizado, por assim dizer. Você não deveria ser capaz de catalisar a transformação a partir desta dimensão, mas foi exatamente isso o que aconteceu quando, acidentalmente, você disse a palavra.

Eu... Eu tinha sonhos... Pesadelos... Como se eu tivesse esquecido dessa palavra, esquecido o Miracleman por muitos anos...

Um efeito colateral indesejado de nossos experimentos. Nós lamentamos. O que podemos fazer é retirar seus poderes e suas memórias deste incidente, efetuando pequenos ajustes para que você não seja mais incomodado pelas vibrações de uma dimensão vizinha. — E... E Peter? Ele também vai perder os poderes? Tudo vai voltar ao normal?

Sim.

Então... Então, por favor, faça...

No instante seguinte, viram-se saindo dos destroços do laboratório. Aza Chorn não viu necessidade de apagar a memória do Homem-Aranha: apenas o privou dos poderes cósmicos. Já Moran teve a sensação de ter descoberto um valiosíssimo tesouro e esquecido logo em seguida.

Não, não era um tesouro. Era uma palavra.

Uma senha.

"Deixa pra lá", pensou consigo. "Se for importante, vou me lembrar mais cedo ou mais tarde".

Enquanto eram atendidos pelas ambulâncias, Mari Potter voltou correndo.

Pete! Você está bem!?

Estou, sim... E você?

Estava preocupada... O que aconteceu?

Mick Moran acessou uma fonte secreta de poder e se transformou num herói extra-dimensional. Meus poderes não eram o suficiente para detê-lo, então ganhei poderes cósmicos e enfiei juízo na cabeça dele.

Não sei. De repente, explodiu tudo.

Sei...

Os dois guardaram um silêncio estranho, incômodo, como se alguém tivesse dito algo muito perturbador e não soubesse como se desculpar. Como se alguém estivesse insistindo em uma mentira que todos sabiam de cor. Mari abaixou a cabeça e Peter lentamente a puxou pra perto.

Vai ficar tudo bem, Mari.

Eu queria ter certeza disso — ela respondeu, pensando em como seria bom se ele contasse toda a verdade logo de uma vez e acabasse com esse suspense. Em como queria que Peter confiasse nela e falasse sobre o Homem-Aranha. Ela não se opunha, não ofereceria obstáculo nenhum para que seu namorado continuasse fazendo isso. Mas queria ser parte da vida dele, e queria que ele abrisse essa parte da sua vida pra ela.

Confie em mim — ele disse, e ela entendeu como "vou contar quando a hora certa chegar, apenas não estou preparado, não estou pronto pra isso agora". A verdade é que Peter não estava realmente pensando em contar, mas era óbvio que não podia guardar segredo pra sempre. As coisas entre os dois estavam tão legais, não queria estragar tudo. O que ela ia pensar se descobrisse que os sumiços dele eram por causa de sua vida dupla? Ela iria odiá-lo, rejeitá-lo?

Expô-lo?

Naquela noite, ao saírem do trabalho, caminharam de mãos dadas por alguns quarteirões. A noite estava linda e queriam aproveitar um pouco, depois de um dia tão tumultuado. Moran parecia confuso, mas ia ficar bem.

Mari tentou puxar assunto sobre o que acontecera:

Peter, sobre hoje...

É, eu sei. As coisas foram tensas.

Você... Não quer falar sobre o que aconteceu?

Bom... Eu não lembro de muita coisa. Parece que um... super-herói maluco, ou sei lá o que, saiu tocando o terror lá de dentro do laboratório, e Moran e eu ficamos nos destroços.

Foi só isso?

Só?

Bom... Eu quis dizer se... aconteceu algo... Mais do que isso?

Na verdade, eu...

Seria bom a gente conversar se houver mais alguma coisa, não?

É, de fato... Mas eu tenho que ir agora, Mari. A tia May tá me esperando, sabe como é. Ela tinha consulta hoje, por causa daquelas dores nas pernas, e se tiver que comprar algum medicamento vai ser por minha conta.

Mas ainda está cedo e...

Eu sei, eu sei. Mas no final de semana a gente vai ter bastante tempo, que tal?

Meio contrariada, meio resignada, Mari se limitou a beijar o namorado e se despedir. Peter correu para casa pensando no quanto não queria que ela fosse arrastada para a loucura que era sua vida. Ela foi dormir pensando no quanto seria bom se ele se abrisse e confiasse nela.

Mas ele sempre usava a tia May para fugir do assunto.

Ao chegar em casa, Peter encontrou sua tia sentada no sofá, muito abatida.

Tia May? A senhora tá bem? O que aconteceu?

Nada, Peter. Está tudo bem.

Ao chegar em casa, Moran se olhou no espelho. Não estava se reconhecendo. Era como se faltasse alguma coisa, como se...

O que tinha esquecido, afinal?

Tudo tinha ficado bem depois daquela confusão no laboratório. Apesar de ter ficado preso nos destroços, não tinha um arranhão sequer. Na verdade, sentia-se muito bem. Apenas um pouco atordoado.

Sua mulher o tratara bem quando chegara. Devia ser a primeira vez em meses. Talvez as coisas começassem a melhorar. O dinheiro das horas-extras, o salário dela na escola... As perspectivas pareciam mais animadoras.

Fizeram amor apaixonadamente, como quando se conheceram, como se fosse a primeira vez. E, quando dormir, sonhou que podia voar.

E com uma estranha palavra, aparentemente sem sentido, que era capaz de mudar tudo.

Notas finais
Foi bom enquanto durou, não percam a proxima fanfic do aracnídeo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!