That promise doesn't need to die...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Girard’s POV
Poxa, como eu sinto falta do Johnny aqui nessa escola. Como eu queria que ele voltasse para cá. Já fez seis anos desde que ele se mudou para a Inglaterra e eu perdi o contato com ele.
O Johnny foi o único amigo que eu tive até hoje. Depois que ele foi embora muitas coisas ruins aconteceram comigo. Logo que ele se foi acabei sofrendo bullying na escola até a oitava série.
Sofrer bullying por quatro anos não é fácil, mas eu consegui aguentar e hoje eles já não me incomodam. Por causa disso, não acredito que ter amigos novamente seja uma boa ideia. Até porque, aqueles que fizeram isso comigo se diziam meus amigos, até o Johnny ir embora.
Sério, não preciso de pessoas que finjam serem minhas amigas e depois quase me matarem. Minha vida já é ruim o suficiente sem isso. O único que me entendia era o Johnny, mas aquele idiota se mudou para a Inglaterra e me deixa aqui sozinho.
Está certo, ele não teve muita escolha. Os pais dele praticamente o arrastaram para fora do país. Pelo que eu entendi, a avó do Johnny estava muito doente, mas ela morava em Londres e teve que ser internada no hospital de lá. O médico contatou a família, pois ele afirmou que alguém precisava ficar em casa e supervisionar a senhora.
Com isso, o pai do Johnny conseguiu transferência do emprego para Londres e levou a família para lá. Johnny tentou falar com os pais, mas eles não tinham nenhum outro parente morando aqui no Brasil com quem ele pudesse morar. E é por isso que eu disse que ele não teve escolha.
A minha vida tem sido muito difícil desde então. Uma semana depois que ele se mudou para Londres minha mãe adoeceu e teve que ser internada com urgência em um hospital. Descobriram que ela estava com um tumor no cérebro, porém ele já estava em um estágio muito avançado para que a operação pudesse ser bem-sucedida. Com isso, um mês depois ela faleceu.
O meu pai, desde então, começou a se esforçar mais no trabalho e até ganhou uma promoção, isso só para não passar tanto tempo em casa. Ele sempre sai no mesmo horário que eu saio para a aula e só volta perto da meia-noite, isso quando volta. Com essa promoção, muitas vezes ele tem que viajar para fora do país ou então do estado e eu acabo ficando sozinho em casa.
Não é muito fácil um menino, da quinta série, que acaba de perder a mãe e não sabe quando, e nem se, vai encontrar o melhor amigo de novo, seguir a vida do jeito que fazia antes. Isso piora quando você começa a sofrer bullying.
Nesses quatro anos não pude dizer nada a ninguém. Tive que sofrer calado. Eu não tinha alguém para me estender a mão quando eu precisei. Os que algum dia eu tive o destino arrumou uma maneira de tirar da minha vida. Foi aí que eu percebi: não precisava de alguém para me fornecer apoio. Afinal, só posso contar comigo mesmo. Eu sou a única pessoa que não vai sair da minha vida por nenhum motivo.
Depois disso passei um ano fora da escola e voltei outra pessoa. Os poucos que ainda me reconheciam não queriam mais me intimidar. Digamos que me tornei uma pessoa que as outras não querem chegar perto. Frio e calculista, que não se importa com os outros e só quer uma coisa da escola: o conhecimento. Nada mais naquela sala de aula importa.
E é por isso que eu não suporto aquele menino recém-transferido. Ele pode até ter o mesmo nome do Johnny, o que pode explicar um pouco do ódio, mas ele não tem a mesma personalidade que o meu melhor amigo tinha.
Esse Johnattan é aquele tipo de pessoa medíocre que adora atenção e vive cercado por gente. Quando não são inúmeras garotas, inclusive de outras turmas, são os seus colegas do time de futebol.
Cara, como essas aulas são problemáticas. Por que eles não conseguem, simplesmente, sentar no lugar correto e prestar o mísero de atenção que seja nela? Afinal, amanhã ou depois, todos aqueles que você pensou que eram seus amigos, aqueles que te seguem ou que te paparicam vão embora ou se viram contra você. Foi isso que a vida me ensinou.
Johnattan’s POV
Quando eu era pequeno eu vivia aqui. Minha vida junto ao meu melhor amigo era perfeita. Até que minha avó adoeceu e eu tive que me mudar para Londres. Os primeiros três meses foram horríveis.
Eu não conhecia ninguém lá, meu inglês ainda não era fluente e eu ainda tinha que ficar indo ao hospital para ver como minha avó estava. Nos primeiros três meses, mesmo estes tendo sido os piores para mim, minha avó teve uma melhora surpreendente. Porém, como eu digo: “Tudo que é bom dura pouco”. Devido a complicações, ela morreu no final daquele ano.
Meu pai ficou arrasado nas primeiras semanas após a morte de minha avó. Até que ele aceitou o fato e seguiu em frente. E tudo isso graças à ajuda da minha mãe. Nesse meio tempo eu fiquei famoso na escola. Tudo aconteceu muito rápido.
Uma coisa que vim a aprender, porém, é que as meninas adoram quando chega um menino transferido de outro país, ainda mais quando este é bom nos esportes. Depois que eu entrei naquela escola, eu era classificado como o “menino mais bonito da escola”. Isto sim eu achava um passatempo sem fundamentações para se existir em uma escola.
Às vezes eu não queria isso tudo, sabe? Tudo o que eu queria era poder voltar para casa e ficar junto do meu melhor amigo. E essa foi uma das minhas motivações para convencer o meu pai a voltar para o Brasil.
A outra foi cumprir a promessa que a gente fez no dia em que eu me mudei para Londres. Eu espero que ele ainda se lembre dela. Eu preciso encontrar o Gi de novo. Ver como ele está. Se bem que eu duvido que eu vá reconhecer ele. Eu vejo como eu mudei pelas minhas fotos, imagina ele.
— John? John? — Será que tem alguém me chamando? — Johnattan! — Opa, eu acho que tem sim. Tenho o péssimo hábito de ficar viajando enquanto falam comigo.
— Sim, sim. Desculpa — Olhei para ver quem falava comigo e era ninguém mais, ninguém menos que o capitão do meu time de futebol. Pela expressão dele ele já tá falando comigo há horas.
— Cara, você pode prestar, nem que seja um pouquinho, de atenção quando eu falo? — Ele falou visivelmente magoado comigo.
— Me desculpa, vai? — falei com o tom de voz mais sedutor possível, fazendo um sorriso de lado e olhando nos olhos dele com a cabeça um pouco baixa — Ahn?! — E dei um beijo na mão dele — Por favor? — terminei com os lábios ainda roçando a pele daquela mão.
— T-Tá, está bem... — Ele está mesmo gaguejando? Que fofinho. E ainda por cima ele corou.
É, até que o Anthony não é de se jogar fora. Mas eu ainda tenho o meu amor platônico. Trago-o comigo desde que era criança. Pois é, eu sou homossexual. Descobri quando ainda era criança, mas nunca falei para ninguém. Não queria que o meu amor me abandonasse por eu não ser correspondido. Então eu finjo ser um cara normal. Só com esse lado meio sádico, que fica provocando esse tipo de reação nas pessoas. Esse é um lado bom de ser considerado bishounen.
— Certo. Sobre o que falavas? — Se eu não fizer isso não sei por quanto tempo mais ele vai ficar me olhando com aquela cara totalmente corada. Se isso continuasse muito mais não sei o que eu ia fazer. Não tenho certeza que me controlaria muito mais...
— Ah, é! — Ele desviou o olhar e se recompôs um pouco. Ainda bem. — Como eu sei que não estavas prestando atenção na aula, serão dois avisos. — Me olhou sério. Olha! O capitão do time está de volta! — Teremos um jogo amanhã contra a turma dois, pelo campeonato da escola. Esteja preparado. — Cara, que sombrio foi isso agora. Nem parece o cara que há minutos atrás estava todo corado. — E, segundo: tens que fazer o trabalho que a professora passou com o Girard. Desculpa, mas o tópico eu não sei — Ahn?! Girard? Será que é ele...?
— Er... Quem é esse? — Minha sorte é que o Anthony estudava comigo, por isso vim parar nessa escola, já que nossos pais não perderam contato por causa do trabalho. E por isso ele conhece o Gi.
— Ahn? Pensei que você fosse se lembrar dele. Era aquele loirinho que sempre andava junto com você. — Ele falou e eu apenas assenti. — Bem, agora, como você pode ver, ele virou um antissocial que só se interessa em estudar. Boa sorte em fazer o trabalho com ele — Anthony me falou enquanto me apontava ele.
Sabe aquele momento em que seu coração pula uma batida e parece que não conhece mais o ritmo certo? Pois é. Foi mais ou menos isso o que aconteceu quando eu vi o Gi de novo. Parece que eu ainda sou apaixonado por ele. É, é isso mesmo. Aquele meu amor platônico, que eu venho nutrindo desde criança, é o Gi.
Mas, sério, agora sim que eu não sei mais o que fazer. O Gi está parecendo uma menina! E ficou tão fofo! Ele continua com o cabelo loiro natural dele. Só que agora está comprido, já está um pouco acima do ombro. E ele usa com uma franja para o lado. O contorno do olho dele parece mais delimitado, mais profundo, ressaltando ainda mais aqueles olhos. Desde a primeira vez em que eu olhei aqueles olhos eu me perdi neles. Eu sei que pode parecer só coisinha de apaixonado, mas é muito lindo. Ele tem um olho azul e o outro castanho-escuro. Ainda bem que ele não resolveu usar lentes de contato para deixar os dois com a mesma coloração, como muitas pessoas fazem.
E ele ainda está sentado do lado da janela, pegando toda a iluminação que vem dela, com um moletom bem folgado, com o capuz na cabeça e rabiscando alguma coisa muito concentrado. Como eu sei que ele tá concentrado? Muito fácil. Ele morde o lábio inferior quando se concentra. Ele tinha que parar de fazer isso, ele não faz ideia do estado que me deixa só de fazer isso.
— Valeu, capitão! Pode deixar, eu darei 100% de minhas habilidades para o jogo de amanhã — falei para ele já me dirigindo à mesa do Gi.
Sério, ele fica mais bonito ainda quando a gente olha de perto. Como é possível?
— E aí, Girard. Como vamos fazer esse trabalho? — falei sorrindo abertamente para ele, mas...
— Agora, não. Estamos em aula, vá para o seu lugar. Depois que a aula terminar poderemos conversar sobre isso. Mas agora não é hora — Eu não sabia que o Gi tinha se tornado tão frio assim. E como aquela cara angelical se tornou essa incrivelmente demoníaca?! Ele realmente deve me odiar... Mas eu não desisto antes de saber o porquê disso.
Girard’s POV
O jeito que aquele cara sorri me lembrou, um pouco, do Johnny, mas, não pode ser ele, pode? O Johnny não tem motivos para voltar aqui para o Brasil, fora que o pai dele tem trabalho garantido lá.
Ah! É melhor eu parar de pensar nisso e prestar atenção na aula. Tenho que aproveitar que aquele cara já voltou para o lugar dele. O ruim é que não vou me livrar dele por muito tempo. A aula já está quase acabando.
A professora está dando quase todo o trabalho pra gente. Esse resumo dela já diz tudo que precisaríamos pesquisar para um trabalho que tiraria a média para passar. Com estas anotações eu poderia fazer um trabalho magnífico em dois dias, já com o tempo de ensaiar a apresentação. Nem precisa das duas semanas que ela deu de prazo para entregar o trabalho.
Já temos bastante material para início, eu queria me livrar dele rápido, mas já que a professora quer um trabalho de duas semanas, faremos um trabalho de duas semanas. Só não entendi o porquê de o nosso tópico ser tão abrangente. “Histórias, contos e lendas da Arábia”. Só pode ser brincadeira. Eu me lembro direto de três subtópicos: “As 1001 noites”, “Ali Babá e os quarenta ladrões” e “Aladim”...
— Espero que esse trabalho fique mesmo bom — murmurei assim que o sinal tocou, já começando a arrumar minhas coisas.
Não é que aquele cara já está aqui?! Como ele organiza as coisas tão rapidamente? Só pode ser que ele não copie nada em aula. E por que ele correu para cá tão rápido?!
— Yo, Girard! — O que há com esse cumprimento? Nós nem somos amigos! Se pelo menos ele fosse como o meu melhor amigo... Não é hora de pensar nisso! — Acho que não fomos apresentados apropriadamente ainda. Bem, meu nome é Johnattan. Muito prazer!
— Como você já parece saber, meu nome é Girard — Estendi minha mão para cumprimentá-lo.
— Espero que possamos ser amigos. — Ele aceitou o cumprimento, mas resmungou algo que não consegui ouvir. — Eu morava aqui, mas tive que me transferir para Londres. — Cara, isso também é igual? Não pode ser o Johnny. Ele não tinha porque voltar. Será que pode ser ele? — Passei seis anos lá e, enfim, pude voltar. Gi... — Ele me olhou com aqueles olhos cheios de carinho que ansiei tanto reencontrar. — Eu senti tanto a sua falta! — Senti meus olhos se encherem de lágrimas. — Você também sentiu a minha falta, né Gi? — Dito isso ele me abraçou.
Isso certamente me pegou desprevenido. Como eu senti falta do abraço dele... Agarrei-me na camiseta que ele usava e deixei as lágrimas que eu retive por esses seis anos finalmente virem à tona. E as deixei irem embora junto com o meu orgulho.
Resultado: lá estava eu, chorando de soluçar, agarrado à blusa dele, parecendo uma menina e sendo consolado pelo meu melhor amigo.
Ele finalmente tinha voltado. Ele voltara para mim. Mesmo não sabendo o porquê de ele ter voltado, não posso dizer que fiquei triste com isso. Muito pelo contrário: só agora percebi o quanto ele me fez falta. Todos esses anos eu não queria ficar mais forte e me livrar de todos os meus amigos. Eu só queria ignorar o fato de que eu já havia tido um e ele não estava mais aqui. Ele é realmente meu melhor amigo, mesmo depois desses anos.
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