That Dark Sea
1 Broken
Notas iniciais

Separei minhas pálpebras para ver.
Ver.
O que tinha ali, sobre mim, sob mim, aos meus lados, no meu ser.
Aquele mar negro.
O empuxo começava a empurrar meu corpo para a superfície.
E então a ouvi. Fazia tempo que sua voz não cantava em meus ouvidos, penetrando em meu cérebro.
Aquilo doía, doía muito.
Meu ser desestabilizou-se e o ar acumulado por tanto tempo nos pulmões foi, aos poucos, esvaindo-se por entre os lábios e narinas. Ambos envolvidos.
Envolvidos por aquele mar negro.
Coiceei o espaço sob mim lançando um impulso ao meu corpo.
Os braços já começavam a remar a água para baixo, me levando para cima.
Mas quando eu iria chegar? Não conseguia notar diferenças.
Acima de meus olhos angustiados só existia aquela imensidão negra.
Mas ela ainda estava lá embaixo, gritando em meus ouvidos. Golpeando meu coração. Precisava continuar.
Em um último movimento encarniçado tateei a linha da água e emergi naquele mar de piche.
Não havia nada ao meu redor que se distinguisse.
Não havia horizonte. Não havia vida.
Só tinha aquele mar negro e toda a escuridão ao seu redor.
Mas ela estava chegando, podia sentir. Ela viria me pegar.
Apoiei as palmas sobre a superfície líquida e pus-me sobre os pés.
Comecei a correr, a fugir. Não podia ser alcançada.
E corri. Corri por muito tempo.
Mas corria pelo quê?
Eu chegaria em algum lugar?
Qualquer lugar?
O único som que ecoava no vazio eram meus passos molhados.
Passos molhados desesperados por algo. Qualquer coisa.
Fugia, corria. Não importava mais, só parei.
Ergui os olhos ao alto.
Duas asas rasgaram a pálida pele de minhas costas e esticaram-se, arrancando gemidos surdos de minha boca.
Arreganhei as mãos diante de meu rosto por alguns segundos, estudando-as.
Realmente eram brancas como papel. Sem vida. Sem-graça.
Como as de um defunto.
Levantei os membros cobertos de penas e joguei-os para baixo, arremessando meu corpo leve para cima. Não pesava nem um grama sequer.
Voei para a superfície. Se realmente havia uma superfície.
Voei tanto quanto correra.
Os olhos abriram-se como nunca haviam aberto. As pálpebras até mesmo descolaram-se um tanto mais em seus cantos.
Havia uma ondulação.
Finalmente.
Aumentei a velocidade de meu voo. Finalmente chegara até lá. Na superfície.
O sorriso verde-chá abriu-se em meu rosto gelado.
Faltavam apenas alguns centímetros e parei de avançar. Uma dor aguda espalhou-se na extensão de minhas asas.
Estavam rasgadas, penas pairavam ao meu redor.
Alguém tinha as rasgado.
E fora ela. Eu sabia.
Fechei-as ao redor do corpo e me rendi à força da gravidade, iniciando meu caminho de volta.
De volta àquele mar negro.
O vento chocava-se contra meu rosto branco, mas não o cortava.
As lágrimas já escapavam dos olhos molhados e jogavam-se para cima com auxílio do vento.
Com um mergulho barulhento rompi a tensão superficial.
Daquele mar negro.
Permiti que suas águas escuras envolvessem meus braços, minhas pernas, minha mente.
Minha alma.
As asas já se recolhiam de volta às suas crateras negras contornadas por pedaços de pele morta.
Aquelas crateras, tão escuras quanto minha alma.
Minha alma manchada.
As pálpebras voltavam a se unir.
E deixei-me submeter àquele mar.
Meu corpo descia lentamente para o fundo.
O fundo daquele mar.
Aquele mar negro.
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