The Amazing Spider-Man
21 Capitulo 21 - Máxima Carnificina - Parte 1
Clínica Ravencroft, Nova York
– Eu quero falar com a doutora Carrol.
– Com quem!?
– Com a doutora Carrol, Carol Carrol.
– Ah, sim. Só um minuto.
”Que raio de nome é esse? Carol Carrol? Só podia trabalhar no hospício, mesmo”, pensou o guarda, enquanto ligava para a sala da Dra Carrol.
– Qual o seu nome, amigo?
– Lewis. Eu sou o pai dela.
– Ah, claro. Dra Carrol? Seu pai está aqui. Sim, senhora.
– E então?
– Ela disse para o senhor subir. Terceiro andar, sala 18.
– Obrigado.
O pai da Dra Carrol passou, então, pela segunda revista naquela manhã. A primeira foi logo ao entrar no prédio onde funcionava a Clínica Ravencroft. Não que fosse necessário, com o detector de metais e os raios-x, mas era o protocolo de segurança. Uma nova revista, antes de entrar no elevador, era apenas para garantir que ele não havia roubado nada na portaria que pudesse ser usado como arma.
O elevador tinha duas câmeras e um guarda. Possivelmente, outros sistemas de segurança também. Lewis não resistiu e perguntou ao guarda:
– A próxima revista é antes ou depois de eu sair do elevador?
Mas a resposta do guarda não foi nada engraçada:
– Depois.
E, realmente, Lewis foi revistado pela terceira vez.
Pelo menos, era a última. A Dra Carrol o aguardava:
– Papai! Lamento não ter ido jantar com o senhor ontem...
– Você está trabalhando demais, querida...
– É que... Bom, eu sou a mais nova aqui, mas o trabalho é tão... intrigante.
– Psiquiatria é intrigante? Pensei que você apenas precisasse manter os loucos aqui dentro.
– Não, papai. A idéia é tentar ajuda-los a sair um dia.
– Bom, eu sou a favor da pena de morte.
– Não vamos discutir essas coisas! E então? A que horas o senhor vai?
– Meu vôo é ao meio-dia. Passei aqui para me despedir.
– Ah, papai, eu sinto muito por não termos tempo para um almoço... Mas, eu prometo que, quando o senhor voltar, as coisas vão estar mais tranqüilas por aqui.
– Não se preocupe, filha. Não pretendo demorar muito nessa viagem. Vamos ter outras oportunidades. Só me diga uma coisa: eu fui revistado três vezes até chegar aqui! Quantas vezes mais até eu conseguir sair?
– Heh! Nenhuma, papai. Eles não querem que o senhor entre com algo aqui que possa ser usado como arma. Mas não há nada para se levar daqui. O senhor não vai mais ser incomodado.
– Ufa! Isso é constrangedor!
– Mas o senhor sabe que é necessário, né? Lembra-se de Cletus Kasady, o Carnificina?
– Como eu poderia esquecer? Ele quase transformou a cidade num matadouro!
– Pois então, ele está preso aqui. Algum maluco pode querer trazer alguma arma para ele, por isso temos que nos precaver.
– Eu entendo. Mas, pelo que eu sei, o Carnificina não precisa de armas, certo?
– Não, realmente não precisa. Eu tenho trabalhado muito nesse caso, mas é... frustrante. Com suas habilidades, ele se torna mais mortífero do que... sei lá, o Coringa.
– Não está pensando em se mudar para Gotham, está?
– Não, papai! Fique tranqüilo!
Nesse instante, o intercom interrompeu a Dra Carrol.
– Dra Carrol, por favor, compareça à sala de medicação.
– Papai, o senhor me aguarda só um minuto? Parece que vou ter que alterar a medicação de alguém...
– Eu espero, filha. Aproveita e trás pra mim algum remédio pra eu dormir durante a viagem.
– Até parece... Já volto.
O escritório da Dra Carrol refletia sua personalidade: totalmente organizado e limpo. Era difícil entender como uma brilhante, jovem e bonita psiquiatra ainda estava solteira. Mas sua obsessão pelo trabalho acabava com quaisquer chances de um relacionamento duradouro. Não que ela já não tivesse tentado... Mas, muita para frustração de seu pai, seus relacionamentos acabavam rápido demais. Talvez fosse o único aspecto de sua vida que não fosse capaz de organizar. O telefone tocou. Lewis achou que não haveria problema algum em atende-lo enquanto sua filha não voltava. Puxou-o do gancho, mas tudo que ouviu foi um ruído muito alto.
Pensou em desliga-lo, mas ouviu um “psiu” do outro lado da linha.
”Psiu! Ei, você!”
Colocou o telefone no ouvido.
Uma fina agulha perfurou seu tímpano até chegar ao cérebro.
– Atrasado de novo, Parker?
Peter Parker não era um mau funcionário. Pelo contrário. Cinco minutos ao lado dele e ficava claro para qualquer pessoa o quanto ele se dedicava ao trabalho. O único problema era o horário.
Ele era péssimo em chegar no horário.
A Universidade Empire State tinha um bom plano de carreira para jovens pesquisadores. Cientistas, como Peter. Pagava melhor que o Clarim e ainda tinha bonificações durante o ano. Mas, na verdade, chegar atrasado era a menor reclamação que Peter já tinha ouvido. Muitas vezes, ele sequer se dava ao trabalho de aparecer.
Cortesia, é claro, de seu emprego noturno, como o Amigão da Vizinhança, o Homem-Aranha.
– Eu sinto muito, sr Simmons, mas eu tive que...
– Parker, por favor... Ninguém mais é criança aqui. Chega de desculpas. Eu já levei uma prensa do diretor por causa dos seus atrasos. Sua falta de responsabilidade prejudica todo o trabalho da UES! Eu não posso mais tolerar atrasos, Peter. Entendeu?
– Entendi, sim, senhor. Mas é que...
– Chega, Peter! Essa conversa terminou. Volte ao trabalho.
Peter já estava acostumado com aquilo tudo.
Problemas no emprego, na faculdade, no colegial, em casa, na rua, com namoradas, com a esposa... Sua vida dupla sempre lhe trouxe problemas. E já sabia como lidar com eles. Não era tão difícil assim ouvir um sermão de vez em quando.
Mas não tinha um só dia em que Peter não se perguntava se, um dia, poderia finalmente deixar o Homem-Aranha de lado. Fazer do mundo um lugar melhor, ao lado da Liga da Justiça, ou do Quarteto, e poder ter uma noite de paz.
Viver num mundo sem armas.
Será que... nenhum de vocês... entende isso?
Ele ainda tinha pesadelos, desde aquela noite, quando o Homem-Aranha encontrou Semeghini e dois agentes do FBI. (*)
E Semeghini matou uma criança.
Será que... nenhum de vocês... entende isso?
Ainda não tinha perdoado o chefe de polícia, e não sabia se, um dia, seria capaz de faze-lo. Talvez devessem conversar, talvez devessem...
– Parker! Preste atenção, rapaz! Estou falando com você!
– O quê? Ah, desculpe, Sr Simmons, é que...
– Por favor, Peter! Eu não quero que as coisas cheguem a esse ponto! Faça seu trabalho!
– Sim, senhor...
Foi um dia bem longo.
Chegou em casa sem muita paciência.
– Boa tarde, Peter. Você demorou hoje.
– Eu resolvi fazer uma horinha extra, tia May. Pra compensar os atrasos.
– Ah, muito bem, querido. Espero que seu chefe não tenha ficado chateado.
– Quem, o Sr Simmons? Não, ele é gente boa. O problema é que ele me deu uma prensa hoje, resolvi fazer uma média.
– Peter, está tudo bem? Você tem estado quieto ultimamente, e esses atrasos...
– Não é nada, tia. É que... Saudades da Mary Jane, sabe?
– Por que não liga para ela?
– Bom, eu... Não tenho muito que dizer...
– Diga que está com saudades, oras. Não precisa ficar inventando pretexto para ligar, vocês dois se conhecem muito bem. Ligue para ela, pergunte como estão as coisas...
– É... Até que a senhora tem razão, tia May... Vou fazer isso.
Foi meio que um golpe baixo mentir para a tia May, mas isso era apenas mais um inconveniente de sua vida dupla. Mas, afinal de contas, ela tinha razão! Ligar para a Mary Jane era uma ótima idéia! Isso o ajudaria a relaxar, esquecer os problemas... Talvez até dormir melhor. Ouvir a voz dela era sempre um alívio.
– Alou... Mary Jane?
– Sim... Oi, Peter! Eu estava pensando em você!
– Sério!?
– É! Me convidaram pra dublar a voz de um personagem qualquer no filme do Garfield.
– Wow!
– Sabia que você ia gostar dessa, gatão! Mas, e aí? Como vão as coisas?
– Ah, bom... eu...
O telefone ficava perto da TV. Estava passando o noticiário. Enquanto a âncora do jornal falava, as principais notícias de última hora passavam em legendas na parte de baixo da tela..
– Mary Jane, você consegue assistir o noticiário?
– Ora... Claro, Peter! Por que?
– É que... A âncora está falando, mas fica passando um monte de notícias na parte de baixo da tela... O que eu faço? Presto atenção no que ela está falando ou no que está escrito embaixo?
– Hahahahaha! Ora, Peter! Presta atenção nela! Uma hora ela vai comentar a notícia que está passando embaixo!
– Ah, saquei... Cara, esse pessoal da CNN não colabora comigo mesmo...
– Hahahaha! Não acredito que você me ligou só pra perguntar isso!
– Bom, na verdade... Eu liguei sem motivo. Só queria conversar com você um pouco.
– É mesmo? O que é que está te incomodando, Peter?
”Saudades”.
– As coisas estão meio complicadas na UES... Ta mais fácil agüentar o Jameson do que...
Peter estava prestando atenção nas notícias que passavam escritas na tela.
A piada errada, na hora errada.
A Clínica do Instituto Ravencroft foi isolada hoje, sob os rumores de que o criminoso conhecido como Cletus Kasady, o Carnificina, teria conseguido fugir...
– Peter?
– Mary Jane, eu preciso desligar agora.
– Peter, aconteceu alguma coisa?
– Espero que não, mas preciso verificar. Eu te ligo.
– Tá bom, Peter. Só não me deixe preocupada.
– Ok, eu...
”...te amo.”
– Peter?
Mas ele já tinha desligado o telefone.
O Instituto Ravencroft fica na Avenida Columbus, próximo à Catedral de São João, na parte Norte de Manhattan. O Aranha pegou a Ponte Queensboro e desceu a First Avenue, atravessou o Central Park e desceu o Boulevard Frederick Douglass em tempo recorde.
Mas, se Cletus Kasady estivesse envolvido, certamente não seria tempo suficiente.
A polícia já tinha cercado o prédio. Uma multidão de repórteres e curiosos se aglomerava a alguns metros dali. Apesar do ressentimento, o Homem-Aranha foi conversar com seu contato na polícia:
– Semeghini, o que aconteceu?
– Aranha? Pensei que...
– O que aconteceu?
Semeghini suspirou ao perceber que confiança daquele a quem considerava um amigo estava seriamente abalada. Mas tinha um dever a cumprir. Podia se preocupar com isso depois.
– O Carnificina está solto. De alguma forma, ele trancou todos lá dentro e começou uma matança. Funcionários, médicos, seguranças... Mais de vinte mortos. Não sabemos ainda como ele conseguiu escapar. Tentamos invadir, mas cinco homens morreram e dois estão gravemente feridos.
– Eu vou entrar lá.
– Aranha, não é uma boa. Ele está fora de controle.
– Eu nunca enfrentei o Carnificina sob controle.
– Quer me escutar? Ele...
– Não tenho tempo pra isso.
– Meus homens estão mortos! Acha que eu quero mais mortes? Acha que eu quero a sua morte!? Você não está entendendo, alguma coisa nele mudou! Quando o primeiro dos meus homens caiu, perfurado por uma lança do corpo do Carnificina, ele se levantou e atirou nos colegas! Como se estivesse... possuído!
– O Kasady nunca teve esse poder...
– Mas agora, de alguma maneira, ele tem. Seus colegas estão sempre morrendo e ressuscitando, ficando elétricos ou sabe-se lá mais o quê. Por que a surpresa? Um dos meus melhores policiais, Aranha! Seus olhos estouraram quando o Carnificina... o possuiu. Cara, às vezes eu odeio esse emprego.
Os dois olharam para o prédio, pensando em alguma maneira de libertar os reféns. Não se sabia ainda quantos tinham morrido, nem mesmo quantos estavam lá dentro. Todas as informações sobre o pessoal que trabalha no Instituto Ravencroft são altamente confidenciais. Eles estavam aguardando um novo contato.
– Não dá pra esperar, Semeghini. Eu vou entrar lá.
– Pelo menos, espere alguma ajuda! Os Vingadores, ou a Liga...
– Eu tenho certeza que o Carnificina vai matar todas as pessoas lá dentro. Quanto antes resolvermos isso, melhor.
– Ele vai matar você também!
– Paciência.
– Não seja ridículo, Aranha! O que você espera conseguir com isso?
– E o que você espera conseguir ficando aqui parado? Sacrificar os seus colegas moribundos?
Aquela tinha batido forte. “Então é isso”, pensou Semeghini. “Tudo se resume a isso.”
À raiva do Homem-Aranha pelo que Semeghini teria feito a Raphael Meheshin. Mas, antes que pudessem conversar sobre o que acontecera naquela noite, um corpo foi arremessado do quarto andar da Clínica.
Dois paramédicos foram correndo até o corpo. Já estava morto. Os olhos foram substituídos por duas enormes feridas coaguladas.
Mas o Carnificina tinha mandado uma mensagem, gravada com suas garras afiadas no peito do médico que tinha matado:
Eu troco dez reféns por dez policiais. Beijos, Carnificina.
Os paramédicos se olharam, mas não tiveram a chance de fazer qualquer comentário sobre a violência insana do Carnificina. O médico, que deveria estar morto, levantou-se e, num rápido movimento, quebrou o pescoço de um deles. Quando tentou estrangular o outro, levou um tiro na cabeça de um atirador de elite.
A muito custo, conseguiram trazer os dois corpos para as equipes de emergência. Enquanto começavam os exames, dez homens se apresentaram como voluntários para serem trocados pelos reféns. Entraram no prédio desarmados enquanto o Aranha e Semeghini aguardavam os reféns libertados.
Os policiais caminharam pelo saguão principal, que estava deserto e subiram no elevador. A capacidade era para apenas oito pessoas, mas eles acharam melhor irem todos juntos. Conseqüentemente, o elevador travou logo após o primeiro andar.
– Ei, está tudo bem. Chamem os bombeiros!
Os colegas riram nervosamente.
Subitamente, perceberam que, desde o teto da cabine do elevador até o chão, começava a escorrer sangue. Olharam-se tentando entender o que estava acontecendo. Mas, antes que pudessem chegar a uma conclusão, o sangue começou a formar gotas, não em direção ao chão, mas como se quisesse sair das paredes. Então, as pequenas gotas transformaram-se em pontas e dispararam, matando dez policiais com centenas de ferimentos.
Do lado de fora, a porta do compartimento de carga e descarga se abriu. Um carrinho usado para transportar roupa suja saiu, descendo lentamente pela rampa. Os corpos dos dez reféns que o Carnificina prometera libertar estavam lá dentro. Com um bilhete:
Obrigado. Estavam deliciosos! Tem de framboesa?
O Aranha voltou a discutir com o chefe de polícia:
– Semeghini, eu tenho que entrar lá.
– Não.
– O Carnificina não vai parar enquanto você for teimoso!
Semghini levantou-se e gritou, segurando o Aranha pelo pescoço:
– Eu era o responsável pelas vidas deles, agora tenho que avisar quinze mulheres de que, agora, elas estão viúvas!
O Aranha finalmente compreendeu.
Era o efeito que o Carnificina causava nas pessoas, muito parecido com o que ele tinha visto da primeira vez que o monstro assolou Nova York.
Ele trazia à tona tudo que havia de pior.
Seus demônios interiores, a contra-inteligência.
Era necessário combater fogo com fogo.
– Semeghini, é isso que ele quer.
O chefe de polícia entendeu rápido o recado.
Resolveram conversar com os médicos:
– O que descobriram?
– Há uma anomalia no sangue do médico que o Carnificina, aparentemente, “possuiu”. Mas essa anomalia não consta do prontuário do médico. Como não temos acesso ao prontuário do Carnificina, por causa da segurança do Instituto, não temos como confirmar se foi ele que causou.
– Que anomalia é essa?
– Traço falciforme. Não chega a ser uma doença, mas é detectado em recém-nascidos quando fazem o PKU.
– PKU?
– O “exame do pezinho”. Se ficar comprovado que Cletus Kasady tem traço falciforme, então podemos deduzir que o Carnificina possuiu a mente desse homem com seu sangue.
Dentro de sua sala, encolhida em um canto, a Dra Carol Carrol olhava para o corpo de seu pai, os olhos transformados em dois coágulos ensangüentados. Ela saiu por um instante para assinar uma nota de medicação e, quando voltou, seu pai tentou mata-la. Felizmente, ela foi mais rápida e seu pai perdeu as forças antes que o pior acontecesse. Agora a Dra Carrol estava amedrontada demais para sair. Sabia que estava presa no inferno, apesar de não fazer a mínima idéia do que estava acontecendo do lado de fora. Mas tinha um forte palpite.
Agarrada ao prontuário médico de Cletus Kasady, encolheu-se mais ainda e começou a rezar.
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