That Isn't A Dream

4 -Apenas tenha juízo


"Seus lábios são inegáveis,esse beijo é algo que eu não posso arriscar"- This Kiss, Carly Rae Jepsen

Eu corri até o meu corpo estar completamente fatigado. Não era apenas um exercício para meu corpo, mas estava fortalecendo meus pensamentos. Parei perto da cafeteria do campus da escola, onde haviam algumas mesas. Então era isso: eu simplesmente era o culpado de tudo. Eu quero saber o que aconteceu, o por que da briga, mas nada saía de minha boca. Não conseguia falar. Eu estava me sentindo o pior colega de quarto no mundo.

Senti a sensação de tontura novamente, mas agora não era apenas pela ressaca: uma parte de meu cérebro estava pensando demais. Meus olhos, mesmo que meio embaçados, conseguiam ver nitidamente o que eu era. Um perdedor.

Eu não conseguia a imaginar apaixonada por mim, entende? E é claro que ela não estava. Ela com certeza estava a fim de Talis, mesmo com ele morto...

Morto! Eu não podia acreditar que ele estava morto. E então me ocorreu uma coisa. Todos nós sabíamos que ele era o cara com a melhor saúde. Claro, nos treinos de futebol, ouvi ele reclamar algumas vezes de dor de cabeça... Mas, de resto, ele estava em perfeito estado. Como ele poderia ter simplesmente desmaiado? Eu queria poder ter visto o que aconteceu. Bom, devem estar apurando o por que do desmaio. Seja o que for, ele tinha o melhor coração de todo o time. Ele está em um lugar melhor.

Vi Laura correndo até a cafeteria com João. Mesmo correndo, os dois continuavam abraçados, chorando. Eu, antes de conhecer Laura bem, tinha certeza que namoravam. Mas na verdade, são só melhores amigos. Muito amigos. Mas mesmo assim, ainda os achava um casal lindo.

Olhei para o lado e vi a moça da cafeteria me olhando, como quem pergunta se eu não vou comprar nada.

Quando olho para o lado, Laura está sentada na mesma mesa que eu, com três cafés á sua frente. Um sem leite e dois com. Empurrou um com leite com cuidado para mim, e eu peguei, tentando sorrir.

—O que aconteceu? Por que vieram pra cá?

—Nicolas nos contou o que disse pra você- João falou, bebericando seu café, também com leite.- A gente sabia que ele ia falar sobre isso. Bom...

—O Talis estava com um tumor maligno no cérebro, que atacou repentinamente. A culpa do acidente não foi a briga. Foi o que os médicos legistas me disseram, assim que saiu o por que do desmaio.

E aí meu pensamento voltou: Ele reclamava de dores de cabeças nos treinos. Ninguém, nem ele mesmo prestou atenção nisso.

—Você tirou um peso dos meus ombros, Laurinha.

Ela fechou a cara por um segundo, de brincadeira. Eu sabia que ela odiava que eu a chamasse assim. Depois, riu um pouco, mesmo com lágrimas nos olhos. João passou a mão pelas costas dela e deu um beijo em sua bochecha.

—Eu preciso ir estudar.

—Não sei como você vai fazer isso, com isso tudo acontecendo- Laura disse, com as mãos segurando forte na saia.

—Eu me viro, Abelhinha.

—Eu sei que sim.- Ela respondeu, sorrindo.

As vezes eu percebia um clima pairando quando eles conversavam. Eu sei que eles também, mas preferiam fingir que não. O que provavelmente nunca aconteceu entre mim e ela.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Foi tempo o suficiente para eu ver o quão linda ela era: cabelos pretos, na altura dos ombros e com uma franjinha que já havia crescido um pouco. Seu olhos grandes e castanhos, num tom indecifrável. Suas bochechas eram rosadas, sem precisar de nenhum pouco de maquiagem. Tinha um nariz pequeninho, pouco empinado. Sua boca era linda, nem muita carnuda nem muito fina, mas bem desenhada. Perfeita para beijar...

Quer dizer, o que eu tô pensando?

—Eu preciso ir estudar. Acho que vou pro quarto do João.

—Apenas tenha juízo-Disse, rindo.

—Ele é só meu melhor amigo, Yu!- Ela disse, batendo na minha testa.

—Você sabe que eu odeio que me chame assim, Laurinha- Levantei, enquanto passava a mão por detrás da cintura dela.

—Também odeio que me chame de Laurinha!

—Eu sei, Laurinha!- Dei um beijo na bochecha dela, com carinho. Eu nunca havia feito isso, mas parecia um momento perfeito.

E nesse momento, ela virou o rosto um pouco. Nossos lábios se tocaram rapidamente e ela saiu dos meus braços. Ela riu um pouco e se soltou dos meus braços, indo direto para os dormitórios sem dizer uma palavra. Não fui atrás. Sabia onde ela estava indo.

Nossos lábios haviam se tocado duas vezes naquele dia. Estava tudo errado nesse dia, mas ao mesmo tempo, era tudo o que eu esperava. Não a morte de Talis, claro. Mas beijar Laura foi algo que eu nunca imaginei que aconteceria. Mesmo dormindo no mesmo quarto que ela á muitos anos, nunca pensei nisso. Eu sabia que ela era garota mais sensual que eu conhecia. Mas pra mim ela estava a fim de Abner, e depois descobri que estava, na verdade a fim de Talis.

E, com certeza, não estava a fim de mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.