That's Dorcas Meadowes
4 This is a war thing.
Notas iniciais
Era manhã de natal e o salão comunal estava todo enfeitado, assim como toda a escola. Mas a menina de cachos sentada na poltrona não parecia combinar com a decoração, seus olhos vermelhos e o rosto molhado pelas lágrimas não batiam com a animação da noite e do falatório que tomava conta dos corredores. Embora em datas comemorativas a maior parte dos alunos fossem para casa, naquele ano as famílias preferiram que seus filhos ficassem na segurança da escola, o mundo fora dos muros de Hogwarts não era seguro, os atentados aconteciam com mais frequência e preocupavam as autoridades.
Dorcas sabia bem disso, a menina ainda encarava o Profeta Diário no chão, com a notícia da morte de um Auror que liderava uma expedição em sigilo no Sul do país, ninguém do grupo que estava com ele havia sobrevivido. Sua mãe havia se juntado a ele no mês retrasado, ela havia contado para a filha em uma carta, com signos nas entrelinhas para evitar uma possível espionagem e não colocar toda a missão em risco, é claro.
Dorcas e Helena tinham como passatempo deixar bilhetes uma para outra em combinações e mensagens em códigos, nos feriados elas juntavam todos e contavam como haviam descoberto e taxavam as cartas em níveis de dificuldade enquanto tomavam chocolate quente. Era uma pena que isso não aconteceria mais, já que ela estava morta.
Ela estava morta, havia sido tirada da garota assim como seu pai fora anos antes por uma doença que atrofiava seus músculos até tomar o coração. Ela encontrou apoio nos amigos da casa na época, e dessa vez ela sabia que não seria diferente. Ela, Lily e Marlene que já eram grudadas desde o terceiro ano só se aproximaram mais nos últimos tempos, a guerra tinha disso, todos estavam mais unidos do que nunca. Era importante manter os amigos por perto porque eles simplesmente não sabiam quando podia ser a última vez que se veriam. Nesse pensamento que as meninas se tornaram mais flexíveis a entrada dos marotos no ciclo de amizade delas, Dorcas sempre fora muito apegada a eles e mesmo com as desavenças Lily e Marlene deram uma chance aos meninos e assim viram como eles eram excelentes amigos.
O quadro foi aberto mas a menina sequer se deu o trabalho de levantar os olhos para ver quem entrava. De qualquer forma, segundos depois ela soube quem era, o cheiro tão familiar de chocolate e hortelã chegou a seu nariz assim que a voz lenta de Remus chegou a seus ouvidos:
— Ah, Dorcas....
O rapaz havia lido o jornal durante o café na mesa com os amigos e todos ficaram chocados, na mesma hora decidiram que ele devia ir até lá ver a menina, mesmo que não estivessem se falando muito a algum tempo eles eram melhores amigos e ela definitivamente precisaria de um abraço.
— Não vou mais vê-la, Remus, nunca mais -sua voz se fez presente no cômodo, fazendo o loiro se sentar na poltrona e puxar a cacheada para si em um abraço apertado.
— Mas ela vai continuar te vendo e assistindo, Doe. Ela nunca vai realmente te deixar.
Ele entendia essa dor, havia perdido a mãe no ano passado e não tinha superado ainda, e não acreditava que um dia o faria, mas ele teve ajuda da morena quando aconteceu e se sentiu na obrigação de retribuir o favor. Pelo menos era o que acreditava, antes de perceber que esse não era o único motivo, que talvez ele estivesse com a menina em qualquer circunstância porque a afeição e carinho que sentia ia muito além de amizade. Ele havia notado isso a umas semanas e foi por isso que ele se afastou, era perigoso demais.
— Dói tanto...- em meio a soluços, ela apertava o suéter do amigo se aconchegando no abraço que a fazia se sentir em casa.
— Eu sei. Eu tô aqui para te ajudar nessa, você sabe não é? Todos nós estamos, as meninas estão lá no salão principal te esperando com abraços. Você não está sozinha.
Por falta de uma resposta ele apenas beijou os cachos dela e a abraçou mais, permanecendo assim por longos minutos até ela parar de chorar e sua respiração se acalmar.
—Eu sinto muito ter sido tão ausente, eu só...estive em dias ruins, me desculpe.
— Não tem que se desculpar por nada, eu... entendo. Me desculpe também, não queria que você entendesse de uma forma errada o que aconteceu. — Dorcas diz tudo no tom ainda baixo, sentindo a vontade de chorar voltando e dessa vez não só por causa da mãe.
A jovem nutria uma paixão platônica pelo melhor amigo desde sempre mas temendo estragar o que tinham deixou de lado o que sentia, até o último mês, quando decidiu seguir os conselhos da Alice e convidar o garoto para sair. Foi uma situação terrível, em sua opinião.
Flashback on
Dorcas e Remus estavam no comunal faltando sobre o incidente de Lily, Snape e James que havia se intrometido na briga dos dois para defender a ruiva.
— A Lily devia ter sido menos severa com James, Severus a ofendeu e mereceu as azarações.
— Ela não ficou brava por isso, só é orgulhosa demais para aceitar a ajuda dele. Mas está amolecendo, sabe? Ela gosta dele, só não deu o braço a torcer ainda.
— Eu espero que se acertem em breve. James gosta muito dela, é até assustador ver toda a mudança dele por ela -o garoto ri, ajeitando a almofada e deitando a cabeça no braço do sofá.
Dorcas observa da poltrona como seus cabelos cor de areia se espalham pelo estofado e suas pálpebras cansadas se fecham. Em um suspiro ela escorrega até o tapete, se sentando perto do pé do sofá levando as mãos aos cabelos dele, sem resistir.
— Doe, desse jeito eu vou dormir aqui mesmo -ele diz num tom de riso, apreciando o carinho.
— Hum, Remus, eu estive... estive pensando, se por acaso, ahn, se por acaso você....- ela tenta formular frase coerentes, antes que perdesse a coragem- o que eu queria, quero dizer, é...sobre o fim de semana, se...se você...
O rapaz sente o rosto esquentar ao entender onde a amiga queria chegar. Ele a adorava e já tinha notado os sentimentos dela a um tempo, mas achou prepotência demais. Além do mais, ele não era o tipo de cara para Dorcas, ela era a melhor pessoa que ele conhecia, não merecia alguém como ele, com os problemas dele. Ele interrompe os pensamentos e abre os olhos para olhar a menina quando não sente mais sua mão nos cabelos dele e ouve umas fungadas.
— Ei, o que foi? -ele desce até o tapete também, com o cenho franzido.
— Não é nada, só deixa pra lá. -ela ri de si mesma, desviando o olhar para o teto, encostando a cabeça no acento do sofá para não deixar as lágrimas escaparem.
— Dorcas, Peter me disse que você estava chorando ontem -ele molha os lábios e começa a falar, sem saber muito bem como iniciar a conversa.
—Ah, não é grande coisa, eu estou sempre chorando, não é? Deve ter sido porque a coruja da Marlene machucou a assa.
— Ou por que eu saí com a Hestia?
A voz cautelosa dele a faz torcer os dedos impaciente, porque ele sabia. Sabia de tudo e ela não tinha mais como esconder isso.
— Dorcas, olhe pra mim. -toma as mãos dela com as suas, fazendo- a se virar para encara-lo- Eu sinto muito isso, se eu pudesse....
— Eu sei -ela se prontifica a negar com a cabeça, segurando as lágrimas. É claro que ela sabia que se ele pudesse retribuir o que ela sentia ele o faria, ele era um doce. -É só que....eu nunca me dei muito bem com os garotos num geral. Eu só olhei pro lado e você estava lá, entende? Sempre esteve. Eu só confundi as coisas, sabe? Eu sei que isso é besteira, eu quero dizer, nós-nós somos melhores amigos e é isso. Não precisa dizer nada, você não vai perder sua amiga e nem eu uma das melhores pessoas que eu já tive em minha vida por causa de uma confusão minha -a cada palavra, o peito da menina se apertava, doía falar tudo aquilo mas ela já tinha perdido gente demais para se dar o luxo de perde-lo.
— Eu sinto muito por ter sido um idiota esse anos e não ter visto isso -Remus não contem um suspiro culpado-
— Não, eu só precisava pôr a cabeça no lugar -assente rapidamente, soltando as mãos e ficando de pé pronta para subir. Ela não aguentaria ficar ali por mais tempo sem chorar. — Está tudo bem, Remus, nós estamos bem.
Ele nem teve tempo de dizer mais nada, Dorcas apenas saiu apressadamente da sala em direção aos dormitórios.
Flashback off
— Sobre isso...se tem alguém que deve se desculpar sou eu, Dorcas.
— Por favor, não fala disso. Não quero te perder também -o peito do garoto se aperta quando a ouve murmurrar tão baixo, que se não tivesse perto não ouviria.
— Não vou a lugar nenhum, eu prometo -apoia a bochecha no topo da cabeça dela, fazendo carinho em suas costas.
Ele não poderia negar atenção a melhor amiga, ainda mais em um momento tão difícil. Mas ele quase considerou ser egoísta e não ir assistir-la, quase decidiu protege-la de se aproximar mais e se envolver mais. Mas ele não podia evitar. Remus Lupin passou a saber a partir daquele momento que estava perdido, não importava o que fizesse, ele não conseguiria mais ficar sem Dorcas Meadowes. Não podia mais ficar sem seus cachos bagunçados e sua cara de sono toda vez que ela pegava no sono no comunal. Não podia mais ficar sem ve-la ler no jardim nas tardes de outono. Não podia mais ficar sem ajuda-la em poções. Não podia mais ficar sem amarrar seus cadarços para evitar tombos que aconteceriam de qualquer forma porque ela era a pessoa mais desastrada que ele já conhecerá. Ele não podia mais se privar de te-la consigo, porque ele estava apaixonado.
Meses mais tarde ela quem se afastou dele. Não propositalmente, é claro. Ela foi afastada dele, brutal e cruelmente.
Outra coisa sobre a guerra é isso, do mesmo jeito que ela tinha aproximado seus amigos, aos poucos ela estava tirando-os dele. Um a um tivera sua vida retirada por um megalomaníaco racista e seus seguidores. Um a um até Remus estar sozinho.
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