The Amazing Spider-Man

1 Capítulo 1 - Criaturas da Noite


"Nova York, duas e quarenta da manhã. É a madrugada mais fria do ano e, é claro, eu tinha que estar aqui fora congelando. Mas era passar friodentro de casa...""

O Aracnídeo salta entre os prédios, o vento gelado apunhalando sua pele. Seus movimentos são precisos, mas, ainda assim, graciosos. Vista da rua, seria confundido facilmente com um vulto. Mas havia algo de sutil nele, quase um balé acima das ruas, sobre os edifícios de Manhattan.

""...ou aqui na rua. E aqui sempre tem um trombadinha encrenqueiro para um aquecimento!""

Sobre uma gárgula, ele observa o céu, pensando no longo e tenebroso inverno que sua vida tinha se tornado. Clones, ressurreições, separações... Que surpresas a vida ainda lhe reservava? O que o Espetacular Homem-Aranha ainda não tinha visto nesse mundo (ou em outros)?

- Olha só! Meus marginais preferidos!.

Quinze andares abaixo, Gordo, Cepacol e Mintira conversavam e bebiam ao redor de uma fogueira, num dos becos sujos de Nova York. Não estavam fazendo nada de errado, mas...

- FALAAAAA, galera!

- Homem-Aranha!

- Onde?

Os três pareciam bastante nervosos. Já tinham sido presos pelo Aranha várias vezes, por diversos crimes pequenos: furto, extorsão, seqüestro-relâmpago... E serviam como informantes do Aranha quando algo diferente rondava a cidade. Faziam qualquer negócio para não apanhar do Aracnídeo.

- Nós estamos limpos, Aranha! Cai fora!

- Ah, qualé, Gordo!? Numa noite dessas vocês costumavam ficar no bar do Babão. Expulsaram vocês de lá, é? Tentaram roubar a dentadura do pilantra do Babão e ele deu uma surra de bengala em vocês?

- Não enche! — gritou Mintira. — A gente tem toda a pinga que precisa aqui, deixa a gente em paz! Não estamos fazendo nada errado!

Mas o Aranha não estava mais lá. Os marginais realmente não carregavam armas ou drogas, mas um leve tilintar do sentido de Aranha acusava algo errado. Ia ficar de olho, por via das dúvidas.

""Mas agora é bom voltarpara casaantes que a tia May perceba que eu saí!""

O Aranha lançou-se aos céus novamente em direção ao Queens.

""‘O Espetacular Homem-Aranha volta correndo para casa antes que sua tia descubra que ele está combatendo o crime sem o casaquinho!’ Não é a toa que eu não sou convidado para a Liga da Justiça...""

De volta à sua casa, Peter Parker olhou no relógio: quase quatro horas! Uma xícara de chocolate antes de dormir ia bem. Ligou o computador e começou a pegar os e-mails.

- Hmmmm... E-mail da Oráculo, agradecendo pelas informações que levaram à captura do Parasita. Uma dentro! E-mail do Robbie perguntando onde estão as fotos da luta entre o Fanático e os Titãs. Uma fora... E-mail da Debra perguntando por que eu não fui no curso de Tai-chi-chuan. Hmmm... Dentro ou fora? Deixa pra lá. E-mail da... A ZATANNA RESPONDEU! A sorte do Aranha começa a mudar e... Droga. Resposta automática. Outra fora. E-mail do Dr. Langstrom... Ei! O que é isso?

""Prezado Parker, creio que as informações que você forneceu batem com o que tenho em mãos. Acredito que encontrei a cura para livrar o Dr. Curt Connors de uma vez por todas da maldição do Lagarto. Irei para Nova York amanhã e espero encontrá-lo na Universidade Empire State às sete para discutirmos o assunto.""

- Às sete? Isso que dizer que eu só tenho duas horas de sono pela frente? E eu tenho que sair cedo da cama com esse frio?

Peter deu um último gole no chocolate e pulou na cama.

- Mais um dia na vida do Espetacular Peter-sem-sorte!

E Peter adormeceu pensando no seu velho amigo, Curt Connors, vulgo Lagarto. Após ter perdido o braço num acidente de laboratório, o Dr. Connors passou a se dedicar a extrair, dos répteis, uma substância que regenerasse os tecidos, podendo devolver membros amputados a pessoas que os tivessem perdido em acidentes ou na guerra. Mas o soro era instável e, na ânsia de descobrir se funcionava, o Dr. Connors o testou em si mesmo. Os efeitos colaterais o transformaram no lagarto-humano que tantas vezes o Aranha tentara salvar... antes que ele o matasse!

Universidade Empire State, manhã seguinte.

Peter andava pelo corredor do prédio de ciências, resmungando baixinho. Devia ter dormido mais. A barba por fazer dava a impressão que ele tinha passado a noite numa festa e acordara de ressaca, coisa que os seus professores odiavam. E, para alguém que ia conhecer um cientista renomado, Peter parecia tão bem quanto Gordo, Cepacol ou Mintira.

No laboratório de genética, umhomem alto, magro, mas jovial e de boa aparência, se adiantou:

- Peter Parker? Kirk Langstrom...

- Dr. Langstrom! É um prazer finalmente conhecê-lo pessoalmente! Li os seus estudos completos sobre alteração de tecidos por osmose, é muito abrangente!

- Sim, sim, é o trabalho da minha vida e, coincidentemente, do Dr. Connors também. A Fundação Wayne vem financiando minhas pesquisas há anos e finalmente o dinheiro investido vai ajudar a vida de outras pessoas.

- Ah, sim, eu espero poder conhecer o Sr. Wayne pessoalmente em breve. Os laboratórios da Wayne Tech são referencial até para a S.H.I.E.L.D. Agora, se me desculpe a pergunta, como o senhor tomou conhecimento do caso do Dr. Connors?

- Passei por um problema similar há alguns anos. Felizmente, tive ajuda do Batman...

- Batman? O senhor o conhece?

- Sim, ele e Wayne foram determinantes para minha recuperação. Quando voltei a trabalhar, comecei a pesquisar casos semelhantes e soube do Dr. Connors... Que tragédia! Mas recebi o aval da Wayne Tech para pesquisar uma fórmula que pudesse ajudar Connors e, a medida que meu trabalho progredia, me puseram em contato com você. Me disseram que você era oúnico alunodo Dr. Connors que tinha tido contato com os estudos dele sobre genética...

- É verdade. Eu desenvolvi o soro que o Homem-Aranha usou para curar o Dr. Connors. Infelizmente, os efeitos foram passageiros...

- Ora, você conhece o Homem-Aranha?

- Bom... Já tirei umas fotos dele pro jornal, e ele era o único que conseguia chegar perto do Dr. Connors quando ele...

- Me conte durante o café, Parker. Deve ser uma história fascinante!

Mundo pequeno. O Aranha jamais saberia, mas Batman o tinha na mais alta consideração. Por isso, Wayne indicara Peter Parker para ser o contato do Dr. Langstrom na U.E.S. Como o Batman sabia sobre a dupla identidade do Aranha? Ora, o que o Batman não sabe??? De qualquer forma, a identidade do Lagarto era um segredo conhecido apenas pelo Aranha, o Dr. Langstrom, a sra. Connors e... Batman, claro.

- Bom, Parker, meu soro anula a transformação, mas não os efeitos do soro. O soro vai continuar no corpo do Dr. Connors até que seu corpo o assimile, mas, até lá, será o fim do Lagarto. Só precisamos fazer alguns acertos antes dos testes e...

- Entendo. Mas, Dr. Langstrom, como o senhor sabe que funciona dessa forma?

- Já ouviu falar no Morcego-Humano, Parker?

A fisionomia do Dr. Langstrom se alterou. Do simpático cientista nerd para um homem amargo, com a voz profunda, demonstrando cicatrizes recentes na alma.

- Bom... Já, mas... De modo geral, o Morcego Humano é confundido com o Batman...

- Sim... Mas o Morcego Humano é, na verdade, uma alma tão atormentada quanto a do Dr. Connors. O Batman desenvolveu um soro para curá-lo, que eu aperfeiçoei. Posso garantir que funciona. O Dr. Connors vai precisar de acompanhamento psicológico, e provavelmente sua família também, mas os recursos da Fundação Wayne estarão à disposição dele.

- Entendi — disse Peter, sentindo um calafrio ao notar a alteração em Langstrom. — Bom, acho que já temos informações o suficiente para começar...

Langstrom voltou a sorrir:

- Exatamente, Parker! Vamos lá!

- Aqui estamos, Dr. Langstrom. Esse é o laboratório que serviu para os estudos do Dr. Connors, meu professor e amigo. Eu vou entrar em contato com a mulher dele, talvez ela saiba algo sobre seu paradeiro.

- Claro, Parker. Muito obrigado. Eu ligo assim que tiver concluído.

- Certo, Dr. Langstrom, até mais.

O empenho de Kirk Langstrom em encontrar uma cura para o Lagarto era impressionante. Peter era incapaz de imaginar o tormento que tomara conta da vida daquele homem. Mas a parte difícil ia ser encontrar Connors, desaparecido há vários dias. Talvez se o Escalador de Paredes amigo do Dr. Connors der uma ajudinha...

Ao anoitecer, o Homem-Aranha começou sua ronda pela cidade. No Clarim, conversou com Ben Urich sobre as últimas aparições do Lagarto e seu provável paradeiro. Mentalmente, passava os detalhes sobre a fórmula de Langstrom, e como ela podia ser combinada com o soro do Lagarto para curar Connors.

- O Dr. Langstrom parece certo... Tomara que a fórmula funcione e... Opa! Peraí! Olha lá, meus marginais favoritos!

Vários metros abaixo, na rua, Gordo, Cepacol e Mintira abriam uma garrafa de vodka, sendo surpreendidos pelo Escalador de Paredes. Cepacol, que segurava a garrafa, a deixou cair.

- Pô, Cepa! Nem oferece?

- Qualé, Aranha!? Larga do nosso pé! Eu já disse que não estamos fazendo nada de errado!

- É, mas por algum motivo eu não acredito em vocês. Procurar emprego honesto, que é bom, nada, né!?

- Não enche! O que você quer?

- Informações. Dizem que o Lagarto está a solta...

Os três malandros se olharam, pensativos.

- Não sei, não... — disse Gordo. — Mas alguns animais foram encontrados estraçalhados no Central Park, e perto da Universidade... Eu não ouvi nada sobre o Lagarto, mas bem que podia ser ele caçando...

- Qualé, Gordo!? Aqueles cachorros foram estraçalhados por um Chupa-cabras!

- Cala a boca, Mintira, foi o Coringa que fez isso!

O Aranha achou melhor não estender a conversa e foi encontrar o Dr. Langstrom na U.E.S.

Universidade Empire State, momentos depois.

- Dr. Langstrom?

- Quem...? Homem-Aranha!

- Soube que o senhor estava na cidade para ajudar o Dr. Connors. Resolvi dar uma mãozinha.

- Muito obrigado, Homem-Aranha! Peter Parker me falou que você ajudou o Dr. Connors com essa história do Lagarto em outras ocasiões...

O Homem-Aranha entrou no laboratório e começou a passar os olhos pelo trabalho do Dr. Langstrom. Realmente, o homem era um gênio, rivalizando o próprio Dr. Connors.

- Pois é, o Dr. Connors é um bom amigo já me ajudou antes. Se o senhor realmente criou uma fórmula eficiente, eu posso localizar o Lagarto para inocularmos o antídoto do Lagarto nele.

- Ah, obrigado, Aranha! Mas acho que não será necessário... Terminei o soro há duas horas atrás e passei o resto do tempo desenvolvendo um hormônio que atraia répteis. Você viu alguma coisa no Campus?

- Uns marginais disseram que alguns cachorros foram estraçalhados aqui perto e no Central Park. Não são as melhores fontes, mas podia ser o Lagarto caçando. Quanto a seu hormônio, tem certeza que ele pode atrair o bicho? Achei que sua especialidade fosse quirópteros...

- Morcegos, claro. Mas tem um monte de anotações do Dr. Connors aqui, eu trabalhei em cima delas. É claro que não é minha área, mas...

- Entendi. Bom, eu espero o senhor terminar. Se eu puder ajudar em alguma coisa...

- Claro! Pode tomar nota daquela cultura celular para mim? Peter Parker me falou de seus conhecimentos científicos, isso não deve ser estranho para você...

- Não mesmo, deixa comigo!

O pesadelo estava próximo do fim. Graças a ajuda do Dr. Kirk Langstrom, a família de Connors finalmente teria um pouco de paz. E o Aracnídeo poderia retribuir um pouco do que Connors tinha feito por ele, como quando ajudou o herói a se recuperar de um ataque do Parasita. Talvez ele até conseguisse tirar algumas fotos do Lagarto antes dele desaparecer para sempre. Assim, podia arrancar algum dinheiro do pão-duro do Jameson. Tia May ia ficar contente.

(Contanto que ela não soubesse que o sobrinho tinha tirado fotos de um monstro como o Lagarto. Mas, desde que Peter voltou a morar junto com a tia, o Aranha tem trabalhado muito para conseguir boas fotos. As fotos do Lagarto podiam render dinheiro suficiente para Peter começar a procurar fotos menos perigosas.)

Um leve tilintar na cabeça do Aracnídeo o trouxe de volta. O sentido de aranha! O que Langstrom estava tramando? O herói o segurou pelo braço antes que ele tentasse alguma coisa.

- Homem-Aranha, o que você está fazendo?

- O que você está fazendo, Langstrom? Alguma coisa está errada aqui!

- Eu? Ora, eu estou fazendo o hormônio que vai atrair o Lagarto! Está pronto, veja...

O sentido de aranha disparou. O Aracnídeo ouviu um rugido atrás do Dr. Langstrom e finalmente se deu conta. O perigo não era Langstrom. O sentido de aranha estava tentando avisá-lo de que o Lagarto estavaali dentro.