The Amazing Spider-Man
20 Capitulo 20 - Arquivos X
Em algum beco de Nova York...
Não estava muito quente. Era apenas mais uma noite em Nova York, daquelas movimentadas, com muitas luzes colorindo a malha escura do céu. O tipo de noite que ele gostava.
Mas nunca durava muito. Havia movimento nos becos, viaturas da polícia e um corpo coberto. Outro crime, outra noite na vida do Espetacular Homem-Aranha.
O chefe de polícia Semeghini estava lá, fazendo anotações em um caderninho.
– Boa noite, Aranha.
– Boa noite, Semega. Quanto tempo.
– É, você anda sumido.
– Que nada. Tou sempre por perto. O que aconteceu?
– Foi morto com um golpe na cabeça – disse o chefe de polícia Semeghini, erguendo o lençol que cobria o corpo de um homem, aproximadamente em seus quarenta anos. – Nada foi roubado. Segundo os documentos, ele se chama Morgan Herschel. Deixou a esposa e um filho.
– Pistas? Motivos?
– Não. Tudo que sabemos é...
– Abram caminho! Detetive Semeghini? – disse um homem, aproximando-se.
– Chefe de polícia. E você...?
Semeghini fez questão de frisar que era chefe de polícia, e não apenas um detetive. Mas o homem ignorou o desconforto de Semeghini:
– Agente Especial Fox Mulder, FBI.
– Grande!
– Estamos assumindo o caso...
– “Estamos”?
– Sim, minha parceira está conversando com seus peritos. Somos dos Arquivos-X... — Grande coisa. Vão em frente. Aranha, você...
Semeghini olhou em volta, mas o Homem-Aranha não estava mais lá.
– “Aranha”, Semeghini?
– É. Meu amigo imaginário. Sua especialidade, não? Casos imaginários.
Semeghini retirou-se da cena do crime, enquanto sua equipe o seguia. A parceira do Agente Mulder começou a examinar o cadáver:
– Fazendo amigos, Mulder?
– Minha reputação me precede. O que temos aí? — Nada digno de ironias, suponho. Apenas mais um crime em Nova York. O que faz dele um caso para os Arquivos-X, Mulder? — As outras mortes, Scully. — Que outras mortes?
– Henry Watkins, 32 anos, morto aqui em Manhattan há dois meses. Seu irmão tinha AIDS. Scott Baumann, 36 anos, morto aqui em janeiro, sua mãe tinha tuberculose. Samira Madan, morta nestes becos em dezembro, o filho tinha Esclerose Lateral Amiotrófica...
– Ok, Mulder. Três pessoas assassinadas, cuja única ligação são os parentes com doenças terminais. Como o senhor Herschel aqui se encaixa nesse esquema?
– A esposa dele tem câncer. Eu estou com um pressentimento sobre este lugar, Scully. Uma suspeita sobre algo que aconteceu anos atrás e que pode ser o elo de ligação entre esses assassinatos.
Os dois agentes se afastaram, em silêncio. Oculto nas sombras, o Homem-Aranha decidiu não segui-los.
Um pouco mais tarde...
– ... e foi isso o que eu ouvi, Semega.
– Entendendo. Obrigado pela ajuda, Aranha. Vou procurar o que eu tenho aqui sobre essas mortes que ele mencionou e vamos ver se descobrimos quem é nosso misterioso assassino antes deles...
– Mas, Semega... Não me leve a mal... Mas não deveríamos trabalhar com o FBI, ao invés de fazermos esse joguinho de “tiras-bonzinhos-contra-tiras-maus”? Sem querer ofender... Temos mais chances se trabalharmos com eles...
Semeghini fez pose, como se fosse começar um discurso. E, de fato, foi o que fez:
– Aranha, você é um vigilante solitário, mas não é egoísta. É difícil explicar... Mas há muita política envolvida no nosso ramo, muita sujeira. Já vi pessoas boas serem pisadas apenas por fazer o que é certo. Então, a gente acaba fazendo o que é “errado”. Ou garantimos nosso trabalho, ou o perdemos, com nossa competência sendo questionada por gente que nunca viu nosso trabalho.
– Que diferença isso faz, contanto que o assassino seja preso?
– O salário que recebo no fim do mês e a família que tenho para sustentar. É neles que penso quando faço isso. Essa é a diferença entre passar o caso para o FBI ou eu mesmo cuidar disso, ainda que eu peça sua ajuda. Afinal, você é, tecnicamente, um fora-da-lei.
– Ainda acho que vocês deveriam encontrar um jeito de trabalharem juntos.
– Claro. Diga isso ao Batman, da próxima vez que for a Gotham.
– Blááá.
– Heh! Temos trabalho a fazer, Aranha.
De volta aos becos...
Na noite seguinte, o Homem-Aranha patrulha a área em que os assassinatos ocorreram. Semeghini está nos becos, à paisana. Tudo que descobriram sobre os crimes anteriores, citados pelo Agente Mulder, é que eles jamais foram solucionados. E, devido ao grande intervalo entre eles, ainda não tinham sido associados.
Perto dali, um homem se esgueira, perseguindo Semeghini. O Sentido de Aranha foi respondido um segundo tarde demais... O chefe de polícia é abordado, mas, antes que o agressor possa sacar uma arma, o Aracnídeo salta até o solo e o prensa contra a parede:
– O que você tem aí, vagabundo!?
O “vagabundo” não estava sacando uma arma. Estava sacando uma credencial...
Agente Especial Fox Mulder, FBI.
– Ops...
– Parado! – gritou a parceira de Mulder, apontando sua arma para o Aranha. – Largue-o agora ou eu atiro!
– Ta tudo bem, Scully – disse Mulder. – Esse é o “amigo imaginário” do Semeghini. Caso resolvido!
– Ok, ok... dei brecha. Mas por que você atacou o Semeghini? – disse o Aracnídeo, soltando o agente.
– Nessa roupa de mendigo, nem o reconheci.
– Roupa de mendigo o escambau! – protestou Semeghini. – Você também não está lá no ponto de participar de um desfile...
– Que seja. Mas, já que estamos todos aqui, acho que podemos trabalhar juntos – continuou Mulder.
– Como assim? – interrompeu Semeghini.
– Vocês estão investigando os assassinatos, certo? Vamos ter mais chances de pegar o assassino se trabalharmos juntos.
Infelizmente, a máscara do Homem-Aranha não revelava sua expressão irônica para Semeghini. Mas o chefe de polícia se sentiu capaz de ler os pensamentos do Aracnídeo, dizendo: “Ta vendo, anta?”
– Bom, Mulder... O Aranha e eu não descobrimos muita coisa... Exceto sobre as outras mortes, e sobre a relação entre elas: todos tinham algum parente com doença terminal.
– Certo. Vocês já ouviram falar de Raphael Meheshin? Um garoto de oito anos da Costa Oeste, que ficou famoso há cerca de cinco anos atrás, em um desses programas sensacionalistas de TV. O “menino-curandeiro”. Ele supostamente curou várias pessoas com AIDS, câncer, entre outras doenças incuráveis. Ele desapareceu inexplicavelmente da mídia em pouco tempo e, pelo que descobrimos, as pessoas assassinadas ouviram falar nele e vieram procura-lo para que ele curasse seus entes queridos.
– De todos os lugares no mundo, ele veio se esconder justo numa cidade do tamanho de Manhattan?
– Onde mais ele poderia passar desapercebido, Aranha? No meio de milhões de pessoas, onde ninguém o conhece, do outro lado do país. Não acho que ele seja o assassino. É apenas uma criança. Mas só vamos descobrir se o encontrarmos. Sugiro nos dividirmos para procurar. Os becos são muito emaranhados.
O Aranha olhou para Semeghini, não esperando aprovação, mas querendo saber para onde tinha ido aquele papo de “não cooperar com agências rivais”.
Mulder e o Aranha seguiram em frente, enquanto Scully e Semeghini foram por outra viela:
– Agente Scully, eu... lhes devo desculpas. Interpretei mal a intervenção do FBI nessa história.
– Em quase dez anos de FBI, essa é a primeira vez que ouço alguém da polícia pedir desculpas...
– É sério! Fui meio... provinciano.
– Não se incomode. Então... você é amigo do Homem-Aranha?
– De certa forma. Você parece não ter simpatizado muito com ele.
– Eu o achei meio... repelente. Sem querer ofender, mas... Rastejando pela parede, todo encurvado...
– Entendo. Mas ele é gente boa. Seu parceiro parece bem à vontade com ele.
– O Mulder já viu muito mais coisas estranhas do que o tal “escalador de paredes”. Mas e você? Prefere a ajuda de um vigilante fora-da-lei do que do FBI?
– Heh! Agora você me pegou. Mas eu confio no Aranha. Parte de mim gostaria de ser como ele.
Scully não teve tempo de pensar no que Semeghini dissera. O golpe na têmpora a derrubou.
Cinco minutos atrás...
– Um o quê?
– Golem. Feito de barro. Grande e forte pra burro, Aranha.
– E eu que achava o Croc muita encrenca...
– A gente vê coisas estranhas nesse ramo.
– Nem me fale. Sabe o Professor Crane?
– O Espantalho?
– Ele mesmo. Um dos casos mais bizarros que me envolvi. (*)
– E você disse que é membro da Liga da Justiça?
– Bom... Membro reserva-afastado-extra-oficialmente. Vida pessoal atribulada, sabe como é...
– Não, não sei. Faz tempo que não tenho vida social.
– Hmmm... E sua... “parceira”?
– Scully? Bom, eu nunca ia me perdoar se algo acontecesse com ela, mas...
Um tiro o interrompeu.
Correram em direção do som e encontraram Semeghini apontando sua arma para a porta de madeira de um prédio abandonado, enquanto Scully se levantava:
– Scully! Você está bem?
– Estou, Mulder.
– O que aconteceu?
– Fomos atacados, Mulder – respondeu Semeghini. – Uma mulher a atingiu com um pedaço de caibro e correu para dentro desse prédio. Eu não consegui pega-la.
– Deixa comigo – disse o Aranha, enquanto colocava a porta abaixo com um chute.
– “Isso é um trabalho para o Homem-Aranha”? – ironizou Mulder, sacando sua arma e preparando-se para entrar no prédio.
– Muuuito engraçado – devolveu o Aracnídeo.
Os quatro entraram. Exceto pelo Aranha, empunhavam armas e lanternas, caçando sombras no meio da escuridão do prédio condenado. A bagunça predominava. Madeiras podres, portas caídas e escadas nada confiáveis estavam cobertos por uma camada de sujeira. O Homem-Aranha acendeu a lanterna em seu cinto:
– O que é isso? – perguntou Mulder.
– A lanterna do meu cinto, ué.
– Mas ela tem a... sua cara!?
– Ta com inveja porque não dá pra colocar a sua cara no foco da lanterna, né?
– Vão embora!– gritou uma voz alguns andares acima. – O meu Raphael não pode ajuda-los!
– Nós não queremos lhes fazer mal! A senhora é a mãe de Raphael Meheshin?
– Vão embora!– gritou mais uma vez, jogando algumas madeiras na tentativa de acerta-los. O Homem-Aranha e o Agente Mulder já procuravam uma maneira de subir.
– Senhora Meheshin, queremos apenas fazer algumas perguntas...
– Se você quer saber se fui eu quem matou aquelas pessoas, a resposta é sim! E vou fazer o mesmo com vocês se for preciso!
Nisso, a Agente Scully e Semeghini encontraram uma rampa que dava acesso aos andares superiores. Mulder os acompanhou, enquanto o Aranha ia pela parede.
– Senhora, essas mortes foram mesmo necessárias? – perguntou Scully, tentando ganhar tempo.
– Se você tivesse filhos, saberia, sua vaca! Todos querem um pedaço do Raphael! Todos querem arrancar um pouco do meu filho! Por que não o deixam em paz?
– Não queremos feri-lo, senhora!
– É claro que não! Só querem leva-lo a um daqueles malditos programas de TV, onde vão obriga-lo a ficar doente para salvar um bando de ingratos que nunca fizeram nada por ele!
– Obriga-lo a... o quê?
– Quando ele tirava seus tumores, suas lepras e suas feridas cheias de pus, nunca se perguntaram para onde elas iam? Cada vida que ele foi obrigado a salvar tirou um pouco dele... Ele contraiu câncer, AIDS, hepatite, lepra, cirrose e edemas, doenças que nunca ouvi falar e nenhum médico conseguia diagnosticar, gripes comuns, peste bubônica e vírus alienígenas, enquanto aquele programa de TV idiota não nos dava um centavo e todas as pessoas que ele ajudou viravam as costas para nós... Ele curou 345 pessoas, e poderia curar muito mais, mas ele não pode curar a si próprio! Então, vão embora e me deixem dizer adeus ao meu filho, suas sanguessugas do inferno!
Scully e Mulder se olharam. A Agente Scully já tinha se recuperado de um câncer, a custa de muito sofrimento (**). Uma pessoa capaz de extirpar qualquer câncer merecia, no mínimo, ser estudado. Já Mulder achava que esse era o tipo de dom capaz de chamar a atenção da Comunidade Científica Internacional para as questões mutantes. Além de serem vítimas de ódio e preconceito, seus dons poderiam ser utilizados por pessoas inescrupulosas.
Semeghini se lembrou de uma pessoa que muito amava, presa a um leito por 13 longos e malditos anos, mas afastou quaisquer pensamentos que pudessem distraí-lo.
Já o Homem-Aranha não conseguia deixar de pensar em quantas pessoas cruzaram seu caminho e encontraram um fim trágico. Tio Ben, Harry Osborn... Até mesmo Felicia Hardy... George Stacy... Gwen... Talvez Raphael Meheshin não pudesse fazer nada por essas pessoas, mas pudesse fazer algo pelo mundo. Ou talvez o mundo pudesse fazer algo por ele e finalmente deixa-lo em paz, mas num lugar com um mínimo de dignidade, não naquele pardieiro. Quando finalmente conseguiram chegar ao andar em que a mulher estava, ela tentou correr, mas foi traída pelo piso apodrecido. O Homem-Aranha saltou para tentar salva-la, enquanto Mulder, Scully e Semeghini correram até a porta que ela tentava proteger.
O Aranha chegou tarde para salvar a mãe de Meheshin. A queda foi grande demais e a mulher já tinha a saúde muito debilitada pela falta de alimentação, falta de higiene e até pelo contato com o filho. Mesmo assim, ela tentou balbuciar umas últimas palavras:
– Por que... todos... querem um pedaço... dele?
– Nós queremos ajudar! Ninguém vai machucar o Raphael...
– Ele já está... além... de qualquer ajuda...
– Não diga isso! O Professor Richards, ou Hank McCoy podem encontrar...
– ... uma cura? Raphael... é a cura. A panacéia universal. Mas isso... vai mata-lo... Eu sou... a mãe dele.. Será que... nenhum de vocês... entende isso?
– Senhora, seu filho vai estar em boas mãos, eu...
O barulho de um tiro fez o Aranha estremecer. A mãe de Raphael contorceu seu rosto, como se tentasse chorar, mas seu espírito abandonou o corpo antes que derramasse a primeira lágrima.
O Homem-Aranha escalou as paredes o mais rápido que pôde e entrou no quarto. Raphael Meheshin era uma única ferida. Deitado em seu leito, contemplava o céu, seus olhos sem vida procurando entre os anjos pelo carrasco que disparara o tiro de misericórdia. Um tiro que o abençoou com o descanso eterno, junto da mãe. Semeghini foi o primeiro a tentar falar:
– Aranha, eu...
”‘Eu’ o quê, Semeghini!?” – pensou consigo o Aranha. “Eu não o matei”, “Eu não tive escolha” ou “Eu fiz o que achei certo”?
Como se matar fosse certo. O Aranha jamais entenderia como, num mundo de mentes brilhantes como Stephen Hawking, Charles Xavier ou Ray Palmer, podia ser aceitável matar alguém para “poupa-lo” de seu sofrimento antes de lhe dar uma chance. O último som que aquela mulher ouviu foi o tiro que matou seu filho, quando tudo que ela queria era estar ao lado dele em seus últimos momentos.
Mas eles tinham que entrar lá, com seus distintivos, armas ou – até ele próprio! – uniformes! Mas Semeghini chegou perto demais do Aranha para tentar conversar.
O soco o arremessou do outro lado do quarto.
– Aranha, acredite! Nós sabemos como você está se sentindo, mas...
O Aracnídeo não perdeu tempo ouvindo a Agente Scully. Virou as costas e caminhou rumo à porta. Antes de sair, Semeghini concluiu o que tentava dizer:
– Aranha, eu ia te dizer que sinto muito... Mas ele implorou! Voce não ouviu a voz dele, não viu como ele respirava! Não foi uma decisão fácil pra nenhum de nós...
Envolto nas sombras, o Aranha se sentiu sufocado pela escuridão daquelas almas. Precisou fazer um esforço sobre-humano para conter a vontade de vomitar, mas, com o gosto amargo da bílis na boca, respondeu:
– Assassinos...
Retirou-se dali e passou os dias que se seguiram sem conversar com ninguém, sem comer ou sorrir.
Será que... nenhum de vocês... entende isso?
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