The 100
1 Caminhando no deserto
“O mundo mudou há 97 anos” foi o que me disseram, mas, julgando pelo que me contaram a respeito de como ele “mudou” e o que via agora, tinha que me perguntar “mudou?”.
– Em que sentido? – Joguei ao vento. Ah, é. Eu falava sozinha, às vezes. Há dias não ouvia nem mesmo minha própria voz, precisava cortar aquele silêncio antes que ele o fizesse comigo, levando pedaços de mim como o sol desse deserto escaldante clamava cada gota de água do meu corpo, matando aos poucos.
Tomei um gole do meu cantil, só um gole, não sabia quanto mais ainda havia para percorrer e não queria matar meu camelo tão cedo, seria minha última fonte de água e alimento, além do mais eu o lutei muito por ele. Este gole de água também me serviria de refeição, por hora.
Neste deserto era difícil arranjar alguma comida e quando a encontrava ela não era grande coisa, literalmente, na maioria das vezes. Além de ter um péssimo gosto, sem falar da aparência, todos os animais tinham coisas fora do lugar, às vezes faltando, às vezes sobrando ou os dois. Escorpiões com caudas a mais, por vezes no lugar das patas assim como as garras, às vezes, mas em raras ocasiões os via sem o ferrão, também tinham cabeças mutantes e patas que cresciam umas sobre as outras. Já as cobras, embora também fossem estranhas, tinham menos anomalias, compostas por presas que se projetavam para fora da boca, algumas possuíam ferrões médios que secretavam um veneno ácido, existiam ainda aquelas providas de algo parecido com presas debaixo de seus corpos, revestidas por pele, que elas podiam usar para se lançar a presa, porém isso tudo estava longe de me matar de fome.
Ah, e meu camelo tinha duas cabeças.
A primeira lembrança que tenho da infância é da lua. Cheia! Brilhando tão intensamente como a virgem mais cobiçada de uma tribo, embora já não o fosse, majestosa, uma donzela a ser cortejada, eternamente envolta em seus mistérios. Podia vê-la através de um buraco no topo da montanha em que vivíamos. Houve caça naquela noite.
Não sei qual era a minha idade como ainda não sei. Conheço tanto sobre mim quanto você. É...
O que posso dizer sobre mim é que fui criada com pessoas bem diferentes de mim, sutis para mim, mas não para quem vinha de fora. Física e racionalmente eu me destacava pena que notei isso um pouco tarde. Essas disparidades perturbaram meus pensamentos até que eu acreditasse estar ali por acaso, que aquele não era o meu lugar, então não pude evitar o desejo de saber como havia chegado àquela caverna escura. Teria sido raptada? Por qual motivo? Seria a última sobrevivente de outra tribo? Ou teriam apenas me encontrado? Por que ficariam comigo sendo eu tão distinta deles?
Cresci com todas essas dúvidas na cabeça, logo algumas delas encontraram as próprias respostas. Eles me ensinavam tudo o que sabiam sobre caça, plantas, como me localizar, domar animais e outras necessidades básicas para a sobrevivência no novo mundo, pelo menos, à noite.
.
.
Por muitos anos o povo que me criara vivera na escuridão daquelas cavernas, o que os deram características específicas bem acentuadas como a pele tão pálida quanto à da lua, lábios arroxeados, dentes disformes e tortos, pouco cabelo, olhos meio esbugalhados muito claros, mas com uma incrível visão noturna, os ossos frágeis dificultavam a caça assim como os músculos magros o equilíbrio e, como se tudo isso já não bastasse, eles também apresentavam as anomalias das minhas refeições, não todos, porém eu pudera compreender claramente porque eles não foram muito numerosos, embora não houvesse mais nada a se fazer naquela caverna além de sexo seus olhos extremamente adaptados às trevas os cegavam para o dever. Curioso, o que deveria salva-los fora justamente o que os matou.
Quando eu ganhara altura suficiente e alcançara a cintura de um dos homens da minha tribo, o líder decidira que era à hora para que eu começasse a retribuir pela hospitalidade deles. Deram-me armas, ensinaram a construir armadilhas, tingiram-me a face com sangue de nossas caças para evidenciar o espírito selvagem e impiedoso que nascera comigo. Forçaram-me a caçar enquanto o sol banhava a Terra, pois eles não puderam fazê-lo. Conforme os anos se passaram, meu corpo ganhava forma, pernas fortes construídas durante as caçadas e corridas matinais, sempre houvera uma ligação entre mim e aquela luz dourada que pude sentir, ela fizera-me vibrar todas as vezes que tocara minha pele. Minha cintura estivera mais definida, mas meus cabelos eram secos, opacos, tiveram certo odor, algo que não incomodara aos homens da minha tribo, assim como o mau hálito que todos tivemos, incluindo a mim. Não, eles pareceram mais interessados em outras características do meu corpo, tais como meus lábios vermelhos, dentes alinhados e tão saudáveis quanto fora possível mantê-los, meu cheiro, que estivera longe de ser agradável, entretanto comparada às outras...
Naquela noite fatídica em que me amarraram enquanto dormia. Não soubera nunca há quanto tempo planejaram fazer aquilo, imaginei que algum, já que trouxeram todos os materiais necessários. Mais do que necessários, na verdade. Naquele tempo, não acreditara ser capaz de fazer algo contra todos eles. Pudera ter tido ossos e músculos mais fortes, no entanto ainda era uma criança, surpreendida com as mãos atadas atrás da nuca com os braços flexionados e imóveis, sentada no chão rochoso úmido e frio.
O primeiro se aproximara. E pude sentir algo subindo pela espinha, transformando cada músculo do meu corpo numa pedra gelada, meu queixo batera e eu nem sabia o porquê, não soubera de onde vinha aquilo, mas não demorara a descobrir. Ele dera-me uma amostra do fedor de seu hálito pútrido ao lamber meu rosto e em meio às trevas pudera ver ser olhos medonhos e sinistros procurando o azul intenso dos meus. Sua língua anômala provara meus lábios, enojara-me, amortecera toda a face. Rejeitando-o completamente eu virara o rosto e gemera com soluços enquanto lágrimas lavaram-me parte da sujeira. Eu percebera quem era meu agressor. O líder. Aquela monstruosidade que ele chamara de rosto roçando no meu no ápice de seu desejo, gemendo com uma voz gutural e estranha ao passo em que me mordera com seus dentes defeituosos. Então, eu abraçara meu destino, a fim de que pudesse fazer o que estivesse ao meu alcance para sair dali. Calara as emoções e tentara sentir outras partes do meu corpo e encontrar uma fuga enquanto ele separara minhas pernas, puxara meu quadril e depositara seu peso sobre mim.
Eu mexera os braços, os poucos milímetros que conseguira, depois contorcera as mãos e os dedos, contudo as amarras pareceram apertar-se um pouco mais. Persistindo na tentativa, testara diferentes movimentos até que começassem a surtir algum efeito positivo.
Outro membro da tribo se chegara para deleitar-se. E assim fora, por um longo período de nove homens, ao menos, que pude contar.
Quando se saciaram, arrastaram-me a um nível inferior e prenderam-me a uma estalagmite, provavelmente para a noite seguinte. Sozinha naquela câmara mortuária continuara a procura da minha liberdade, olhara a volta, mas meus olhos não eram tão bons naquela escuridão, mesmo com o pouco de sensibilidade que também desenvolvera.
Só me restara ter esperanças de que nenhuma abominação como aquelas saíssem de dentro de mim algum dia. Ali entregara toda a minha inocência, autopiedade e a piedade que eu mantivera em segredo deles, para que não a tirassem de mim também.
Horas se passaram, uma brisa cortante torturara-me durante cada minuto delas, partindo meus lábios, causara-me tremores que machucavam minha pele na rocha áspera, as extremidades começaram a congelar aos poucos, o sono caminhara até junto de mim com o manto da morte, porém antes que me pudesse abraçar, ouvi passos. Tivera incerteza do que passara pela minha mente ali, não soubera se amaldiçoara minha sorte ou se agradecera por ao menos ter uma fonte de calor.
Como se aquele som ditasse as últimas batidas do meu coração, ele se aproximara. Ocorrera-me naquele momento que talvez não vivesse para sentir o sol no outro dia. Fora só coisa da minha imaginação, aqueles passos chegaram mais e mais perto bem como minhas esperanças partiram no mesmo compasso. Já sentia o odor do meu novo agressor, alguém que passara vontade, talvez. Fora tocada luxuosa e sadicamente pelo ar gélido deslocado por ele quando se abaixara e novamente quando puxara um objeto que dividira o vento da forma como faria comigo, lentamente.
Quando me despedira desta vida, senti as amarras se rompendo.
Estava livre...
Fale com o autor