The Amazing Spider-Man
38 Capitulo 38 - O Caçador Alienigena
Notas iniciais
O Sentido de Aranha parecia uma orquestra de loucos. Tudo ao seu redor parecia estar prestes a atacá-lo, a própria natureza sussurrava de maneira rancorosa em seu ouvido palavras numa língua alienígena.
Eu pego ele... gostosão...
Um calafrio percorreu a espinha de Peter. O Central Park não era exatamente o seu ambiente. As árvores, o lago... Tudo parecia colocar seu adversário em vantagem. O calor parecia querer sufocá-lo e, de repente, sua máscara parecia estar tentando asfixiá-lo com o seu próprio medo.
Estava enfrentando um assassino muito inteligente e sem nenhum respeito pela vida humana.
E, a menos que fizesse alguma coisa rápido, seria sua segunda vítima na noite.
É assim que se faz...
A própria escuridão da noite pareceu se dobrar sobre o Homem–Aranha. O rugido abafado de seu adversário e o Sentido de Aranha o salvaram de ser também empalado, apenas no último instante. Uma lança de metal mais leve que uma sombra rasgou a carne de suas costas, arrancando um grito de dor do herói.
Suas teias acertaram o vazio. Seu adversário era rápido, preciso. Cada ataque era calculado para minar sua resistência, até que ele tombasse. Estava perdendo muito sangue, estava cansado, estava sentindo a derrota. Mas não podia se entregar, não depois do que o monstro já tinha feito. O suor escorria sobre seus ferimentos, a dor o mantinha acordado. Resolveu se concentrar e focalizar seu Sentido de Aranha. Jamais soube ao certo como funcionava, um “sexto sentido” que o permitia antecipar ataques e, em alguns casos, encontrar inimigos que o espreitavam, mesmo quando não representavam ameaça. Se tentasse “filtrar” as informações agora, poderia pegar o assassino.
Fechou os olhos, mesmo ciente do risco que corria. Mas ficar de olhos abertos contra um inimigo invisível não significava nada.
Deixou as informações fluírem. O “Sentido de Aranha” nada mais era do que seu corpo filtrando informações do ambiente. As terminações nervosas de sua pele captavam até a mais sutil variação de temperatura, pressão atmosférica, direção do tempo, odor e emanação de hormônios. Essa combinação de fatores chegava ao seu cérebro desenhando um panorama em 360° de tudo que acontecia a seu redor. Peter respirou fundo, se concentrou e tentou “enxergar”, nesse panorama, onde estava seu inimigo. De fato, estava enfrentando um caçador muito experiente. Sua posição tinha sido mascarada por um sistema de camuflagem, mas ele também usava o ambiente para não ser encontrado por métodos que não fossem visuais. A direção do vento, o barulho do ambiente, tudo isso estava sendo usado como uma arma.
Mas o Sentido de Aranha também podia ser uma arma.
Em sua cabeça, Peter foi capaz de notar, separadamente, cada folha de grama que seu adversário estava pisando. O barulho de seus passos, imperceptíveis anteriormente, tornaram-se ressonantes como as Trombetas de Jericó. O ar parecia se abrir enquanto ele corria, em sua direção, o punho direito erguido. Peter também notou que duas lâminas saíam de seu pulso, e que poderiam fazer tanto estrago quanto a lança.
Mas não foi assim que ele conseguiu localizar seu adversário.
Não, ao fechar os olhos e tentar focalizá-lo com o Sentido de Aranha, a primeira coisa que ele notou foi ocoração de seu inimigo.
Pulsava como se Lars Ulrich estivesse atrás dele, esmurrando com força, cada vez mais rápido. Era a emoção da caçada. O cheiro da adrenalina atingiu Peter, eriçando o cabelo de sua nuca. Parecia o motor de um tanque de guerra, abafando todos os outros sons. Um coração como aquele, e nenhuma misericórdia.
Estava correndo em sua direção, cada vez mais próximo.
Peter não abriu os olhos. Apenas torceu para não estar enganado. Esmurrou com toda força que tinha, um gancho forte o bastante para destruir um carro. Não podia poupar forças contra um adversário desses. Deu tudo de si.
Quase quebrou os dedos!
Seu adversário foi arremessado longe pela violência daquele golpe, surpreso como se tivesse corrido contra uma muralha. Atingiu um banco do Central Park, destruindo-o.
Não sabia o que sua presa tinha colocado naquele último soco, mas foi o suficiente pra destruir seu sistema de camuflagem.
Peter abriu os olhos e enxergou algo muito parecido com uma “interferência”. Seu adversário tinha, pelo menos, 2,40m. Era um brutamontes, caído no chão, tentando alcançar algum “controle” em seu pulso. A “interferência” ia e vinha, tentando mascarar sua presença, mesclando-o ao ambiente. Contudo, o estrago já tinha sido feito. Seu adversário não tinha mais onde se esconder.
Precisava contê-lo, antes que conseguisse desaparecer de novo, antes que ele voltasse a matar. O Homem-Aranha usou as teias, mas seu adversário as agarrou em pleno ar, puxando-o para perto. O contra-ataque foi surpreendentemente rápido.
A criatura se levantou, sua camuflagem ainda funcionando precariamente. Parecia usar uma máscara e algo parecido com dreadlocks. Seu traje era composto de vários itens de alta tecnologia que Peter não foi capaz de definir. Ele continuava puxando a teia, cada vez mais próximo...
Repentinamente, o monstro largou a teia e se lançou em um salto contra o Aracnídeo. Desequilibrado, Peter não teve tempo de reagir quando o monstro plantou suas lâminas do pulso bem ao lado de sua cabeça. Estava encurralado, com cerca de duzentos quilos de selvageria bem em cima do seu peito.
– O Caçador virou caça?
Examinando-o, observando-o, a cabeça inclinada de maneira curiosa, inquisidora. Passou a mão sobre a máscara do Homem-Aranha e, depois, sobre a própria máscara. Suas garras estavam sujas de sangue, mas aquilo parecia um ritual, uma cerimônia de respeito entre dois combatentes. A criatura desconectou, então, um tubo na base de sua máscara, deixando escapar um pouco de gás. E apresentou sua horrenda face ao Homem-Aranha.
A criatura que Al Kraven batizou de Predador parecia sorrir satisfeita, as enormes presas abertas de maneira obscena, uma saliva quente escorrendo de sua boca.
Como é que eu fui me meter nessa?, pensou Peter Parker.
– Surpreso em me ver?, pareceu responder a criatura.
Festa na Cobertura de Al Kraven: “Era como Sodoma e Gomorra”, declara Lindsay.
– Bom dia, Peter. O que você está lendo?
– Hã!? Ah! Bom dia, Mari! Nada, não... É só um...
– Jornal sensacionalista?
– É...
– Deixa eu ver?
Mari Potter pegou o jornal, muito para o constrangimento de Peter. Não gostava de bancar o bobo na frente dela, e ler aquela porcaria o fez sentir-se como o rei dos idiotas.
– Pensei que você só lesse o Clarim.
– Não, eu... Sabe que não lembro a última vez que coloquei as mãos num exemplar do Clarim? Nem quando eu trabalhava lá eu lia muito.
– Ao invés disso, prefere o... New York Post...
– É, eu... Conheci o Al Kraven.
– Sério!?
– Sim. Nos meus tempos de fotógrafo de celebridade mascarada. O pai dele foi um notório inimigo do Homem-Aranha.
O interesse de Mari era genuíno, mas esfriou assim que Peter mencionou o nome do herói. Ela estava cada dia mais certa de que Peter era o Homem-Aranha. O fato dele esconder isso dela a deixava muito perturbada.
– Mas e aí, tudo bem com você?
– Tudo sim.
– Hm. Legal.
Peter não era tão cego quanto gostaria. Ele notou a maneira como Mari se afastava. Silenciosa, retraída. Como se ele fosse capaz de machucá-la de uma hora para outra. O que ele não sabia é que, de certa forma, ela já estava ferida. Seu segredo tinha erguido um muro entre os dois, uma barreira de vidro.
Viam-se todas as manhãs, conversavam como se nada de errado tivesse acontecido mas, no fundo, estavam tão distantes quanto antes de se conhecerem.
Nenhum dos dois ousava mencionar o elefante na sala de estar.
De qualquer forma, ainda olhavam um para o outro com certa cumplicidade, como se tivessem partilhado um segredo que ninguém mais conhecesse. Havia um meio-sorriso quando seus olhares se cruzavam e aquilo, lentamente, podia derrubar o muro que havia entre eles. Peter achava que era apenas uma fase, insegurança dela – o que seria muito irônico, agora que ele finalmente tinha decidido com quem ia ficar.
Já ela estava dividida. Se, por um lado, o segredo de Peter não lhe inspirava confiança, por outro, tinha sido fisgada por ele desde o primeiro momento que colocara os olhos nele. O grande problema era esse: o quanto ele confiava nela? O quanto ele ia esconder? O que mais acontecia na vida dele que ela não podia fazer parte?
Pensar em tudo isso era desgastante, mas ignorar Peter seria muito pior. Sentou-se ao lado dele com uma xícara de café, enquanto folheavam o jornal. A maioria das notícias eram absurdos, do tipo que permitia rirem juntos por alguns instantes. Aqueles momentos de desprendimento, de despreocupação, eram muito valiosos para Peter.
Gostava dela.
Queria que desse certo.
– Mari, o Foo Fighters vai tocar hoje... No MSG. Que tal se a gente...?
– E como vamos acordar cedo amanhã pra trabalhar?
– Com toques do Foo Fighters no despertador?
Mari sorriu, e o mundo acabou para Peter quando ele ganhou aquele sorriso.
– Mas não sabemos nem a que horas vamos sair daqui hoje...
– Tudo bem, eu ainda não comprei ingressos. Só queria, você sabe... Conversar mais. Fora daqui.
– Hmmm... Está bem. Me convenceu. Mas ainda precisamos...
– Não, não. Nada de “mas”. Vamos dar um jeito.
– Você faz tudo parecer tão simples...
– Minha vida já é muito complicada... Não quero complicar mais.
– Tá bom, Peter. Acho... Acho que a gente realmente precisa conversar.
Era impressão ou o Sentido de Aranha cutucou sua nuca?
Teve vontade de abraçá-la, de perguntar se ela estava bem. Sabia que ela tinha sido seqüestrada pelo Duende Verde – ela quase foi assassinada pelo Duende! – mas Mari nunca tocou no assunto. E Peter não podia perguntar, sob risco de entregar sua identidade.
Tudo que podia fazer era contar com a compreensão dela, com a honestidade do caráter dela. Encontrá-la, todos os dias pela manhã, era uma mistura de alegria e tormento. Talvez fosse a hora de se abrir com alguém, de dividir sua vida – de verdade – pela segunda vez. Não sabia se ia dar certo, mas tinha certeza de que queria tentar.
Aquele sorriso fazia tudo valer a pena.
Não almoçaram juntos naquele dia. Mari foi fazer testes de balística na Academia da Polícia e ligou, já no final da tarde, para avisar Peter que não tinha hora para voltar. Ao invés de ficar chateado, ele tentou ver algo de bom naquilo. Ligar para dizer que vai se atrasar é coisa típica de... “namorados”. Talvez o relacionamento dos dois estivesse, lentamente, progredindo. Nada de Foo Fighters, nada de conversa... Talvez, também, nada de revelar sua identidade secreta. Mas isso podia esperar.
Podia viver um dia de cada vez.
E, quando a hora certa chegasse, saberia o que fazer.
Até lá, precisava encontrar uma forma de relaxar. E já tinha em mente o que ia fazer naquela noite.
Alyosha Kravinoff estava entediado.
Mais uma festa em sua cobertura – outro exemplo do quanto ele gostava de esbanjar a fortuna do pai – tinha terminado com a polícia batendo à sua porta. As acusações de que promovia orgias e consumo de drogas nunca chegaram aos tribunais. Suas festas eram badaladas, mas não era um criminoso.
Não como seu pai.
Sergei Kravinoff viera para a América, anos antes, sob a alcunha de Kraven – o Caçador, disposto a abater a maior presa de todos os tempos: o Espetacular Homem-Aranha. Humilhado seguidas vezes pelo herói mais popular de Nova York, Kraven enlouqueceu. Um plano mórbido – que envolvia enterrar o Homem-Aranha vivo e assumir seu lugar – culminou com seu suicídio. Um aristocrata, amante das belas-artes, curto e entediado: a combinação que quase significou o fim do Aracnídeo.
Mas o clamor por vingança fez com que outro membro da família Kravinoff viesse atrás do Homem-Aranha: Vladimir, sob a alcunha de “Caçador Sinistro”, tentou matar o herói, culpando-o pelo que fizera a seu pai. Para Alyosha, Vlad era tão insano quanto o pai. Mas era incompetente. Não deu o menor trabalho ao herói e acabou sendo morto pela monstruosidade conhecida como Kaine.
Al Kraven era o último da linhagem. Também tinha enfrentado o Aranha anteriormente, mas tinha outras preocupações mais prementes do que se digladiar pela cidade por... motivo algum. Na verdade, chegava a considerar o Homem-Aranha um amigo. Já lutaram juntos em mais de uma ocasião. Tinha visto uma nobreza de princípios no Homem-Aranha que, talvez, nem seu pai fosse capaz de notar. Não conseguia entender como alguém era capaz de arriscar sua vida daquela forma todos os dias, sem nenhuma recompensa ou gratificação. Não colecionava troféus nem recompensas. Que tipo de homem era aquele?
O Deus que fez seu pai era o mesmo que fez o Homem-Aranha? A mesma mão o forjara?
Jamais saberia.
Seu pai estava morto e, de certa forma, aquilo era um alívio. Não se importava com o legado sangrento da família Kravinoff. Tudo em que conseguia pensar era aproveitar ao máximo. Naquela noite em particular, resolveu não fazer mais uma de suas festas. Atrizes, modelos, cantoras, ex-participantes de reality-shows, alpinistas sociais, pretensas celebridades, todas queriam participar das festas de Al Kraven. Ele era rico, bonito, solteiro e, segundo os boatos, um amante como nenhum outro. Na lista de suas conquistas, estavam mulheres como Gwen Stephani, Elisha Cuthbert, Adriana Lima e Tigresa, dos Vingadores. Para citar apenas algumas.
Al Kraven trocaria todas elas pela emoção da caçada.
Talvez seu pai estivesse certo, afinal. Talvez tudo aquilo fosse muito fugaz, muito passageiro. Precisava dar um sentido à sua vida. Precisava encontrar algo pelo qual valesse à pena morrer. Mas, diabos, vestir uma fantasia de leão e brigar com o Homem-Aranha não fazia sua cabeça!
O jovem Alyosha foi até a varanda de sua cobertura e, de lá, começou a apreciar a cidade. Atrás de si, estavam muitos dos troféus conquistados por seu pai e por ele mesmo. Cabeças de animais, armas e, num lugar de destaque, o traje de Kraven – o Caçador.
A brisa noturna não o ajudou a acalmar mais do que o copo de whisky em suas mãos. Estava tenso, como se algo estivesse terrivelmente errado ao seu redor. Estava ficando velho. Um playboy numa vida de excessos, como Bruce Wayne ou Tony Stark. Queria mais do que aquilo. Talvez devesse doar toda sua fortuna para caridade e começar a viajar pelo mundo como um eremita, tentando reconquistar tudo.
Era o filho do Caçador. Nada estava fora do seu alcance.
Qual era o propósito de sua existência, afinal?
Abaixou a cabeça, sem encontrar a resposta, olhando para o fundo do copo. Foi quando percebeu, em seu peito, três pontos vermelhos formando um triângulo. Antes que tivesse tempo de se perguntar o que era aquilo, antes mesmo de pensar no que estava acontecendo, se jogou no chão e uma pequena explosão destruiu a mobília atrás de si. Aquilo era uma mira laser e alguém estava tentando matá-lo!
Correu abaixado para dentro de sua cobertura, atrás das armas de seu pai. Sabia de onde tinha vindo o disparo pela posição do laser e do móvel destruído, mas não sabia que arma era capaz de fazer um estrago daqueles, nem quem estaria tentando matá-lo. Algum inimigo de seu pai, talvez? Ou alguém tentando roubar o “trono” do “maior caçador de mulheres de Manhattan”?
Talvez as armas de seu pai não fossem o bastante, mas era o que tinha em mãos.
Um rifle de precisão, uma rede e uma faca.
Virou-se rapidamente, prestes a estourar os miolos do invasor, assim que ouviu o som pesado de alguém pulando até sua varanda. Mas não viu ninguém. Notou, uma fração de segundo antes de ser tarde demais, uma distorção atrás da grande parede de vidro que lhe dava a mais bela vista noturna da cidade. Atirou duas vezes, enquanto a distorção assumia uma forma demoníaca sobre duas pernas e avançava, atravessando o vidro, indiferente aos disparos.
O monstro disparou de novo com o que devia ser um pequeno canhão, destruindo obras de arte avaliadas em dezenas de milhões de dólares. Alyosha não se importava. Podia comprar outras. Não era do tipo que se lamenta por ver um original de Monet desaparecer numa bola de fogo. Enquanto tivesse dinheiro, sempre poderia comprar mais. Sua única dúvida era se viveria o bastante para isso.
Não sabia se era a súbita descarga de adrenalina, mas não conseguiu conter uma gargalhada enquanto tentava se lançar no mano-a-mano contra seu adversário. Sentiu-se possuído por uma força da natureza, uma besta que gritava seu nome e o fazia se lançar contra a própria morte, sem medo, sem hesitação:
Kraven! Kraven!
Acertou dois bons socos no invasor, mas não o suficiente para derrubá-lo. Ele era incrivelmente forte e parecia estar protegido por um elmo, ou máscara. Já Kraven, não tinha proteção nenhuma. Tinha acabado de sair do banho e estava apenas com um roupão. Caiu pesadamente quando seu adversário o atingiu no peito com garras afiadas. Abafou o grito de dor, provocando-o:
– O Caçador virou caça?
Antes que obtivesse resposta, cravou fundo sua faca na perna de seu agressor, arrancando um grito que, por Deus!, não era humano. Al Kraven jamais ouvira algo assim em toda sua vida. Talvez por puro reflexo, a criatura o repeliu com um chute.
Alyosha sentiu uma ou duas costelas quebrarem quando atingiu a parede. Aquele chute era mais do que um ser humano normal poderia fazer. Estava sem a faca e sem o rifle. Esperou a criatura se aproximar.
Seus passos eram como os de um dragão.
E arremessou a rede.
Usando nada mais do que suas mãos, a criatura começou a rasgar a rede. Kraven já estava preparando o próximo ataque, quando um velho conhecido apareceu, pulando nos ombros de seu agressor e desferindo uma série de socos contra sua cabeça:
– Homem-Aranha!
– Surpreso em me ver?
– O que você está fazendo aqui?
– Noite tediosa. Vim ver se conseguia o telefone da Brooke Hogan com você, mas acabei encontrando o Hulk Hogan!
– Seu idiota, saia daí – gritou Kraven, enquanto se levantava para voltar para a batalha.
– Eu pego ele, gostosão – disse o Homem-Aranha, sem parar de desferir socos contra a criatura que continuava tentando escapar da rede.
– É assim que se faz – respondeu o Caçador, em tom de desafio, golpeando o mais forte que pôde.
A criatura se desvencilhou, arremessando-os longe e usando afiadas garras para mantê-los afastados. A média distância, o Homem-Aranha e o Caçador encaravam um ponto no meio da sala de estar da cobertura, onde o misterioso predador deveria estar. Foi quando o Sentido de Aranha salvou a vida de Peter.
Um afiado disco metálico passou a poucos milímetros de sua cabeça, indo em seguida atrás de Kraven. O Caçador teve tempo de se antecipar ao ver o Homem-Aranha quase ser morto, mas o tempo que gastou se esquivando foi suficiente para ouvir os passos pesados correndo em direção à sacada.
– Cara, o que foi aquilo!?
– Aquele “Predador” tentou me matar. Vamos, temos que ir atrás dele.
– Você vai assim!?
– Se não se incomoda, vou com as roupas de meu pai.
O Homem-Aranha não disse nada, mas achava aquilo perturbador. O pai de Alyosha o tinha enterrado vivo por dias. Aquele foi um dos maiores traumas que já enfrentou. Ver Al Kraven, tão parecido com o pai, naquela estúpida fantasia de leão, o deixou incomodado.
– Não fique aí parado. Vamos!
Kraven saltou da sacada usando o equipamento de seu pai. Cordas, chicotes, boleadeiras, facas e redes. Era como voltar ao passado. Peter torceu para que aquilo não o distraísse durante a luta.
– Que diabos era aquilo?
– Não sei. Não parecia humano – respondeu Kraven, sentindo-se incrivelmente à vontade no traje, balançando-se pela cidade ao lado do inimigo de seu pai.
– Achei que fosse outra de suas festinhas...
– Não acredite em tudo que lê nos jornais. Eu não sou um criminoso.
– Bom, eu também não...
– Não se preocupe. Eu não leio o Clarim.
De fato, os dois podiam até ser amigos. Claro que havia uma rivalidade muito grande entre eles, mas não se odiavam. Longe disso. Peter via em Alyosha uma versão invertida do pai. Admirava-o por ser capaz de deixar bobagens sobre “vingança” de lado. Era um adversário formidável. Já Al Kraven via no Aranha um exemplo a ser seguido. A América era tão corrupta, que somente num país tão atrasado um herói seria perseguido pela imprensa. “Maldita liberdade de expressão”, pensava consigo. Talvez comprasse o Clarim um dia desses.
O apartamento de cobertura de Al Kraven não era longe do Central Park. Os dois foram até o maior dos lagos, esperando encontrar seu misterioso adversário entre as árvores.
– Algum sinal dele?
– Não. Você?
– Também não.
Alyosha sabia que o Aracnídeo tinha sentidos extremamente aguçados, o suficiente para detectar a aproximação do Predador. Já o Caçador contava com o próprio ambiente para lhe “dizer” onde estava sua caça.
A informação veio um segundo tarde demais, num clarão de luz e fúria, como um relâmpago cortando sua alma em dois. Ele viu a lâmina bem à sua frente, mas não conseguiu entender como ela tinha ido parar ali, nem porque ela estava suja sangue.
Em seus últimos pensamentos, tentou avisar o Homem-Aranha de que tinha encontrado o Predador, mas a voz não saiu. Perdeu a consciência antes mesmo de atingir o solo, quando o caçador alienígena arrancou a lança com a qual tinha empalado Kraven de suas costas.
O herdeiro do maior caçador do mundo não serviu sequer para o aquecimento do Predador.
– É assim que se faz...
– Surpreso em me ver?, pareceu responder a criatura.
O pavor ameaçou tomar conta do herói Aracnídeo. Mas não por causa da face horrenda de seu adversário, o hálito cáustico ou a saliva rançosa que estavam a milímetros de sua máscara... Não era a iminência da morte que o assustava.
O Predador, seja lá de que mundo ele viesse, tinha acabado de matar Al Kraven.
O filho de Kraven, o Caçador.
Peter e Alyosha não eram exatamente amigos. O russo, contudo, já tinha superado há muito as bobagens sobre “vingança” que sua tradição familiar tentava lhe impor. Kraven morreu vítima da própria loucura, da sua obsessão doentia pelo herói. Seu irmão, Vladimir, se entregara à mesma insanidade que ceifara a vida do pai, até morrer nas mãos de Kaine. Al Kraven, por sua vez, era apenas um bon vivant, um jovem entediado que gastava a fortuna herdada do pai em festas e orgias com celebridades.
Tinha o sangue do Caçador nas veias, isso era inegável. A fúria, o fogo no olhar implacável. Mas buscava “presas” bem mais agradáveis na noite.
Até aquela noite.
Até o momento em que o Predador tentou invadir sua casa, sendo detido por Alyosha e pelo Homem-Aranha.
Até o momento em que o monstro alienígena transpassou o herdeiro da família Kravinoff com uma lança, deixando seu corpo vazio caído no chão, tudo rápido demais para que pudesse gritar ou mesmo sentir dor.
O Homem-Aranha jamais saberia, mas o metal da lança do Predador tinha propriedades anti-coagulantes. Nenhum hospital poderia salvá-lo naquelas condições. E agora, o Predador estava prestes a acabar com ele também.
Peter ainda estava aprendendo a lidar com sua nova teia orgânica. Desde que fora atacado pela Mulher-Aranha, sofreu uma série de enjôos. Sua fisiologia estava se adaptando ao veneno, tentando defendê-lo. E fez isso da única maneira que entendia: criando uma arma. As novas teias eram resistentes, bastante elásticas e extremamente confiáveis. Seu corpo parecia capaz de produzi-la indefinidamente.
Já tinha usado o Sentido de Aranha como um “radar”, na tentativa de localizar o Predador em seu “traje stealth”. O monstro podia se camuflar no ambiente com extrema facilidade, mas não o suficiente para enganar o Homem-Aranha. Conseguiu determinar sua posição e golpeá-lo, com muita violência. Porém, o caçador alienígena era muito forte. Com o que mais o Homem-Aranha poderia contar?
O que mais uma aranha poderia fazer em uma situação como essa?
O Predador estava de quatro em cima de Peter, prestes a usar as garras em seu pulso direito para degolá-lo. Não tinha por onde escapar, com um adversário tão pesado em cima do seu corpo.
Mas aranhas são conhecidas por escaparem de lugares improváveis.
Podia contar com sua agilidade!
Quando o Predador ergueu o braço direito para o golpe de misericórdia, Peter deu uma cotovelada no braço esquerdo, que estava apoiado no chão, na altura do cotovelo. O monstro se desequilibrou por uma fração de segundo, apenas o suficiente para que o Aranha passasse por baixo de seu braço e, como um lutador de jiu-jitsu, aproveitasse o pequeno espaço que tinha e o peso de seu oponente para puxá-lo para o chão, enquanto tratava de escapar. Foi tudo tão rápido, que o monstro não teve tempo de virar o rosto para tentar ver por onde o Homem-Aranha tinha escapado. Um pisão na cabeça ia garantir que ela beijasse o gramado do Central Park.
– Muito bem, feioso... vamos jogar sujo!
Tomou distância enquanto o adversário se levantava. Para o Aranha, jogar sujo significava bater com toda força onde doía mais, e não espancar um adversário caído no chão. Esperou até que a fera se levantasse. Esperou que ele erguesse os braços, como se agradecendo pela oportunidade do combate, como se comemorasse o fato de seu inimigo não se entregar sem luta.
O Predador encarou Peter friamente, assumiu posição de ataque e, entre suas presas, balbuciou palavras que o próprio Homem-Aranha tido dito horas antes:
– Noite tediosa...
– E quando vamos conhecer seu novo namorado, Mari?
– Ele não é meu namorado, mamãe – respondeu Marianne Potter.
– Mas você quer que seja... certo?
Mari sorriu, encabulada. Detestava quando sua vida sentimental era o assunto da hora do jantar. Gostava de conversar sobre Peter, mas fazer isso com seus pais e seu irmão era completamente diferente.
– Tá, eu gosto dele. Mas não sei se vai dar certo. O Peter é muito misterioso, muito fechado... Pensa sem falar, fala sem pensar... Eu ainda estou tentando me acostumar com esse jeito dele.
– Se bem conheço você, quando começa a falar desse jeito, é porque logo vai estar fazendo juras de amor eterno... – disse Babette, a mãe de Mari. – Perdi a conta de quantas vezes já te peguei suspirando pela casa!
– Mãe!
– O Peter parece ser gente boa – disse Harry, o irmão adolescente de Mari.
– Peter? – perguntou David, o pai. – Achei que, depois dessa cicatriz que ele deixou na sua testa, o nome dele fosse Voldemort.
– Não tem graça, pai! Putz, não bastava eu ter o nome de um moleque-bruxo-emo-chato-de-doer, agora tenho que agüentar piada dentro da minha própria casa!?
– Quem mandou ter esse nome?
– Você! Velho chato...
– É verdade.. Mas pense bem... “Peter Potter” seria muito...
– Deixa pra lá, pai...
– Ok. Mas é sério, Mari. Todos estamos ansiosos pra conhecer o futuro sr Mari Potter. Como semana que vem nós vamos fazer uma festa pro seu tio...
– Festa? Que festa?
– Não soube? Meu primo Fabian saiu da prisão.
– O Fabian Ochopprenhauser saiu da prisão?
– Sim. Ele voltou para o Brasil para tentar reconstruir a vida dele, mas não deu muito certo. Semana que vem ele estará aqui, é o aniversário dele e vamos fazer um churrasco aqui em casa em homenagem aogaúcho.
– “Gaúcho” não é quem nasce no Uruguai?
– Não, Harry. Meu primo é do sul do Brasil, de uma simpática – segundo ele – cidade chamada “Pelotas”.
– Bwehehe...
– Não ria. Isso é sério. Ele vai estar aqui e vamos chamar a família toda pra um típico churrasco gaúcho. Ia ser muito legal se o Peter pudesse vir. O que me diz, Mari?
Marianne pensou por um momento. Sem dúvida, seria a ocasião ideal para passar mais tempo com Peter, longe do ambiente de trabalho. A oportunidade que ela tanto queria. Contudo, ela ainda tinha uma pulga atrás da orelha... Aliás, uma aranha...
– Só espero que ele não tenha nenhum “outro compromisso”...
Eu tenho que trabalhar amanhã cedo, cacete!
Peter tentava manter distância de seu adversário, usando socos, chutes e sua teia. O Predador, contudo, tinha uma envergadura bem maior e ainda contava com as lanças e garras. Quando a distância entre os dois diminuía, o alienígena usava a força bruta para compensar a agilidade superior do Aracnídeo.
O Homem-Aranha já tinha levado dois socos no rosto, estava machucado e sangrava bastante. Será que ia colar se dissesse no laboratório que caiu no metrô?
Os dois continuavam lutando, perseguindo um ao outro entre as árvores do parque e até derrubando algumas pelo caminho. O Predador, ao contrário do que seu tamanho sugeria, era bastante ágil e sabia usar o terreno em seu favor. Apesar de não contar mais com a camuflagem de seu traje, por vários momentos chegou a confundir o Homem-Aranha, desaparecendo de sua vista. Era em instantes assim que ele se tornava mais ameaçador.
Subitamente, o silêncio. Exceto pelos sons característicos da cidade, o Central Park ficou calmo novamente, como todas as noites. Peter não ouvia nenhum som, não percebia nenhum movimento, mas estava alerta. Seu Sentido de Aranha não o deixava relaxar. Sabia que, se fosse pego pelo Predador, não teria uma segunda chance.
De repente, seu Sentido de Aranha disparou com o impacto de uma explosão dentro de sua cabeça. Peter sabia exatamente a direção em que o Predador estava, mesmo não sendo capaz de vê-lo entre as árvores. Contudo, percebeu três pontos vermelhos diretamente no símbolo de aranha em seu peito.
Saltou, o mais rápido que pôde, enquanto pequenas explosões destruíam o terreno ao seu redor. O Predador tinha um canhão de longo alcance, a arma ideal para caçar alguém tão perigoso no combate corpo-a-corpo quanto o Homem-Aranha. Os disparos continuavam, tentando encontrar um padrão nos saltos do herói, mas não havia nenhum. Era virtualmente impossível acertar o Aranha usando a lógica ou estatística. Ele seguia seus instintos, seguia o Sentido de Aranha, e não havia como prever qual seria seu próximo movimento.
Afinal, era o Sentido de Aranha que previa o próximo movimento do adversário. Tentar surpreendê-lo era muito difícil pois, no instante seguinte, ele não estaria mais no lugar para onde todos acharam que iria. O que ele fazia era continuar se movendo, buscando diminuir a distância, cada vez mais parte, passando pelos disparos, contornando fogo e estilhaços, até ter certeza de que poderia atingir seu algo.
A teia percorreu o espaço com precisão, até atingir o canhão no ombro do Predador. Mesmo às cegas, Peter podia contar com o Sentido de Aranha para se orientar. Com um tranco, arrancou o artefato, derrubando o Predador de uma árvore até atingir pesadamente o solo.
O Predador parecia incrédulo. Sempre que um Yautja vinha caçar na Terra, algo inesperado acontecia. Era impressionante como aquela espécie fraca tendia a despertar grandes guerreiros em situações de desespero. Um humano acuado podia ser pior que uma fera de Dxun. Talvez devesse...
– Levanta.
Aquela voz... O humano? O humano viera desafiá-lo?
– Levanta, feioso. Levanta e eu garanto que você vai levar a maior surra da tua vida!
O tom de voz do Homem-Aranha... Era um desafio, tinha de ser.
O tipo de desafio que um Yautja considerava irrecusável!
A violência continuou entre as árvore, com socos sendo desferidos dos dois lados e danos a ossos e músculos. Peter teve a impressão de ver um líquido verde escorrendo da boca do Predador após um chute... Seria sangue?
Não importava. Ia continuar batendo até a fera cair. Estava cansado, sujo, ensangüentado, mas não ia descansar até levar o assassino de Al Kraven à Justiça.
Mas, que tipo de “Justiça” existe para casos assim? Um monstro alienígena, com padrões morais e comportamentais completamente diferentes dos nossos, uma cultura sem precedentes na nossa literatura legal, poderia ser presa e condenada por um crime que nem ao menos entendia? E se, em seu mundo, os criminosos fossemos nós? E se ele estivesse aqui para nos punir?
Lembrou-se de Al Kraven caindo morto, sem entender como a lança do Predador subitamente apareceu em seu peito.
Alienígena ou não, a criatura ia pagar caro pelo que fez!
Continuaram se digladiando, atracados com uma determinação férrea, destilando ódio até caírem em um grande lago, o Reservatório Jacqueline Kennedy Onassis. Estavam na margem, mas a água atrapalhava os movimentos. O Homem-Aranha acreditava que, para alguém com o peso do Predador, a dificuldade fosse ainda maior. O alienígena tomou distância e sacou um disco de metal do cinto, pressionando nele o que pareciam ser controles. Novamente, pôde contar com sua agilidade. O disco foi arremessado e parecia buscar o Homem-Aranha. Se fosse feito do mesmo metal que a lança, certamente seria fatal.
Numa pista próxima ao lago, um jovem praticava tranqüilamente seu esporte preferido. Corria despreocupado, enquanto ouvia suas músicas favoritas no iPod. Não tinha notado a confusão na parque, não percebeu que a polícia já tinha sido chamada e começava a se aproximar. Apenas corria, mantendo a forma, mesmo naquele calor.
O corpo quente.
O disco.
Atraído pelo calor, o disco mudou sua trajetória, indo buscar um alvo próximo que se movimentava em linha reta, diferente do Homem-Aranha. Os circuitos estavam programados para localizar fontes de calor. Para o artefato, todas as fontes de calor eram um alvo em potencial.
O Homem-Aranha percebeu o que estava acontecendo, mas tinha pouco tempo para salvar rapaz. Distante cerca de vinte metros do rapaz, era impossível deter uma lâmina tão afiada com a teia, não naquela velocidade. Fez a única coisa que parecia ter sentido: atingiu o jovem com suas teias e o puxou, livrando-o por milímetros de ser degolado. Começou a puxá-lo para o lago, o mais rápido que conseguia, enquanto o disco descrevia um arco no ar e voltava para o seu alvo. Esperava que a água fria confundisse os sensores do disco, salvando a vida do rapaz. E foi o que aconteceu.
Ao entrar em contato com a água fria, ficou invisível aos sensores do disco, que voltou a buscar o Homem-Aranha. O rapaz fez menção de se levantar, mas o Aranha gritou: “Fique deitado!” Obviamente, ele entendeu que aquilo era a única coisa que poderia salvar sua vida.
Foi quando o Homem-Aranha teve uma idéia que poderia salvar sua vida. Percebendo o arco que o disco descreveu no céu ao perder seu alvo, saltou em direção à parte mais funda do lago e mergulhou. O disco não tinha autonomia suficiente para se esquivar até mergulhar na água também, onde ficava mais lento e seus sensores ficavam “cegos”. O Homem-Aranha aproveitou a oportunidade e o envolveu com sua teia, apenas o suficiente para que o disco não escapasse. Logo em seguida, esmagou-o com um murro.
Uma pequena explosão o atingiu. Quase sem fôlego, nadou para a superfície. O rapaz ainda estava deitado na margem, mas o Predador tinha sumido. Ao longe, o som de sirenes.
E explosões.
Não muito longe dali, o Predador apanhava sua máscara no chão e a vestia novamente. Conectou os tubos que o permitiam respirar melhor e que garantiam pequenas doses de alimento. Foi, então, até o corpo do “caçador” humano. Uma presa fácil de ser abatida, bem diferente do seu companheiro.
Mas a vez dele ainda ia chegar.
Com um tranco, arrancou a cabeça e a espinha do “caçador”, Al Kraven. Seu troféu de batalha. Enquanto prendia o crânio ao seu cinto, ouviu o som do caos urbano. Sirenes. E gritos.
– Pare aí mesmo! Abaixe as armas!
Não era capaz de entender os “grunhidos” dos humanos, mas sabia que era inútil tentar aprendê-los. O planeta contava com centenas de idiomas para suas diferentes regiões. Era surpreendente que uma cultura assim não estivesse entregue ao caos, incapaz de se comunicarem entre si.
O Predador se virou lentamente, observando os veículos e suas luzes coloridas. Esperavam surpreendê-lo com aquele espetáculo? Ou intimidá-lo? Não importa. Não ia perder mais tempo. Já tinha o que vinha buscar. Era questão de tempo até rastrear o outro e matá-lo também – sem dúvida, um troféu muito mais significativo.
Os policiais continuavam esperando algum sinal de rendição do Predador, que não vinha. Resolveram dar um ultimato:
– Entregue suas armas imediatamente ou vamos começar a atirar!
Pelo tom de voz, aquilo era um desafio!
O Predador arremessou sua lança em direção a um dos quatro veículos, atingindo onde provavelmente ficava o motor. Não tinha mais o disco nem o canhão, então precisava improvisar. A explosão dispersou os policiais, dando ao alienígena a oportunidade de correr até outro dos carros. Valendo-se de sua força, ergueu-o e o jogou por cima de outro. Os policiais, já reagrupados, começaram a atirar. O Predador fugiu, dessa vez para fora do parque, sob uma torrente de disparos.
Precisava chegar até seu covil.
Estava bem no meio da Quinta Avenida, uma das mais movimentadas de Manhattan, se desvencilhando de caminhões e táxis apressados. Correu até um bueiro e, arrancando sua tampa, ganhou os esgotos. A série de controles em seu pulso lhe proporcionavam um mapa da rede, bem como o caminho mais curto para chegar até o seu covil. Enquanto verificava, não viu o Homem-Aranha se aproximando.
A briga recomeçou, furiosa, com os dois oponentes se arremessando nas paredes do túnel. Estavam cansados, mas sabia que só havia um final possível para aquela batalha. O Homem-Aranha passou a golpear os equipamentos que o Predador tinha no pulso, nas costas e no ombro. Era uma maneira de deixá-lo sem recursos para lutar. Iam resolver isso no mano-a-mano.
Para o Predador, havia uma grande vantagem em enfrentar o Homem-Aranha dessa forma. Tinha músculos mais fortes, ossos mais resistentes e um couro quase impenetrável. Mas o Aranha não desistia, não relaxava e não dava espaço. Sua determinação tinha aumentado ao ver o corpo de Kraven no parque, sem a cabeça. Se precisava de mais uma motivação para deter o Predador, era aquela.
Alyosha...
A cabeça...
Monstro...
Assassino!
Os dois caíam no chão e se reerguiam, derrubavam o oponente e observavam enquanto ele se levantava. No entanto, nenhum dos dois conhecia tão bem assim as galerias de esgotos, uma malha de centenas de quilômetros de túneis se estendendo por baixo de toda Manhatan. Com um chute, o Homem-Aranha estourou a máscara do Predador, derrubando-o em um túnel por onde o esgoto caía vários metros. Com o barulho da água, não o ouviu atingindo o fundo. Seu Sentido de Aranha indicava que não havia perigo. Resolveu olhar.
O monstro estava pendurado na parede do túnel pelas garras em seu pulso. No fundo, apenas a escuridão. Não dava pra ver o que tinha lá embaixo, se um grande tanque de água ou o chão. Ficou encarando o rosto horrendo do Predador, que olhava de volta para ele de maneira implacável.
Podia largá-lo ali.
Podia tentar derrubá-lo.
Mas resolveu estender-lhe a mão:
– Vamos... segure-se!
A risada da criatura era horrível e ecoava pelas galerias como um filme de terror. O Predador não estava levando a sério a “tentativa de salvamento”. Não, não era assim que funcionava. Os humanos sabiam tão pouco...
– Pare de rir e segure minha mão, anda logo! Eu estou tentando salvar você!
– Acabei encontrando o Hulk Hogan, respondeu o monstro, soltando-se da parede e deixando-se cair rumo à escuridão.
Peter estava frustrado. Não tinha como descer até lá, não tinha como saber se o monstro ainda estava vivo. Foi rápido demais para que pudesse usar a teia, rápido demais para entender que aquela criatura tinha um código de honra distorcido, um padrão moral que lhe impunha caçar até a morte. Lutar e vencer sempre. Quando foi derrotado, se lançou no abismo.
Na escuridão.
O Homem-Aranha ficou se perguntando se valeria a pena avisar a polícia onde poderiam encontrar o corpo do Predador ou se ainda o enfrentaria novamente. Teve receio por quem ficasse em seu caminho pois, da próxima vez, a criatura estaria muito mais furiosa.
Lamentou por Kraven, um jovem rico com a vida inteira pela frente.
Pensou em Mari e em como ia explicar os hematomas no serviço no dia seguinte.
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